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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Estamos prontos para implementar o planeamento colaborativo?

Se o planeamento assistido se relacionada com o contexto da pós-modernidade o planeamento colaborativo parece ter uma relação ainda maior com as mudanças sociais das últimas décadas, resultando da necessidade emergente de poder planear para o futuro num ambiente de crescente incerteza e complexidade, enquanto se tenta aprofundar os valores da liberdade e da democracia participativa. A incerteza dificulta fortemente o ato de planear, especialmente quando as mudanças são súbitas e cada indivíduo tende a atuar isoladamente e num contexto de liberdade que incentiva ao individualismo, em paralelo com o consumismo, num mundo globalizado. Essa é a realidade que os planeadores têm de enfrentar na atualidade.

Discutindo a divida comédia com Dante - Dai Dudu, Li Tiezi & Zhang Na

Segundo as visões filosóficas do pós-modernismo não existe conhecimento objetivo em forma alguma. Todo o conhecimento é assim relativo. A tendência será crescente na medida em que as sociedades se tornam cada vez mais plurais e fragmentadas. Jurgen Habermas, através da teoria da ação comunicativa, herdeira do pensamento da nova teoria crítica da escola de Frankfurt, refere que é possível, apesar de todas as diversidades e fragmentação, encontrar pontos comuns de cooperação entre diferentes grupos sociais. A crescente diversidade das sociedades contemporâneas obriga a que se procurem esses pontos de contacto passíveis de gerarem cooperação.

A cooperação, segundo Habermas, só pode ocorrer através da capacidade comunicativa racional, ou racionalidade comunicativa, garantindo-se: a verdade das proposições externas; direito e legitimidade de estabelecer relações entre indivíduos; compreensão da linguagem utilizada; interação livre de dominação e manipulação; interação livre de intenções estratégicas próprias dos atores envolvidos; garantia da igualdade argumentativa dos atores participantes nos processos; ausência de restrições à participação, e; que a única autoridade seja um bom argumento. A implementação destes princípios é de dificil concretização e não existem casos em que tenha sido tentada em larga escala, sendo um paradigma em competição com tantos outros, onde se destaca a democracia legalista e representativa que domina o espetro político. Na comunicação racional aplicada ao planeamento colaborativo, segundo a visão de Habermas, será necessário que os cidadãos participem em nome individual, sem que sejam representantes de outros ou de instituições, sendo a pertença e participação aberta a todos em igualdade de importância. Apesar dessa abertura importa garantir foco, assegurar que as dinâmicas colaborativas devem ser orientadas para a resolução de problemas concretos.

Estes princípios de abertura dos processos de planeamento conflituam com a noção de que os planeadores detêm uma formação em disciplinas que lhes dão acesso ao conhecimento científico e técnico privilegiado, superior a outras formas de conhecimento, de isso os preparar para a realização dos planos e de que mais ninguém poderá participar neles. Mas o conhecimento racional baseia-se em eventos passados, enquanto que os planeadores têm de projetar o futuro. Os modelos científicos são apenas simplificações da realidade. Existe um efeito inevitável da crença e da ideologia na escolha das diferentes teorias e metodologias de planeamento a aplicar aos casos concretos da realidade. Na prática, os planeadores enfrentam problemas ambíguos e mal definidos, onde a informação é incompleta sobre os contextos dos problemas e da panóplia de alternativas passíveis de aplicar para os resolver. Estão também condicionados pela dificuldade em reconhecerem os seus próprios valores, influências, interesses e alcance, mas também dos demais atores envolvidos nos processos de planeamento. Por fim, são restringidos pela escassez de recursos e conhecimentos.

Nas sociedades contemporâneas o poder não está igualmente distribuído. Os poderes instituídos, as organizações e estruturas sociais vão determinar quem fala mais, mais alto quem é escutado e com mais atenção. Devido a distorções de comunicação, os cidadãos podem ser facilmente enganados e excluídos dos seus direitos cívicos democráticos. Pode ocorrer a tendência para a despolitização e exclusão dos processos cívicos participativos por parte dos cidadãos. Os planeadores podem contribuir para estes efeitos de exclusão cívica, favorecendo e legitimando outros poderes.

Para que se possa implementar o planeamento colaborativo será necessário: cultivar uma rede de contactos e ligações comunitárias; ouvir atentamente; integrar nos processos de planeamento interesses menos organizados; educar os cidadãos, planeadores e as organizações comunitárias para a participação e trabalho em grupo; prestar e disponibilizar informações técnicas e políticas; encorajar a formação de grupos de pressão baseados na comunidade; encorajar revisões de projetos independentes e com base nas necessidades da comunidade local, e; antecipar a pressão política e social. Para além disto é necessário planear os próprios processos e dinâmicas de planeamento colaborativo. Será necessário identificar onde vão decorrer as discussões e quais os locais mais adequados para desenvolver os processos de produção colaborativa, tal como definir o estilo de comunicação, os assuntos a abordar e de como podem surgir as interações. Por fim, importa perceber como pode a comunidade chegar a acordo sobre o seu plano.

Estes novos processo de planeamento colaborativo podem recorrer a múltiplas formas de apresentação e técnicas de análise, adaptadas a cada contexto, realidade e comunidade, tentando almejar outros níveis mais eficazes e adaptados de comunicação e compreensão mutua, que envolvam todos. Pretende-se facilitar a discussão proveitosa, racional onde se formulam claramente os problemas e identificam os conflitos. Os interesses não devem ser fixos pois faz parte do processo interativo de aprendizagem mútua a possibilidade de mudar e alterar prioridades. Deste modo é possível desafiar ou apoiar o poder instituído de forma fundamentada. O objetivo é chegar a novos consensos que se espera serem suficientes para que os planos possam posteriormente ser implementados sem repulsas gerais. Mas, tal como ocorre no conceito de democracia participativa, há que ter a noção de que os cidadãos dificilmente estarão sempre disponíveis e interessados em participar em todos os assuntos da comunidade, o que tem gerado a noção de que os processos representativos são os modos mais realistas de planear.

Referências bibliográficas:

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Namoro em Portugal durante a Ditadura do Estado Novo

Nos anos 50 Portugal vivia em ditadura de cariz conservador, em que os padrões morais eram assumidos diretamente pelas forças sociais dominantes e pelo próprio Estado, de mão dada com a Igreja Católica.

Para o estudo da melancolia em Portugal - Nikias Skapinakis

Sobre os relacionamentos amorosos caia um profundo peso moralista, que tentava asfixiar demonstrações públicas de carinho, mesmo entre os casais casados e moralmente enquadrados na doutrina católica vigente. Os namoros eram encenações que tendiam à encenação social e a uma certa dose de hipocrisia, própria das normas sociais vigentes. A homossexualidade nem sequer era considerada por ser um tabu.

As raparigas eram vistas como as principais culpadas dos atrevimentos dos rapazes, tal como demonstra do texto de 1958 de Maria Franco na revista Menina & Moça (M&M), uma publicação da Mocidade Portuguesa Feminina. Defendia-se que as raparigas deveriam ser as guardiãs da moral e dos bons costumes. Se demonstrassem esse tipo de comportamento e conduta, segundo os valores da época, poderiam então aceder ao topo do seu papel social: serem as donas de casa, defensoras da harmonia do lar. Alertavam-se as raparigas de que os rapazes gostavam de diversão, mas que só casavam com raparigas moralmente intactas. Ou seja, virgens e sem experiências relacionais. Isto colocava um peso enorme sobre os impulsos amorosos e criava uma poderosa da repressão da sexualidade, uma vez que era o próprio ditador, Oliveira Salazar, quem reservava e defendia publicamente para as mulheres o papel doméstico. Se as jovens mulheres não conseguissem casar seriam párias da sociedade ditatorial do Estado Novo.

Curioso é também o editorial do padre Gustava de Almeida, de 1964, escrito na mesma revista M&M, em que culpa as influências estrangeiras pela degradação da moral das jovens e das mulheres. Criticava o uso de calças e do ato de fumar. Argumentava contra os perigos da época: dos efeitos nefastos da influência de “camaradagens suspeitas”, “influência da maldita literatura francesa”, do “figurino francês” e do “ensino universitário”.

Assim, os encontros entre os jovens português da época eram sujeitos a uma apertada vigilância. O namoro era uma instituição rígida que servia para elevar as virtudes femininas definidas pelo conservadorismo da época. O namoro servia para casar. Acontecia à soleira da porta ou no interior da casa se a relação tivesse notória aprovação. A maior liberdade social dava-se nas classes sociais mais pobres, nos meios rurais e operários. Era nos grupos mais abastados em que o controlo se dava de forma mais apertada, pois estavam em causa questões económicas e de estatuto social. A aprovação parental para o casamento era muito forte nas classes médias e altas, enquanto que nas classes mais pobres podiam assistir-se a taxas de reprovação de 66% para as raparigas e de 73% nos rapazes.

