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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Uma Simplificação Arriscada de Lipovetsky: Um Filósofo das Coisas Banais e da Nossa Vida Atual

Lipovetsky é um filósofo francês, conhecido conferencista, escritor e professor na Universidade de Grenoble.

Participou nos movimentos culturais e intelectuais do Maio de 68 em França, mas desde logo ultrapassou o marxismo para definir novas orientações e maneiras de interpretar o mundo. É o próprio que diz: “Só os idiotas nunca mudam de opinião”.
 
Fonte: http://www.lenouveleconomiste.fr/
É um dos mais famosos e importantes filósofos contemporâneos. Muitos consideram-no um “átomo livre”, um pensador polémico que não hesita em desconstruir a filosofia dos filósofos para a aproximar das pessoas e da actualidade.

Tem-se destacado pela reflexão sobre o mundo contemporâneo, mais concretamente nos temas do individualismo, liberdade, consumo, moda, mercados e outros. Em geral, tem-se dedicado ao estudo do capitalismo e seus efeitos positivos e negativos. Ao contrário de outros filósofos, Lipovetsky parece gostar de tratar as coisas banais, para desconcerto de muitos.

Tem imensas obras publicadas, quase todas traduzidas para português, sendo utilizadas quer por curiosos quer pelos meios académicos. Referem-se então, de um modo quase criminosamente simples, algumas das suas reflexões.

Na “Era do Vazio” e “Império do Efémero” lembra as características das sociedades de consumo capitalistas onde pouco persiste, quase tudo é efémero, gerando-se o vazio entre o frenético da novidade.

Em “O crepúsculo do dever” fala das modificações dos sentimentos de dever, do individualismo no confronto das sociedades com as tradições impostas.

Em “Os Tempos Hipermodernos” defende a tese de um novo termo ("híper") para definir esta nossa época de excessos, do “híper tudo”, do híper consumo, das híper relações, do híper mediatismo da informação.
Na “Sociedade da deceção” refere-se à desconstrução social operada pelo capitalismo, da ilusão individual do tupo poder em potência, mas do, aparentemente, quase nada conseguir para muitos nas sociedades ocidentais (hipermodernas).

Em todas estas obras, e em muitas não outas não citadas, estão sempre presentes os temas da liberdade, individualismo e o fim último que é a felicidade. O capitalismo, apesar de poder parecer, não é demonizado, mas expiado. Se traz malefícios também se relaciona com a democracia e liberdade.
 
Para Lipovetsky, sem capitalismo não há consumo, não há democracia nem liberdade, estando tudo relacionado. É a liberdade - sem juízos de valor associados ao termo - que gera todos esses excessos e híper novos estados e estádios da condição humana. Querer mudar isso é atentar contra a própria liberdade. Mas alerta que nada disto é um fatalismo. A humanidade pode continuar a ser uma comunidade social com projetos comuns, simplesmente só o será e terá tais projetos se em liberdade os pretender.
 
Se o capitalismo é expiado será para lhe fazer a apologia de ser o motor da liberdade e da democracia, através do consumo. Esta opção gera um paradoxo intencional: a crítica do "turbo capitalismo" que desequilibrou o poder entre Mercados e Estados. Lipovetsky também crítica esta mudança, não desligando da sua matriz marxista, pedindo um novo equilíbrio para afinal, como bem identificou: garantir a liberdade e felicidade humana.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Decifrando o Estado Islâmico - Um documentário sobre propaganda contemporânea


Dos muitos documentários que atualmente passam nos canais da especialidade em Portugal, infelizmente poucos são os que merecem ser vistos. Mas, felizmente, há sempre exceções. Uma delas é documentário “Decifrando o Estado Islâmico”, exibido no canal Odisseia, da autoria de Riccardo Mazzon, Antonio Albanese e Graziella Giangiulio.


Muitos programas falam do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Daesh), mas este documentário ganha especial interesse. Isto porque exibe informações, muito pouco conhecidas, sobre o modo como funciona a propaganda do Daesh, algo que não chega ao comum espectador ocidental.

A máquina de propaganda do Daesh é profissional, produzindo conteúdos em vários formatos. Os vídeos são chocantes, não tanto pela violência que exibem, mas pelo simples facto de existirem e e retratarem situações reais. Ou seja, a máquina de propaganda do Daesh é incrivelmente forte e sofisticada no modo como alia a técnica à mensagem. Recorrem a técnicas cinematográficas vistas em filmes de qualidade mundial, tudo feito para criar impacto e dimensão épica. Utilizam as mesmas ferramentas do marketing e comunicação utilizadas no ocidente para fomentar o consumo e entretenimento. Utilizam esses meios aplicados ao terror.

Ao contrário do cinema, que tenta simular a realidade, a propagando do Daesh usa a realidade para simular o cinema de acção épico, criando imagens poderosas. Só vendo para acreditar. Mas esses conteúdos, talvez corretamente, são censurados no ocidente, pois servem efectivamente para recrutar jovens ocidentais susceptíveis à sua mensagem. Publico não faltará, uma vez que nas sociedades pós-modernistas os valores estão em contante reformulação e por vezes é difícil definir uma identificação colectiva e individual. Os efeitos do capitalismo consumista e individualista e das políticas falhadas de integração social contribuem também por sua vez para o problema em causa. Misturando os ingredientes da susceptibilidade dos jovens, do seu desenraizamento, da falta de perspetivas de futuro, de uma busca por identidade e sentimento de pertença, fervor religioso, necessidade de realização e glória pessoal, tal como o efeito da cultura de filmes e jogos de vídeo violentos, criam-se as condições para o jihadismos se desenvolver.

A geopolítica, a história e a religião explicam por sua vez também as razões de existirem territórios e momentos próprios ainda mais propícios para o extremismo islâmico ocorrer. Isso daria, como é óbvio, muito mais que escrever.

Assim , do documentário, pode concluir-se que o Daesh tem usado os meios audiovisuais, as redes sociais e outras ferramentas próprias do mundo ocidental, da seu capitalismo, liberalismo e democracias para derrotar o seu inimigo: o próprio Ocidente.

Dificilmente poderá haver uma solução para este problema enquanto continuarmos a ver o problema somente segundo a matriz de valores do ocidente., ainda mais se de modo sectário.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Memória e identidade – Interrelação entre o colectivo e individual

Nas sociedades contemporâneas pós-modernistas, tendencialmente liberais, inseridas no fenómeno de mundialização, apesar das forças homogeneizantes das identidades culturais, persistem as diferenciações associadas a grupos sociais e espaços territoriais (Lacroix, 1999).

Para falar de identidade será necessário começar por definir o que é a memória, pois todas as identidades existem, persistem, mudam, constroem-se, reconstroem-se e reinventam-se (Cuche, 2006), apesar de serem imateriais, nas memórias dos indivíduos. É nesse ambiente, e involucro, que são depositadas, sem que essa deposição seja permanente e estanque.

Segundo a psicofisiologia, existem memórias de curto (MCP) e longo prazo (MLP). Sendo que as MCP relacionam-se mais com a operacionalização de raciocínios imediatos (João, 2010), são às MLP que sistematicamente se recorre para enquadrar as cognições, comportamentos valorativos e atitudes. Esses valores éticos e culturais contribuem para a definição de identidade. Apesar da MCP operacionalizar a prática identitária dos indivíduos, será a MLP que mais a define.

Retrato da Memória - David Szauder
 
Já se referiu que as sociedades pós-modernistas, ou hipermodernas como refere Lipovestky (2010), são profundamente individualistas. Se a identidade coletiva só existe na individualidade dos sujeitos (Cuche, 2006) então dificilmente teremos identidades coletivas unitárias. Entramos na “multi-identidade”, própria das sociedades livres, pois aí, ao contrário dos totalitarismos culturais, cada indivíduo tem considerável liberdade de associação identitária a grupos reais ou mais ou menos imaginários. No entanto, o fator de influência do meio continua a ser relevante e de não descurar. Apesar do individualismo, de modo algum ficam em causa os processos coletivos de identificação ou a identidade coletiva. Ocorrem tanto ou mais, mas agora desenvolvem-se em liberdade, pois são os indivíduos que os escolhem e assumem, pelo menos na parte em que são livres de o fazer. A definição de identidade individual complica-se ainda mais se considerarmos que cada indivíduo assume vários papéis sociais na sua vida, muitos em simultâneo também. Assume várias identidades. A estruturação das identidades coletivas, cada vez mais voláteis, liga-se assim às mutabilidades das sociedades humanas.

