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segunda-feira, 27 de março de 2017

Definir o urbanismo pelo arado: origens do termo urbanismo e da prática de gestão das cidades

Voltando aos temas da origem de determinas palavras vamos entrar no domínio do urbanismo.  Qual a origem do termo “urbano”?

Consta que o substantivo urbano advenha do latim, da palavra "urbs", que significava cidade e tinha uma relação com à delimitação da cidade de Roma, do "urbum" que lhe definia os limites. Os romanos utilizavam o arado (ulmus aratri) para traçar os limites de um novo colonato. Traçavam o limite numa terreno livre de modo a criar uma área confinada para nela se construir a nova cidade, que iria albergar os lotes, arruamentos, praças e outros elementos urbanos (1). Para além disso os romanos faziam muitos outros rituais de consagração da própria proto cidade.

Arando em Nevernais - Rosa Bonheur

Este conceito romano diverge e afasta-se do termo grego “polis”, que significa cidade mas aponta mais para o sentido de comunidade humana. Isto poderá servir para nos questionarmos para a forma como ambas as comunidades viam as cidades e as suas comunidades urbanas, se era o contexto social que definia a cidade ou se era a forma da cidade que definia o contexto social.

Por outro lado, os romanos utilizavam de um modo mais abrangente o termo "civitas" também como sinónimo de cidade, com o conceito a aproximar-se mais do conceito alargado da "polis" grega.  De notar as aproximações e relações do termo "civitas" com civismo, civilidade, civilização, etc., estando tudo relacionado mais com a cultura e comportamentos que com uma dimensão material, embora a palavra “urbanidade” seja igualmente comportamental.

A gestão das cidades a partir da época contemporânea, mais concretamente de Ildefons Cerdá com o seu famoso plano de Barcelona de 1855 e de Haussmann em Paris em 1860, foram definidas como intervenções urbanísticas, em grande relação com o desenho e organização funcional material da cidade. 

Desde então a gestão das cidades mudou muito mas continua a ser definida como “urbanismo” e não “polismo” ou “civitismo”. Claro que parece anedótico e é uma brincadeira, até porque o urbanismo não se define hoje em dia pela relação direta com o termos latinos que lhe deram origem, mas parece evidente que fez um caminho para se libertar da inflexão do traçado e passar a assumir, de uma forma integrada e interdisciplinar, as questões sociais, ambientais e outras. Cada vez mais a gestão das zonas urbanas quer ser sustentável em toda a dimensão disciplinar que o termo comporta, sendo o traçado um dos elementos para chegar a esses fins, não o fim em si mesmo.

Fica a curiosidade da origem do termo e de quanto ele pode ter influenciado uma prática.

Referência bibliográfica:
[1] Francesco Bandarin & Ron Van Oers - The historic urban landscape: managing heritage in a urban century. Oxford: Wiley Blackwell, 2012.  p107

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O Marketing Territorial é diferente do Marketing Empresarial ou Institucional

O Marketing territorial tem vindo a crescer enquanto subdomínio do marketing, sendo utilizado na gestão de territórios. Mas este tipo de marketing difere do marketing empresarial ou institucional. Os territórios, pelas suas características, são muito diferentes das empresas e instituições,  exigindo abordagens diferentes.
 
As grandes banhistas - Cezanne

Se numa empresa pode facilmente existir uma estratégia bem definida, assumida por uma liderança forte, com capacidade de decisão e operacionalização em todos os domínios da empresa, nos territórios tal é praticamente impossível de acontecer. Os territórios são sistemas iterativos complexos, de múltiplos atores e recursos, onde uma determinada liderança tem cariz político democrático. Aas próprias empresas e isntituições são atores importantes dos territórios.

 A gestão dos territórios está muito mais condicionada do que a gestão de uma empresa, pois, no segundo caso, não existe obrigação do estabelecimento de modelos democráticos. Apesar de tudo, nas sociedades que vivem em regimes democráticos, empresas, famílias e órgãos colegiais de especialistas técnicos, a título de exemplo, tendem a ser pouco democráticos nas suas práticas e organização perante o peso da propriedade, da tradição e do conhecimento.

Para as empresas será possível criar missões e culturas comuns. Mas nos territórios existem vários atores com diferentes interesses, por vezes contraditórios. Sobre os territórios podem coexistir várias culturas e subculturas, com os seus múltiplos interesses e valores, mesmo nas zonas menos cosmopolitas. É necessário um esforço adicional, respeitador da cidadania e igualdade de diretos, para além dos requisitos legais exigidos às empresas quando se gere um território.

Os territórios podem ser muito variados e heterogéneos, dificultando a identificação dos recursos e produtos a potenciar. Sempre que se pretende seguir uma determinada estratégia é necessário o envolvimento e aceitação da população para determinado objectivo de desenvolvimento territorial. Para além dos indivíduos, existem sobre os territórios outras entidades colectivas, capazes de mobilização e influência. Estas entidades podem ser também muito diversas: políticas; cívicas; técnicas; etc.

O facto dos territórios serem geridos pelo poder político, tendo em conta que este assenta num modelo democrático, surgem fortes probabilidades de mudanças imprevissíveis nas lideranças territoriais, inviabilizando a implementação de estratégias e planeamento a longo prazo.

Assim, os processos de marketing territorial, com o objectivo de potenciar o desenvolvimento de determinados territórios, independentemente da área de actividade ou objectivo final definido, têm sempre de nascer de processos inclusivos de cidadania, assentes em sólidas práticas democráticas. Caso contrário será impossível definir uma estratégia de atuação sólida e muito menos aplica-la a médio e longo prazo.

 
Referências bibliográficas:
 
FIGUEIRA, Ana Paula - Marketing territorial - uma nova dimensão do marketing. Estarreja, Mel Editores, 2011.
 
GINSBORG, Paul - A democracia que não há - que fazer para proteger o bem político mais precioso de todos os tempos. Lisboa: Editorial Teorema, 2008.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Castro de Monte Mozinho – O génio da adaptação romana à geografia física e humana

Existe um tesouro arqueológico em Penafiel herdado da ocupação romana do território português. Este e outras preciosidades arqueológicas e da história nacional tiveram direito a destaque na série de documentários “Escrito na Pedra”, da autoria de Júlia Fernandes e recentemente exibidos na RTP2. Trata-se do castro de Monte Mozinho.

Fonte da imagem: http://www.cm-penafiel.pt/

Os vestígios desta povoação são particularmente curiosos. Uma vista aérea poderá levar os mais imaginativos aficionados da ficção científica a identificar o desenho de uma nave espacial – houve que dissesse que parecia o Millenium Falcon da saga Star Wars. Mas o sítio é especialmente curioso por ser um castro construído por romanos.

