sábado, 19 de dezembro de 2009

Os Muçulmanos como defensores da cultura Ocidental

Nos dias que correm somos constantemente “bombardeados” com notícias de actos violentos de terrorismos, na sua maioria actos de atentados extremistas religiosos, sendo muitos deles levados a cabo por facções mais radicais de movimentos islâmicos. Estas calamidades são, infelizmente, algo de vulgar, sobretudo em países islamizados onde não existam governos "fortes" ou democráticos. Comprovou-se também que alguns dos atentados terroristas que ocorreram no Ocidente tiveram origem em determinadas células terrorista, apoiadas por alguns crentes mais fanáticos e violentos que vivem nos países ditos ocidentalizados (Europa, América do Norte, entre outros). Mas, felizmente para nós e para o nosso modo de vida, que assenta nos valores do respeito das liberdades individuais, reflectindo-se também na religiosa, as comunidades muçulmanas que mais perto de nós vivem não têm esta propensão para o radicalismo violento. Isto terá certamente muitas razões para assim ser, mas por questões de complexidade, da minha própria incapacidade de as abordar de um modo simplista, e mesmo por alguma falta de conhecimento de tudo o que envolve estas intrincadas questões, me absterei de fazer mais considerações sobre elas. 
Apesar de pouco se falar nisso, as primeiros estados Muçulmanos eram caracterizados pela tolerância e defesa do saber, algo que alguns radicais hoje renegam. Temos de fazer justiça aos primeiros estados islâmicos, pois sem os papéis que desempenharam como guardiões dos saberes Greco-latinos, provavelmente nunca teríamos tido o nosso “Renascimento”. Foram os Muçulmanos, através dos seus filósofos, médicos, entre muitos outros intelectuais, que após a queda do Império Romano do Ocidente e do seu desmembramento pelos vários reinos bárbaros (Visigodos, Francos, Lombardos, etc.), que guardaram, traduziram e interpretaram muitos dos saberes dos antigos Gregos e Romanos. Numa Europa Medieval onde apenas o clero, mas nem todo, dominava a arte da escrita, eram os pensadores islâmicos que iam na vanguarda da ciência, conhecedores das obras de Aristóteles (filosofia) e Galeno (Medicina), só para citar alguns exemplos.Somente através do intercâmbio cultural entre Cristão e Muçulmanos, quer através do comércio (Génova, Veneza, Florença, Antuérpia) quer das campanhas de conquista (Reconquista Ibérica e Cruzadas 1089), é que no Ocidente se começou a redescobrir a sabedoria do passado, tal como aquela que os próprios Muçulmanos foram desenvolvendo. Não é por acaso que o Renascimento se deu em Itália, potenciado pelas inúmeras cidades-estado mercantis que enriqueceram monetariamente e culturalmente com as trocas com os estados Islâmicos. Há que deixar aqui uma referência ao intercâmbio cultural com o Império Bizantino, o verdadeiro herdeiro da cultura Greco-Latina, que desapareceu em 1453 com a queda de Constantinopla às mãos dos Otomanos. Com isso muitas foram as riquezas e saberes que se transferiram para Itália (recursos humanos, monetários e culturais), algo que tinha começado já anteriormente, aquando da conquista efémera de Constantinopla pelos cruzados em 1204.

Deixo aqui pelo menos a referência a um nome, o de um dos muitos sábios islâmicos a quem muito devemos. Falo de Averróis, um filósofo do séc. XII de origem Ibérica, , que se dedicou a muitas áreas do saber humano, mas destacando-se por uma série de comentários aos textos de Aristóteles, um contributo para a redescoberta deste autor Grego. 
Referências Bibliográficas: 
  • “Grande Enciclopédia da História”, da editora Civilização
  • “A queda de Roma e o fim da civilização” de Bryan Ward-Perkins, da editora Aletheia.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Quando Surgiram as primeiras questões sobre a necessidade de acção social actuais?