Esta dificuldade de definição de identidades no mundo globalizado leva a que sejam os próprios indivíduos a querer olhar para o passado, para a memória (histórica ou mítica) como modo de encontrar identificações pessoais, para garantir algum tipo de sentimento de pertença coletiva (Rodrigues, s.d.). Assim procura-se a tangibilidade trazida pelo património, que pode ser material ou imaterial. Essa necessidade pode recorrer mais à memória coletiva, que é menos estruturada, mítica e não localizada com precisão temporalmente, ou a uma visão mais estruturalista e científica da história (Le Goff, 1984). Esta distinção técnica pode não ser consciente por parte dos indivíduos. Na era da liberalização da informação e do poder de comunicação dos Media, a informação tende a ser produto de consumo, sendo que cada indivíduo será sujeito a essa análise, mesmo que inconscientemente. Essa liberdade contrasta com a ação tradicional dos Estados-Nação, tão ávidos de garantir a coesão social e étnica dos seus espaços territoriais pro razões políticas. Hoje são os próprios indivíduos a reconstituirem as suas árvores genealógicas, arquivarem as suas fotografias e outros registos.

Assim, os conceitos de memória coletiva e individual estão estritamente ligados, pois dificilmente existirá um sem o outro, apesar de todas as forças uniformizadoras exógenas aos indivíduos. As identidades resultam de ambas as memórias, apesar de se puder considerar que, mais que nunca, os próprios indivíduos têm a necessidade em se identificarem a si e aos grupos a que pertencem, também eles de limites difusos e mutáveis.

Algumas referências bibliográficas
  • CUCHE, Denys - A noção de cultura nas ciências sociais, Lisboa: Fim de Século, 2006.
  • JOÃO, Maria Isabel - Memória, História e Educação. Noroeste. Revista de História, 1, Braga: Universidade do Minho, 2005.
  • LACROIX, Michel - O Princípio de Noé ou a ética da salvaguarda, Lisboa: Instituto Piaget, 1999.
  • LE GOFF, Jacques - Memória. In Enciclopédia Einaudi. vol. 1, Lisboa: Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1984.
  • LIPOVETSKY, Gilles - Os tempos Hipermodernos. Lisboa: Edições 70, 2013.
  • RODRIGUES, Donizete - Património cultural, Memória social e Identidade: uma abordagem antropológica.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Hipermodernismo hiper resumido

Na cama - Ron Mueck
Lipovertsky, como poucos filósofos contemporâneos, fala em linguagem do nosso tempo para o nosso tempo. Claro que não resiste à caracterização e utilização de termos sociológicos e filosóficos. Usa o termo "Hipermodernismo" para distinguir estes nossos tempos do "Pós-Modernismo". Os tempos "hipermodernos" não são um "pós-pós-modernismo", mas sim um "Pós-modernismo" exacerbado, exagerado e potenciado.
 
Então, de um modo muito simples, o hipermodernismo é próprio das sociedades democráticas e liberalizadas da mundialização. São as sociedades em rede, de complexas relações e interrelações mas onde o individualismo se reforça. É a era do "híper" tudo. Da velocidade, do imediato e do fugazmente intenso. Dá-se o primado do individualismo e do consumismo.
 
No entanto, nem tudo é, supostamente, negativo. Os indivíduos híper reforçados pela sua hiperliberdade são guiados por um novo modelo hedonista. Procuram os prazeres e a felicidade. Nada disso significa o fim dos projetos coletivos, mas a adesão a esses projetos só ocorre em liberdade, sem os ditos indivíduos os valorizarem e considerarem benéficos. O hedonismo liga-se à solidariedade e ao prazer do envolvimento nas causas nobres, geradoras de felicidade.
 
Mas estas liberdade e individualismo também geram frustração e deceção, tal como Lipovetsky refere na sua obras "Sociedade da Deceção". A liberdade tem estes paradoxos e os tempos "Hipermodernos" são complexos e vertiginosos.


Referências bibliográficas:
  • Lipovetsky, Gilles. "Os tempos hipermodernos". Lisboa: Edições 70, 2011.
  • Lipovestky, Gilles. "A sociedade da deceção". Lisboa: Edições 70, 2012.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Quando os Media formam consumidores em vez de cidadãos

Existe, desde há alguns anos para cá, uma tendência para o esvaziamento das entidades que tradicionalmente exerciam poder sobre indivíduos e sociedades (Naim, 2014). Essas instituições, políticas, religiosas, corporativas, cívicas e etc., têm perdido o seu peso nas sociedades contemporâneas. No caso das democracias isso traz um problema considerável, pois é a própria sociedade civil que perde (Levine, 2002). Nessa perda de poder há um acentuar de perda nos grupos de pressão, especialmente dos defendiam os mais desfavorecidos e impotentes, habitualmente defendidos por congregações religiosas, partidos políticos e sindicatos. Há que lembrar também Tocqueville (2001), quando demonstrou que era nessas instituições cívicas que se formava a massa humana crítica e ativa que tornavam uma democracia sadia.
Michael Jackson e Bubbles - Jeff Koons
Um outro aspeto curioso passa pelo falhando do efeito cívico previsto para o crescimento da generalização da educação. Muitos dos poderes tradicionais referidos foram-se esbatendo, direta e indirectamente, pelo crescimento da liberdade individual aliada à universalização da educação. No entanto, esse alargamento da escolarização em quantidade e qualidade, não se transformou em reforço da participação cívica e na melhoria das democracias, isto ao contrário do que muitos previam (Ginsborg, 2008). Apesar desse imprevisível marasmo cívico, não significa que as sociedades contemporâneas sejam incapazes de mobilização por causas particulares. Existem mesmo casos de mobilização massiva, especialmente amplificada pelo acesso à Internet. Mas esse envolvimento cívico assume, muitas vezes, contornos efémeros e pontuais, e não uma atitude continuada que faça parte da vivência quotidiana. 

Curiosamente, nesta derrocada de poderes tradicionais os menos afectados têm sido os económicos, especialmente os de grande escala. As sociedades são cada vez mais consumistas, propensas à busca pela constante novidade material. Entra-se assim numa fase de consumismo e individualismo exacerbado. Essas entidades económicas têm saindo reforçadas e continuam a marcar a sua posição de dominância, contribuindo para fabricar a cultura de massas e o consumismo a ela associada. A vida familiar está impregnada destes valores. Não será de espantar, pois os meios de difusão cultural e informativa – os Media – são controlados pelos tais grupos económicos, interessados no reforço das tendências consumistas. O caso da televisão é o mais marcante, por ser o principal instrumento de difusão cultural familiar. Especialmente por esse meio vão-se formando e reforçando consumidores e não cidadãos. A televisão pretende entreter e não formar. Interessam as audiências e o consumo de determinados produtos e serviços. Parece não importar formar cidadãos com consciência política cívica e democrática (Ginsborg, 2008).


Tendo em conta este estado de coisas, não é estranho o afastamento entre o exercício da cidadania política e os valores e hábitos que se ganham através da cultura familiar. No entanto será interessante perceber os efeitos do reforço do individualismo na procura de entretenimento, especialmente porque o uso da Internet – que é um espaço muito mais livre – vai alastrado e porque a televisão também está a evoluir para formatos mais costumáveis em que se pode escolher o que ver e quando.
 