Os castros eram as povoações fortificadas de origem antiga, reconhecíveis nos povoados celtiberos da península, associados à Idade do Ferro. Constituíam-se em locais elevados, aglomerando casas de planta circular e telhados de colmo, defendidas por muralhas simples. Ou seja, com a romanização este tipo de ocupação foi sendo abandonada e a população indígena começou a adotar o modelo urbano romano, de planeamento em malha quadrangular, a ortogonalidade do cardo-decumanos, centralidade do fórum, praças e outros edifícios públicos. Importantes foram também as vilas - edificações centralizadoras que organizavam latifúndios e áreas de exploração do território rural, semelhantes a quintas de grandes dimensão e que poderiam ser imensamente ricas e autossuficientes.

Mas o Castro de Montezinho foi construído pelos romanos no século I. d.C., sendo ocupado até ao século V da nossa era. Não se trata da romanização de uma povoação mais antiga. Tudo indica, tal como salienta o documentário, que os romanos terão adotado este design de castro para atrair para aquele novo povoado a mão-de-obra indígena, pois pretendiam explorar o território da envolvente, rico em minérios. Não sendo de descurar o valor estratégico de domínio do território.

Assim, este castro é urbanisticamente híbrido. É singular, para além de proporcionar uma experiencia de visita única pela riqueza dos achados arqueológicos e vestígios dos edifícios descobertos e expostos para contemplação. Tudo indica que se trata de mais uma manifestação do génio de gestão e organização territorial dos romanos, sempre capazes de se adaptarem à geografia física e humana dos territórios que dominaram, tentando tirar deles o melhor partido.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Efeito parasitário do turismo no património e urbanismo

Pode ser polémico, mas o turismo pode ter um efeito parasitário geral, beneficiando de investimentos e das existências de outras atividades contribuindo diretamente pouco ou nada para os custos que recaem sobre elas. Um desses casos poderá ser o património histórico, mas também o urbanismo na sua dimensão integrada de conjuntos edificados e atividades que se desenvolvem nos espaços urbanos.

Grupo de artistas dinamarqueses em Roma -  Constantin Hansen
O turismo é claramente um sector económico de extrema importância. Do ponto de vista psicossocial, trata-se de uma atividade de lazer que pretende proporcionar experiências agradáveis, que seja pelo lado lúdico, instrutivo ou outro. É imensamente importante do ponto de vista económico, até porque é tratado como uma exportação. Mas o turismo só acontece onde existam atrações que o justifiquem. No caso do património histórico e urbanismo essas atrações surgem de heranças ou desenvolvimentos que não foram pensadas para esse fim, ou seja, a sua utilidade é quase sempre transformada e adaptada. Alguns desses usos originais pretenderiam dar resposta às necessidades contemporâneas das épocas em que as construções terão sido edificadas. Mas quem fala de construções fala de outro tipo de criações humanas que possam ter nos dias que correm utilização turística. O turismo, nestes casos, usa os recursos já existentes. Será que os usa na mesma medida em que contribui para os manter?

Em muitos destes casos existe uma pressão turística crescente sobre determinados patrimónios. Ou as entidades públicas encontram modo de converter essa procura em receitas para compensar os custos sobre a degradação que se acelera do património ou então entra-se em casos de insustentabilidade. Isto tanto é valido para o sector público como privado, sendo que na dimensão pública os preços cobrados pelo usufruto tendem a refletir diretamente os encargos. Mas nos casos em que esses patrimónios têm usos religiosos, cívicos e identitários locais e nacionais, a cobrança de entradas ou impostos indiretos para suportar esses custos, especialmente aos autóctones ou cidadãos a quem esse património é próximo, pode gerar injustiças, ainda que não reflita a totalidade dos gastos.

Assim não será de estranhar que se considere o sector do turismo parasitário em determinados casos, especialmente quando contribui para a degradação do património, impede que os cidadãos do país em causa o usufruam ou pelo simples facto de causar tais impactos que descaracteriza ou transforma a vida das populações locais. Será certo que tem efeitos económicos positivos e que pode contribuir indiretamente através dos impostos de consumo que gera para a economia e finanças públicas. Mas será que esses fundos depois chegam aos organismos que gerem o património e às autoridades urbanas e territoriais que têm de lidar com os impactos da pressão sobre as infraestruturas, sistemas de transportes e outros?  Existem entidades e autoridades públicas que encontraram várias alternativas de tentar transferir estes custos para a indústria do turismo mas é uma questão que continua a ser pertinente.

Fica a questão e alguma bibliografia que trata esta problemática.


Referências bibliográficas:
Benhamou, Françoise. (2011). L´économie de la culture (7ª edicion). Paris: La découverte.

Graham, Brian; Ashworth, G. J.; Tunbridge, J. E. (2000).
A geography of heritage - Power, Culture & Economy. London: Arnold.

Patin, Valéry. (2012).
Tourisme et patrimoine. Paris: La documentation française.
Peackock, Alan; Rizzo, Ilde. (2008).
The heritage game - economics, policy and practice. Oxford: Oxford University Press.

Rizzo, Ilde & Mignosa, Anna (ed.) (2013).
Handbook on the economics of cultural heritage. Cheltenham/Northampton: Edward Elgar.
 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A origem dos proto-museus: dos tesouros da Idade Média aos Gabinetes de Curiosidades da Idade Moderna

Se os "Schatzmmern" (ou tesouros) se associavam às coleções privadas dos grandes senhores e monarcas, contendo todo o tipo de objetos a que fosse atribuída uma conotação de valor, no sentido de tesouro, na mesma medida estavam relacionados com a itinerância das cortes medievais. Ou seja, a própria coleção teria de ser transportável, uma vez que a corte e governo feudal/senhorial não era permanente (Nicholas, 1999).

Canto de um Gabinete de Curiosidades - Frans Francken II

Por outro lado, os conceitos de "Kunstkammern/Wuderkammern" (gabinetes de curiosidades) ligam-se aos novos poderes instituídos a partir daquilo que é a génese dos primeiros Estados Modernos (Delumeau, 2011), com as cortes permanentes, corpos de funcionários e serventes públicos, exércitos permanentes e capitais formais (Chueca Goitia, 1989; Mumford, 1998).
 Com essa estabilização e sedimentação do poder, que mais tarde dará origem ao absolutismo, facilmente se encontra um a justificação política e social para a estabilização das coleções privadas reais, para o seu desenvolvimento permanente no que seriam os proto-museus, ainda que nessa altura as suas funções ainda estivessem associadas a fins de promoção do poder e prestígio dos seus detentores (Gschwend, 1993).