Hanibal e seus homens atravessando os Alpes - William Turner
Depois de várias leituras e investigações ocasionais que fui fazendo, responderia a esta questão - a do título deste texto - do seguinte modo: muito provavelmente durante os finais do séc. XVIII e por ai em diante, conhecidos que são os vários pensadores, ideologias e revoluções que surgiram e ocorreram a partir de então. Tudo isso despontado por um capitalismo selvagem que, inicialmente, com promessas de auto-regulação e criação de riqueza para todos, muito contribuiu para que no séc. XIX as sociedades ocidentais, nomeadamente as classes mais baixas, tenham atingido um estado de vivência quase sub-humano. Todos nós recordados, mesmo os que apenas estudaram História até ao 9º de escolaridade - como eu -, as condições de trabalho dos primeiros trabalhadores industriais e as de todas as restantes profissões ligadas às primeiras industrias. Há que recordar as 16 horas de trabalho diárias, os salários miseráveis que obrigavam pais a abandonar filhos em orfanatos, as fábricas repletas de crianças que executavam as trabalhos mais perigosos (por exemplo nas minas), os bairros de lata onde viviam pessoas amontoadas sem o mínimo de condições de saúde e higiene, e a ausência de assistência médica generalizada. Apesar de hoje, infelizmente, casos destes ainda ocorrerem, já não é a norma como foi no passado - mesmo que alguns tentem diminuir a importância do Estado Social. São desta altura as grandes epidemias associadas às péssimas condições sanitárias e de higiene, tais como a cólera e a tuberculose, entre outras.
De tudo isto resultaram reacções, muitas delas violentas (que aqui não abordarei) como seria de esperar. Vários pensadores de então analisaram os flagelos da sua época e criaram novas teorias para explicar o que se passava na sua sociedade. Alguns deles tentaram também  encontrar soluções para o presente e o futuro - o nascimento das utopias sociais (anarquismo, comunismo, etc.). Mas as primeiras destas ditas teorias e utopias sociais não eram somente políticas, apesar de a política ter andado sempre intrinsecamente ligada a elas, ou sendo delas um subproduto. Através da leitura da obra «A grande história da cidade», do urbanista francês Charles Delfante, na secção dedicada ao urbanismo do séc. XIX, fica evidente o papel dos primeiros urbanistas ou industriais com consciência social na execução das novas teorias sociais. Numa época em que a desregulamentação imperava, em que o Estado, regra geral, não intervinha, nem existia o conceito generalizado de "preocupações sociais", apesar da disseminação da miséria, da ignorância e da doença entre as classes mais baixas da sociedade, foram alguns Homens mais esclarecidos - alguns filantropos - que tentaram construir e disseminar a ideia da necessidade de criar novos espaços urbanos para os trabalhadores. De lhes proporcionar condições básicas de vida, de terem habitações condignas, de terem condições sanitárias e de higiene, de terem acesso a cuidados médicos e educação e até mesmo de lazer. Alguns desses esclarecidos pensadores, que eram também pessoas com capital, elaboraram os primeiros planos e disseminaram essas primeiras ideias (muitos deles ficaram arruinados com a aplicação destes primeiros planos, um deles foi Robert Owen), que mais tarde seriam algumas das bandeiras da "acção social". Alguns destes planos eram pura utopia, pois partiam do princípio que se poderia mudar, através do urbanismo, repentinamente toda uma sociedade segundo os ideais da partilha, do colectivismo e da fraternidade. A sociedade e o Estado teriam de evoluir para que as realizações palpáveis resultantes dessas primeiras preocupações sociais se pudessem implantar, o que foi acontecendo gradualmente ao longo dos anos, das lutas, das revoluções e à custa de cada conquista social que se ia acumulando.
Estes filantropos do séc. XIX, através da defesa dos seus modelos sociais e urbanos, contribuíram para a génese de algumas das bases ideológicas das políticas de esquerda (Comunismo, Socialismo, Social-Democracia, etc.).

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Os Mosqueteiros tinham mosquetes?

A rendição de Breda - Velasquez
Um mosquete é uma arma de fogo, uma das primeiras portáteis a terem sido usadas em larga escala nos campos de batalha europeus pela infantaria. Os primeiros mosquetes surgiram durante o séc. XVI, mas só começaram a ser preponderantes nas operações militares a partir do séc. XVII e XVIII, tendo sido depois gradualmente substituídos pela espingarda de pederneira (apesar de alguns autores continuarem a chamar a estas espingardas mosquetes). Devido ao seu peso, os primeiros mosquetes, eram disparados sobre varas com forquilhas, de modo a equilibrar e reduzir o esforço necessário para os manusear. O carregamento da arma fazia-se pela boca, despejando primeiro a pólvora pelo cano e depois introduzindo a esfera de metal, que seria o projéctil. O disparo acontecia premindo um gatilho que, mecanicamente, punha em contacto o rastilho (tinha de haver um rastilho sempre acesso) com a pólvora no interior do cano, provocando uma explosão que resultava na expulsão da esfera, dando origem ao tiro propriamente dito. Demora cerca de 3 minutos cada ciclo de disparo – algo muito moroso até para a época, o que obrigou a que fossem tomadas algumas medidas de minimização desta grande condicionante. Apesar disto era uma arma versátil, pois qualquer soldado com o mínimo de treino o poderia disparar.