Referências bibliográficas
• Ginsborg, Paul. “A Democracia que Não Há - O que fazer para proteger o bem político mais precioso dos nossos tempos”. Editorial Teorema, 2008.
• Levine, Peter. “Can the Internet Rescue Democracy? Toward an On-line Commons. Democracy’s Moment: Reforming the American: Political System for the 21st Century”.Lanham, MD, Rowman & Littlefield. 2002.
• Naim, Moises. “O Fim do Poder - Dos campos de Batalha às administrações, aos Estados e às Igrejas. Porque ter poder já não é o que era”. Gradiva, 2014.
• Tocqueville, Alexis de. “Da Democracia na América”. Princípia, 2001.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Introdução à morfologia da cidade islâmica – Religião e demais influências na criação da cidade privada

No versículo 4 do capítulo XLIX do Corão podemos ler o ensinamento: “O interior da tua casa é um santuário”. Esta passagem explica o porquê das formas diferentes e particulares da cidade islâmica tradicional. O urbanismo orgânico e sem plano destas cidades caracteriza-se pelas ruas estreitas, tortuosas, com quebras visuais de continuidade, cheias de cotovelos e becos sem saída. As fachadas das habitações são minimizadas, austeras e, por vezes, quase inexistentes. Não são raras as vezes em que existe apenas uma porta, ou um portão, forte e resistente. Existem muitas passagens inferiores, zonas menos iluminadas e edifícios que crescem nos pisos superiores cobrindo as ruas. As ruas são, em muitos casos, apenas corredores utilizados para deslocações entre um ponto e outro, sem a vida e arquitetura de cariz público das restantes cidades. Os espaços realmente públicos são diminutos, especialmente os mais amplos. Mesmo o bazar situava-se numa das portas das cidades, na sua envolvência e não numa praça como as cidades de influência greco-romana. Somente na mesquita se situam os grandes pátios amplos.
 
Mulheres no Casbah de Argel - Marie Berton-Maire
São várias as razões para estas características. Primeiro que tudo será a influência religiosa. Evita-se a ostentação exterior, pois todos serão iguais perante Alá. A ostentação, riqueza e vida volta-se para o interior das habitações. É nos pátios que o edifício recebe a luz que combate a insalubridade. É ai que se vive em sociedade, na privacidade de cada lar que é sagrado. É ai que florescem as magníficas decorações e crescem os jardins interiores de influência iraniana. As próprias ruas criam a sensação de privacidade e segurança dos olhares indiscretos, sempre reforçada pelas casas-fortaleza e suas austeridades externas.

Dança de Harem - Giulio Rosati
O facto da expansão dos primeiros impérios islâmicos ter sido tão grande e avassaladora criou um choque de culturas, apesar da grande capacidade adaptativa dos primeiros islamitas. Na prática tratou-se de uma cultura não urbana que ocupou grandes metrópoles urbanas, próprias do mediterrâneo e médio-oriente. Foi a partir dai que o islão se foi urbanizando segundo a sua cultura própria, sobre a ruina das conquistas. Dai a falta de planos e o urbanismo orgânico das cidades islâmicas. Não podemos esquecer que o avanço do islão beneficiou do conflito e desgaste entre Império Bizantino e Persas Sassânidas, enfraquecidos pela guerra constate, tendo ocupado os seus territórios, caracterizados por contarem zonas altamente urbanizadas.
Por fim, o efeito do clima. É evidente a utilização de uma estrutura urbana própria de climas tórridos, onde importa, acima de tudo, garantir sombras e zonas de descanso.

Haveria muito mais a dizer, mas fica uma primeira introdução que pretende dar alguma luz sobre o modo como se definiram as cidades islâmicas e a sua influência nas restantes cidades por onde essa civilização passou (o caso de Portugal por exemplo).
 
Referências bibliográficas:
Goitia, Fernando Chueca; "Breve História do urbanismo", Editorial Presença, Lda., Lisboa, 1989.
Keegan, John; "Uma história da Guerra", Tinta da China, 2009
Mumford, Lewis; "A Cidade na História", Martins Fontes, S. Paulo, 1998

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

George Orwell, 1984, Marx, Materialismo e o perigo do Totalitarismo

Tanto se poderia dizer sobre a obra 1984 de George Orwell - pseudónimo de Eric Arthur Blair. Trata-se da obra que elevou o conceito de ficção social – ou distopia - a um patamar de genialidade. A obra é fortíssima, capaz de impressionar o leitor e o força-lo a pensar, sobre si e sobre a sociedade em que vive, sobre a história, a política e o mundo em geral.
Queria salientar três curiosidades desta obra, que se sentem com a leitura e que a prolongam para outros caminhos.
Cartaz contemporâneo do lançamento de 1984 alusivo ao Big Brother
 
Primeiro, o final do livro é descrito de uma forma incrivelmente realista, forte e tão credível que podemos ficar quase incomodados, numa relação direta com os últimos anos de vida do autor, que escreveu o livro em contrarrelógio. Orwell sofria de tuberculose e temia não terminar a obra. Talvez só por isso a obra tenha a força final que tem.
Segundo, algures no livro, num dos excertos citados em leitura pela personagem principal, encontramos uma descrição bastante simples e útil para a compreensão das teorias marxistas, da luta de classes e do materialismo histórico e da dialética marxista. Concordando-se ou não com Marx, a sua obra filosófica é importantíssima para compreender a história contemporânea, e a própria humanidade. Orwell explica muito bem, através de um excerto citado na sua obra de um outro escrito ficcional, aquilo a que Marx chamou a “luta de classes” pelo “controlo dos meios de produção”, de como as classes imediatamente abaixo da dominante (“medias” ou outras) fizeram revoluções para tomar o poder ao longo da história, criando ciclos de revoluções que levaram à mudança social. Essa luta pelo poder coincidia com a luta e procura do domínio dos meios de produção (“a riqueza”). Isto ajuda a compreender também a dialética marxista, ao fundamentar o constante confronto pelo domínio material como o motor para todas as mudanças nas sociedades humanas (sociais, culturais, religiosas, etc.).
Terceiro, o livro avisa (urgentemente) para os perigos do totalitarismo, de como pode desumanizar a própria humanidade, com homens e mulheres vivendo vidas esvaziadas de sentido sem liberdade para se realizarem individualmente. Esta mensagem continua muito atual, ainda que felizmente as “quase profecias” catastróficas de Orwell felizmente não se tenham vindo a concretizar.
Há que lembrar que 1984 é publicado em 1949, período em que a Europa estava seriamente ameaçada pelo avanço soviético de Estaline, em que na China chega ao poder Mao Zedong e que, apesar da vitória dos aliados e da democracia na europa ocidental, por todo o mundo brotavam governos autoritários. Orwell, apesar de escrever uma ficção, tem a capacidade de não misturar a teoria do materialismo histórico e a dialética marxista com os totalitarismos o geral. Talvez assim se perceba o porquê de Orwell se ter voluntariado para a guerra civil de Espanha como soldado contra o fascismo totalitarista de Franco, atitude que conciliou com as suas supostas tendências marxistas não totalitaristas – que podem ser vistas (ou não) como um contrassenso, uma vez que Marx defendia a necessidade da ditadura do proletariado como estágio intermédio antes de se chegar ao comunismo ideal.
Muito mais haveria para falar do autor e da sua obra – por exemplo que é dela que nasce o conceito pernicioso de “Big Brother”, da sociedade do controlo informativo total em rede em tempo real.
Em sumula, diria que se trata de uma ficção social com forte pendor filosófico e de ligação a quase todas as ciências sociais. Seja como for, 1984 é uma obra indispensável, muito importante para a formação cultural e cívica individual.
 
Referências bibliográficas gerais:
Uma busca pela wikipédia é suficiente para a generalidade dos conceitos, sendo que são tratados de modo introdutório e resumido simplificado para enquadrar a obra 1984:
Referências Bibliográficas mais aprofundadas:
  • Engels, Friedrich; Marx, Karl; "Manifesto do Partido Comunista", Edições Avante, 2011.
  • Marx, Karl; "O Capital", tomo I, II e III, Edições Avante.
  • Orwell, George; "1984", Antígona, 2007
  • Rémond, Réne; "Introdução à história do nosso tempo - Do antigo regime aos nossos dias", 1994.

domingo, 8 de junho de 2014

Uma Antologia Filosófica sobre o Trabalho

Começo já por avisar que este texto vai ser muito longo, pois é quase uma mini-antologia filosófica sobre o trabalho, embora possam faltar muitas teorias e pensadores. Então aqui vai.

De um modo geral, os antigos filósofos gregos desprezavam o trabalho físico. O trabalho, por surgir de uma necessidade física, era uma prisão, logo uma limitação e um atentado à liberdade. Só assim se compreende como nessas suas sociedades as elites intelectuais se tenham desenvolvido mantendo uma dependência tão grande do esclavagismo. Ou seja, a verdadeira liberdade só começava quando garantidas as necessidades mínimas, pelo que todo o trabalho que constituísse uma obrigação era para eles negativo. As atividades sublimes seriam as que não dependessem dessa obrigação básica, o que é contrário a toda a organização e estruturação laboral: contrária a horários, hierarquias, a responsabilidades definidas de produção e a vencimentos.