Referências bibliográficas
  • Delumeau, Jean. “A Civilização do Renascimento”. Lisboa: Edições 70, 2011.
  • Chueca Goitia, Fernando. "Breve História do urbanismo”. Lisboa: Editorial Presença, 1989.
  • Gschwend, Jordan Annemarie. “Catarina de Áustria: Coleção e Kunstkammer de Uma Princesa Renascentista”. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1993.
  • Mumford, Lewis. "A Cidade na História". São Paulo: Martins Fontes, 1998.
  • Nicholas, David. “A Evolução do Mundo Medieval”. Lisboa: Publicações Eurapa-América, 1999.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Monotonia Urbanistica de Nova York - A especulação Imobiliária

O mundo está repleto de cidades. Apesar de muitas seguirem planos urbanísticos semelhantes todas são diferentes. Não poderia ser de outra forma, pois a sua história, os seus habitantes, as atividades que nelas acontecem, o clima e ambiente, entre outros moldam-nas.

Nova York é única, por todas as razões anteriormente referidas, mas o seu desenho urbano pouca originalidade tem. O crescimento desta cidade, fundada por holandeses que na altura lhe atribuíram o nome de Nova Amsterdão, explodiu no século XIX, especialmente no que toca à ilha de Manhattan. Vivia-se a revolução industrial nos E.U.A. e Nova York era um desses polos industriais e comerciais mais importantes. A pressão e especulação urbana eram enormes. O crescimento contínuo e galopante.
 

Mapa de Nova York de 1897
O urbanismo da cidade é fruto do planeamento aplicado ao capitalismo especulativo. De notar que o crescimento que se dá nessa altura ocorre de modo a manter altos os preços dos terrenos. Isto era possível através da indiferenciação urbana. Ou seja, as ruas eram todas iguais nas suas características, tal como os quarteirões. Até os nomes foram evitados, ficando cada avenida apenas associada a um número, coisa que ainda hoje ocorre.

Esta opção urbana permitiu que todas as novas zonas tivessem o mesmo valor, pois, eram, ao nível do planeamento urbano, iguais. No entanto criou uma malha ortogonal monótona, ao contrário do que acontece nas outras grandes metrópoles.  Só o Central Park, Broadway, Rockefeller Center e algumas zonas ribeirinhas têm algumas daquelas características urbanas distintivas que as fazem sobressair da envolvente e favorecem as múltiplas atividades urbanas, especialmente a fruição de um espaço público de usos múltiplos – A herança do mundo greco-latino e sua valorização do espaço público da ágora, fórum e praça. Esta monotonia é especialmente visível na zona mais interior, na envolvente do Central Park.

Apesar de ser interessante por muitos motivos, incluído as atividades sociais, económicas e culturais, e até o edificado e o próprio local de implantação da cidade, o urbanismo de Nova York foi aborrecidamente manipulado para assegurar a especulação imobiliária.
 
Referências bibliográficas
  • Goitia, Fernando Chueca. "Breve História do urbanismo”. Lisboa: Editorial Presença, 1989.
  • Mumford, Lewis. "A Cidade na História". São Paulo: Martins Fontes, 1998
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Afastamento entre movimentos de esquerda e igrejas – uma razão urbanística

Os movimentos de esquerda, operários de socialistas e anarquistas raramente tiveram ligação com as igrejas católicas ou protestantes instituídas. Foi assim logo desde o nascimento e ganhar de força destes movimentos, logo nos inícios de século XIX. Essa luta e reivindicações nascem e crescem à medida que a sociedade e era industrial transformam os Estados. O impacto nas populações da industrialização foi imenso, daí o recurso ao termo “revolução”, embora esse efeito não seja apenas social.
Demónios de Krupp - Heinrich Kley
O afastamento entre as igrejas e os movimentos de esquerda pode ser explicado pelo tradicionalismo e modelos sociais doutrinados. As igrejas ligavam-se ao poder político instituído e sustentavam, à sua maneira, as hierarquias e valores antigos. As igrejas tendiam ao conservadorismo social e não à mudança e inovação que propunham e estavam na génese dos movimentos socialistas, esquerdistas e anarquistas. Apesar disso, posteriormente, essa tendência foi rompida com os movimentos de democratas e trabalhadores cristãos, que no século XX muito se aproximaram da social-democracia, dos ditos socialistas mais moderados.

Mas voltemos às origens do século XIX. Para além das razões ideológicas referidas anteriormente, há razões materiais e urbanísticas que podem justificar o afastamento entre movimentos operários e igrejas. Com o crescimento exponencial das cidades na era industrial, devido ao crescimento demográfico e esvaziamento dos campos, as estruturas urbanas destruturaram-se. Os bairros cresceram em torno das fábricas que atraiam massas de trabalhadores às cidades. O planeamento urbano inicial dessa primeira explosão industrial foi incipiente ou mesmo inexistente. As cidades cresciam por si, sem regra nem critério para além do economicismo puro. Nessas novas zonas habitacionais, sem condições de higiene e salubridade do edificado e onde o espaço público era uma miragem, não existiam as estruturas públicas básicas. Nem as igrejas tiveram capacidade de se adaptar a esta realidade. Grande parte dessas comunidades operárias viviam num vazio eclesiástico, sem igrejas e seus sacerdotes, tal como era habitual nas aldeias e vilas de origem e onde essa organização se foi instituído e implementando ao longo dos séculos anteriores.

Agora podermos fazer as seguintes perguntas. Como seria se as comunidades operárias urbanas tivessem sido enquadradas pelas igrejas instituídas? Ou será que, mesmo se tivesse existido esse cuidado de planeamento urbano e de serviço religioso, nada mudaria?
 
 
Algumas referências bibliográficas
Rémond, Réne; "Introdução à história do nosso tempo - Do antigo regime aos nossos dias", 1994.
Chueca Goitia, Fernando. "Breve História do Urbanismo", Editorial Presença, 1996.

