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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Como identificar o fascismo?

Tal como dizia Zygmunt Bauman, estamos numa época de transição, num impasse sem conseguirmos perceber qual o futuro. Esta impressão pode ser comum a todos os tempos, tendo a em conta a incerteza do futuro aos olhos de quem vive esse determinado tempo como contemporâneo. Há registos disso em textos de todos os tempos e de todas as sociedades, especialmente em épocas de crise ou de final de ciclo. Será o nosso caso? Talvez.
 
Síntese Fascista - Alessandro Bruschetti
Neste momento parecem estar a ressurgir alguns movimentos que se reinventam numa adaptação aos tempos contemporâneos, aliás, como também é comum acontecer ao longo da história, dos múltiplos processos de reciclagem e reinvenção de ideias e valores mais antigos. Não faltam exemplos de casos da ascensão de movimento sociais e políticos que muitos caracterizam como sendo “fascistas” ou “neofascistas”. Algumas dessas tendências, mais intensamente nuns casos que noutros, podem ser sentidas em alguns governos e líderes nacionais. Mas como aferi e distinguir o fascismo?
 
Proponho recorrer a William Ebenstein, professor de ciências políticas, que definiu, nos anos 40 do século XX, em alguns tópicos, as características do fascismo. São elas, nas palavras de António José Fernandes:
  • Falta de confiança na razão;
  • Negação da igualdade humana fundamental;
  • Código de conduta baseado em mentiras e violência;
  • Governo da Elite;
  • Totalitarismo;
  • Racismo e Imperialismo;
  • Oposição às leis e regras internacionais.

Estes tópicos podem ser excelentes pontos de partida, mas são fruto de uma metodologia que se baseia em casos historicamente situados. Dificilmente haverá outro modo de analisar uma realidade social como os contextos políticos, pois são sempre e forçosamente historicamente situado. Para podermos fazer alguma análise comparativa com os políticos e as políticas da actualidade temos de fazer inúmeras adaptações. O facto das sociedades se terem aberto, criando redes sobrepostas e concorrentes, e das novas tecnologias de informação e comunicação massificarem o poder da comunicação interativa mudou muito o nosso mundo. Estamos numa fase em que vemos os princípios orientadores dos fascismos a procurarem uma adaptação a estas novas realidades. Vamos ver novidades com certeza num futuro próximo. E isto é apenas uma actualização no nesta pequena dimensão. Muitas outras mudaram. Fiquemos com este ponto de partida.

Referências
Fernandes, António José – Introdução à ciência política. Lisboa: Porto Editora, 2015.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Desenvolvimento Sustentável - Uma ideologia dos nossos tempos?

No livro "O Urbanismo depois da Crise" Alain Bourdin defende que o desenvolvimento sustentável se transformou numa ideologia. Só por si esta afirmação merece ser analisada, tanto do ponto de vista político como do desenvolvimento sustentável em si.

Esta suposta ideologia pode ser tão frágil como as demais à beira de extinção, próprias de um modernismo que já passou. Vejamos então como se cria uma ideologia: primeiro surge uma ideia, dá-se depois um processo de doutrinação e por fim constitui-se uma ideologia. Sendo que a ideologia pode ser considerado como um conjunto estruturado de ideias que podemos aplicar sem questionar. Serão então essas mesmas características que podem fazer do desenvolvimento sustentável uma ideologia mas ao mesmo tempo impedir que tal possa de facto assumir-se pelo conflito com o contexto socioeconómico em que vivemos.
 
Ferragosto - Cy Twombly

Encontraremos imensas  definições de desenvolvimento sustentável, numa tendência cada vez mais abrangente e holística. Se o conceito nasceu da conjugação da dimensão ambiental, social e económica, cada vez mais dimensões são acrescentadas. Componentes como a cultura, a governança e outras são comummente incluídas nas definições mais recentes. Se a isto juntarmos as teorias do decrescimento, a tendência de um desenvolvimento acumulado que tende a aumentar, compensando a necessidade de maiores consumos com o desenvolvimento tecnológico ou outros, podemos chegar a becos sem saída. Dificilmente alguém se opõe ao desenvolvimento sustentável enquanto conceito vago ou aplicado em exemplos práticos isentos de conflitos, ainda que tal possa depois ser problemático quando choca com hábitos e direitos adquiridos dos indivíduos. Por exemplo: quando se recomenda a redução do uso de água, do excesso de aquecimento dos edifícios, do uso massivo do transporte individual, entre outros.