Estas informações devem ser contextualizadas na época. Não esquecer da periferia de Portugal, longe das ideias progressistas do centro e norte da Europa. Os métodos contracetivos não estavam generalizados em Portugal e o peso de uma classe clerical moralmente dominante tinha enorme influência num país que se fechava ao mundo mais desenvolvido. A esmagadora maioria da população portuguesa vivia com escassos recursos e numa situação de quase analfabetismo e infoexclusão. Isto viria a mudar na década de 70, fortemente depois do 25 de abril de 1974, mas, ainda assim, muitas destas heranças ainda haveriam de persistir muitos anos na sociedade portuguesa, abertamente ou sob diversos disfarces.

Referências bibliográficas:
Almeida, Ana Nunes de (coord.) (2011), Os Nossos Dias.  In Mattoso, José (Dir.) História da Vida Privada em Portugal. Lisboa: Temas e Debates.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Planeamento Assistido (Advocative Planning): uma forma de democratizar o planeamento?

Há que começar por alertar que se utiliza o termo Planeamento Assistido como uma tradução do conceito de Advocative Planning, uma vez que a tradução direta literal poderia induzir em erro e apontar para conceitos e termos da área jurídica, tais como planeamento advogado ou advocatório.

Duplo retrato no tempo - Helen Lundeberg

A teoria do planeamento assistido associa-se ao trabalho de Paul Davidoff (1930-1984), que se diferenciou e distinguiu pela defesa da necessidade de uma visão mais política do exercício do planeamento. Tratava-se de uma abordagem contrastante e quase antagónica face à visão apolítica e burocrática do planeamento. Era uma tentativa de democratizar o exercício do planeamento, afastando-o das visões racionalistas sistémicas em que o planeamento era executado exclusivamente por especialistas, que, em teoria, podiam prever e modelar o funcionamento eficiente de cidades, regiões e países, recorrendo a ferramentas de planeamento.
 
Paul Davidoff queria evitar os casos recorrentes em que os técnicos e especialistas pelo planeamento se desligavam das realidades locais e necessidades das comunidades. Queria que os cidadãos, utilizadores, moradores e quem fosse influenciado pelos planos pudessem participar também nos processos de planeamento. Pretendia que se diminuísse o potencial de conflito entre planeadores e cidadãos, evitando casos de arrogância técnica em que as propostas dos técnicos eram vistas como puramente racionais e a dos cidadãos meros exercícios de irracionalidade. Davidoff pretendiam aproximar a prática técnica do exercício da cidadania, evitar a arrogância e incompreensão de ambas as partes, transformando o planeamento num exercício de justiça social. Considerava que os planeadores recorriam também às suas crenças e que não estavam isentos de influências ideológicas, que os factos e os valores não podiam ser separados. Davidoff defendia que a neutralidade de valores não existia, nem os planeadores eram isentos nos processos de planeamento. Recomendava que cada interveniente assumisse os seus valores, aqueles que levavam a que escolhessem determinados caminhos e opções. Para Davidoff os planeadores deveriam trabalhar em instituições, organizações e com todos aqueles cujos valores coincidiam. Assim, os planeadores teriam de se envolver nos processos políticos como assistentes dos interesses em que acreditavam, quer fossem assumidos por governos, grupos, organizações ou indivíduos interessados ou mobilizados por determinadas causas de interesse coletivo e público. Os planeadores teriam um importante papel cívico e de participação nas dinâmicas democráticas.

Nos processos de planeamento assistido pressupõem-se que existam múltiplas propostas produzidas e defendidas por diferentes grupos, assistidos por planeadores. As propostas podem ser contraditórias entre si, incluindo planos opostos às propostas do poder público. O resultado do processo de planeamento assistido seria uma competição de ideias, uma espécie de dialética de planeamento. Estas mudanças permitiriam: informar melhor o público sobre as várias alternativas; forçar os decisores políticos a competirem com outros grupos, ganhando com isso apoios políticos com o desenvolvimento do processo, e; forçar os críticos a desenvolverem e apresentarem propostas alternativas. Apesar de não se ter apresentado um sistema de avaliação e de tomada de decisão nesta dialética de planeamento, pode-se partir do principio que os planos realizados por esta via resultariam de múltiplas etapas em que as propostas com mais apoios e que melhor cumpriam os objetivos traçados seriam as escolhidas, embora subsistam dúvidas de como seria feito esse processo na prática, em situações dúbias e antagónicas.
 
No Reino Unido implementou-se um sistema semelhante ao planeamento assistido de inspiração norte-americana, em que grupos e cidadãos poderiam recorrer a planeadores públicos, em períodos fora das suas funções públicas para esclarecer dúvidas e ajudar na elaboração de propostas de planeamento alternativas. Este sistema ficou conhecido por Planning Aid, planeamento de ajuda.

Em resumo, do planeamento assistido realça-se a importância da diversidade e dos múltiplos valores e pontos de vista nas dinâmicas de planeamento, de um relativismo muito próprio, algo que podemos facilmente relacionar com a influências do pensamento pós-modernista.

Referências bibliográficas:
Allmendinger, Philip (2017). Planning Theory. Third edition. London: Palgrave

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Porque andam sempre os norte-americanos no tribunal?

Para quem não seja norte-americano pode parecer excessivo o peso que o sistema judicial tem na vida dos norte-americanos. Para nós europeus parece realmente excessivo. Fica a sensação que se vai a tribunal por tudo e por nada. Quando importamos a cultura audiovisual norte-americana lá estão as infindáveis séries e filmes de advogados, tribunais e processos judiciais. Mas haverá com certeza uma razão para isso.

Calúnia de Apeles - Botticelli

Uma possível explicação prende-se com a história dos próprios EUA. Sendo um país que nasceu no século XVIII, em que alguns dos seus “pais fundadores” eram proeminentes pensadores do iluminismo, não se estranha que tenham tentado evitar a arbitrariedade do poder absoluto, criando um sistema judicial forte e igualitário para todos os cidadãos livres. Por outro lado, tratava-se de um país construído por emigrantes, de muitos recém-chegados provenientes de muitas origens, de línguas, hábitos e culturas diferentes. A estrutura social estava em convulsão e construção. Era seguramente necessário ter uma base legal forte, evidente e que todos pudessem de imediato interiorizar e recorrer para manter alguma paz social.

Os conflitos, quando não resolvidos de forma mais violenta, passavam automaticamente para a esfera legal, numa visão muito pragmática que caracteriza a cultura norte americana. Sendo as estruturas sociais europeias sólidas, mesmo que as nacionalidades sejam mais recentes, existem um legado histórico de organização social que hoje pode estar a favorecer uma maior tolerância que evita conflitos. Esse legado, na forma da organização das sociedades, com todos os seus mecanismos, parece contribuir para gerar diferenças grandes nas mentalidades europeias e norte-americanas. O peso do individualismo é também maior nos EUA apesar de uma maior predisposição para o associativismo, registada por Tocqueville no século XIX como sendo aquilo que permitia o funcionamento da democracia norte-americana.

Apesar dos múltiplos conflitos, que historicamente assolaram a europa parece, hoje em dia os europeus conseguem, aparentemente, recorrer mais à cooperação e negociação, conseguindo-se chegar a modos alternativos menos confrontacionais de resolver conflitos. Numa sociedade assim o sistema judicial não tem de ser solicitado com tanta frequência, reduzindo a sua importância cultural na própria sociedade. Mas o mundo globaliza-se e as culturas homogeneízam-se e é necessário resolver conflitos que não param de surgir. Será que iremos tender para um crescimento do uso dos tribunais ou poderemos evitar isso através da cooperação e tolerância?

domingo, 10 de dezembro de 2017

Lutas de classes e marxismo: domínio dos meios de produção das classes criativas na era capitalismo cognitivo-cultural e das Edge Cities

No pós-2.ª Guerra Mundial, com a ascensão dos Estados Providência, que atenuaram conflitos sociais nas sociedades industriais, principalmente nos países europeus, e contribuíram para o surgimento de uma classe média, a teoria da luta de classes associada marxista ficou fragilizada. Os efeitos dos totalitarismos que surgiram, supostamente, inspirados pelo marxismo transposto em ordem política geraram ainda mais afastamento dos intelectuais, levando ao surgimento dos neomarxismo, da escola de Franckfurt, da Teoria Critica e de outras inspirações que procuraram mais liberdade e lidar de forma alternativa com os princípios originais da visão marxista.