Os primeiros mosqueteiros estavam armados também com espadas, mas eram  principalmente apoiados no campo de batalha por lanceiros, que os protegiam da cavalaria inimiga ou de outras unidades militares capazes da lutar corpo-a-corpo com armas brancas. Só posteriormente se optou por organizar os batalhões de mosqueteiros em linhas de disparo, que se revezavam durante os ciclos de disparo. O uso das baionetas é ainda posterior a isto, somente nos finais do séc. XVIII, quando as espingardas de pederneira são já de uso generalizado, é que a possibilidade de acrescentar estas lâminas à exterminada das armas de fogo permitiu dispensar o apoio dos lanceiros, pois as próprias espingardas podiam ser usadas como lanças.

Agora que, tendo recorrido aos meus
parcos conhecimentos na área, fiz esta introdução explicativa,  sobre o que é um mosquete e quais as suas implicações e funcionamento, gostaria de levantar a questão que me propus no título e apresentar algumas possíveis respostas.
Então, porque associamos um mosqueteiro a alguém que combate de espada? Não deveria ser então intitulado de espadachim ou “rapieristas”, pois usavam espadas do tipo “Rapier”?


Existem várias razões e explicações que podem servir satisfatoriamente para explicar este fenómeno. Algumas delas fui encontrando em bibliografia e documentários diversos, dos quais destaco o livro: “Uma história da Guerra” de John Keagen, onde também podem ser encontradas informações mais especificas e bem estruturadas das informação que usei como introdução desta questão.
Provavelmente a principal razão se deva à popularidade do romance “Os três Mosqueteiros” de Alexamdre Dumas, escrito em pleno séc. XIX. Obra esta repleta de ficção e influenciada pela corrente literária da época - o Romantismo. No entanto, apesar da ficção e tendências estilísticas literárias a acção é baseada em alguns acontecimentos históricos autênticos.
O Romance de Alexandre Dumas relata as aventuras de D´Artagnan e seus companheiros (Athos, Porthos e Aramis) membros da “Guarda dos Mosqueteiros do Rei”, neste caso do rei de França, Luís XIII. Nesse romance literário os heróis vivem aventuras repletas de duelos e combates de média e grande escala de espadas em riste, assumindo-se o mosquete como uma arma marginal. Provavelmente os verdadeiros mosqueteiros combatiam também de espada, dadas as limitações dos seus mosquetes, mas de qualquer dos modos a sua arma principal seria sempre a dita arma de fogo. Dumas deixou-nos este legado que ficou gravado na memória colectiva muito provavelmente por ter considerado o mosquete uma arma pouco nobre e digna de um verdadeiro herói (um pensamento comum na época em que viveram os mosqueteiros e posteriormente). Isto porque, lutar com uma espada era visto como algo sublime e digno, uma arte acessível apenas aos mais dotados e que possibilitava duelos e combates regidos pela conduta do cavalheirismo e nobreza de ser. Por outro lado, o mosquete era a arma do soldado comum e do povo. Pois, disparar um mosquete, era algo que até o menos sofisticado e mais tosco dos camponeses poderia fazer (pensamento da época), a custos mínimos, quer de tempo quer de dinheiro, o que assumia um potencial bélico notável. Até havia quem considerasse cobardia combater com armas de fogo, pois, com elas, era possível abater o mais ilustre dos cavaleiros com o mais miserável dos disparos.
O povo guiado pela liberdade - Delacroix
As primeiras armas de fogo tiveram também o impacto de democratizar a sociedade, pois a partir de então o povo pode pegar em armas e desafiar os exércitos  dos grandes senhores e monarcas (absolutistas), especialmente a cavalaria (combater a cavalo era apenas reservado à nobreza e seus partidários). Não foi por acaso que a revolução francesa se fez de mosquetes, espingardas e pistolas em punho. sendo esta apenas um exemplo das revoluções que puderam acontecer dai em diante. 

(repito aqui obra: "Povo Guiada pela Liberdade " do pintor francês Delacroix ,pois ilustra na perfeição este último paragrafo)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O que é um Googol?