O Desenvolvimento Sustentável parece ser capaz de intervir em todas as dimensões da nossa vida, contribuindo para uma mudança social profunda. Tem uma teoria fundamentada que o suporta, permite construir projectos de pequena e grande escala. Não é de espantar que se abandone a dicotomia esquerda-direita e se opte por este novo tipo de ideologia, aparentemente mais isenta dos chavões partidários que tantas pessoas têm afastado do exercício da cidadania política. Mas área de intervenção pode ser tão vasta que o torna difícil de assimilar de forma simples e imediata, o que pode dificultar a doutrinação, especialmente numa sociedade “hipermoderna”, onde tudo é rápido, superficial e efémero, tanto como o consumismo em que assenta. Tudo isto pode ser paradoxal.

A definição de desenvolvimento sustentável “ter um desenvolvimento atual de modo a que não condicione o desenvolvimento futuro” parecer ter ganho uma complexidade que o pode tornar vazio de sentido. Para Bourdin o conceito de desenvolvimento sustentável peca por se ficar pelas recomendações e não pela definição exata de medidas e projetos. Para outros autores, como Rogério Roque Amaro, a dificuldade prende-se mais pelo uso excessivo das palavras, de um conceito que parece gasto por uso excessivo sem a devida aplicação. As palavras desenvolvimento sustentável parecem estar a ficar agstas antes de tempo, arriscando-se à insustentabilidade como as ideologias mais tradicionais. No entanto, existem cada vez mais projetos que vão materializando os princípios do desenvolvimento sustentável.

O desenvolvimento sustentável, a ser uma ideologia é-o no contexto do pós-modernismo, ou hipermodernismo como diz Lipovetsky, no ocidente, pois é flexível, indefinido e altamente adaptável a cada caso e realidade. Pode ter dificuldades de afirmação e aplicação por se ter diluído numa sociedade que usa informação em massa sem a aprofundar, tornando-se o conceito potencialmente gasto pela sua complexidade e necessidade de compreender caso a caso de um modo multidisciplinar. Por outro lado pode condicionar os indivíduos, o que choca com o princípio basilar do individualismo consumista próprio das sociedades pós-modernas. Será assim uma ideologia de choque e mudança perante os hábitos e estios de vida atuais?

Digamos então que é uma ideologia líquida, como dizia Bauman, e algo indefinida. Ou seja, na era do pós-modernismo, em que as ideologias despareceram com a afirmação do individuo perante os valores ideológicos colectivos de construção das sociedades do futuro, quase sempre utópicas, a causa do desenvolvimento sustentável parece ser a única capaz de sobreviver, apesar da sua indefinição e aplicabilidade prática poder estar em conflito com os valores que estruturam as sociedades contemporâneas. Pode no entanto persistir como ideologia em grupos restritos, isto porque hoje as sociedades são cada vez menos homogéneas, compostas por grupos de pertença mais ou menos instáveis.

Só no futuro saberemos se a sustentabilidade será atingível e se os consumismos, e outros impulsos individualistas, podem ser refreados, se a tecnologia consegue acompanhar as necessidades de crescimento num mundo material e físico finito. Poderá surgir um momento de conflito entre ideologias líquidas, a do individualismo consumista e a do desenvolvimento sustentável, quem sabe mesmo a do decrescimento. Misturando-se as águas turva-se a capacidade de ver através destes fluídos dinâmicos.

Será essa eminência dialética a encerrar o pós-modernismo das sociedades hedonistas individualistas de consumo, inaugurando uma nova época? Não sabemos, pois as sociedades contemporâneas parecem cada vez menos dispostas a uma dialética aprofundada em que as ideias confrontam ideias.
 