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Paris - A cidade das Luzes Filosóficas

Qual é a cidade das Luzes? Paris. Sim, de facto é Paris. Mas de que luzes falamos quando referimos este título? Serão luzes utilitárias ou decorativas, os mecanismos e aparelhos de iluminação física que usamos correntemente em várias formas e formatos? Não, pelo menos na origem do termo, as luzes não eram essas.
Voo de Paris  - Leonid Afremov
Hoje, Paris deslumbra pelas suas iluminações públicas. São imensas, quer sejam nos grandes monumentos e edifícios, quer nos barcos que sobem e descem o Sena. Também as podemos encontrar em pequenas vendas ambulantes de rua e muitas outras surpresas da vida urbana parisiense. Os grandes monumentos estão particularmente bem iluminados, com verdadeiros projetos de iluminação pensados para fazer destacar o património. As muitas lojas, alguns bairros característicos (por exemplo o boémio Pigalle, com as suas luzes de tons vermelhos e onde se situa o Moullin Rouge) trabalham, à sua dimensão particular, a luz. A Torre Eiffel está repleta de lâmpadas, que dão de si a cada hora, e especialmente no seu topo existe um mecanismo que a transforma num farol rotativo – um espetáculo em si mesmo. Nos Campos Elísios mistura-se a iluminação pública da grande avenida, com as luzes dos imensos veículos, com as grandes lojas, o Arco do Triunfo e a Grande Roda panorâmica da Praça da Concórdia. Existem imensos outros sítios que merecem uma descrição, por exemplo a zona de Montmartre (bairro dos artistas) e muitas outras.
Mas as luzes de Paris que lhe fizeram o nome são de outra época: são anteriores à descoberta da manipulação da própria eletricidade. Essas luzes eram do movimento iluminista, ou movimento das Luzes. Sendo Paris uma das cidades mais importantes da época (século XVIII) compreende-se porque teve ai tanto impacto esse movimento, que usava as luzes como metáfora para a valorização do racionalismo e o combate ao obscurantismo do conhecimento. Foi um movimento filosófico humanista que se sentiu particularmente em Paris, pois reunia a massa crítica, humana e porque o poder instituído era conservador e católico - o que acabou por o amplificar e dar mais força pela repressão e pela censura inicial que sofreram alguns desses pensadores e filósofos das luzes. Há que lembrar os nomes de Voltaire, Diderot, Rosseau e outros. Há que lembrar, pro outro lado, os salões da época e como alguns poderosos apoiaram, mesmo contra outros poderes, essa tendência iluminista.
Talvez tenha sido esta associação inicial às luzes, especialmente reforçada com a influência burguesa do século XIX sobre a cidade (a sua forma e vida), que terá levado a que existissem de factos iluminações e luzes físicas dignas de destaque em Paris. Essas luzes, as recentes e as antigas ainda se sentem na cidade, onde facilmente podemos iluminar o corpo e a mente.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A democracia ateniense era a mais desenvolvida da antiguidade?

Quando falamos na história dos regimes políticos, e das democracias em particular, é inevitável falar abordar a ateniense. Existem obvias razões para isso, porque por lá, por aquelas polis (cidade), passaram e viveram algumas das mais famosas personalidades da antiguidade (filósofos, políticos, artistas, etc.), porque os atenienses estiveram envolvidos nos principais acontecimentos políticos e militares da época naquela zona do globo com importância futura na história do ocidente (guerras médias com os persas, guerra do Peloponeso, etc.), porque desenvolveram um império naval mercantil e militar considerável, porque criaram uma cidade imensa dentro da realidade grega clássica (ricamente embelezada com monumentos, arte e arquitetura) e, entre outras razões, porque tinham uma democracia (com relatos das suas práticas a chegarem aos dias de hoje, sendo o episódio da condenação à morte de Sócrates marcante pelas questões que levanta).
Discurso fúnebre de Péricles - Philipp Von Foltz
No entanto, existiam várias democracias na Grécia antiga. É o próprio Aristóteles que nos diz isso, pois terá compilado a constituição de praticamente todas elas, mesmo as das polis que assentavam noutro tipo de regimes (monarquias, tiranias, oligarquias, etc.). Infelizmente muitos dos escritos e registos de Aristóteles perderam-se. Somente a constituição de Atenas sobreviveu de todo esse seu trabalho de compilação.
Assim, hoje, dificilmente saberemos se a verdadeira e mais desenvolvida democracia grega da antiguidade clássica terá sido a ateniense. Não sabemos exatamente quantas mais teriam existido nem qual terá sido a primeira. Esta questão tem importância pois sabemos dos limites desta democracia, que não era universal e deixava de parte a maioria da população (mulheres, escravos, estrangeiros e outros que perdessem a sua cidadania/direitos políticos).
Mas, partindo dos outros registos e vestígios das antigas polis, quase todas com elementos comuns, como por exemplo ágoras e assembleias de cidadãos, provavelmente os princípios democráticos podem ter sido bastante generalizados, nem que fosse em sistemas mistos, mais ou menos desenvolvidos de cidadania e envolvimento político cívico dos habitantes da cidade no seu governo.
 
Referências bibliográficas:
  • Farago, France. "As Grandes Correntes dos Pensamento Político". Porto Editora, 2007.
  • Ferreira, José Ribeiro. "História das civilizações clássicas I - Grécia". Universidade Aberta, 1996.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Introdução à morfologia da cidade islâmica – Religião e demais influências na criação da cidade privada

No versículo 4 do capítulo XLIX do Corão podemos ler o ensinamento: “O interior da tua casa é um santuário”. Esta passagem explica o porquê das formas diferentes e particulares da cidade islâmica tradicional. O urbanismo orgânico e sem plano destas cidades caracteriza-se pelas ruas estreitas, tortuosas, com quebras visuais de continuidade, cheias de cotovelos e becos sem saída. As fachadas das habitações são minimizadas, austeras e, por vezes, quase inexistentes. Não são raras as vezes em que existe apenas uma porta, ou um portão, forte e resistente. Existem muitas passagens inferiores, zonas menos iluminadas e edifícios que crescem nos pisos superiores cobrindo as ruas. As ruas são, em muitos casos, apenas corredores utilizados para deslocações entre um ponto e outro, sem a vida e arquitetura de cariz público das restantes cidades. Os espaços realmente públicos são diminutos, especialmente os mais amplos. Mesmo o bazar situava-se numa das portas das cidades, na sua envolvência e não numa praça como as cidades de influência greco-romana. Somente na mesquita se situam os grandes pátios amplos.
 
Mulheres no Casbah de Argel - Marie Berton-Maire
São várias as razões para estas características. Primeiro que tudo será a influência religiosa. Evita-se a ostentação exterior, pois todos serão iguais perante Alá. A ostentação, riqueza e vida volta-se para o interior das habitações. É nos pátios que o edifício recebe a luz que combate a insalubridade. É ai que se vive em sociedade, na privacidade de cada lar que é sagrado. É ai que florescem as magníficas decorações e crescem os jardins interiores de influência iraniana. As próprias ruas criam a sensação de privacidade e segurança dos olhares indiscretos, sempre reforçada pelas casas-fortaleza e suas austeridades externas.