Angelus - Jean-François Millet
Por exemplo, para Platão, um artesão arriscava a falsidade, pois era um imitador da natureza (direta ou indiretamente), realidade essa que era também uma imitação da verdade, e não a verdade propriamente dita. Logo o trabalho, de criação e produção, era uma imitação de uma imitação, uma sequência de falsidades e defeitos replicados, em suma: um distanciamento da verdade evitável. A verdade e a beleza que só podiam ser atingidas através do imaterial, do conhecimento intelectual e do espírito. Esta visão teve impactos imensos na maior valorização posterior do trabalho intelectual face ao trabalho físico.

Aristóteles, por sua vez, distinguiu que a criação não era por si só negativa, pois não era uma imitação da realidade (que por sua vez era uma imitação da verdade – segundo a visão platónica). Para ele o artífice poderia remisturar a realidade, para atingir um trabalho benemérito. O artífice poderia criar o belo através da suar arte e engenho. Definiu assim quais os trabalhos que poderiam ser dignos, mas, de um modo geral, foi sempre a dimensão intelectual, onde a poética assumia muita importância, que continuou sendo a mais digna atividade do desenvolvimento humano.


Para além desta influência grega surge uma outra influência que marcará toda a nossa história: a cultura judaico/cristã. Será dos escritos sagrados fundamentais dessa corrente religiosa, seja em que versão for, que surge a ideia de um Deus trabalhador, que construiu o mundo. O mesmo Deus que, depois da desobediência de Adão e Eva – como os primeiros humanos –, os castigou com a expulsão do Paraíso, e dai em diante passando o castigo de depender do trabalho como forma de subsistência a toda a humanidade. Assim, toda a história das comunidades de origem judaico/cristãs centraram a sua cultura no trabalho, na noção de castigo divino, de obrigação até ao fim dos dias como algo incontornável, mesmo que essa noção negativa do trabalho estivesse apenas indiretamente presente na vida dessas comunidades, e da qual a nossa é herdeira.


Na época medieval o trabalho continuou a ser um sinónimo de penitência, basta relembrar que as classes privilegiadas - a nobreza - estavam proibidas de trabalhar, e que algumas formas de monaquismo visam o labor e a oração – ora et labora -como os únicos caminhos para a salvação, trabalhando o corpo e a alma. Pode-se dizer que foi São Tomás de Aquino quem nessa altura mais contribuiu para redefinir a ideia de trabalho, e de o expurgar de algum do seu valor negativo, reforçando que o trabalho poderia ser benéfico, incluindo até o comércio, quando desse frutos a toda a comunidade cristã.


Vários pensadores e filósofos, uns mais de ação intelectual outros geradores de novas realidades sociais – como por exemplo os iniciadores das cisões no cristianismo ocidental – foram desenvolvendo, por sua vez, pensando em toda a população e não apenas na vida dos mosteiros, a ideia de que o trabalho não era uma penitência degradante, mas uma forma útil de obter a salvação, e que a criação de riqueza poderia ser um sinónimo do bom trabalho do corpo e da alma. Não foi por acaso que Max Weber, no século XIX, relacionou o Protestantismo com o Espírito do Capitalismo, mesmo que outros se tenham servido de outros exemplo para relacionar o capitalismo com outras confissões religiosas e até outras razões.


Mas foi no século XVIII que se assumiu verdadeiramente a obtenção de riqueza como algo digno, e logo também do trabalho, contrariando muita da tradição cristã que abominava a acumulação de riqueza, fosse por que meio fosse. O principal autor conceptual, que redigiu essas ideias, foi Adam Smith. Para ele: “o trabalho era a única medida real e definitiva que poderia servir, em todos os tempos e em todos os lugares, para avaliar e comprar o valor de toda as mercadorias”. O trabalho constituiu-se como algo instrumental e abstrato, e a sua essência era o tempo. O trabalho não era senão aquilo que produzia riqueza. Para cientificar a noção de trabalho Malthus restringiu-o à produção de bens.


Voltando uns anos atrás, foi Locke que definiu o trabalho como símbolo da autonomia individual, na medida em que graças a ele o individuo se tornava capaz, pelo simples exercício da suas faculdades próprias, de satisfazer as suas necessidades negociando livremente o lugar que essas faculdades lhe permitiam obter na sociedade. O trabalho é então visto como uma capacidade da qual o individuo dispõe livremente e cujas condições de venda, estipuladas numa convenção resultante de um ato livre, negocia com um empregador. Deste modo surge a novidade da época: a liberdade do trabalhador decidir a quem presta os seus serviços, ficando para sempre em causa as antigas estruturas sociais de ordens, o feudalismo e as relações pessoais de dependência imutáveis. No entanto, o mundo estava longe de garantir igualdade na nova liberdade que se criava conceptualmente, pois as relações entre trabalhador e empregador (ou solicitador de trabalho) estavam longe de constituir uma igualdade entre pares.


O trabalho passou a ser a nova relação social que estruturou as sociedades ocidentais, no mesmo sentido em que o individualismo se assumia sem rodeios, embora fosse um conceito tão antigo como as religiões do livro ao defenderem o “livre arbítrio”. O trabalho assalariado desembaraçou-se das relações tradicionais de dependência pessoais, baseadas no parentesco, no sangue e no nascimento. Criou-se uma nova liberdade, mas, ao mesmo tempo, um novo condicionamento.


Por falar em condicionalismo à liberdade individual, será útil voltar novamente um pouco atrás. Ao assumir-se a noção de individualismo e do poder de ação do Homem, colocaram-se em causa as Leis Naturais imutáveis. Hobbes demonstrou que são os indivíduos os criadores das suas próprias leis, para si e por si; que se submetem a uma determinada autoridade por necessidade e medo. Assim também foi o mesmo para o trabalho, com o trabalhador submeter-se, em liberdade individual, a um empregador em troca de pagamento, formando uma nova lei e compromisso. Curiosamente, isto não era muito diferente do feudalismo, quando essa condição não era hereditária, e cada indivíduo podia decidir a quem prestar vassalagem. Seculos depois, Hegel aprofundou a ideia de que é o Homem quem faz a sua história – coisa que hoje nos parece obvia. Partindo de Hegel, Marx diz que o homem não pode existir de outro modo que não trabalhando, construindo a seu percurso, inspirando também no humanismo de Bacon – esse pensador que converteu, através da ciência e da razão, o medo em energia positiva. Para Marx, o verdadeiro trabalho era uma necessidade consciente visando fazer do mundo natural um mundo humano. Assim, o trabalho era a manifestação maior da individualidade, mas também constituiu o meio interior pelo qual se realiza a verdadeira sociabilidade. É através dele que se realiza a troca recíproca daquilo que cada um é verdadeiramente, ao colocar qualquer coisa de si no produto que faz e que troca por outros bens e serviços entre iguais.
Por sua vez, e na senda de Marx, Louis Blanc defendeu que o trabalho seria o veículo da realização do individuo e da garantia da felicidade, uma vez que o trabalhador, do ponto de vista ideal, faria exatamente o que gostaria, por no seu trabalho estar parte de si, do seu génio criador, que o realizaria e lhe traria então a felicidade. Esta visão utópica entrou posteriormente em choque com organização do trabalho taylorista/fordista, com a linha de montagem a contribuir para aprisionar qualquer eventual realização pessoal, criatividade e manifestação individual do trabalhador sujeito a esses princípios de produção. A standardização veio impossibilitar que uma parte importante do trabalho fosse criativo, e capaz de realizar aqueles para quem essa dimensão era essencial, mas pode muito bem ter trazido felicidade a outros espíritos, embora não se coadunando muito com a liberdade do espírito humano.