Algumas referências:
* Intervenção no” II Congresso Internacional, Educação, Ambiente e Desenvolvimento”, organizado pela OIKOS, de 9 a 12 de Novembro de 2016, em Leiria

Bauman, Zygmunt – Amor Líquido. Lisboa: Relógio D’Água, 2008.
Bourdin, Alain – O Urbanismo depois da Crise. Lisboa: Livros do Horizonte, 2011.
Fernandes, António José – Introdução à ciência política. Lisboa: Porto Editora, 2015.
Latouche, Serge –  Pequeno tratado do decrescimento sereno.  Lisboa: Edições 70, 2011.
Lipovestsky, Gilles – Tempos hipermodernos. Lisboa: Edições 70, 2011.
 
 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O fim da Moralidade e o início da Idade Moderna

Determinados marcos históricos, mais ou menos dilatados no tempo, são recorrentemente utilizados para definir as grandes eras ou idades históricas. Assumem-se eventos, movimentos e mudanças várias para fazer essas divisões. Algumas são imensamente difíceis de fazer, se não todas mesmo, pois acabam por ser delimitações artificiais do tempo, que é composto por acontecimento interrelacionados não lineares. Como ler continuidades, parcelarmente, é muito mais fácil, dificilmente podemos escapar a estas metodologias.
Soutine - Carcaça de Carne

O início da Idade Moderna pode definir-se de forma diferente consoante a temática histórica que se esteja a analisar. O mais comum é ditar o fim da Idade Média com a queda de Constantinopla, em 1453. Mas, por exemplo, para a filosofia a divisão pode ser diferente. Roger Scruton refere-se a Descartes como o paladino do pensamento racionalista, abrindo assim o pensamento filosófico à modernidade, já em pleno século XVII.

Mas do ponto de vista político podemos dizer que a visão moderna terá surgido com Maquiavel e Hobbes. Apesar da diferença de décadas entre ambos, referem-se à natureza humana, modo de governo e organização política segundo novos princípios. No início do século XVI Maquiavel justifica no seu tratado “Príncipe” que todos os meios são legítimos para atingir determinados fins políticos, ignorando entraves morais, desde que não se ultrapasse o ódio à governação. A eficiência e sucesso governativo destes princípios deitavam fora toda a herança moral religiosa e filosófica. Curiosamente há quem considere que Maquiavel estava apenas a ser irónico.
 
Já Hobbes, no século XVII na sua obra “O Leviatã”, refere-se à natureza humana como egoísta e autodestrutiva, pelo que se justificava a imposição de um poder supremo. Ou seja, a humanidade é despida de visões idílicas e deve ser submetida para que se consiga alguma forma de estabilidade e convivência, mesmo que usando de força e violência quando necessário. De notar que Hobbes viveu num dos períodos mais conturbado da história de Inglaterra, de guerra civil, violência e intolerância.

Mais tarde Rousseau, ainda que divergindo no método e premissas, segue quase pelo mesmo caminho de Hobbes, reforçando a necessidade do contrato social. Contrato esse que surgia da necessidade de contrariar a degradação e corrupção natural das sociedades mais desenvolvidas. Para Rousseau o homem era puro e bom no seu estado natural – a teoria do bom selvagem. A única alternativa para o bom governo das sociedades modernas seria instituir um “contrato social” entre membros da comunidade e sistema de governo, pois a moral não era suficiente para garantir a coexistência. Rousseau foi já um dos percursores do iluminismo, onde as luzes da razão se espalhavam pelos círculos das elites.

Pode não parecer, mas estas mudanças foram revolucionárias. Desaparecem as noções de moralidade e ética inatas à humanidade, capazes de construir um éden na terra. O conceito de influência ou influências divinas é também descartado. Revoluciona-se e aplicação um novo racionalismo social e político. Hoje chamamos-lhe pensamento (ou filosofia) político e social da Idade Moderna. Mas terá sido mesmo o principio do fim da moralidade e ética política?

Referências bibliográficas:
ROBINSON, Dave & GROVES, Judy – Introducing Philhosophy – A Graphic Guide. Londom: Icon Books, 2007.
SCRUTON, Roger – Breve história da filosofia moderna. Lisboa: Guerra & Paz, 2010.
SOLAR, David & VILLALBA, Javier (dir.) – História Universal. 10 Volumes. Amadora: Círculo de Leitores: 2007.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O Marketing Territorial é diferente do Marketing Empresarial ou Institucional

O Marketing territorial tem vindo a crescer enquanto subdomínio do marketing, sendo utilizado na gestão de territórios. Mas este tipo de marketing difere do marketing empresarial ou institucional. Os territórios, pelas suas características, são muito diferentes das empresas e instituições,  exigindo abordagens diferentes.
 