Attacked - Gilbert & George

Mas parece que o luta de classes está a ressurgir com o nascimento de uma nova classe social que tende para a apropriação dos novos meios de produção. Esta frase está carregada de conceitos marxistas, do materialismo histórico, pelo que o marxismo volta a estar presente nos diálogos do século XXI. Se pensávamos que este discurso seria anacrónico nos dias que correm afinal podemos ficar surpreendidos. O mix social pode ser uma realidade em muitos locais, mesmo coexistindo com uma gritante diferença social entre os muito ricos e os muito pobres, formando classes sociais muito antagónicas e distantes. Pensando no capitalismo económico, ainda muito associado aos processos produtivos materiais e agora de serviços, existe uma esmagadora maioria das pessoas que não têm nem assumem traços marcantes de classe. Serão a classe média de largo lastro, serão pessoas que vivem do seu trabalho ou de pequenos negócios e produções sem cargas sociais autoassumidas ou excessivamente condicionantes e que vão conseguindo viver, consumir e realizar atividades além da mera sobrevivência, naquilo que se chama pós-industrialismo.

No entanto este fenómeno de atomização de classes parece estar a ser invertido em determinados locais, especialmente nos centros tecnológicos a que alguns autores, como Joel Garreau, chama de “edge cities” ou cidades de fronteira. Um desses casos paradigmáticos é Silicon Valley. Estes polos urbanos tecnológicos, nódulos territorialmente materializados, segundo o conceito de sociedades em rede de Manuel Castells, estão a contribuir para a ascensão de uma nova classe social. Esse novo grupo desenvolve-se em polos de concentração de um novo tipo de capital económico, resultante do capitalismo cognitivo-cultural – conceito desenvolvido por Gilles Deluze, Felix Guattari, Michel Foucault, entre outros. Este novo tipo de capitalismo resulta de uma mudança económica, em que as antigas dinâmicas produtivas materialistas passam a ser dominadas pela capacidade criativa de criar conhecimento que se converte em múltiplas formas de capital. Este sistema forma novas formas de meritocracias que, num mundo global, permitem, supostamente, a qualquer pessoa, detentora desta cultura e conhecimentos, ascender a essa nova classe social. Todas as restantes classes tendem a ser expluídas, como meros prestadores de serviços e bens menos valorizados segundo este tipo de capitalismo, ou simplesmente como consumidores. Neste novo arranjo económico-social as universidades mudam de papel, passando a ser vistas como máquinas de talentos que incentivam a competitividade dos seus alunos e os conduzem a sistema capitalista cognitivo-cultural.

Também Richard Florida contribuiu para desenvolver estes conceitos, acrescentando o conceito de classe criativa, que se associa às edge cities ou a determinadas zonas inseridas em polos urbanos já existentes promotoras da criatividade. Sendo essa classe criativa parte importante do novo capitalismo, não é de estranhar que as cidades queriam assumir-se como “criativas”, direcionando politicas para a promoção desse tipo particular de classe social e dos seus ambientes, alavancando assim o capitalismo cognitivo-cultural e todos os seus efeitos.

Resumindo. Podemos estar perante uma nova luta de classes. As teorias marxistas podem voltar a ganhar atualidade pois os meios de produção estão novamente na ordem do dia, segundo este novo tipo de capitalismo que gera grandes acumulações e concentrações de riqueza. Tudo isto gera enorme incerteza, numa altura em que se assume publicamente que a esmagadora maioria dos empregos poderão desaparecer com a automatização, o que implica mudanças sociais revolucionárias. Resta saber se essas mudanças produtivas e económicas irão gerar conflitos sociais e novas lutas de classe violentas ou se a transição será suave.

Referências bibliográficas:
  • Allmendinger, Philip (2017). Planning Theory (3rd edition).
  • Castells, Manuel (1996). The Information Age: Economy, Society and Culture:Vol. I. The Rise of the Network Society.
  • Deluze, Gilles & Guattari, Félix (1972). Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia.
  • Florida, Richard (2017). The New Urban Crisis: How Our Cities Are Increasing Inequality, Deepening Segregation, and Failing the Middle Class—and What We Can Do About It.
  • Florida, Richard (2002). The Rise of the Creative Class. And How It's Transforming Work, Leisure and Everyday Life.
  • Foucault, Michel (1978). L’Histoire de la sexualité: Volume I - La Volunté de Savoir.
  • Garreau, Joel (1991). Edge City: Life on the New Frontier. 
#abuscapelasabedoria

domingo, 19 de novembro de 2017

Participação e colaboração não são sinónimos nos processos políticos e cívicos

É muito comum assistir-se ao uso das palavras "participativo" e "colaborativo" como sinónimos, especialmente em contextos políticos e cívicos. Apesar dos processos políticos e cívicos poderem ser as duas coisas em simultâneo não devem ser utilizados como sinónimos. Quando tal ocorre podemos desconfiar de que se trata apenas de uma recurso estilístico para embelezar um discurso ou um determinado conteúdo escrito. 

Os banhistas - Fernand Léger

O termo participativo é um adjetivo que descreve algo ou alguém que "participa ativamente nalguma atividade ou tarefa, fomenta ou propicia a participação, que se exprime ou comunica facilmente, numa relação com o termo comunicativo". O termo colaborativo é também um adjetivo, servindo para descrever algo ou alguém que "colabora ou serve para colaborar". Sendo que colaborar é um verbo que indica "trabalhar em comum com outrem, agir com outrem para a obtenção de determinado resultado, ter participação em obra coletiva". 

Depois destas breves descrições, com base no dicionário online Priberan, percebemos que o ato participativo tem uma conotação individualista enquanto que um ato colaborativo resulta num trabalho coletivo, forçosamente de mais de uma pessoa. Já o ato participativo pode implicar uma certa passividade, podendo significar um "estar presente passivo", como mera assistência, sem mais interações. Por outro lado, a colaboração exige trabalho de interação, originando um produto que será forçosamente diferente do mero somatório das participações individuais que habitualmente são produzidos nos processos participativos*. Apesar da Infopédia referir que o adjetivo participativo implica "participar ativamente em algo" essa participação ativa pode ser simplesmente o ato passivo de ouvir ou estar presente, nada impedindo que ação seja o mero movimento até se colocar nessa posição passiva. Ou seja, os processo colaborativos são sempre participativos, embora os processos participativos possam não ser colaborativos.

No que toca aos processo cívicos e políticos são tanto mais ricos quando se conseguir ir além da mera participação para atingir a colaboração. O Priberam refere que o substantivo política significa "a ciência de governo das nações e a arte de regular as relações de um Estado com outros Estados". Já a Infopédia diz que política é também "a orientação administrativa de um governo, os princípios diretores da ação de governo ou um conjunto dos princípios e dos objetivos que servem de guia a tomadas de decisão e que fornecem a base da planificação de atividades em determinado domínio". Pegando nestes vários significados percebemos que a política diz, quase sempre, respeito a Estados. Quando se diz Estados podemos simplesmente estar a dizer comunidades e coletivos humanos, sociedades no fundo. 

Portanto, podem existir muitos processos políticos e cívicos, quase sempre necessitados de participação, mas nem sempre de colaboração, sendo os casos de processos colaborativos bem mais raros nas práticas políticas e cívicas*. Os processos de colaboração têm ganho popularidade enquanto instrumentos criativos de estudo em laboratórios sociais nas academias e nas empresas mais inovadoras, mas na vertente política, especialmente nas práticas democráticas, parece não haver explicação para a sua não generalização na atividade corrente. Fica a dúvida se essas práticas serão assim tão democráticas como nos querem fazer crer.

Participation is not the same as collaboration. Brief Summary in English.
Participative is not a synonymous of collaborative. Sometimes in political and civic process the two terms are used as the same thing. But to participate don’t have a group dimension, leading to process that only sum the participation of every individual. In a collaborative process the result depends form a group participation, where the result is more and different form just the sum of every individual participation. So, a collaborative process requires participation and a participation process don’t need a collaborative method to work.

* Exemplo comum do orçamento participativo onde cada indivíduo faz uma proposta sem mais interações que o voto dos demais cidadãos.
**Um exemplo de processo colaborativo é o caso do projeto UrbanWINS, em que a problemática em causa - os resíduos urbanos - é abordada do ponto de vista académico mas também incentivando a participação cívica em processo colaborativos. 

Referências:
Infopédia. Disponível em: https://www.infopedia.pt/
Priberan. Disponível em: https://www.priberam.pt/dlpo/

#UrbanWINS
#Abuscapelasabedoria

domingo, 12 de novembro de 2017

O modelo DPSIR nos processos de participação cívica cooperatica: o caso do projeto UrbanWINS

Abstract of key subjects to UrbanWINS DPSIR model. 

The DPSIR model refers to the acronym "Driver-Pressure-State-Impact-Response”. The DPSIR is based on indicators that result from a variety of multidisciplinary methods and models important for understanding a particular phenomena. This model was developed by the European Environment Agency in 1999. This perspective suggests that economic and social development, which are the driving forces (D), exert pressure (P) on the environment and as a result state (S) undergoes environmental changes. These changes have impacts (I) on ecosystems, human health and other factors. Due to these impacts, society responds (R) to the driving forces, or directly to the pressures, state or impacts through preventive, adaptive or curative solutions. We can say that the process enables the possibility to help and intervene in multiple ways in all stages of the processes of changes and generation of environmental impacts. The successful application of the DPSIR model depends on the ability to quantify each D, P, S, I and R element, as well as to establish the various relationships between the them. The task of measuring each of the elements of DPSIR, finding adequate information to quantify each of them, as well as formulating the most appropriate indicators, has been a continuous work since the creation of the methodology. It is intended that the DPSIR can solve the information gaps of the political agents in order to produce better policies (Ferrão & Fernández, 2013). In addition to the improvement of the urban metabolism, as a system, which can be intervened in each one of its components, this procedement aims to help in the process of political decision making, introducing a collaborative option as part of a greater process.