Dança de Harem - Giulio Rosati
O facto da expansão dos primeiros impérios islâmicos ter sido tão grande e avassaladora criou um choque de culturas, apesar da grande capacidade adaptativa dos primeiros islamitas. Na prática tratou-se de uma cultura não urbana que ocupou grandes metrópoles urbanas, próprias do mediterrâneo e médio-oriente. Foi a partir dai que o islão se foi urbanizando segundo a sua cultura própria, sobre a ruina das conquistas. Dai a falta de planos e o urbanismo orgânico das cidades islâmicas. Não podemos esquecer que o avanço do islão beneficiou do conflito e desgaste entre Império Bizantino e Persas Sassânidas, enfraquecidos pela guerra constate, tendo ocupado os seus territórios, caracterizados por contarem zonas altamente urbanizadas.
Por fim, o efeito do clima. É evidente a utilização de uma estrutura urbana própria de climas tórridos, onde importa, acima de tudo, garantir sombras e zonas de descanso.

Haveria muito mais a dizer, mas fica uma primeira introdução que pretende dar alguma luz sobre o modo como se definiram as cidades islâmicas e a sua influência nas restantes cidades por onde essa civilização passou (o caso de Portugal por exemplo).
 
Referências bibliográficas:
Goitia, Fernando Chueca; "Breve História do urbanismo", Editorial Presença, Lda., Lisboa, 1989.
Keegan, John; "Uma história da Guerra", Tinta da China, 2009
Mumford, Lewis; "A Cidade na História", Martins Fontes, S. Paulo, 1998

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A Origem das Finanças Municipais - As Muralhas

Muitas das cidades europeias, e também as portuguesas, têm origem na antiguidade clássica, nomeadamente na colonização e desenvolvimento grego e depois romano. Foram esses povos que desenvolveram alguns dos modelos mais complexos e completos de governo cívico. Foi ai que de desenvolveu o próprio conceito de cidadania, cidadão, civismo, e etc.

Ilustração do foral de Évora  de 1501 - Autor desconhecido

No entanto, grande parte da nossa organização municipal das nossas cidades tem origem medieval. As cidades medievais eram, num mundo feudal, polos de liberdade, e onde as relações diretas pessoais de vassalagem eram minimizadas perante um sentimento e concordância colectiva perante as necessidades e desafios comuns da comunidade. São famosos os foros ou forais, por decreto real, onde cada vila e cidade assumiam a sua individualidade, as suas regras particulares de governo e existência perante todas as demais entidades, senhorios e poderes. Esta era uma época das leis particulares e não das leis universais e igualitárias que hoje definem as nossas sociedades.
As finanças municipais surgiram da necessidade de construir muralhas e defesas para comunidade. De início, constituíram-se fundos pontuais para garantir os meios necessários para as fortificações, devendo todos contribuir. Quem não contribuísse arriscava a expulsão. Rapidamente essas contribuições pontuais passaram a ser permanentes e os fundos recolhidos utilizados para outros fins, tais como vias de comunicação e outros serviços públicos.
Havendo necessidade de gerir os fundos e de tomar decisões sobre o desenvolvimento de cada localidade, surgiu a necessidade de estabelecer governos locais. Essas terão sido as primeiras assembleias de “homem bons”, uma espécie de democracia medieval e que terão contribuído também para a constituição daquilo que seriam as câmaras municipais. Obviamente que não eram democracias plenas, até porque a legislação não era universal e os direitos e deveres estavam longe de ser comuns, pois vivia-se numa sociedade hierarquizada, por classes e onde prevaleciam os vínculos feudais. Mas sem dúvida que o carácter excepcional da vida nas cidades constituiu, em tempo medievais, verdadeiros focos e centelhas de liberdade e governo cívico.
 
Referências bibliográficas:
  • Chueca Goitia, Fernando. "Breve História do Urbanismo", Editorial Presença, 1996.
  • Mattoso, José. "História de Portugal - Vol.II - Monarquia Feudal", Editorial Estampa, 1997.
  • Ramos, Rui (Coord.). "História de Portugal", Esfera dos Livros, 2012.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Persiste a tendência de tornar bens e serviços coletivos em individuais?

Numa breve (até leve e simplista) análise da evolução histórica das sociedades, tentando definir um padrão continuo, muitos equipamentos, serviços e funções sociais começaram por ser coletivos/públicos. Mas a tendência individualista e a capacidade dos sistemas produtivos em série (segundos os modelos Fordistas e Tayloristas) conseguiram disponibilizar alguns desses bens diretamente a cada pessoa, individualizando-os. Por exemplo: os banhos e WCs começaram por ser públicos (basta lembrar a antiga Roma) e posteriormente tornaram-se em comodidades privadas; os relógios e sinos transformaram-se em relógios de sala ou parede coletivos, depois em objetos individuais de bolso ou pulso; Os telefones começaram por ser coletivos, passando também a equipamentos familiares ou empresariais, e mais recentemente tornaram-se completamente individuais com a generalização dos telemóveis.

Perfil de Tempo - Salvador Dalí
 Ou seja, estas tendências foram possíveis porque os sistemas produtivos (em massa) o permitiram, mas porque os modelos de consumo se alteraram. Estas comodidades continuariam provavelmente a ser mais sustentáveis se fossem de uso coletivo, mas o individualismo e prosperidade económica permitiu que a “privatização” fosse viável. O mesmo não aconteceu com outros equipamentos urbanos – orientando esta reflexão para o urbanismo -, tal como hospitais, universidades, estádios, etc*. Ainda que seja possível alguém ter, por exemplo, uma piscina privada, será difícil mesmo para uma família da classe média ter uma clínica privada em casa.
Curiosamente, nos dias que correm, redescobrem-se as formulas coletivas antigas. Começam a surgir cada vez mais sistemas alternativos que contrariam os modelos consumistas individualistas, especialmente pela crescente consciência ambiental. A reutilização de bens por opção é uma realidade, tal como a partilha – basta lembrar os sistemas de “car sharing” e “car pooling”.
Os modelos contemporâneos de desenvolvimento urbano, que se ligam com todo o tipo de desenvolvimento no geral, tendem para soluções heterogéneas* e adaptadas a realidades físicas, sociais, económicas e outras particulares (desde a grande cidade à realidade de uma pequena rua ou bairro, sabendo-se que a solução para cada caso quase nunca é replicável noutras realidades). Inseridas nessa tendência reforça-se a necessidade de assegurar a sustentabilidade através da utilização racional de recursos através de partilha, reutilização e reutilização. Assim, em parte, contraria-se a individualização e certos bens e serviços, sendo que existe cada um novo ponto de equilibrio a terá peso incontornável: a sustentabilidade. Já não é aceitável consumir mesmo que tal seja economicamente viável no presente, pelo menos já não é válido em todos os locais, para tudo e todos os casos.