As grandes banhistas - Cezanne

Se numa empresa pode facilmente existir uma estratégia bem definida, assumida por uma liderança forte, com capacidade de decisão e operacionalização em todos os domínios da empresa, nos territórios tal é praticamente impossível de acontecer. Os territórios são sistemas iterativos complexos, de múltiplos atores e recursos, onde uma determinada liderança tem cariz político democrático. Aas próprias empresas e isntituições são atores importantes dos territórios.

 A gestão dos territórios está muito mais condicionada do que a gestão de uma empresa, pois, no segundo caso, não existe obrigação do estabelecimento de modelos democráticos. Apesar de tudo, nas sociedades que vivem em regimes democráticos, empresas, famílias e órgãos colegiais de especialistas técnicos, a título de exemplo, tendem a ser pouco democráticos nas suas práticas e organização perante o peso da propriedade, da tradição e do conhecimento.

Para as empresas será possível criar missões e culturas comuns. Mas nos territórios existem vários atores com diferentes interesses, por vezes contraditórios. Sobre os territórios podem coexistir várias culturas e subculturas, com os seus múltiplos interesses e valores, mesmo nas zonas menos cosmopolitas. É necessário um esforço adicional, respeitador da cidadania e igualdade de diretos, para além dos requisitos legais exigidos às empresas quando se gere um território.

Os territórios podem ser muito variados e heterogéneos, dificultando a identificação dos recursos e produtos a potenciar. Sempre que se pretende seguir uma determinada estratégia é necessário o envolvimento e aceitação da população para determinado objectivo de desenvolvimento territorial. Para além dos indivíduos, existem sobre os territórios outras entidades colectivas, capazes de mobilização e influência. Estas entidades podem ser também muito diversas: políticas; cívicas; técnicas; etc.

O facto dos territórios serem geridos pelo poder político, tendo em conta que este assenta num modelo democrático, surgem fortes probabilidades de mudanças imprevissíveis nas lideranças territoriais, inviabilizando a implementação de estratégias e planeamento a longo prazo.

Assim, os processos de marketing territorial, com o objectivo de potenciar o desenvolvimento de determinados territórios, independentemente da área de actividade ou objectivo final definido, têm sempre de nascer de processos inclusivos de cidadania, assentes em sólidas práticas democráticas. Caso contrário será impossível definir uma estratégia de atuação sólida e muito menos aplica-la a médio e longo prazo.

 
Referências bibliográficas:
 
FIGUEIRA, Ana Paula - Marketing territorial - uma nova dimensão do marketing. Estarreja, Mel Editores, 2011.
 
GINSBORG, Paul - A democracia que não há - que fazer para proteger o bem político mais precioso de todos os tempos. Lisboa: Editorial Teorema, 2008.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Depois de Hitler (After Hitler) - um documentário sobre o lado negro do pós-guerra

No documentário "After Hitler" de David Korn-Brzoza e Olivier Wieviorka, de 2016, recuperam-se imagens e registos pouco conhecidos do pós 2.ª Guerra Mundial. É muito comum, quando se estuda a história do século XX ignorar o modo como se reorganizou a europa e se deu a "desnazificação". Habitualmente, até nos livros de história do ensino secundário para os alunos de humanaidades, a sequência é direta. Depois da Guerra Mundial, numa descrição genralista e pouco pormenorizada das desnazificação, surgem as tensões entre aliados e soviéticos, manifestadas por discursos de Churchill, Estaline e Truman que, depois levariam à Guerra Fria.
 