Por outro lado, o consumismo constituiu-se também como outra eventual prisão para quem fazia depender a sua subsistência do trabalho. O individualismo, em conjugação com o consumismo, criou uma nova armadilha. Para Hanna Arendt, o Homem moderno ficou escravo do trabalho por própria vontade, na incessante busca pelo enriquecimento urgente, aquele que nos torna pobres porque desaproveitamos a qualidade de vida no geral, e as outras dimensões da vida não produtivas que nos tornam humanos (cultura, religião, etc.). Também Heidegger vê no advento dos tempos modernos a redução das múltiplas relações que o homem mantinha com o mundo (relações de escuta, contemplação, e de ação) a uma só, a da produção-consumo. Desse modo, o trabalho como laço social é também muito redutor, pois obrigaria a traduzir toda a dimensão humana a uma relação de troca, de bens e de serviços. Segundo Hans Jonas, o capitalismo parece ser a forma mais eficaz e rápida de valorização, apoiando-se no interesse em que cada um tem em valorizar as suas capacidades, a fim de delas extrair benefícios. Isto, sem dúvida, é uma forma muito redutora de humanismo, e de vivência do individuo em comunidade. As nossas atividades humanas, felizmente, estão longe de apenas se traduzirem em produção para ganhos individuais. Se assim não fosse: a fraternidade e solidariedade seriam conceitos vazios, se bem que estão longe de ser universais.


Apesar de toda a nossa atual capacidade de acumular riqueza, e todas as possibilidades que o capitalismo em liberdade total permitiu, o Homem está longe de ser feliz. Lipovetsky argumenta que a decepção das sociedades contemporâneas, hiperconsumistas, provem da noção de existência da liberdade total de cada um se realizar pessoalmente, mas que, apesar de tudo, a felicidade continua por alcançar. Ou seja, não havendo barreiras evidentes à felicidade instala-se a frustração quando os indivíduos não a conseguem atingir, pois deixa de haver uma solução evidente ou desculpa para ela não chegar. Aqui há também um paralelismo com o desejo de ter e fazer o trabalho de sonho, aquele que realize e potencie individualmente cada pessoa.


Assim, depois de este longo texto podemos ver que a noção, definição e valor do trabalho estão longe de ser imutáveis, e até podemos dizer que a noção actual de trabalho foi, em parte, inventada no século XVIII. De qualquer dos modos, tome o futuro o rumo que tomar, será difícil conceber nele sociedades onde o trabalho seja secundarizado, mesmo que muitos trabalhos passem a ser feitos por maquinaria e tecnologia, pois novas formas de trabalho estão sempre a surgir. Mais que tudo, penso que importa, não sermos escravos do trabalho, mas usar o trabalho como garante da nossa felicidade.


Referências bibliográficas

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Troikocracia, Weber e o Marquês de Pombal - segundo Miguel Pereira Lopes

Tendo eu ido a assistir a uma conferência sobre Poder Autárquico fiquei surpreendido com uma das intervenções dos palestrantes, pois surgiram várias referências a Max Weber e ao Marquês de Pombal com o intuito propositado de controvérsia e reflexão crítica. Por isso, pareceu-me interessante referir aqui algumas das palavras de Miguel Pereira Lopes, professor no ISCSP - Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa, proferidas nessa conferência.

1.º Marquês de Pombal - Louis Michel Van Loo
 
Então o nosso palestrante defendeu que a boa governação se dava através da Troikocracia, que, segundo Max Weber, deveria resultar do equilíbrio de três poderes:
  • Poder Carismático – associado ao poder político, dos líderes políticos, suas capacidades mobilizadoras e seu espírito visionário e inovador (“que faz sonhar”), resultantes na nossa época contemporânea do sistema democrático.
  • Poder Tradicional – associado à tradição e hábitos sociais, convenções e outros.
  • Poder Legal/Técnico/Racional – termo que Miguel Pereira Lopes considera estar ligado à concepção de burocracia que Weber terá inventado, na altura sem qualquer conotação negativa.
Assim, supostamente, a boa governança resultaria de um equilíbrio destes três anteriores poderes, sendo isso a suposta Troikocracia. Foi sugerido que na nossa história tivemos um claro exemplo de sucesso em que essas três vertentes da troikocracia foram conjugadas com sucesso. Esse exemplo terá sido a governação do Marquês de Pombal, especialmente depois do evento do terramoto de 1755, quando a cidade necessitou de ser reconstruida, mas depois também ao longo de toda a sua governação. Parece então que o Marquês decidia em plena consciência e informação. Consta que permitia aos técnicos a sugestão de todo o tipo de soluções sem os condicionar. Só depois então decidia, com autoridade e força, dentre aquelas que lhes pareciam as melhores soluções o projeto a implementar, respeitando a sua visão política de desenvolvimento. Ou seja, o Marquês era o carismático e visionário inovador, que se legitimava e ligava ao poder tradicional pelo mandato e apoio real, e que decidia com base no poder racional e técnico burocrático.
Depois de apresentado deste modo o conceito de Troikocracia de Weber e de Miguel Pereira Lopes aprece menos polémico, e a ação do Marquês de Pombal incrivelmente simples e óbvia. Mas será que o conceito de Toikocracia não é, ainda assim, discutível? E será que esta metodologia do Marquês de Pombal é realmente aplicada na prática deste modo tão simplista?

sexta-feira, 21 de março de 2014

Na antiguidade poucos viviam para além dos 40 anos?

É muito comum, quando se fala de esperança média de vida em tempos mais remotos, por exemplo na Antiguidade Clássica ou na Época Medieval posterior, referir-se que rondava pouco mais de 30 anos, talvez 40 no limite. Isto leva a uma conclusão parcialmente errada: que a maioria das pessoas não vivia mais do que os 40 anos. Na prática, ainda que matematicamente justificável, não terá sido bem assim.
Cabeça de um homem idoso - Rembrandt
Apesar das guerras, doenças epidémicas, fomes, falta de higiene e cuidados de saúde, era a mortalidade infantil que desequilibrava a média. Ou seja, se tivermos uma percentagem muito grande de recém-nascidos falecendo: obviamente que isso irá baixar muito a média final global.
Assim, quando nos dizem que as pessoas morriam muito novas na Idade Média, ou por exemplo na Roma Antiga, devemos ser menos precipitados. De facto morriam muitas crianças e recém-nascidos, mas isso não significava que a esperança média de vida para os que sobreviviam fosse tão baixa como normalmente se divulga.Aqui fica um caso do erro que se pode incorrer quando se analisa uma média diretamente sem recurso a outras operações ou ferramentas estatísticas.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Gaiola Dourada – Um filme de caricatura e cliché para compreender os Emigrantes

Volto, depois de uma ausência de algum tempo, ao cinema. Volto, embora tivesse decidido diminuir a preponderância desse tema aqui no blogue, pois trago um filme especial. No final do filme em causa pensei para comigo – aqueles euros, ainda consideráveis que paguei pelos bilhetes, valeram a pena! O filme é luso-francês, com muitos atores portugueses, luso-descendentes e franceses talentosos. O ambiente é o da comunidade portuguesa em Paris. 
Trata-se de um filme simples, com uma trama e enredo habitual ao que se assiste no cinema mainstream, no entanto é quase documental. Apesar de ser uma caricatura de clichés – com muitos estereótipos e alguns exageros das personagens utilizadas para fazer aquele particular retrato social -, ora com comédia ora com drama, retrata com alguma fidedignidade a comunidade emigrante portuguesa que de final do século XX rumou para França, seus descendentes, sentimentos, valores, imaginário e relações que criaram no país de acolhimento. É o próprio realizador que assume o estilo caricatural. É notório que Ruben Alves conhece muito bem a realidade que pretende descrever. Ele próprio é luso-descendente e seus pais emigrantes – a mãe porteira e o pai operário da construção civil.
Assim, para quem quiser ter um momento light de cinema animado e, ao mesmo tempo, perceber um pouco melhor como vive a comunidade emigrada em França, aconselho a conhecer A Gaiola Dourada. Quem tenha visto e não tenha apreciado está no seu direito - como é óbvio -, mas se calhar isso poderá significar que ainda está longe de compreender os nossos emigrantes, que, por muitas razões e circunstâncias da vida, foram forçados a uma adaptação a realidades muito distintas dos seus meios de origem, aculturando-se vincadamente. Desse misto de culturas, encarnadas por pessoas bem reais, resultou uma nova cultura que tenta nunca perder a ligação à origem, ainda que a própria origem se institua como um imaginário quase mitológico.

Nota: para quem tiver mais curiosidade em compreender um pouco mais a emigração em França, especialmente a portuguesa, fica aqui a sugestão de outro texto, de cariz sociológico - Porque são diferentes os Emigrantes Portugueses em França?