Mais alguns texto do blogue relacionados com o tema do artigo:

Referências bibliográficas
      *Acher, François; 2012. "Novos Princípios do Urbanismo". Livros Horizonte.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Especulação Imobiliária - um mau investimento

  Num artigo (1) do jornal Le Monde Diplomatique, Pedro Bingre do Amaral, trata o assunto do descontrolo do sector imobiliário e dos efeitos da bolha especulativa imobiliária nacional. Muitos foram já os escritos sobre a especulação imobiliária, mas este artigo vai mais longe, nele o autor acaba por retratar também os hábitos e tendências económicas de investimento nacionais, apontando algumas razões para a debilidade da economia portuguesa e sua relação – causa efeito - com o sector imobiliário nacional, e também com a política de gestão de solos e ordenamento do território.

Corvos voando sobre Seara de trigo - Van Gogh
  Apesar dos axiomas do liberalismo económico apontarem para a defesa do mercado livre, sem regulamentação estatal, alguns dos ideólogos - e verdadeiros paladinos - dessas mesmas teorias (Stuart Mill e David Ricardo), tal como cita Pedro Bingre Amaral, advertiam que: “numa economia demasiado leve na tributação do património e mal regulada em termos de mercados de solo (agrícola ou urbanizável) existe uma tendência irreversível para a maioria dos ganhos de produtividade – de crescimento da riqueza – ser apropriada por rentistas e especuladores imobiliários, espoliando-se toda a sociedade para pagar o oportunismo de um ínfimo número acaparadores de imóveis”. Ou seja, sem regulação e controlo alguns indivíduos beneficiam de ganhos sem que, pelo valor direto ou indireto da transação (ou até valor acrescentado), tragam valor à sociedade em que se inserem e que se relaciona com os solos em causa. Ainda mais pernicioso que isso, tal como refere o autor, é o crescimento económico com base na especulação imobiliária que prejudica tanto a economia nacional como a vida do cidadão comum, os efeitos são micro e macro económicos. Aprofundando mais essa questão, as pessoas que contraem dívida para adquirir os bens inflacionados acabam por perder os ilusórios ganhos de poder de compra associados ao natural e espectável crescimento dos salários, pois estão a comprar algo inflacionado e longe do valor real do bem não inflacionado. Em suma, em vez das famílias prosperarem economicamente a tendência pode ser efetivamente o contrário devido à especulação imobiliária, podendo-se atingir a catástrofe se a bolha especulativa efetivamente rebentar e ficar evidente que se pagou e continuará a pagar algo que não vale o que se supunha. Em parte foi isto que aconteceu nos EUA – a crise do subprime - e a razão do início da crise de 2008 que alastrou por contaminação ao mundo. Mas por cá a nossa economia sofre também, ainda que doutro modo, de uma muito própria especulação e descontrolo imobiliário.
  O caso do imobiliário nacional é paradigmático. Com 12% dos imóveis vazios, valor que pode atingir os 25% se se considerarem as habitações de segunda residência, como explicar o contínuo contrair de crédito para continuar a investir no imobiliário? Como explicar que, em Portugal, uma das primeiras opções, apesar da quantidade de casa vazias, seja optar pelo endividamento para construir ou comprar novo, vendo essa opção como um bom investimento, proveitoso e de rentabilidade garantida para o futuro? Provavelmente, de um modo simplista, a resposta para isso é: a instalada ilusão especulativa imobiliária. Tal como refere o autor do artigo que sustenta este texto, como explicar que o preço do m2 de uma construção de habitação em zona rural de Portugal seja cerca de 1200€ enquanto que no perímetro urbano de Berlim, com salários que facilmente triplicam os nossos, os valores rondem os 1400€? As respostas são várias, entre elas ficam algumas bem evidentes: as falhas de planeamento, controlo e ordenamento do território que deixaram terreno livre para a criação de uma bolha especulatória imobiliária e desordenamento do território (e da utilização dos próprios solos) alargados a todo o território nacional.
  Outro aspeto caricato da nossa nacionalidade, já também referido, é a tendência de investimento. É usual, quando um cidadão português pensa em investimento, considerar logo, como umas das primeiras opções, em adquirir imobiliário para legar à família ou para esperar a sua valorização para posterior venda. Mas de onde vem então essa suposta valorização? A resposta é, salvo algumas exceções – valor artístico, de autor, ou outros do imóvel -, a especulação. Pois, se pensarmos, um imóvel por si só nada, pior ainda quando muito deles estão vazios (25% na pior das hipóteses), nada acrescenta ou produz de valor. Esta afirmação pode ser contestada, dizendo por exemplo que uma habitação traz valor acrescentado por criar mais habitabilidade. Certo, mas se ninguém necessitar dessa suposta mais-valia o imóvel de pouco serve, logo pouco vale.
  Os investimentos dos portugueses tendem muito para o sector imobiliário, dai talvez a razão para a qual o investimento em Portugal, estatisticamente, ser pouco rentável (2) comparado com outros países. Isto pode ser apenas mais uma especulação, mas que será de Portugal quando e se a bolha da especulação imobiliária, ainda que de dimensões não comparáveis à dos EUA, verdadeiramente rebentar e muito do valor investido revelar ser uma mera ilusão? Pior será quando se demonstrar que esse investimento foi, ainda por cima, urbanisticamente desordenado causando insustentabilidade urbana (3)(4). Preocupante será também o excesso de peso do sector da construção civil na economia portuguesa, sector que com a contração na construção contrai diretamente a própria economia.
  Esperemos que o choque possa ser evitado: que todas as habitações vazias possam ser habitadas, que seja evitado o recurso excessivo ao crédito e se recorra mais ao arrendamento (com regras adequadas), e claro, que se regule o sector imobiliário (e se faça efetivo ordenamento dos solos e do território) de modo a que a especulação seja uma área de investimento insustentável.