Fonte da imagem: https://www.zed.fr/en/tv/distribution/catalogue/programme/after-hitler
Mas existe um período negro que parece querer ser escondido, talvez por ser incómodo para os vencedores aliados. Com a derrota alemã a europa ficou profundamente desorganizada. Respondeu-se com violência às violências da guerra. Judeus continuaram a morrer nos campos de concentração, enquanto outros continuavam a ser chassinados por populações claramente instrumentadas por ódios antigos e antisemitismo, mesmo do lado "aliado". Deu-se uma caça às bruxas com execuções sumárias e populares dos antigos colaboracionistas nazis. Comunidades germânicas em paises do centro da europa, que residiam nesses territórios há séculos, foram expulsas e massacradas. Muitos alemães comuns e seus descendentes foram executados em grupo, à semelhança do que faziam os nazis na suas limpezas etnicas. Foi permitida a escravatura da população alemã por parte dos aliados como modo de castigo e recuperação dos destroços de guerra causados. Deu-se um exodo massivo na europa com milhões depessoas em movimento em todos os sentidos, pois as delimitações feiteiriças nunca tinha sido capazes de delimitar e definir no território a diversidade das comunidades etnicas e nacionais Mesmo entre os aliados deram-se violências e exenofobias várias.
 
A guerra fria haveria de transformar os inimigos em aliados e os aliados em inimigos. Tudo mudou rapidamente e a memória do passado parecia ser apagada ou relembrada sempre com violência.
 
"After Hitler" é um daqueles documentários importantes para conhecer a história recente da Europa e refletir sobre o seu futuro.
 
 


 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Decrescimento económico - Uma proposta revolucionária

Vamos falar em decrescimento, esse assunto polémico. Não se trata de dietas mas de economia, modelos de sociedade, valores e estilos de vida. Serge Latouche no seu “Um pequeno tratado do decrescimento sereno” parece querer abalar toda a nossa existência.
Ambiente Espacial - Lúcio Fontana

Quando a economia de um país não está a crescer o dito país entra em crise. Mesmo se crescer abaixo de um determinado nível a crise pode ser inevitável. Mas como podemos continuar infinitamente a crescer, sendo que estes crescimentos acumulados geram evoluções exponenciais pois crescemos sempre relativamente ao acumulado anterior? Os recursos do planeta não são ilimitados. Se o planeta é finito como pode ser infinito o crescimento? Ainda que a tecnologia consiga tirar melhor partido dos recursos naturais, até aproveitando o que outrora era desperdício ou resíduo, haverá sempre limites materiais.

Latouche, no seu ensaio, quer preparar-nos para aquilo que considera inevitável. Vamos ter de decrescer, inverter todo este sistema de valores e organização social e económica. Se neste momento já se consome em média o equivalente a mais de uma terra, isto considerando uma pegada ecológica média, como poderemos manter este nível no futuro? O autor recusa o desenvolvimento sustentável, pelo simples facto de que manter os níveis de desenvolvimento não será sustentável de todo ao ser inviável continuar a consumir mais do que o planeta pode produzir sem perdas irreversíveis.

Imagine-se então como seria uma sociedade do decrescimento. Teríamos de consumir menos, evitar os atuais os reduzidos ciclos de obsolescência. Teríamos de produzir localmente para consumir localmente, tendo em conta as colheitas de época. Teríamos de impor restrições aos mercados impedindo que fossem apenas regulados pela lei da oferta e procura com base num sistema de livre circulação de capitais. Reduzir o número de horas trabalhadas, a intensidade e velocidade do que fazemos, pensando mais na prevenção e nos estilos de vida mais naturais e saudáveis. Teríamos de evitar o turismo como grande consumidor de recursos e desestabilizador dos ambientes naturais e humanos. Direcionar os ímpetos consumistas para o consumo de conhecimento e cultura que podem ser inesgotáveis. Isto e muitas outras coisas verdadeiramente radicais aos olhos contemporâneos. O mundo seria muito diferente.

Latouche alerta para esta necessidade, que será tanto mais forte quando os níveis de vida começarem a aumentar nos países onde os níveis de consumo e exploração estão abaixo da média. Se pensarmos que um Norte-americano consome em média o equivalente a 6 terras per capita, podemos ver o nível de desigualdade existente no planeta.

Tudo isto será uma utopia, mas, seguindo as alternativas propostas pelos defensores do decrescimento, a humanidade terá de repensar os seus modelos de desenvolvimento, pois será impossível manter determinados estilos e níveis de vida sem com isso arriscarmos o equilíbrio planetário.

Referência bibliográfica:
Latouche, Serge. Um pequeno tratado do decrescimento sereno. Lisboa: Edições 70, 2011.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Fascismo deriva do Marxismo?