Um resumo da 2.ª Ágora local em Leiria e o modelo DPSIR

Decorreu no passado dia 7 de novembro de 2017 a 2.ª Ágora presencial do projeto UrbanWINS em Leiria. Depois da primeira Ágora, em que os participantes, através de uma metodologia colaborativa de trabalho de grupo e de votação, identificaram algumas prioridades sobre os problemas e desafios dos resíduos urbanos em Leiria, seria o momento de passar à fase seguinte. O objetivo da segunda ágora era aprofundar as prioridades das ações propostas, desenvolvendo-as, através do modelo DPSIR, para que se pudessem começar a desenhar propostas de ações. Essas primeiras propostas resultavam originalmente do processo colaborativo aplicado ao UrbanWINS, que, no fundo, pretendia contribuir para resolver algumas das problemáticas da produção de resíduos e assim melhorar o metabolismo urbano. Mas o processo colaborativo necessitou de ser enriquecido para além dos contributos que gerou, de forma a poderem desenrolar-se as fases seguintes. Assim, a equipa de gestão do projeto conjugou os contributos da 1.ª ágora com recomendações técnicas e com planos que o município de Leiria havia desenvolvido para a temática dos resíduos urbanos. O resultado seria um produto que nascia dos contributos dos cidadãos e stakeholders mas que ganhava mais estruturação e conjugação técnica com as política existentes.


O modelo DPSIR refere-se a às siglas “Driver-Pressure-State-Impact-Response”, que é como quem diz em português: “Forças Motrizes – Pressões – Estado – Impactes – Respostas”. O DPSIR baseia-se em indicadores que resultam de uma variedade de métodos multidisciplinares e modelos importantes para compreender um determinado fenómeno. Este modelo foi desenvolvido pela Agência Ambiental Europeia em 1999. Esta perspetiva sugere que o desenvolvimento económico e social, que são as forças motrizes (D), exercem pressão (P) no ambiente e, como resultado, o estado (S) sofre alterações ambientais. Estas alterações têm impactes (I) nos ecossistemas, na saúde humana e noutros fatores. Devido a estes impactes, a sociedade responde (R) às forças motrizes, ou diretamente às pressões, estado ou impactes através soluções preventivas, adaptativas ou curativas. No fundo dá-se uma possibilidade de ajudar e intervir de múltiplas formas em todas as etapas dos processos de mudança, alterações e geração de impactes ambientais (Ferrão & Fernández, 2013).


O sucesso na aplicação do modelo DPSIR depende da capacidade de conseguir quantificar cada elemento D, P, S, I e R, tal como estabelecer as várias relações entre ambas as componentes. A tarefa de medir cada um dos elementos da DPSIR, encontrando informação adequadas para quantificar cada um deles, tal como formular os indicadores mais adequados, tem sido um trabalho contínuo desde a criação da metodologia. Pretende-se assim que a DPSIR possa colmatar falhas de informação dos agentes políticos, de modo a poderem produzir melhores políticas (Ferrão & Fernández, 2013). Para além da melhoria do metabolismo urbano, enquanto sistema, passível de sofrer intervenção em cada uma das suas componentes, pretende ajudar nos processos de tomada de decisão política, sendo que essa tomada de decisão será tanto melhor quanto mais participada for pelos stakeholders e cidadãos em geral.


Esta 2.ª ágora foi muito mais participada que a primeira, sinal de que ainda é um processo novo, mas com espaço para crescimento, quando assumido e usando de meios de divulgação e incentivo à participação. Não foi de estranhar a primeira questão colocada por um dos participantes. A dúvida alertava para a necessidade de que a identificação das medidas e ações para melhorar a performance e sustentabilidade da cidade através da redução ou melhor tratamento dado aos resíduos, exigia que os participantes conhecessem o diagnóstico do panorama dos resíduos em Leiria. De imediato o facilitador do evento, um cidadão local independente conhecedor da metodologia, explicou que essa ausência de informação era premeditada e necessária para a agilização dos processo que tinha como objetivo: perceber qual a perceção dos cidadãos e não propriamente de um conselho restrito de especialistas sobre o tema dos resíduos. Se voltarmos aos princípios do modelo DPSIR facilmente percebemos que esta metodologia se relaciona com a necessidade de avaliar e perceber se os resultados das políticas estão a ser percebidos ou não pelos cidadãos, se a pressão que as forças motrizes exercem no estado do ambiente são notadas pelas pessoas e se têm sugestões ou a perceção do sucesso das medidas e politicas ambientais em vigor, neste caso sobre o tema dos resíduos.


O evento decorreu sem mais questões e de forma dinâmica. Depois destas explicações os participantes puderam circular pela sala. Munidos de "post-its" puderam dirigir-se aos vários quadros onde se identificavam as prioridades para as políticas de gestão de resíduos urbanos. Os quadros estavam organizados segundo os princípios do método DPSIR: Prioridade; Problemas; Objetivos; Forças motrizes; Pressões; Impactes para a sociedade; Ações propostas. Neles era possível colocar post-its com mais contributos dos stakeholders, que no fundo eram os participantes nessa 2.ª ágora. Na fase seguinte o trabalho foi direcionado para as várias mesas de trabalho onde os participantes se podiam sentar, consoante as ações que pretendiam trabalhar. Em casa mesa existiam duas ações para trabalhar e aprofundar. O grupo teria de preencher cada uma folha por ação em que constavam os campos: Descrição da ação; Fluxos afetados (energia, água, resíduos, uso do solo, poluição do ar, etc.); Tipo de resíduos; Posição na cadeia do material/reciclado; Responsabilidade pela implementação; Stakeholders envolvidos na implementação; Stakeholders afetados pela implementação; Informação adicional necessária. 

Na prática a implementação destas sessões parecem ser muito simples, na perspetiva dos cidadãos e stakeholders participantes. Podem parecer também algo ingénuas, quando se cria a ilusão que vão resolver todos os problemas e encontrar a derradeira solução para os problemas em causa. Mas acaba por ser um trabalho estruturado e que, obtendo alguns resultados úteis para as questões de melhoria objetiva que se pretendem implementar, acima de tudo tem o grande potencial e valor de conseguir fomentar processos colaborativos e participativos da comunidade, evitando outros formatos mais rígidos e que não desenvolvem competências cívicas ativas nos cidadãos. Só isso tem um valor incalculável.

#UrbanWINS
#Leiria

Referências bibliográficas:
Ferrão, Paulo & Fernández, John (2013). Sustainable Urban Metabolism. London, Cambridge: The Mit Press.
UrbanWINS. [em linha]. Disponível em: https://www.urbanwins.eu/

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Tornar o tema dos resíduos urbanos um tema atrativo para os cidadãos – UrbanWINS

The meeting in Bucharest of the UrbanWINS project demonstrated how difficult is to make awareness about the challenges of the waste production. Citizens and stakeholders, in more mature democracies, didn’t participate as often was it was desirable to the Urbanwins project. There is a real challenge to make the connection with the technical issues of the model that simulates the sustainable urban metabolism used in the project and the civic engagement of common citizens. Pilot cities and all partners will have to solve this challenge, especially in more mature democracies because de waste problem may be assumed by the comunity as a non-preoccupation in those cities. Because citizens don’t suffer the problems of waste production they may be little concern about the issue, and in Portugal because de waste tax is payed indirectly in the water bill the citizens may not be warned about de production of waste in their cities.


O projeto UrbanWIns, tal como aqui já se referiu, pretende criar um modelo matemático que simule os metabolismos urbanos de modo a poder ser uma ferramenta de apoio à decisão, onde se prevê o desenvolvimento de uma metodologia participativa dos stakeholders, ou seja, da comunidade local de cada cidade e dos técnicos, entidades, organizações e todos os interessados e agentes relacionados com a questão dos resíduos, incluindo os próprios cidadãos.

O projeto está a decorrer atualmente em várias cidades piloto, sendo Leiria a representante nacional. Entre 12 e 14 de setembro decorreu uma reunião de trabalho em Bucareste, na Roménia, desenvolvida num espírito colaborativo, entre os vários parceiros do projeto. Para além dos desafios que o modelo matemático enfrenta na tentativa de simular os vários metabolismos urbanos, ficaram evidentes também as problemáticas da participação cívica da comunidade neste tipo de projetos.