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A Sociedade Portuguesa é Malthusiana?

Muitas coisas se poderiam dizer sobre a sociedade portuguesa, adjetivações boas e más. Uma delas é que se trata de uma sociedade Malthusiana [1]. Não se trata de um palavrão ofensivo, nem pouco mais ou menos, mas também, analisando o seu significado demográfico, social e económico, pode não significar nada excecionalmente bom.
Pastor - Amadeo de Souza Cardoso
A teoria Malthusiana, de um modo muito resumido, defendia que o crescimento da população, por assumir, tendo em conta os registos históricos estatísticos, um crescimento com base numa progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos seguia pelo crescimento aritmético, daria origem a uma incapacidade futura de alimentar a população. Para além dos dois crescimentos a tempos diferentes, criando o tal défice entre alimentos e pessoas a alimentar, a produção de bens agrícolas teria sempre um limite máximo que não poderia ser ultrapassado [2].
As teorias Malthusianas, que defendiam o controlo apertado da natalidade, foram refutadas depois da revolução industrial devido aos novos desenvolvimentos tecnológicos que fizeram subir muito a produtividade agrícola.
Atualmente, os índices de natalidade de Portugal nas últimas década observa-se uma forte queda [3]. A natalidade não está a assegurar a reposição das gerações. Isto deve-se, muito provavelmente, independentemente de razões do crescente individualismo da sociedade portuguesa, aos recursos disponíveis. Já não se trata de alimentação propriamente dita, mas mais de todos os custos que acarreta uma vida contemporânea em que a competitividade pode depender muito das condições de partida dos indivíduos. Ou seja, há, tendencialmente, a noção de que os meios que as famílias dispõem não são suficientes para proporcionar a um número considerável de filhos os padrões de vida ótimos e que os farão ter sucesso de um modo geral.
Assim, a sociedade portuguesa assume comportamentos neomalthusianos, para o bem e para o mal. Característica nem sempre replicada em paises semelhantes ou coparáveis a Portugal.
 
Referências
[1] - Arroteia, Jorge Carvalho; 2007. "Leiria e o pinhal litoral : sistema geográfico e contextos de desenvolvimento". Universidade de Aveiro.
[2] - "Teoria populacional malthusiana", disponível na Wikipédia.
[3] - "Nascimentos e Fecundidade", disponível na Pordata.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Pequena História Recente do Emprego em Portugal e seus Contrastes Regionais

Desde a fundação de Portugal que se registam fortes contrastes na distribuição da população sobre o território português, especialmente entre norte e sul, e litoral e interior (Lema & Amp; Rebelo, 1996). Nessa ocupação, até ao século XX, destacava-se uma maior concentração de população nas zonas de mais intensos recursos: primeiro nas zonas agrícolas; depois junto aos grandes portos comerciais (Costa et al, 2012; Mattoso, 1997; Ramos, 2011).
Mas desde 1950 ocorreu uma grande transformação económica em Portugal que mudou o radicalmente o emprego. A adesão à OECE, EFTA e o aproveitamento dos planos de financiamento internacionais de reconstrução da economia europeia industrializaram o país (Costa et all, 2012). Parte dessa modernização económica, via industrialização, assentou no recurso a mão-de-obra desqualificada que era onerada por baixos salários. Desde então verificou-se um declínio da sociedade tradicional rural (Medeiros, 2006), primeiro com a nova industrialização e depois com terciarização resultante da expansão das atividades de serviços e do próprio Estado Social, também relacionadas com a adesão à CEE e depois com a crescente integração europeia (Costa et all, 2012; Ramos, 2011).
Hoje a tendência para a concentração de população em torno das zonas urbanas (polos metropolitanos do Porto e Lisboa, e cidades médias) de melhor acessibilidade, onde existe mais oferta de equipamentos, bens e serviços, contribuiu para o desenvolvimento e reforço do setor dos serviços (Medeiros, 2006) – que é neste momento o setor que mais população ativa emprega (Pordata, 2013).

Figura 1 – População residente empregada como quadros superiores e profissões intelectuais e científicas, relativamente à população residente empregada, por concelho, em 2001. Fonte: Medeiros (2006)

Por outro lado, as taxas de atividade mais baixas, em oposição às zonas onde a população ativa tem maiores qualificações, situam-se nos concelhos mais envelhecidos e menos urbanos, tal como se demonstra na Figura 1 e 2. 
 
Figura 2 – Taxa de atividade da população por concelho, em 2001. Fonte: Medeiros (2006)

Como seria de esperar, os valores mais elevados de taxa de atividade da população verificam-se nas áreas de maior dinamismo económico, o que significa que nessas zonas os mercados de trabalho são mais ativos em termos de criação de emprego e mais extensivos do ponto de vista das bacias de emprego que geram (Medeiros, 2006).
Figura 3 - Índice de atratividade (total entradas/total emprego). Fonte: Medeiros (2006)
  
 Torna-se evidente (ver figura 3) que as zonas urbanas de mais relevância são aquelas que apresentam também maiores índices de atratividade; expectável uma vez que serão as zonas onde existem mais dinâmicas nos principais setores de empregabilidade: Serviços, de seguida o Secundário a alguma distância, e por último o Primário (Pordata, 2013).
Figura 4 - Índices dominantes casa-trabalho, em 2001. Fonte: Medeiros (2006)
Um outro fator importante para as dinâmicas de emprego das várias regiões é a facilidade das deslocações, a mobilidade e acessibilidade. Na Figura 4 denota-se novamente que os centros urbanos mais populosos, e mais dinâmicos economicamente, são aqueles que apresentam mais capacidade de mobilidade entre “casa e trabalho” (Medeiros, 2006).
Mas não é só a diferença entre urbano e rural que marca as diferenças das dinâmicas de emprego regionais. O contexto cultural tem uma importância imensa (Medeiros, 2006). Um desses exemplos paradigmáticos é o das zonas envolventes ao Grande Porto, em que regionalmente se valoriza mais a entrada cedo no mercado de trabalho, mesmo que com qualificações reduzidas, que a continuidade dos estudos.
Não se poderá caracterizar a estrutura do emprego em Portugal sem abordar também o fator do desemprego. De um modo geral o desemprego atual resulta da restruturação do setor agrícola e das atividades de transformação, tal como de uma indústria que não teve a capacidade de se modernizar, aumentar a produtividade e competir nos mercados internacionais à medida que a economia portuguesa se foi liberalizando (Mederios, 2006; Costa et all, 2012).
Tabela 1 – População total empregada por setor de 1974 a 2012
Fonte: INE, Pordata (2013)

Como se pode confirmar pela tabela 1 e gráfico 1, desde 1974 a percentagem de população ativa no setor industrial tem caído, mas não tanto como no setor agrícola. Depois da época de expansão industrial de1950-1973 (Costa et all, 2012), e da queda do protecionismo do Estado Novo, o setor sofreu um ajustamento gradual rumo à livre concorrência e aumento dos direitos laborais, tendo-se registado uma queda de população empregada de quase 10% do total. 

Figura 5 - Dinâmica do emprego industrial. Fonte: Medeiros (2006)
Apesar da queda, algumas zonas do país mostram-se mais dinâmicas que outras (ver figura 5), especialmente aquelas ligadas a determinados clousters (Medeiros, 2006), que recorrem à especialização/diferenciação, usando tecnologia e recursos humanos qualificados, capazes de competir internacionalmente. Um exemplo disso será a indústria dos Moldes localizada na Marinha Grande e Leiria.

Tabela 2 – População empregada por setor para as NUTSIII e Regiões Autónomas
Fonte: INE, Pordata (2013)


Gráfico 1 – População total empregada por setor de 1974 a 2012 em %
Fonte: INE, Pordata (2013)


Apesar de toda a diversidade regional portuguesa, ao nível do emprego notam-se algumas tendências comuns, mesmo que algumas zonas sejam mais rurais ou urbanas, outras muito mais industrializadas e outras dedicadas ao setor primário, com os serviços empregarem percentagens muito significativas (quase sempre a maior fatia) da população ativa. De 1960 a 2001, tal como se demonstra na tabela 2, com exceção da Grande Lisboa e Grande Porto e de outras zonas pontuais (Serra da Estela; Médio Tejo; Algarve; Baixo Mondego; Entre Douro e Vouga; e Ave), a industrialização cresceu consideravelmente e as atividades Agriculturas perderam muita mão-de-obra. No entanto, o crescimento mais espetacular deu-se no setor dos serviços, num país que em 50 anos deixou de ser maioritariamente Agrícola para se dedicar aos Serviços, sem ter passado por uma economia dominantemente assente no setor industrial (ver gráfico 1).