As origens do fascismo parecem estar em causa? Nem por isso, mesmo que exista quem queira deixar essa dúvida a pairar.
Pegando num qualquer manual escolar de história do 12.º ano é possível chegar a algumas conclusões, por isso apenas recorro propositadamente a uma dessas fontes para este texto, tendo por base o que se encontra atualmente em uso no ensino secundário em Portugal. Então vejamos.
O triunfo do surrealismo - Max Ernst
O marxismo surge em meados do século XIX associado aos movimentos socialistas e operários, mas mais como uma corrente filosófica e económica, isto porque Marx escreveu principalmente sobre economia - de notar que a sua grande obra é “O Capital”. Marx criticava aquilo a que chamava de socialismo utópico, que era aquele socialismo reformista que pretendia conviver com o capitalismo numa gradual melhoria das condições de vida para o proletariado e os pobres no geral. Marx dizia que isso seria impossível, que tal objetivo era inconciliável. Para ele somente através duma revolução violenta capaz de derrubar o capitalismo se instauraria um modelo mais justo para o proletariado. Chamou a esse modelo, no estágio último de desenvolvimento, "comunismo", pois seria uma opção coletivista de garantir a justiça na distribuição de riqueza. Chega a esta conclusão depois de fazer uma análise história, concluindo que as tomadas de poder sempre ocorreram de forma violenta, passando os dominados a dominantes, depois de assegurarem o poder político e o controlo dos meios de produção. Para Marx são especialmente os meios de produção – a capacidade de gerar riqueza – que determinam e definem o poder político: quem os detiver controla todo o poder. Chamou a esta teoria "materialismo histórico" ou o "socialismo científico". Apesar de ser mais complexo que isto e de as suas aplicações práticas terem gerado verdadeiras calamidades humanas, podemos dizer que o marxismo enquanto teoria aspirava à igualdade.

Por outro lado, o Fascismo desenvolve-se rapidamente no pós primeira guerra-mundial, aproveitando o caos político, a crise financeira e a ameaça comunista aos países capitalistas da europa central e ocidental. O fascismo defendia a desigualdade: determinados grupos deveriam governar sobre os demais porque eram superiores. Essa superioridade poderia ser mais ou menos racial, económica ou outra, mas resume-se ao desígnio do domínio violento pelos mais fortes. O fascismo cresceu apoiado nas classes mais elevadas, mas também pela classe média, pois seriam esses grupos que perderiam poder e riqueza se o comunismo triunfasse com os seus projetos revolucionários de mudança social e económica. Só assim se justificou essa rápida ascensão e adesão: era o medo da mudança e da perda dos bens e diretos adquiridos, mesmo que fossem desiguais e fundamentados em princípios desumanos. Sem essa “ameaça” comunista nunca o fascismo teria ganho a força necessária para se constituir como governo em Itália, Alemanha e outros países, ainda que existam algumas exceções como o caso de Portugal. Mas a única relação é essa. Ao nível dos valores, princípios e objetivos nada os poderia tornar mais antagónicos, ainda que ambos os regimes tenham constituido ditaduras totalitárias por não permitirem visões e opções dissidentes dos modelos sociais e económicos que queriam implementar.

Referências bibliográficas:
Um novo Tempo da História - História A - 12.º Ano.  Autoria de Célia Pinto do Couto , Maria Antónia Monterroso Rosas ; Revisão: Elvira Cunha de Azevedo Mea. Porto Editora, 2016.

Outras referências que podem interessar para aprofundar conhecimentos e saber mais:

Arendt, Hannah. As origens do totalitarismo. Lisboa: Dom Quixote, 2006.
Judt, Tony. Pensar o século XX. Lisboa: Edições 70, 2012.
Rémond, René. Introdução à história do nosso tempo - do antigo regime aos nossos dias. Lisboa: Gradiva, 1994.
 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Viriato era mais espanhol que português?