O que é um Googol? Estava eu a responder a um questionário sobre cultura geral e deparei-me com esta questão. Admito que não fazia a mínima ideia do que se tratava, estava longe de imaginar que esta estranha palavra fosse um número, mais concretamente 1x10^100, ou seja, um 1 com 100 zeros. Um número inimaginávelmente grande.

Composição linear nº II - Mondrian
Aquando da minha pesquisa, na demanda do Googol, descobri também que este foi o nome a partir do qual surgiu a designação para um dos maiores motores de busca da Internet, o “Google”. Só depois desta pesquisa, descobri que afinal esta era uma informação bastante disseminada e fácil de obter pois constava em muitos lugares, até na versão portuguesa da Wikipédia - algo de fiar se não nos preocuparmos com o facto de que qualquer pessoa pode acrescentar conteúdos nessa plataforma. Sarcasmos à parte, segundo várias fontes, o nome da afamada empresa foi escolhido para simbolizar a dimensão quase infinita da Internet, e a capacidade para o seu motor de busca, rapidamente, a analisar e filtrar.

Até a ferramenta mais comum, neste caso uma informática, tem as suas curiosidades e é capaz de despertar surpresa. Pelo menos para mim, neste caso, foi assim.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Filme: "The Hangover" ou "A ressaca"

Finalmente está disponível em DVD e em Blu-ray o filme 'The Hangover', ou, segundo a tradução nacional, 'A Ressaca'. De notar a qualidade e fidedignidade da tradução, algo que por vezes, quando descurado, em certos casos dá origem a títulos no mínimo originais, tornado o acto de traduzir um processo criativo ímpar. Mas nem era disso que pretendia falar,  era sim da sua originalidade enquanto obra cinematográfica, não pelo seu enredo e profundidade das personagens, mas sim pelo humor que lhe é intrínseca. É um filme que nos faz libertar gargalhadas em todos os tons possíveis, que nos faz sorrir por nos identificarmos com algumas das cenas  rocambolescas (nem que seja com a ideia em causa, pois alguma são extremas) - quem não tem pelo menos uma história engraçada, partilhada com amigos, resultante uma noite mais bem regada? E mesmo tendo sido divertida, ou por vezes até dramática, serão lembranças que contribuem e enriquecem a nossa experiência de vida e "sabedoria".

Para mim, sem dúvida um bom filme de humor, um dos melhores que se fizeram nos últimos anos. Há que ter em conta as cenas menos próprias para os mais jovens e susceptíveis, mas isso é uma das características que dá alma e identidade, pois trata-se de um filme de humor para adultos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O sector privado é o melhor gestor?

Desta vez venho falar de um artigo da edição de Novembro do Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) intitulado de “A Economia dos Bens Comuns”, texto de José Castro Caldas baseado em excertos do mesmo autor e de Francisco Louçã, que aborda as teorias desenvolvidas pela vencedora do Prémio Nobel da Economia Elinor Ostrom. Neste artigo são reveladas algumas das razões que contribuíram para a atribuição do prémio de 2009 a Elinor Ostrom, que se distinguiu por advogar uma visão alternativa para o modo como é vista a administração e gestão de propriedades comuns. Ostrom defende assim que determinadas comunidades, populações ou grupos conseguem ter um bom desempenho económico na administração de recursos e na maximização dos proveitos dai obtidos, sem uma aparente organização externa e apenas através da partilha comum entre os indivíduos do grupo. 

A sesta - Van Gogh
No artigo é apresentado também um exemplo de Garrett Hardin que contrapõe o aparente melhor desempenho económico do sector privado em oposição à administração colectiva. Hardin usa como exemplo uma pastagem comunitária onde vários proprietários criam os próprio seus animais, tendo em conta que essa pastagem tem um limite de animais a suster: “Tomemos X como o benefício de criar um novo animal para o seu dono e Y como o custo de o fazer para a sociedade. O beneficio, X, é o valor de mercado do animal no momento de ser vendido. O custo, Y, consequência do sobre-pasto, é a perda de peso de todos os outros animais que se alimentam da pastagem comum decorrente da presença de mais um animal. Para o conjunto dos criadores, o custo de um novo animal é pois Y (custo social), mas do ponto de vista de quem decide se deve ou não cria-lo é apenas uma parte de Y, chamemos-lhe Z (custo privado). A análise custo-beneficio privada pode então aconselhar o que é contrário ao interesse da sociedade – a criação de mais um animal na pastagem comum. O indivíduo supostamente motivado pela maximização do ganho pessoal adoptará o ponto de vista individual. Conclui Hardin: mesmo quando a capacidade da pastagem foi ultrapassada e casa novo animal origina perdas colectivas que ultrapassam os benefícios, os criadores individuais insistirão em sobrecarregá-las mais e mais”.
Com este exemplo Garrett Hardin comprova que, em certos casos, para que o sector privado tenha lucros outro privado ou até toda a comunidade deixa de ganhar o que por administração colectiva e sustentável poderia conseguir.