Referências Bibliográficas
• Amaral, Luciano; 2010. “Economia Portuguesa, as últimas décadas”. Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos.
• Costa, Leonor Freire; Lains, Pedro; Miranda, Susana Munch; 2011. “História Económica de Portugal – 1143-2011”. Lisboa, Esfera dos Livros.
• Estanque, Elísio; 2012. “A Classe Média: Ascensão e Declínio”. Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos.
• Lema, Paula Bordalo; Rebelo, Fernando; 1996. “Geografia de Portugal – Meio Físico e Recursos Naturais”. Lisboa, Universidade Aberta.
• Mattoso, José; 1997. “História de Portugal - vol.IV – O Antigo Regime”. Lisboa, Editorial Estampa.
• Medeiros, Carlos Alberto (Direcção); 2006. “Geografia de Portugal”. Lisboa, Círculo de Leitores.
• Pordata; 2013. “População ativa por atividade económica”. http://www.pordata.pt/, consultado em 15 de Abril de 2013
• Ramos, Rui (Direcção); 2009. “História de Portugal”. Lisboa, Esfera dos Livros.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Portugal - Um País Históricamente Dependente do Exterior

Portugal, atendendo às caraterísticas geográficas não se distingue da vizinha Espanha quando se tenta comparar os dois lados da fronteira (1). No entanto, as fronteiras seguiram, sempre que possível, as linhas de água e cumeada de algumas serras. Tal como Espanha, Portugal vaira nas suas características geográficas de Norte para Sul e do Litoral para o Interior. Talvez por isso se afirme (2;6) que Portugal, enquanto realidade geográfica independente, é uma criação puramente humana. Talvez por isso mesmo se justifique a uniformidade e coesão do território nacional. Ou seja, Portugal nasceu no norte litoral e expandiu-se para sul (3), agregando as novas a diferentes zonas ao longo da reconquista, e posteriormente nas ações de povoamento e dinâmicas internas de ocupação que tentaram desenvolver o território. As várias zonas agregadas contribuíram com determinadas características para um todo nacional interdependente (3). Por exemplo, de um modo resumido: do norte atlântico saíram as grandes massas humanas, a nobreza medieval e a definição da repartição social; do norte interior o sistema municipal e organização concelhia; e do sul a economia urbana com forte relação com a área rural (1). Também as fortes tradições migratórias internas, trabalho sazonal e comércio contribuíram para a homogeneização nacional (6).
Título desconhecido - Amadeo de Souza Cardoso

A tendência dominante de um norte que, através da reconquista se impôs ao sul mas que foi depois por ele influenciado, não são as únicas razões para a coesão nacional. Segundo Orlando Ribeiro (3;6) já existiria uma língua, e talvez culturas comuns, antes da reconquista cristã. A península ibérica, por ser um local de passagem entre continentes, ainda que remoto, conheceu ocupação humana antiga (3). Na faixa ocidental litoral atlântica - sempre a mais remota da península - desenvolveram-se culturas distintas, mas ligadas ao exterior, tanto no paleolítico (os “concheiros”) e no paleolítico (civilização dolmética). Migrações posteriores criaram, na idade do ferro, o desenvolvimento de castros fortificados em altura que dominavam a paisagem. A posterior ocupação romana, integrou os antigos castros e ordenou o território em latifúndios e conventi - surgem muitas das delimitações territoriais, cidades, vias de comunicação que ainda hoje persistem. Terão sido essas delimitações administrativas que contribuíram para a definição das fronteiras do Estado, especialmente porque os Romanos terão também atendido às diferenças étnicas nesses ordenamentos (3). Com as consequentes invasões germânicas, e muçulmanas, grande parte das delimitações persistiram, mudando, em certos casos, apenas quem exercia o poder. A influência muçulmana ocorreu mais na cultura e técnicas que propriamente em mudanças nos limites administrativos.
Com as guerras de reconquista, surgiu a necessidade de repovoar os novos territórios. Desde logo o Estado português criou dependências com o exterior, começando pela própria primeira dinastia, responsável pela independência  que era de origem borgonhesa (4). Tanto a reconquista com o povoamento dependeram do exterior: cruzados estrangeiros ajudaram a tomar as principais praças-fortes do sul; colonos cristãos migraram para os novos territórios; e foram as ordens religiosas que conquistaram os grandes territórios do sul. A dependência para com o exterior continuou, posteriormente, a notar-se na balança de transações. Desde então a produtividade agrícola de Portugal nunca foi suficiente, as terras, apesar do baixo potencial agrícola (1) nunca foram aproveitados em todo o seu potencial, ainda que a esmagadora maioria da população se dedicasse à agricultura. 
O litoral, no final da idade Média e depois com a expansão marítima portuguesa, tendeu a ser a zona mais ocupada. Lisboa foi-se assumindo também como capital e importante cidade Europeia (3), mas sempre em grande dependência, pois era apenas um ponto de passagem do grande comércio que seguia rumo ao norte da Europa  No século XVIII, quando cessaram as remessas de ouro do Brasil e o comércio decresceu, o país tentou desenvolver o território da metrópole, ainda que se tenha continuado a apostar no expansionismo colonialista em África (5).
Importante também foi a recente afirmação de Portugal sobre uma grande zona de domínio económico e político. No entanto, essa pretensão tem assentado mais na herança histórica que no efetivo domínio e controlo dessas águas (2), algo que reforça a sensação da continua incapacidade de tirar o máximo partido do território continental.


Bibliografia

  1. Belo, Duarte; Daveau, Suzanne; Mattoso, José; 2011.”Portugal – O Sabor da Terra. Um retrato histórico e geográfico por regiões”. Lisboa, Temas e Debate.
  2. Daveau, Suzanne; 1998. “Portugal Geográfico”. Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1998.
  3. Lautensach, Hermann; Ribeiro, Orlando. 1989. “Geografia de Portugal - Comentários e atualização de Suzzane Daveau. Lisboa: Edições João Sá da Costa.
  4. Mattoso, José; 1997. “História de Portugal vol.II – Monarquia Feudal”. Lisboa, Editorial Estampa.
  5. Medeiros, Carlos Alberto. 2006. “Primórdios da evolução dos pais. A expansão marítima e os seus reflexos”. Geográfica de Portugal. Revista Portuguesa de Geografia.
  6. Ribeiro, Orlando; 2011. “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”. Lisboa, Letra livre.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

As Bruxas ardiam mais na Idade Moderna que na Idade Média


Apesar dos casos de caça às bruxas, e condenações à fogueira de supostos comparsas do demónio e praticantes de magia, ter ocorrido já durante a Idade Média, foi no início da Idade Moderna (do renascimento à revolução industrial) que o fenómeno cresceu e atingiu o culminar.
Curiosamente, ou talvez não, os fenómenos de caça às bruxas em massa iniciaram-se na Europa do século XV (por decreto papal, e não só), mas depois de um período de acalmia, atingiu o culminar das perseguições no início do século XVII, coincidindo esse facto com os picos de tensão provocados pelas guerras da religião. Essa paranóia agudizava-se quando a Europa caia no rigorosíssimo religioso reformista e contrarreformista (opondo protestante e católicos). No entanto, as tensões eram muito mais que religiosas, eram também económicas e sociais. Aliás, foram, para além do preconceito e medo do desconhecido, razões materialistas e sociais que sustentavam grande parte da perseguição à bruxaria (especialmente a feminina).
O Sabbath das Bruxas (O grande Bode) - Goya
As pessoas processadas por bruxaria foram maioritariamente mulheres, seguindo o estereótipo de velha camponesa que vivia num local isolado. Mas esse estado de situação foi comum durante o período das guerras da religiosas (nomeadamente na Guerra dos 30 anos) que assolaram a Europa do século XVII, com muitas mulheres a viver sozinhas e abandonadas depois dos maridos terem sido mortos em combate. Fazendo uma leitura da época, podem encontrar-se, tal como já referi, razões socioeconómicas para a marginalização e perseguição dessas mulheres. Muitas delas tinham então de viver de esmolas e da caridade alheia, o que as obrigava também a comportamentos mais agressivos e marginalizantes. Logo, eram consideradas um peso para a sociedade de então, nem que fosse inconscientemente. Segundo, havia também as razões políticas, com vários casos registados de denúncias entre opositores políticos, que atacavam os inimigos acusando suas mulheres de bruxaria, tentando assim denegrir-lhes a imagem e prestígio público. Por fim, existiam também as razões económicas, especialmente quando essas mulheres dispunham de heranças consideráveis. Em certos casos registados foram os familiares dessas mulheres a mover as acusações de bruxaria, garantido assim o acesso fácil à herança. Por exemplo, na Nova Inglaterra, 90% das mulheres acusadas de bruxaria não tinham descendentes varões.
Sobre a caça às bruxas, independentemente das motivações religiosas, pode dizer-se que: foi, especialmente, uma perseguição para com as mulheres, e um sinal de uma sociedade intolerante, impreparada para lidar com os dramas sociais e até algo interesseira. Quanto teremos mudado? Terão desaparecido as bruxas e o modo de caça intolerante?