Referências Bibliográficas:
1 – "Neoliberalismo, um álibi da especulação imobiliária". Pedro Bingre do Amaral. Nº43 da edição portuguesa do jornal Le Monde Diplomatique de Maio de 2010.
2 – “Economia Portuguesa – as últimas décadas”. Luciano Amaral. Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010
3 – “Transportes urbanos e habitação - uma relação indissociável de custos”. Texto do blogue “A Busca pela Sabedoria”, disponível em:
http://abuscapelasabedoria.blogspot.com/2011/05/transportes-urbanos-e-habitacao-uma.html
4 – “As disfuncionalidades urbanas das "Cidades Médias". Texto do blogue “A Busca pela Sabedoria”, disponível em: http://abuscapelasabedoria.blogspot.com/2011/01/as-disfuncionalidades-urbanas-das.html

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Transportes urbanos e habitação - uma relação indissociável de custos

Com o desenvolvimento económico e aumento dos salários e rendimentos dos cidadãos, em geral, vem o aumento do consumo. Este é um dos pressupostos do nosso capitalismo, e uma relação económica patente até no nosso dia-a-dia - quanto mais ganhamos tendencialmente mais consumimos, por mais poupados que sejamos. 

O Ladrão - Fernando Botero
Quer os transportes quer a habitação têm sido produtos/serviços em que se tem exigido - porque efectivamente os queremos consumir - mais, melhor e, quase sempre, maior. Não é preciso ser especialista em história recente, ou até mesmo em automóveis, para notar que os veículos automóveis particulares têm crescido de dimensão em quase todas as classes e categorias - hoje um veiculo familiar é muito mais espaçoso do que um produzido na década de 70. Já no que toca às habitações é também notória a procura por espaços maiores, mais amplos e, em muitos casos, de preferência no modelo de vivenda com quintal e jardim. Se assim não fosse as periferias não teriam crescido ao ritmo exponencial que temos verificado, quer seja em Portugal quer no estrangeiro - notar o exemplo dos EUA.
Estas procuras e vontades por mais e maior, no sector automóvel e imobiliário, têm influenciado muito os custos dos produtos desses sectores e de outros relacionados, sendo o próprio sector público também visado.

Vejamos então as palavras de Daniel Murta na sua obra "Quilómetros, Euros e pouca terra - manual de Economia dos Transportes" que referem essa e outras relações:

"Um aumento de salários tem um efeito ambíguo na dimensão das propriedades: o custo de transporte revela do tempo e o salário é monetário; a subida do salário torna, instantaneamente - por custo de oportunidade - as mesmas casas mais caras, em termos do tempo perdido até elas; que vale mais se forem maiores alargam a cidade tornando-se mais longínquas, logo duplamente mais caras (nominalmente por terem mais m2, e porque ao obrigarem a cidade a crescer e ao ficarem mais longe, têm maior custo de transporte)."

Das palavras do autor saliento o parte final. Saliento  o facto de: havendo procura por casas maiores, que ocupam mais espaço, forçosamente a cidade estende-se mais, aumentando assim os custos de transporte para quem habita nessas casas, pois está, de facto, mais longe de tudo. Ou seja, os custos de transporte aumentam tendencialmente, e aumentam mais ainda se considerarmos que cada vez se procuram também carros maiores que ocupam mais espaço, forçando ainda mais o aumento das distâncias pelo tráfego e necessidades de estacionamento que provocam, logo mais onerosos. Outras perspectiva do aumento destes bens e produtos [automóveis e casas] e a do aumento dos custos para a gestão pública e colectiva. Com cidades cada vez mais extensas aumentam os custos para fazer chegar infra-estruturas (estradas, abastecimento de água e esgotos, electricidade, etc.) tal como os serviços (hospitais, escolas, policia, etc.) a toda a nova cidade excessivamente estendida. Tudo isto sem falar nos custos do próprio solo excessivamente ocupado, especialmente nos impactes ambientais que isso tem, algo que no fundo e a longo prazo tem também impactos económicos.

Dependendo o apuramento do custo de viver num determinado sitio dos custos de transporte e de habitação, sendo o resultado desse apuramento nos centros urbanos principalmente influenciado pelo custo de habitação e nas periferias pelo custo do transporte, num futuro muito próximo muitas famílias poderão ter de voltar a morar "mais no centro", assim que se tornar evidente que em alguns casos a sua procura por maiores casas e automóveis se tornar insustentável, do ponto de vista dos impactos económicos e custos dessas opções - muito devido ao aumento de custo dos transportes.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

As disfuncionalidades urbanas das "Cidades Médias"