Se em alguns assuntos os temas públicos geram naturalmente interesse cívico, os resíduos urbanos não parecem ser um desses casos. Podem ser várias as explicações. Talvez por a recolha funcionar relativamente bem e por terem desaparecido as lixeiras em Portugal já há muito tempo. Apesar de tudo, parece que o problema não existe e que tudo funciona na perfeição. No entanto o problema é real e estamos longe de ter encontrado uma solução para resolver todos os resíduos que produzimos. Exige-se encontrar novas soluções, pois o nosso modo de vida assume vertentes de considerável insustentabilidade. Se analisamos a pegada ecológica média portuguesa a urgência do tema não pode ser ignorada, pois consumimos atualmente 2,3 terras – ou seja se todas as pessoas do planeta tivessem o nosso nível de consumo precisamos de 2,3 planetas terra para que os recursos que consumimos em Portugal se pudessem renovar naturalmente. De facto estamos a lidar com os resíduos, mas estaremos a fazer tudo o que podemos para minimizar todos os impactes diretos e indiretos a eles associados? Será que por pagarmos a taxa de resíduos indexada à fatura da água isso contribui para não considerar o sistema de tratamento de resíduos como um custo para o cidadão e consumidor? Então e as medidas de prevenção? Falamos muito em resolver o problema dos resíduos e menos na prevenção da sua produção. Como em muitos outros exemplos: prevenir é o melhor remédio.


Outra curiosidade que se verificou do intercâmbio entre as várias cidades piloto foi a experiência de participação nos processos cívicos participativos. Concluiu-se que nos países com democracias já estabilizadas a participação dos cidadãos e dos stakeholders foi mais fraca que em países como a Roménia, com democracias mais recentes. Uma representante romena frisou que a primeira sessão de participação pública foi muito difícil de gerir por excesso de participantes, pois todos queriam poder participar e dar opinião uma vez que nunca ninguém tinha sido envolvido em processos desta natureza em Bucareste. Ficou também notória a necessidade de ajustar o processo à escala das várias cidades, uma vez que Bucareste é a única capital entre as cidades piloto.

Em breve serão realizadas mais ágoras presenciais que pretendem aprofundar o processo deliberativo e participativo do UrbanWINS. O projeto também poderá ser acompanhado nas Ágoras virtuais em: https://www.urbanwins.eu/online-agora/

Referências:
“Portugal Aumentou a sua pegada ecológica”,  Público. Disponível em: https://www.publico.pt/2017/06/04/ecosfera/noticia/portugal-aumentou-a-sua-pegada-ecologica-1774537

#UrbanWINS

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Quando um jogo de tabuleiro contribui para um projeto colaborativo sobre metabolismo urbano: Urbanwins e Dixit


Penso que já todos ouvimos e lemos muitas referências ao uso de jogos de tabuleiro modernos em contextos não lúdicos, até em empresas, aplicados a dinâmicas orientadas para as suas necessidades e atividades. Este texto não aborda essas imensas possibilidades, mas apenas um caso muito concreto de aplicação real em Leiria.


A propósito de um projeto da União Europeia, que está a decorrer em Leiria, chamado UrbanWins, surgiu a necessidade de animar as sessões colaborativas públicas locais. Do guião e indicações de orientação constava a necessidade de criar algum tipo de atividade para fazer “desbloquear” os participantes.

As sessões de trabalho públicas cooperativas do projeto UrbanWins pretendiam envolver vários cidadãos locais, técnicos e não técnicos. Os participantes que se inscrevessem nas sessões de trabalho destinadas a abordar o tema do metabolismo urbano, dos resíduos e demais assuntos relacionados, seriam alocados a várias mesas de trabalho. Nelas iriam encontrar, seguramente, muitos desconhecidos. Havia necessidade de desbloquear e incentivar as pessoas a falarem um pouco de si e do tema em causa, antes de partir para a metodologia colaborativa propriamente dita do projeto.

Foi para este momento de preparação e desbloqueamento que surgiu a ideia de utilizar cartas do jogo Dixit. À entrada do espaço em se realizou o evento, depois de cada participante receber, de forma alectória, indicação da mesa em que se iria sentar, havia um painel disposto com várias cartas do Dixit Odissey. Cada participante foi convidado a escolher uma carta do seu agrado, sem qualquer sugestão ou outra orientação.

Depois de todos os participantes estarem devidamente sentados o condutor da sessão pediu para que cada pessoa se apresentasse e explicasse se havia alguma relação entre o tema a tratar e a carta que cada um havia escolhido. De notar que os participantes não sabiam o intuito da escolha da carta.

De um modo geral, quase todos os participantes disseram que escolheram a carta de forma aleatória, mas de imediato conseguiram fazer uma leitura e análise da sua escolha, encontrando uma justificação de cariz ambiental para a sua opção subjetiva e supostamente aleatória. Afinal as escolhas não tinham sido assim tanto ao acaso. Afinal havia sempre uma relação, mesmo que inconsciente, com o tema a tratar. As cartas, com os seus desenhos surrealistas, permitiram explorar a subjetividade de cada participante e iniciar o processo criativo que se queria depois potenciar posteriormente na sessão propriamente dita do Urbanwins, direcionada para os temas do metabolismo urbano e ambiente urbano.
Nota: para conhecer as atividades que se realizam em Leiria envolvendo jogos de tabuleiro modernos basta seguir a página do Clube de Boardgamers de Leiria.
#urbanwins #dixit #boardgamersleiria

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A revolução dos videojogos: um documentário

O Canal Odisseia tem exibido uma série de documentários sobre  o mundo dos jogos de vídeo. No documentário de 2016 “Gaming, a revolução digital”, ou no original “Gaming: The Digital Revolution, the Global Virtual Tsunami”, da autoria de Jerôme Fritel, aborda-se a história dos videojogos e a rápida transformação que a indústria tem tido, tal como alguns dos seus impactos socioeconómicos. Alguns desses impactos mais impressionantes provêm dos E-Sports, que neste momento começam a rivalizar com os desportos de massas tradicionais. Os novos ídolos desportivos virtuais ganham dezenas de milhares de euros por mês, pertencem a grandes equipas, têm patrocínios milionários e são venerados como ídolo pelos aficionados dos jogos. Apesar de tudo isto se passar no mundo virtual é bem real. Um dos jogos que permite essa nova realidade virtual é o League of Legends, mas há muitos outros.

Autor desconhecido
Fonte da imagem: https://www.pinterest.pt/phatcatholic/video-games/?lp=true

Mas as notícias surpreendentes do mundo dos vídeos jogos não passam apenas pelos E-Sports. Casos de jogos gratuitos que são utilizados através das redes sociais ou por aplicações de smartphones têm efeitos surpreendentes, chegando a mais de um bilião de utilizadores. Casos como a empresa que criou o Angry Birds, apesar de ser um jogo gratuito, gera milhões de lucros e tornou-se num negócio em expansão para áreas externas ao vídeo jogos. Se os jogos de vídeo eram coisas de crianças ou de geeks, hoje nem as mulheres adultas, que estavam tradicionalmente fora deste mundo, escapam. Existem jogos que as tornam verdadeiras “gamers” embora não tenham essa consciência. 

Os vídeos jogos constituem-se cada vez mais como uma forma de comunicação, rivalizando com os meios de comunicação tradicionais. Mas ainda não conseguimos perceber os verdadeiros impactos socioeconómicos da indústria. Do ponto de vista económico os orçamentos de alguns jogos já rivalizam com as grandes produções cinematográficas. Do ponto de vista comunicativo, há muito que a iconografia e os seus conteúdos extravasaram para a vida social.

Do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo já começam a surgir alguns dados. Se, em média, um ser humano consegue focar-se em 4 objetos, um jogador experimentado consegue triplicar essa capacidade. Por isso, nos EUA, estima-se que um jogador de vídeo jogos, quando atinge os 21 passou, em média, 10.000 horas a jogar, o que equivale ao tempo passado em aulas até ao ensino secundário. Assim, os jogos de vídeo podem têm impacto no desenvolvimento de competências pessoais, pelo que algumas empresas começam a valorizar o currículo de jogar dos seus candidatos, especialmente nas áreas de liderança, gestão e capacidade de foco e orientação para objectivos. Do ponto de vista militar nem o exército dos EUA ficou indiferente a esta tendência, uma vez que criou um jogo, chamado America’s Army que serve para recrutar voluntários.

Também estão por provar os efeitos nefastos, especialmente no que toca ao uso de jogos violentos. Havendo especialistas que defendem ser uma forma de expiação da violência, enquanto outros a assumem como catalisador para incentivar violências no mundo real. Também o excesso de horas passadas ao ecrã tem efeitos no sedentarismo que não podem ser desconsiderados.