Referências Bibliográficas
Delumeau, Jean. 2007. “A civilização do Renascimento”. Edições 70
Solar, David; Villalba, Javier. 2005. “História Universal – Idade Moderna”. Círculo de Leitores.

sábado, 27 de outubro de 2012

Investir na Bolsa – A Ilusão da Superioridade Individual Perante o Mercado


Por vezes é, mesmo, preciso ler uma ideia escrita para depois essa mesma ideia, desconhecida e encoberta até então, se tornar evidente e clara. Um livro, como haverá muitos mais, onde se divulga um infindável rol de ideias é o “Pensar, Depressa e Devagar”, de Daniel Kahneman, psicólogo vencedor do prémio Nobel da Economia. A obra é um verdadeiro marco – grande em todos os sentidos, pois consta com mais de 500 páginas -, um compêndio de exemplos e explicações sobre economia comportamental, segundo a visão da psicologia social.

Os Amantes - Magritte
Uma das ideias fortes do livro, com vários estudos a demonstraram, defende que, em muitos casos, para situações de incerteza considerável, não há especialista e informação que valha: normalmente a sorte é quem desempenha o principal papel. Esta posição é polémica, mesmo entre a comunidade científica. No fundo, o autor tentar alertar para os constantes enviesamentos e erros de perceção na tomada de decisão, mesmo entre os mais sabedores e experientes, considerando que isso é próprio do modo como funciona o pensamento humano (ou cognições) - podendo ser dividido um conjunto de dois sistemas, um mais imediato e simples (mas potencialmente erróneo), e outro mais aprofundado e moroso (mas altamente consumidor de "energia").
O caso dos investimentos em bolsa é um dos exemplos trazidos pelo autor para demonstrar como, por vezes, os especialistas tomam decisões, supostamente sustentadas, mas com resultados completamente aleatórios, sem o admitirem (sem admitirem enviesamentos). O autor vai mais longe: acaba por, com as suas palavras, nos fazer refletir sobre a própria condição humana. Kahneman leva-nos a refletir e questionar sobre: o que leva os corretores e investidores, tendencialmente em pé de igualdade entre pares, a pensarem que sabem mais que os restantes negociadores em bolsa? Quando alguém vende assume que a ação irá descer, esperando que o comprador pense o contrário; e quem compra assume e segue pelo caminho exatamente oposto, esperando o contrário do vendedor. Entre amadores e curiosos que se aventuram na bolsa seria de esperar que façam erros de investimento, mas o mesmo não será  aceitável para especialistas, pelo menos em condições "normais". Podemos até lembrar um dos princípios da teoria económica clássica, de onde se conjetura que os mercados e os atores económicos são racionais nas suas escolhas – supostamente, é claro. Então não seria racional admitir que, estando nas mesmas condições - de um modo aproximado é claro -, os nossos semelhantes e concorrentes saberiam o mesmo que nós? Não seria essa posição, no mínimo, um sinal de humildade? Supostamente, a eficiência dos mercados levaria que a margem dos preços fosse mínima, pois quem vende falo-ia pelo valor justo e no sentido da compra o mesmo aconteceria. Mas, como comprova Kahneman, as decisões humanas, mesmo as económicos, são, por vezes, muito pouco racionais.
Na sua suposta arrogância intelectual, o filósofo Sócrates só poderia rir  enquanto, hipoteticamente, diria algo do género: só sei que nada seimas saberão eles que sabem muito menos do que pensam, sabendo todos o mesmo, e equilibrando-se enquanto grupo assim?
Sempre fomos condicionados pela nossa soberba, pelos mercados e pelas decisões, e parece que iremos continuar a ser, com ilusões de sabedoria altamente enviesadas. Os resultados estão à mostra, ou talvez não, pois estas palavras podem ser apenas ser mais um enviesamento de perceção e análise.

Referências bibliográficas:
Kahneman, Daniel. "Pensar, Depressa e Devagar". Temas e Debates, 2011.

sábado, 18 de agosto de 2012

Manipular as Ações Alheias Sugerindo Ideias Indiretas – A Impulsão Ideomotora


E se conseguissem influenciar os nossos comportamentos e ações físicas através de ideias indiretas? Bem, parece que podem de facto, que de um modo inconsciente somos altamente influenciáveis, sem disso termos a mínima perceção, pelas mais ínfimas sugestões. 
Os papagaios  (os acrobatas)- Fernad Léger
Uma das experiências clássicas da psicologia social, uma entre muitas referidas no livro “Pensar, Depressa e Devagar”, realizada pelo John Bargh revela o modo como, indiretamente, qualquer pessoa é altamente influenciada apenas por ideias. Nessa experiência foi pedido a um grupo de jovens que ordenassem um conjunto limitado de palavras numa frase coerente. A metade dos indivíduos disponibilizou-se um rol de palavras relacionadas indiretamente com o tema da velhice. Aos restantes não havia qualquer relação de conjunto das palavras a qualquer tema evidente. Depois de todos participantes na experiência concluírem a tarefa proposta, atravessaram um corredor para continuarem com mais testes, mas era no percurso entre salas que residia verdadeiramente a experiência. Por mais surpreendente que possa parecer, os jovens que tinham formulado frases com alusões à velhice deslocaram-me mais lentamente que os outros. Num questionário posterior a maioria dos jovens a quem tinham sido fornecidas palavras relacionadas com velhice consideraram não ter notado qualquer tema em comum nas palavras.
Este exemplo experimental, relatado por Daniel Kahneman na obra já citada, revela como podemos ser facilmente influenciados por impulsões. Neste caso concreto foi uma ideia subliminar que gerou uma ação inconsciente e não premeditada: deu-se o efeito ideomotor (*). Então, tendo em conta o exemplo e aplicando o pensamento indutivo, muitos poderão ser os casos em que os nossos comportamentos e ações são, propositadamente ou não, influenciados pelas ideias que existem e são disseminadas à nossa volta. É quase preocupante concluir quão facilmente podemos ser influenciados, quão ténues e simples podem também ser os meios e os modos de o fazer, e quão evidentes podem ser os resultados. Se, muitas vezes, sem intenção podemos ser levados a ter certos comportamentos, imagina-se então quando essa influência é propositada. O primeiro passo para tentar minimizar essa disposição natural, caso se pretenda enveredar por esse caminho, é começar por admitir e assumir a facilidade como qualquer um de nós é influenciado pelo meio e pelas ideias.

Nota: O Livro no qual se fundamentou o presente texto é incrivelmente útil e interessante para quem se quer iniciar na psicologia social. Daniel Kahneman escreve de um modo simples, por vezes até sarcasticamente divertido, recorrendo e referindo muitos exemplos de experiências que ajudam à compreensão de conceitos e saberes complexos e de especialidade. Seguramente que esta mesma obra será utilizada posteriormente como base a mais textos. Sem dúvida que a recomendo. Não foi por acaso que o autor, que é psicólogo, ganhou o prémio Nobel da Economia, por mais estranho que possa parecer à primeira vista.

Referências Bibliográficas
(*) Kahneman, Daniel. “Pensar, Depressa e Devagar”. Temas e Debates, 2012

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