Viriato tem sido uma daquelas personagens ressurgentes, e quase sempre presente, na memória coletiva nacional. O termo “lusitano” é utilizado de uma forma bastante comum para identificar determinados elementos e características materiais ou imateriais ligados a Portugal e aos portugueses. No entanto, a historiografia sobre os lusitanos e Viriato tem abalado a relação direta entre ambos e Portugal, abalando e remetendo para o mito a suposta relação entre ambos os povos e territórios.
Para poder tirar algumas conclusões sobre o modo como surgiu e se desenvolveu a identificação e associação de Viriato à identidade nacional portuguesa importa fazer um breve périplo pela principal historiografia dedicada ao tema, na mesma medida em que se deve analisar também a restante produção literária erudita e criativa que ajudou a alicerçar a memória colectiva.
Apesar de fortes evidências historiográficas que colocam o mito de Viriato, na sua relação com os portugueses, em causa, será difícil apagar da memória colectiva o sentimento de identificação enquanto as pessoas assim pretenderem.
 
Monumento a Viriato - Marianno Benlliure
Fonte da Imagem: http://amigos-de-portugal.blogspot.pt/2013/01/viriato.html

Fontes historiográficas clássicas
As primeiras fontes a referirem Viriato surgem no século I a.C. (Mattoso, 2006), da autoria de Posidónio e Diodoro. Segundo José Mattoso terá sido o primeiro desses historiadores a descrever Viriato como “um herói puro e justo, porque nasceu e viveu em ambientes selvagens, não corrompidos pela decadência que a civilização acarreta”, enquanto que Diodoro terá ajudado a transmitir a imagem construída por Posidónio.
Apesar de considerar estas primeiras fontes pouco sólidas José Mattoso afirma que do cruzamento dessa primeira historiografia com os posteriores autores greco-latinos será possível concluir que Viriato “teria nascido da Lusitânia, junto do Oceano” e que nada justifica a tradição de atribuir à Serra da Estrela como local do seu nascimento, pois nessas fontes o “Monte Hermínio” não surge em momento algum associado a Viriato ou às Guerras Lusitanas.
As fontes romanas descrevem as Guerras Lusitanas, situando-as na atual Andaluzia Espanhola, numa região muito mais próxima da civilização e núcleos urbanos mediterrânicos que do ocidente peninsular mais selvagem. Aí, na zona central e meridional da atual Espanha, Viriato parece ter sabido movimentar-se com mestria e conhecimento da região, tanto que obteve sucessos militares consideráveis. Isto parece colocar em causa a tese da uma origem mais ocidental e selvagem do chefe dos lusitanos.
 
Literatura e a construção da personagem de Viriato
A literatura desenvolvida em torno de Viriato, enquanto herói, foi sem dúvida o mais consequente modo de transmissão do mito (Salema, 2010) e o alimento da memória coletiva dai proveniente. Esse movimento terá sido iniciado no século XVI, em pleno renascimento e  florescimento humanista em Portugal, especialmente pela acção de Sá de Miranda e Luís de Camões (Martins, 2000).
Sá de Miranda utiliza Viriato como o arquétipo moral do Portugal, anterior à dissolução dos costumes sociais causados, na opinião do autor, pela expansão portuguesa e riquezas fáceis trazidas do oriente.
Camões segue noutro sentido, atribuindo a Viriato o papel de patriarca heróico militar dos portugueses, figura muito útil tendo em conta o pendor ideológico da sua obra maior – Os Lusíadas.
Mais tarde, Frei Bernardo de Brito, na sua obra “Monarquia Lusitana”, durante a perda da independência nacional, e Brás Garcia Mascarenhas, em “Viriato Trágico”, durante a Guerra da Restauração, ligam directamente os portugueses a viriato, já sem o assumirem como símbolo ou arquétipo como Camões e Sá de Miranda. De notar que estas duas obras épicas e de forte sentido nacionalista demonstravam descrições fantasiosas de Viriato, especialmente a segunda, tendo Brás Garcia de Mascarenhas inclusivamente sido inspirado pela sua própria vida e experiência na Guerra da Restauração para materializar a tragédia de Viriato.
Associado ao movimento do romantismo que varreu a europa durante o século XIX desenvolveram-se tendências populares celtizantes, que no caso nacional reforçou, a partir de 1870, o mito de Viriato e dos Lusitanos (Pereira, 2011). A monarquia constitucional, e mais tarde o regime republicano, voltarão a adaptar Viriato aos seus intentos ideológicos e políticos (Martins, 2000).
Seguindo essa tendência, Leite de Vasconcelos e Mendes Correia, cruzando a etnografia e a arqueologia, tentam defender teses de ligação entre os portugueses e os lusitanos.
Mas é Teófilo Braga que tenta contribuir mais para essa nova redescoberta utilitarista de Viriato. Cria assim um longo romance histórico, “Viriato - Narrativa epo-histórica”, em 1904, onde tenta, através da sua erudição fazer uma aproximação de “raça” entre os portugueses e os lusitanos. Parte dos registos romanos de Galba para fazer a distinção étnica entre os iberos e os lusitanos. A obra de Teófilo Braga denota uma necessidade de reforçar o nacionalismo como resposta ao Ultimato Inglês e dar fundamentos nacionalistas ao próprio movimento republicano.
Em 1930 o pedagogo João de Barros adapta a obra “Viriato Trágico”, de Brás Garcia Mascarenhas, contribuindo para a persistência da memória de Viriato, tanto que o livro foi incluído na colecção “Os Grandes Livros da Humanidade”. Essa obra seria utilizada no ensino básico, contribuindo fortemente para a difusão e persistência da história fantasiosa de Viriato, carregada de uma grande carga nacionalista (Martins, 2000).
A última grande ficção escrita por Viriato deve-se a João Aguiar, intitulada “A Voz dos Deuses” e datada de 1984. O seu romance histórico readapta novamente a imagem de Viriato, tornando-o mais democrático e liberal, próprio da nova democracia portuguesa, ainda que mantendo algum rigor histórico.