Numa altura em que os modelos económicos vigentes foram seriamente afectados pela última grande crise financeira, a qual ainda que estamos a vivenciar, há que voltar a analisar os conceitos de custo e beneficio, e averiguar se efectivamente não haverá outra forma de organizar a economia, de um modo mais justo e mais a favor do bem-estar das comunidades.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Livro: "O Banqueiro Anarquista"

Fernando Pessoa é conhecido pela sua poesia, pelos seus heterónimos, pelos seus “vícios”, e pela sua morte sem o devido reconhecimento em vida, entre outras facetas universalmente divulgadas. No entanto é pouco conhecida, ou se calhar pouco divulgada, a sua escrita em prosa, especialmente aquela com tendências filosóficas e políticas. Daí a minha surpresa quando encontrei um pequeno livro classificado como de filosofia/política deste conhecido autor. Falo da obra O Banqueiro Anarquista. Só o nome é paradoxal e estranho. Como pode um Banqueiro, esse arauto do capitalismo, ser um anarquista? Não é nenhum jogo de palavras, a genialidade de Pessoa consegue justificar esta aparente contradição através de uma cuidada e profunda fundamentação. A obra consiste numa conversa entre duas personagens: um interlocutor que questiona o Banqueiro e ouve atentamente as suas respostas, tentando descortinar e compreender como pode ele intitular-se de anarquista; e claro o próprio Banqueiro. Os argumentos e justificações para tal posição controversa vão fluindo à medida que o diálogo entre as duas personagens se vai concretizando.
Frenando Pessoa - Almada Negreiros
Deixo apenas um pequeno desvendar do conteúdo da obra para que quem não a conheça possa ter uma ideia do que trata. 
Durante o diálogo o Banqueiro justifica-se como um verdadeiro anarquista porque, somente com o seu estatuto, através dos princípios capitalistas e da posse de muito dinheiro, se sentiu plenamente livre, ou seja, um verdadeiro anarquista.
Concordando-se ou não com os argumentos apresentados pelo banqueiro para sustentar o modo como ele próprio se intitula, o livro faz-nos questionar sobre o verdadeiro significado dos conceitos “Anarquista”, “Liberdade”, “Capitalismo” e muitos outros associados a estas dicotomias.
Em suma, ler esta obra, e meditar sobre o que Fernando Pessoa pretende transmitir, é sem dúvida enveredar por um exercício mental proveitoso porque contribui, nem que seja só um pouco, para vermos de outro modo a sociedade em que nos inserimos, o nosso comportamento e as opções que vamos tomando ao longo da vida.

O Significado da palavra Matemática

À medida que vou lendo, a um ritmo calmo e despreocupado, o livro “Grande Enciclopédia da História”, da editora DK, vou-me deparando com um continuar de revelações e curiosidades - novidades pelo menos para mim - que me fazem levantar uma série de questões, muitas delas talvez sem explicações automáticas e simplistas. Exemplo disto é a explicação para a origem do termo Matemática, que no dito atlas versa o seguinte: Matemática deriva do termo "Mathema" que em Grego antigo significava “estudo” ou “aprendizagem”.
Composição com vermelho, amarelo, azul e preto - Mondrian
Esta explicação - na minha opinião -, à luz dos nossos dias, continua a fazer todo o sentido. Pois o comum dos mortais só domina esta área do saber através de dedicação, muito “estudo” e mediante uma “aprendizagem” contínua e sequencial. Esta minha análise faz-me pensar no caso Português, havendo muitas explicações e causas para o panorama actual particular em torno desta ciência. Mas, arriscando uma análise superficial e cingindo-me aos termos gregos que deram origem à palavra, farei algumas correlações que deixo à consideração de quem ler estas palavras. Assim, é usual os alunos portugueses advogarem em sua defesa, como justificação para o insucesso na disciplina de matemática, a falta de bases, o que, na minha opinião, pode comprovar a razão de ser de um dos significados da palavra original: a aprendizagem - neste caso falta de aprendizagem continuada. Por outro lado, também sem estudo, por parte do próprio aluno – isto comprovamos todos os que de nós estudaram matemática -, o sucesso nesta áreas, como em quase todas, torna-se seguramente uma demanda académica difícil de alcançar, indo-se assim ao encontro da outra interpretação do termo original que resultou na palavra matemática: o estudo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Filme: Bonecas Russas