A propósito de uma investigação sobre mobilidade e transportes urbanos, peguei num livro que tinha comprado há algum tempo mas que nunca tinha chegado a abrir - ainda cheirava a novo. Comprei-o na altura por me parecer importante pelos conteúdos e pelos próprios autores - nunca se sabe quando se irá precisar de um livro sobre urbanismo.
Refiro-me à obra "Politicas Urbanas - tendências, estratégias e oportunidades", editada pela Fundação Calouste Gulbenkian e da autoria de Nuno Portas, Álvaro Domingues e João Cabral, entre outros colaboradores.
A partida de cartas - Fernand Léger
Estava eu simplesmente à procura de dados ou informações sobre mobilidade em cidades de morfologia urbana e social semelhantes a Leiria e acabei por me deparar com um resumo, por tópicos, das principais razões para a degradação, desorganização e disfuncionalidade que se pode assistir nas Cidades Médias (cidades como Évora, Faro, Guarda, Leiria, Castelo Branco, Viseu, Guimarães, entre muitas outras). Problemas esses que se traduzem em: descontinuidade urbana; desarticulação entre os vários espaços; problemas de mobilidade e congestionamento; descaracterização patrimonial, ambiental e social; falta de espaços públicos e privados de qualidade e de toda uma série de infra-estruturas urbanas dispostas em quantidades desadequadas e de forma pouco harmoniosa e equitativa; entre muitos outros fenómenos isolados ou combinados. É, no mínimo, auspicioso querer encontrar e resumir as causas para tudo isto, mas tendo em causa a reputação académica e profissional dos autores, poucos estariam em melhor posição para poder arriscar algumas explicações. Então decidi eu próprio arriscar e trazer aqui a tentativa do resumo e interpretação dessas mesmas palavras. Faço-o porque entendo  serem pertinentes as palavras dos autores e, mesmo que estas não sejam as derradeiras explicações, porque nos permitem reflectir sobre as possíveis causas do disfuncionalismo urbano que ainda hoje vivemos me Portugal.
Principais causas e razões que nas últimas décadas condicionaram negativamente a realidade urbana das cidades médias:
•    Aumento dos rendimentos e nível de vida que fez crescer o consumo e o aumento da aquisição e uso de veículos automóveis - aumento da motorização. Este aumento de tráfego originou e continua a contribuir para os congestionamentos rodoviários, especialmente em zonas onde as vias de comunicação e demais infra-estruturas urbanas não estão preparadas para o uso intensivo do automóvel - centros históricos por exemplo.
•    O aumento do investimento do Estado em infra-estruturas de serviços públicos (Saúde, Educação, Desporto, Cultura, etc.) que, aliado a baixas de taxa de juro, provocaram um crescimentos vertiginoso do sector imobiliário privado. Os serviços municipais não conseguiram responder a este crescimento súbito e explosivo, a desordem generalizou-se e as zonas de expansão urbana avançaram mais depressa que o ordenamento dos planos e do que a existência das infra-estruturas públicas e serviços públicos que as deveriam servir
•    Falta de articulação entre as Autarquias e o Estado na regulação das pressões expansivas do sector imobiliário que procurava ocupar cada vez maiores áreas, mesmo que sem infra-estruturas e sem atender aos impactos nos meios ambientais e urbanos.
•    Inicio tardio da aplicações das ferramentas de planeamento - por exemplo os PDMs - a um território já muito condicionado, desordenado e destruturado - quase caótico em alguns casos. Mesmo ao nível do traçado das novas vias de comunicação, devido às existências, criaram-se enormes dificuldades em dotar as zonas urbanas de mobilidade adequada e a custos sustentáveis.
•    A própria acção do Estado em construir as suas grandes infra-estruturas em solos baratos e periféricos, contribuindo ainda mais para a descontinuidade urbana e degradação das zonas já consolidadas.
As causas apontadas não surpreendem os mais despertos para os fenómenos associados às expansões urbanas das cidades portuguesas nas últimas décadas do século XX, mas mesmo sendo óbvias ainda hoje há quem as desconsidere a importância da regulação urbana e planeamento dos usos dos solos. As nossas ferramentas - se é que assim se podem chamar - de ordenamento do território e de planeamento urbano não estiveram à altura do crescimento económico e melhoria significativa da qualidade de vida que surgiram com o advento 3ª república - pós 25 de Abril -, foram incapazes de regular e controlar a pressão de crescimento e expansão urbana. No fundo crescemos quase sempre mal, crescemos de um modo insustentável e irreflectido sem ter em conta os efeitos e custos que isso teria no futuro. Hoje a factura chega-nos através da disfuncionalidade da grande parte das nossas cidades. Os custos para liquidar essa factura são agora incomparavelmente superiores ao que seriam se de inicio o planeamento tivesse sido uma realidade - pois é muito mais difícil desenhar algo quando a folha de base já está tão riscada e borratada. Penso não ser errado concluir que para crescer com sustentabilidade não basta liberdade e capital, é preciso também educação e responsabilidade - especialmente respeito e consideração pelo interesse público e pelo bem comum, seja lá o que isso for.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A manutenção da Restauração da Independência de 1640 - a importância do planeamento

Hoje é dia 1 de Dezembro e comemoram-se 370 anos desde a Restauração da Independência nacional face a Espanha (ao império dos Habsburgos ou Filipes como por cá os conhecemos). Em 1640, neste mesmo dia, uns quantos nobres dirigiram-se a Lisboa e fizeram um golpe de estado, atirando o governador em funções pela janela, e declararam Portugal independente de Espanha, após 80 anos de união ibérica. Pouco depois seria coroado o novo rei de Portugal D. João IV e uma nova dinastia governaria um Portugal Independente. No entanto, só foi possível manter Portugal enquanto reino independente depois de rechaçar os Espanhóis na guerra que se seguiria – a Guerra da Restauração
Pintura alusiva ao golpe de 1640 - autor desconhecido
Apesar de Espanha não ter respondido imediatamente a esta revolta com força militar, pois na altura o Império dos Habsburgos estava a braços com outras revoltas (a revolta da Catalunha) e conflitos militares (a Guerra dos 30 anos), mas todos por cá saberiam que, apesar do altura  para concretizar o golpe ter sido a ideal, mais tarde ou mais cedo Portugal seria invadido. Assim que a revolta da Catalunha – que ainda hoje é parte integrante de Espanha – foi esmagada em 1648, e o domínio de Madrid restabelecido, as atenções de Espanha voltaram-se para a reconquista de Portugal.

Mas D. João IV tinha-se precavido. Neste espaço de tempo, que o oportunismo do golpe permitira, consegui levar a cabo uma monumental empreitada nacional – literalmente pôr o país em obras. Conseguiu reconstruir e modernizar muitas das cidades, vilas e fortalezas estratégicas segundo as novas e mais actuais preceitos da arquitectura militar. Num pequeno espaço de tempo transformou muitas muralhas e castelos medievais em verdadeiras praças-fortes, preparadas para resistir contra as mais modernas armas de fogo da época, especialmente contra a artilharia que tinha tornado as antigas defesas medievais obsoletas. Os antigos muros e torres foram convertidos em balcões com guaritas, bastiões e revelins. Foram criados complexos fossos em volta das fortificações. O poder da artilharia que fazia cair e desmoronar em horas as muralhas medievais que aguentaram séculos de conflitos bélicos tinha de ser parado - e foi-o na prática. 
 
 A nova arquitectura militar era revolucionária em muitos aspectos. Os muros eram mais baixos e muito mais espessos, em taludes de terra compactada com revestimentos de alvenaria de pedra ou tijolo. O traçado gerai, visto em planta, dava origem a irreverentes e intrincadas figuras geométricas, simétricas e regulares com muitas saliências e ângulos  proeminentes. Os muros em escarpa inclinada, ao contrário dos ângulos rectos verticais das muralhas medievais, e os bastiões, que em profundidade quebravam a monotonia das muralhas com os seus ângulos agressivos, permitiam que as balas dos canhões atacantes fizessem ricochete. Estas características das construções, conjugadas com fossos, que dificultavam o avanço de quem pretendia atacar estas novas defesas, e com a  correcta disposição da artilharia defensiva, criavam um mortal fogo cruzado que esmagava todos aqueles que tentassem um ataque frontal. Isto era possível mesmo recorrendo a poucas baterias e soldados.
Planta de nova brisach - Le prestre de Vauban
Foi, em parte, devido à capacidade de planear e executar estas magnificas obras de engenharia militar - que hoje ainda podemos contemplar em locais como Almeida, Valença, Elvas, entre outras cidades e vilas - por parte da nova administração de Portugal, tendo em vista e antecipando os problemas do futuro, contribuíram muito para manter a independência de Portugal perante um avassalador poder militar de um dos mais poderosos Impérios da época.

Fontes:
A Grande História da Cidade - Charles Delfante
História da Guerra, mapas da história - Ian Drury
Os mais belos castelos de Portugal - Júlio Gil
The Art of War, war and military thought - Martin Van Creveld 

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



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