Seja como for a revolução dos vídeo jogos está a acontecer, muito potavelmente só no início. Só podemos tentar adivinhar como serão no futuro e quais os seus impactos na nossa sociedade, especialmente numa altura em que os conceitos de “gamificatção” estão a ganhar espaço em cada vez mais áreas, o que não é mais do que transformar as atividades humanas de aprendizagem, tratamento e produção em jogos, melhorando a motivação, o prazer na sua realização e a produtividade. Afinal, parece ser uma excelente ideia.

Referências:

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A nossa sociedade é mais acelerada?

Quando uma funcionária de uma livraria, que por acaso até é minha amiga, me recomendou Byung-Chul Han, por conhecer mais ou menos aquilo que me interessa ler, acabei por aceitar a sugestão e experimentar. A informação da contracapa despertou-me interesse, tanto pelo conteúdo como pelo autor. Tratava-se de livro “O Aroma do Tempo: um ensaio filosófico sobre a arte da demora”, da autoria de um filósofo contemporâneo coreano-germânico, professor na universidade de Künste Berlin (Artes de Berlin), especialista em Heidegger.

Retrato do Dr Gachet - Van Gogh

Byung-Chul Han propõe-se a contrariar a ideia de que vivemos atualmente de modo mais acelerado. Para ele isso é apenas uma ilusão resultante do modo como as sociedades se organizam e de como os indivíduos vivem as suas vidas. Esta sensação de aceleramento ocorre pelo efeito da atomização e da queda das barreiras que dividiam e estruturavam o nosso tempo. Apesar de fazermos e conseguirmos fazer muitas coisas em simultâneo não existem as pausas que nos davam a sensação de avanço gradual e/ou sequencial. Assim vivemos a nossa vida num contínuo de atividades e tarefas sobrepostas que não nos preparam para o fim, para a morte. É aqui que sentimos a influência de Heidegger em Byung-Chul Han, na consciência da mortalidade humana, de que da condição humana faz parte a inevitabilidade da morte: o “Homem é um ser para a morte” - tal como diz uma amigo meu.

Assim Byung-Chul Han refere-se então à aceleração ilusória que nos encaminha para a morte sem preparação, sem as pausas de contemplação, compostas de pequenos fins, que criam as defesas para a inevitabilidade do fim último: a morte.

Byung-Chul Han parece demonstrar um certo sentimento neoplatónico, ao fazer a apologia da contemplação como necessidade na criação das barreiras – um tempo de pausa - que dissipam a sensação de aceleração.

Passando para exemplos mais concretos. Hoje temos dificuldade, por exemplo, em definir até quando se é jovem ou quando se pode considerar alguém idoso. Reina um certo relativismo que tenta suavizar a velhice e a morte. Nas atividades poucos são os profissionais que se podem dar ao luxo de ter apenas uma tarefa ou actividade em mãos. Os horários flexíveis permitem realizar o individualismo, mas podem deixar as pessoas desamparadas perante as incertezas crescentes do mundo.

Só por nos fazer pensar nestas questões Byung-Chul Han merece ser lido. É seguramente um filósofo a seguir com atenção, com tempo para contemplar as suas palavras.


Referências bibliográficas:

Han, Byung-Chul - O Aroma do Tempo: um ensaio filosófico sobre a arte da demora. Lisboa: Relógio d'Água, 2016.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Utopias – Os primeiros textos utópicos e a moralização das sociedades

Uma utopia pode ser definida como uma construção intelectual de sociedade ideal. Trata-se de uma sociedade impossível pois existe apenas na esfera das ideias, quase sempre falhando na sua possibilidade de concretização pela esmagadora complexidade das sociedades e dos indivíduos. É essa complexidade que se simplifica habitualmente nos postulados de construção das ideias utópicas. Talvez assim seja porque as sociedades não são inventadas num acto isolado e súbito de criação, mas por surgirem de processos complexos e morosos que se ligam à própria história dos grupos humanos.

Não faltaram propostas de utopias ao longo da história do pensamento ocidental. De notar que as utopias eram sempre definidas como alternativas ideais às sociedades existentes na época em que os criadores utópicos as definiam. Podemos até questionar se a ideia dos utópicos era realmente implementar as suas utopias ou apenas alertar para a necessidade de correcções de comportamento, de organização, de atitudes e valores nas suas próprias sociedades.


A Parábola dos Cegos - Pieter Bruegel "o velho"

Destaca-se a proposta filosófica de Platão na sua “República”, datada do século IV a.C., onde propunha uma sociedade aristocrática em que os líderes, chamados de “guardiães”, lideravam a comunidade pelas suas características pessoais, não por heranças, riqueza ou outras formas de diferenciação. De notar que para Platão o objectivo máximo da existência e o sentido da vida era a concretização do Bem. Estes guardiões saberiam com certeza como garantir, pois era mos mais sábios, justos e capazes de governar para o bem. Daí a noção de que as sociedades deveriam ser governadas por filósofos ou que os reis se tornassem eles próprios filósofos. Curiosamente isto vai ser ensaiado na europa do século XVII e XVIII com os “déspotas esclarecidos”, mais de 2.000 anos depois.

Saltando uns séculos, Thomas More escreveu, no início século XVI, a sua “Utopia”. Nesse livro reinventava a sociedade inglesa. Na sua utopia, a sociedade organizava-se em pirâmide, assente sobre o direito electivo familiar. As eleições seriam livres, sem candidaturas e lutas conflituosas. As leis seriam simples e todos os membros desta utopia teriam formação avançada em direito: todos seriam doutores em direito. Defendia que quanto menos leis mas natural, justa e racional seria a sociedade. Todos tinham de trabalhar. De notar que o termo escolhido pelo autor, a “utopia”, tem origens no grego, significando “nenhum lugar”, o que indicia que o objetivo dessa obra fosse o impacto de consciencialização moral mais que uma tentativa real de implementar a solução prescrita.

No século XVII Tommaso Campanella escreveu a “Cidade do Sol” em que defende um modelo de sociedade ideal de inspiração neoplatónica. O Estado era liderado pelo príncipe-sacerdote “Sol”. O monarca Sol era ajudado pela “potência”, “sapiência” e “amor”. Toda a sociedade era profundamente organizada pela razão. A propriedade privada era abolida, tudo era comunitário. Valorizava-se, acima de tudo, a cultura, ciência e educação.

Estas foram apenas algumas das primeiras utopias, algumas das mais conhecidas e que se associam a obras completas publicadas. Muitas outras surgiriam depois, especialmente no século XIX com os movimentos socialistas e anarquistas. Mas isso fica para outro texto. De notar que estas utopias aqui referidas foram muito radicais na sua época, o que levou a perseguições a Campanella e à condenação à morte de Thomas More, embora motivada por outras razões políticas e religiosas, nomeadamente pela sua recusa em aceitar a política matrimonial e religiosa de Henrique VIII. Já de Platão não consta qualquer perseguição, uma vez que era um aristocrata e que a sua cidade de Atenas na altura era uma democracia, apesar dessar mesma sociedade ter condenado Sócrates à morte por este contaminar o espírito da juventude ateniense com as suas ideias e questões.

Referências bibliográficas:
Campanella, Tomás (2006) - Cidade do Sol. Guimarães Editores.
Fernandes, António José (2015) – Introdução à Ciência Política – Teorias, métodos e Temáticas. Porto Editora.
Morus, Tomás (2009) – Utopia. Guimarães Editores.
Platão (2005) – República – ou Politeia. Guimarães Editores.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A transformação dos partidos em oligarquias sujeitas a corrupção

São poucos os livros de âmbito geral sobre ciências políticas em Portugal. Um deles é o livro “Curso de Ciência Política” de Gianfranco Pasquino. Nele, o autor italiano invoca o modelo oligárquico de Roberto Michels para introduzir alguns do problemas e críticas democráticas e cívicas ao funcionamento dos partidos políticos (2):
 
Juramento dos Horácios - Jacques Louis David
 
Para Roberto Michels os partidos transforma-se em oligarquias através dos seguintes processos:
  • Formação de uma liderança;
  • Formação de uma liderança profissional e sua estabilização;
  • Formação de uma burocracia, de um conjunto de empregados com tarefas específicas a quem são feitos pagamentos regulares;
  • Centralização da autoridade;
  • Substituição dos fins últimos por fins instrumentais (nos partidos o objectivo passa a ser apenas a luta pelo poder, sendo criadas propostas políticas para aceder ao poder em vez de aceder ao poder para implementar propostas políticas);
  • Rigidez ideológica, ainda que possa ser aparente em alguns casos;
  • Crescente diferença e prevalência entre os interesses e/ou pontos de cista das lideranças e dos restantes membros do partido;
  • Escolha de novos líderes por meio de cooptação por parte dos que estão em funções (evitando processos verdadeiramente livres e democráticos, sem interferências das anteriores lideranças);
  • Redução das possibilidades dos membros das bases exercerem influência sobre os processos de decisão;
  • Deslocação da base formal de membros do partido para um eleitorado de apoio mais amplo.
 