A metragem Bonecas Russas é a sequela do conhecido filme: Residencial Espanhola. Mas por ser uma sequela não significa que se trate de outro filme sobres estudantes em Erasmus
Parece-me importante falar primeiro um pouco sobre o seu precursor. Residencial Espanhola é um bom exemplo de um filme europeu de sucesso, capaz de agradar ao espectador habituado ao cinema tendencialmente mais comercial e "americanizado". Filmes como este muito contribuem para a desmistificação do cinema europeu e sua divulgação, acabando com a ideia de que as rodagens europeias são invariavelmente lentas, aborrecidas e incompreensíveis. Este preconceito é contrariado magistralmente em Residencial Espanhola devido ao tema do filme, do local , ambiente e modo como se desenrola a acção. A obra aborda o fenómeno Erasmus e expõe a cultura de vários países através das várias personagens que preenchem o elenco, retratando as vidas e relações de jovens deslocados noutro país e que habitam uma mesma casa. Barcelona é o pano de fundo perfeito para a acção principal. O ambiente mediterrâneo, os tons quentes, a arquitectura e a arte que caracteriza esta cidade dão a cor e cheiro que nos embebe e faz querer viajar para experimentar tudo o que esta cidade tem para oferecer.

 Por outro lado, a sequela Bonecas Russas trata da vida pós experiência Erasmus das mesmas personagens de Residencial Espanhola, sendo novamente focada a perspectiva e experiências da personagem principal - o francês Xavier. Todas as experiências que vão sendo relatadas por Xavier durante os dois filmes, mas mais em Bonecas Russas vão moldando-o, tornando-o um cidadão do mundo. A par disto o romance está sempre presente, seja qual for o local onde se desenrole a acção (enquadrada em várias cidades europeias tais como Londres, Paris, São Petersburgo, entre outras). 
O título da obra advém de uma comparação que origina uma série de questões colocadas pela personagem principal: os amores são como as bonecas russas, dentro de uma pode sempre existir uma outra mais bela, mas só o saberemos se tivermos a coragem de abrirmos a que temos, correndo o risco de, irremediavelmente, a desmontar ou até mesmo de a destruir apenas para encontrarmos uma pior ou que nos desagrade. Mas como sabemos quando parar? Como sabemos qual a nossa boneca, aquela onde devemos parar?

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Um pedófilo é um pederasta e vice-versa?

Segundo a Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pedófilo é a “pessoa que se sente sexualmente atraída por crianças”. No entanto existe um outro termo, menos conhecido, mas com um significado muito semelhante. Segundo o mesmo dicionário, um “homem que pratica sexo com rapaz jovem” é um pederasta. Fazendo alguns paralelismos, o significado atribuído à palavra pedofilia faz-me questionar a origem etimológica de outras palavras com terminação semelhante, notemos então que: “filia” ou “filo” significa em Grego antigo algo semelhante a “alguém que gosta” ou “alguém com especial simpatia” ou “amor por”.
Se fizermos o paralelismo com palavras como filantropo (gosto pela humanidade), columbófilo (gosto por pombos), filosofia (gosto pela sabedoria), entre muitas outras, concluímos que pedófilo poderá ser, pelo menos na acepção primordial da palavra, alguém quem nutra um amor por crianças, sem que com isso seja associada qualquer conotação sexual.
O grito - Much
Apesar disto, as palavras vão evoluindo e ganhando vida própria no seio das próprias línguas, sendo esta palavra [pedofilia] é apenas mais um exemplo disso. Provavelmente alguém cometeu um erro na escolha do termo para definir os vergonhosos casos de abusos sexuais a crianças. Provavelmente o termo mais correcto para identificar esses comportamentos repugnantes e desviantes deveria ter sido pederasta. Isso, provavelmente, explica porque é ofensivo chamar pedófilo a alguém que lute pelos direitos das crianças, e perfeitamente aceitável chamar antropofilo (pessoa com dedicação ou simpatia pelos seres Humanos) a um activista dos direitos Humanos.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



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