Se a este modelo de Michels adicionarmos a cada vez mais dependência dos partidos de grandes fundos financeiros para realizar campanhas e de serviços externos, podemos perceber o porquê do esvaziamento dos partidos. Pois, com cada vez menos militantes por questões da construção de oligarquias internas, menos os partidos podem fazer depender as suas campanhas da mobilização voluntária militante (3). Esta dependência de serviços externos contribui para uma perda de identidade ideológica que, conjugada com a despolitização e desideologização da sociedade, obriga os partidos a competir por eleitores cada vez mais indefinidos (1). Assim os partidos ao descaracterizarem-se perdem o seu eleitorado base e menos cidadãos estão disponíveis para se identificarem com os vários partidos. A oligarquia interna e a falta de definição ideológica torna a participação inconsequente, tal como o próprio voto, sendo que a consequência e as experiências positivas são razões para a participação política e a disponibilidade para votar.

Tudo isto contribui para alimentar um ciclo ininterrupto de redução da força e da organização tradicional das partidárias. Submetem-se assim os partidos a mais riscos de corrupção, por dependerem cada vez mais de fundos externos para as suas atividades principais: a luta pelo poder (1). Perde-se também a capacidade de crítica interna nas cadeias organizativas partidárias, facilmente controláveis pelo reduzido número de militantes ativos, tal como a impossibilidade, pela falta de diversidade humana, para garantir a representatividade da população e da sociedade civil no interior dos partidos.
 
Obviamente que isto é um modelo de possibilidades, que não acontecerá em todos os partidos e que, mesmo que possa acontecer num determinado partido, não significa que todas as estruturas desse partido esteja a funcionar nesse modelo. Seja como for é algo a que os membros dos vários partidos devem estar atentos, especialmente se querem ter um futuro político mais ligado e conectado á sociedade civil e aos novos modelos de democracia mais inclusiva e participativa.

Referências bibliográficas
Fernandes, António José (2015) – Introdução à Ciência Política – Teorias, métodos e Temáticas. Porto Editora.
Pasquino, Gianfranco (2010) – Curso de ciência política. Princípia.
Sousa, Luís & Triães, João – A Corrupção e os Portugueses – Atitudes, práticas e valores. RCP Edições.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Como identificar o fascismo?

Tal como dizia Zygmunt Bauman, estamos numa época de transição, num impasse sem conseguirmos perceber qual o futuro. Esta impressão pode ser comum a todos os tempos, tendo a em conta a incerteza do futuro aos olhos de quem vive esse determinado tempo como contemporâneo. Há registos disso em textos de todos os tempos e de todas as sociedades, especialmente em épocas de crise ou de final de ciclo. Será o nosso caso? Talvez.
 
Síntese Fascista - Alessandro Bruschetti
Neste momento parecem estar a ressurgir alguns movimentos que se reinventam numa adaptação aos tempos contemporâneos, aliás, como também é comum acontecer ao longo da história, dos múltiplos processos de reciclagem e reinvenção de ideias e valores mais antigos. Não faltam exemplos de casos da ascensão de movimento sociais e políticos que muitos caracterizam como sendo “fascistas” ou “neofascistas”. Algumas dessas tendências, mais intensamente nuns casos que noutros, podem ser sentidas em alguns governos e líderes nacionais. Mas como aferi e distinguir o fascismo?
 
Proponho recorrer a William Ebenstein, professor de ciências políticas, que definiu, nos anos 40 do século XX, em alguns tópicos, as características do fascismo. São elas, nas palavras de António José Fernandes:
  • Falta de confiança na razão;
  • Negação da igualdade humana fundamental;
  • Código de conduta baseado em mentiras e violência;
  • Governo da Elite;
  • Totalitarismo;
  • Racismo e Imperialismo;
  • Oposição às leis e regras internacionais.

Estes tópicos podem ser excelentes pontos de partida, mas são fruto de uma metodologia que se baseia em casos historicamente situados. Dificilmente haverá outro modo de analisar uma realidade social como os contextos políticos, pois são sempre e forçosamente historicamente situado. Para podermos fazer alguma análise comparativa com os políticos e as políticas da actualidade temos de fazer inúmeras adaptações. O facto das sociedades se terem aberto, criando redes sobrepostas e concorrentes, e das novas tecnologias de informação e comunicação massificarem o poder da comunicação interativa mudou muito o nosso mundo. Estamos numa fase em que vemos os princípios orientadores dos fascismos a procurarem uma adaptação a estas novas realidades. Vamos ver novidades com certeza num futuro próximo. E isto é apenas uma actualização no nesta pequena dimensão. Muitas outras mudaram. Fiquemos com este ponto de partida.

Referências
Fernandes, António José – Introdução à ciência política. Lisboa: Porto Editora, 2015.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Desenvolvimento Sustentável - Uma ideologia dos nossos tempos?

No livro "O Urbanismo depois da Crise" Alain Bourdin defende que o desenvolvimento sustentável se transformou numa ideologia. Só por si esta afirmação merece ser analisada, tanto do ponto de vista político como do desenvolvimento sustentável em si.

Esta suposta ideologia pode ser tão frágil como as demais à beira de extinção, próprias de um modernismo que já passou. Vejamos então como se cria uma ideologia: primeiro surge uma ideia, dá-se depois um processo de doutrinação e por fim constitui-se uma ideologia. Sendo que a ideologia pode ser considerado como um conjunto estruturado de ideias que podemos aplicar sem questionar. Serão então essas mesmas características que podem fazer do desenvolvimento sustentável uma ideologia mas ao mesmo tempo impedir que tal possa de facto assumir-se pelo conflito com o contexto socioeconómico em que vivemos.
 
Ferragosto - Cy Twombly

Encontraremos imensas  definições de desenvolvimento sustentável, numa tendência cada vez mais abrangente e holística. Se o conceito nasceu da conjugação da dimensão ambiental, social e económica, cada vez mais dimensões são acrescentadas. Componentes como a cultura, a governança e outras são comummente incluídas nas definições mais recentes. Se a isto juntarmos as teorias do decrescimento, a tendência de um desenvolvimento acumulado que tende a aumentar, compensando a necessidade de maiores consumos com o desenvolvimento tecnológico ou outros, podemos chegar a becos sem saída. Dificilmente alguém se opõe ao desenvolvimento sustentável enquanto conceito vago ou aplicado em exemplos práticos isentos de conflitos, ainda que tal possa depois ser problemático quando choca com hábitos e direitos adquiridos dos indivíduos. Por exemplo: quando se recomenda a redução do uso de água, do excesso de aquecimento dos edifícios, do uso massivo do transporte individual, entre outros.

O Desenvolvimento Sustentável parece ser capaz de intervir em todas as dimensões da nossa vida, contribuindo para uma mudança social profunda. Tem uma teoria fundamentada que o suporta, permite construir projectos de pequena e grande escala. Não é de espantar que se abandone a dicotomia esquerda-direita e se opte por este novo tipo de ideologia, aparentemente mais isenta dos chavões partidários que tantas pessoas têm afastado do exercício da cidadania política. Mas área de intervenção pode ser tão vasta que o torna difícil de assimilar de forma simples e imediata, o que pode dificultar a doutrinação, especialmente numa sociedade “hipermoderna”, onde tudo é rápido, superficial e efémero, tanto como o consumismo em que assenta. Tudo isto pode ser paradoxal.

A definição de desenvolvimento sustentável “ter um desenvolvimento atual de modo a que não condicione o desenvolvimento futuro” parecer ter ganho uma complexidade que o pode tornar vazio de sentido. Para Bourdin o conceito de desenvolvimento sustentável peca por se ficar pelas recomendações e não pela definição exata de medidas e projetos. Para outros autores, como Rogério Roque Amaro, a dificuldade prende-se mais pelo uso excessivo das palavras, de um conceito que parece gasto por uso excessivo sem a devida aplicação. As palavras desenvolvimento sustentável parecem estar a ficar agstas antes de tempo, arriscando-se à insustentabilidade como as ideologias mais tradicionais. No entanto, existem cada vez mais projetos que vão materializando os princípios do desenvolvimento sustentável.

O desenvolvimento sustentável, a ser uma ideologia é-o no contexto do pós-modernismo, ou hipermodernismo como diz Lipovetsky, no ocidente, pois é flexível, indefinido e altamente adaptável a cada caso e realidade. Pode ter dificuldades de afirmação e aplicação por se ter diluído numa sociedade que usa informação em massa sem a aprofundar, tornando-se o conceito potencialmente gasto pela sua complexidade e necessidade de compreender caso a caso de um modo multidisciplinar. Por outro lado pode condicionar os indivíduos, o que choca com o princípio basilar do individualismo consumista próprio das sociedades pós-modernas. Será assim uma ideologia de choque e mudança perante os hábitos e estios de vida atuais?

Digamos então que é uma ideologia líquida, como dizia Bauman, e algo indefinida. Ou seja, na era do pós-modernismo, em que as ideologias despareceram com a afirmação do individuo perante os valores ideológicos colectivos de construção das sociedades do futuro, quase sempre utópicas, a causa do desenvolvimento sustentável parece ser a única capaz de sobreviver, apesar da sua indefinição e aplicabilidade prática poder estar em conflito com os valores que estruturam as sociedades contemporâneas. Pode no entanto persistir como ideologia em grupos restritos, isto porque hoje as sociedades são cada vez menos homogéneas, compostas por grupos de pertença mais ou menos instáveis.

Só no futuro saberemos se a sustentabilidade será atingível e se os consumismos, e outros impulsos individualistas, podem ser refreados, se a tecnologia consegue acompanhar as necessidades de crescimento num mundo material e físico finito. Poderá surgir um momento de conflito entre ideologias líquidas, a do individualismo consumista e a do desenvolvimento sustentável, quem sabe mesmo a do decrescimento. Misturando-se as águas turva-se a capacidade de ver através destes fluídos dinâmicos.

Será essa eminência dialética a encerrar o pós-modernismo das sociedades hedonistas individualistas de consumo, inaugurando uma nova época? Não sabemos, pois as sociedades contemporâneas parecem cada vez menos dispostas a uma dialética aprofundada em que as ideias confrontam ideias.
 
Algumas referências:
* Intervenção no” II Congresso Internacional, Educação, Ambiente e Desenvolvimento”, organizado pela OIKOS, de 9 a 12 de Novembro de 2016, em Leiria

Bauman, Zygmunt – Amor Líquido. Lisboa: Relógio D’Água, 2008.
Bourdin, Alain – O Urbanismo depois da Crise. Lisboa: Livros do Horizonte, 2011.
Fernandes, António José – Introdução à ciência política. Lisboa: Porto Editora, 2015.
Latouche, Serge –  Pequeno tratado do decrescimento sereno.  Lisboa: Edições 70, 2011.
Lipovestsky, Gilles – Tempos hipermodernos. Lisboa: Edições 70, 2011.
 
 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Nova vaga de jogos de tabuleiro Modernos – Sinais do pós-modernismo?

Em setembro de 2016 o jornal “The Guardian” [1] anunciou que iria dedicar uma coluna mensal a jogos de tabuleiro. Isto poderá parecer surpreendente e inexplicável ou apenas mais uma tendência/moda passageira.

Bem, não saberemos se será algo efémero, mas tudo aponta no sentido contrário. Então vejamos alguns dados. No EUA as vendas subiram entre 25 a 40% desde 2010.  Se em 1991 se estimava que a indústria representava 1.2 biliões de dólares, em 2013 somente o mercado alemão rondava os 375 milhões de euros. Em 2015, só nos EUA, representava 900 milhões de dólares [2;3]. Estamos a falar de números muito consideráveis, especialmente porque apresentem taxas de crescimento impossíveis de ignorar.
Batoteiro com o Ás de Ouros - Georges de La Tour

 Atualmente a Alemanha é o mercado com maior taxa de vendas por pessoa, tal como o berço do “Eurogame”. Este tipo de jogo, cujo exemplar mais conhecido internacionalmente é o “Setlers of Catan” [4], distingue-se pela redução do conflito entre jogadores, pela valorização da estratégia e da eficiência. Este estilo opõe-se aos jogos de inspiração americana, denominados de “Ameritrash”, mais conflituosos, aleatórios e alicerçados numa narrativa, do tipo “role play” altamente interativa [5]. Entre os dois estilos principais, se é que é correcto usarmos estas definições de modo absoluto, existem muitos híbridos e outros que dificilmente conseguimos caracterizar, pois os jogos de tabuleiro modernos podem assumir muitas formas e recorrer a muitas mecânicas, materiais e conceptuais. Para além da gestão estratégica competitiva, existem jogos cooperativos, de destreza, memória, teste de sorte, narração, simulação de aventuras, dedução e até os mais físicos. Depois existem outros que misturam tudo. Ao nível do formato podem ser de cartas, dados, peças móveis, em plástico, madeira, papel ou misturando tudo com adereços originais. Podem ser enormes ou caber no bolso, necessitar de escrever bastante ou até recorrer a uma aplicação de telemóvel. Podem demorar 5 minutos ou horas a fio a jogar. Também há jogos para todas as idades, jogados preferencialmente por determinadas faixas etárias ou misturando todas as pessoas.

Os temas dos jogos são inesgotáveis: economia, agricultura, política, história, geografia, aventura, fantasia, exploração, natureza, situações absurdas e divertidas, recriação de livros, filmes ou séries famosos, ou então sem tema, completamente abstratos. Talvez o melhor local para perceber a escala do que refiro é o sítio da internet https://boardgamegeek.com/ que desde 2000 acumula preciosa informação sobre o mundo dos jogos de tabuleiro.

Então e por que raio centenas de milhares de pessoas se deslocam a convenções de jogos de tabuleiro,um pouco por todo o mundo, mas especialmente na Alemanha e nos EUA? Porque se gastam milhões de dólares e euros na compra dos milhares de títulos de jogos lançados anualmente? Porque existem tantos blogues, sítios da internet e youtubers a tratar o tema? Porque abrem “boardgame cafés”, experiências de férias, pousadas e eventos de turismo, grupos e clubes de jogadores de jogos de tabuleiro por todo o lado, incluindo Portugal?

Não deveria a era digital ter destruído os jogos de tabuleiro?

De forma imprevisível aconteceu exactamente o contrário. A Internet permitiu aproximar e divulgar a comunidade de jogadores de jogos de tabuleiro, fomentando a troca de informação, em todos os formatos, à distância. Veio facilitar a organização dos eventos presenciais e a divulgação dos jogos. As novas tecnologias são também potentes ferramentas de apoio ao desenvolvimento dos jogos, que se tornam cada vez mais apelativos e diversificados. O networking tem valido a jogadores e designers, mas também se tornou mais fácil produzir e comprar à distância, para depois jogar presencialmente.

É na dimensão presencial que os jogos de tabuleiro vão ganhando pontos à concorrência. O consumo massificado de dispositivos digitais, tanto em contexto profissional como em lazer, tem levado grupos crescentes de pessoas a procurar alternativas, desligando a ficha e os ecrãs. A conjugação da procura pelo convívio presencial, longe desses dispositivos digitais, com a melhoria da qualidade e oferta dos jogos de tabuleiro criaram as condições perfeitas para estarem cada vez mais pessoas nestas reinventadas mesas de convívio.

A tudo isto se soma o potencial de desenvolvimento cognitivo e de sustentabilidade ambiental. Estes jogos são excelentes para aprender e desenvolver competências de forma indirecta, através de momentos de convívio e lazer. A aplicabilidade em contexto educativo e formativo é imensurável, tal como em ferramentas de intervenção social e fortalecimento da sociabilidade entre famílias, grupos e comunidades.
Nem se falou da riqueza da interação social que permitem este tipo de jogos. Imensas experiências sociaias e psicológicas podem ser feitas através destes jogos. Mesmo para um leigo, uma experiência de jogo é sempre uma oportunidade para conhecer e explorar o comportamento humano, mesmo que de forma indireta e não sistematizada. São muitas as referências pela Internet de que Platão tenha dito: "Podemos descobrir mais sobre uma pessoa numa hora de jogo do que num ano inteiro de conversação". Não existe qualquer referência para afirmarmos que o famoso filósofo tenha dito tal coisa, até porque é contraditória à dialética que defendia, no entanto a frase dá que pensar e quem já experimentou vários jogos sabe que existe alguma verdade nisto [6].
Se invocarmos a "Teoria dos Jogos" [7] então os jogos de tabuleiro passam para um outro nível de compelxidade e utilidade, mas o artigo já vai longo.

Por tudo isto, parece-me que os jogos de tabuleiro modernos estão para ficar, pois têm-se adaptado e fomentado experiencias valiosas na era do domínio digital à distância. Aqui está um fruto dos nossos tempos, quem sabe um ato materializado colectivo do nosso pós-modernismo intrínseco, por vezes inconsciente.

Nota: No blogue www.jogosnotabuleiro.blogspot.com podem encontrar textos de opinião, curiosidades e reviews sobre jogos de tabuleiro, sendo o autor aqui de "A Busca pela Sabedoria" coautor também desse espaço.

Algumas referências e fontes
[1] - https://www.theguardian.com/lifeandstyle/board-games
[2] - https://en.wikipedia.org/wiki/Board_game#cite_note-32
[3] - https://infogr.am/board_game_statistics
[4] - http://archive.wired.com/gaming/gamingreviews/magazine/17-04/mf_settlers?currentPage=all
[5] - https://boardgamegeek.com/thread/780739/best-definitions-ever-eurogame-ameritrash-and-warg
[6] - http://www.mesacc.edu/~davpy35701/text/plato-things-not-said.html
[7] - https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_dos_jogos

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