A Morte de Viriato, Chefe dos Lusitanos -  José de Madrazo
 

Historiografia Contemporânea em conflito com o mito
Alexandre Herculano terá sido o primeiro historiador contemporâneo a minimizar a importância da ligação entre os lusitanos e os portugueses (Herculano, 2007). Essa sua história de Portugal, produzida em 1846, influenciou os posteriores manuais escolares na forma como Viriato seria apresentado (Salema, 2010). Foi somente em finais do século XIX, quando ainda estava bem presente em Portugal a humilhação do Ultimato Inglês, que alguns eruditos, especialmente Leite de Vasconcelos e Teófilo Braga, assumiram a crítica direta a Herculano.
O espanhol Anselmo Arenas López, ao escrever a biografia de Viriato em 1900, concluiu que não teria nascido, vivido ou realizado qualquer façanha militar relevante em território ligado a Portugal, tendo estado sempre afastado 200 km da atual fronteira (Pereira, 2011).
Adolf Schulten contribui, por seu lado, já nas primeiras décadas do século XX, na sua obra monográfica sobre as antiguidades hispânicas, para o reforço da identificação de Viriato como sendo um dos grandes heróis bárbaros. Foi esse o autor que, tentando socorrer-se da arqueologia e fontes antigas, mesmo sem grandes certezas e com alguns métodos pouco rigorosos (Fabião & Guerra, 1992), atribuiu à Serra da Estrela o local de nascimento de Viriato. Esse trabalho contribuiu muito para o suporte das ações de Leite de Vasconcelos e Teófilo Braga de devolução de Viriato aos portugueses (Salema, 2010).
Carlos Fabião e Amílcar Guerra (1992) são muito contundentes em tentar fazer desmoronar o mito de Viriato e sua ligação a Portugal, que ainda tão vincadamente persiste na memória colectiva portuguesa. Enunciam para isso uma série de referências que importa lembrar, entre elas:
•A Lusitânia só adquire existência territorial depois da ocupação e organização administrativa romana.
•A Lusitânia não correspondeu ao atual território continental português.
•As fontes antigas têm muitas dificuldades em identificar e descrever os lusitanos.
•Não existem fontes que façam corresponder, sem dúvidas, o Monte Hermínio com a Serra da Estrela. Apesar disso Jorge de Alarcão defende a hipótese dos diversos acidentes geográficos do cento do atual território português poderem ser associados ao Monte Hermínio (Fabião & Guerra, 1992).
•A descrição de Possidónio era mais influenciada por intenções filosóficas que factos históricos.
José Mattoso (2006) descreve o episódio de Viriato deliberadamente como um mito, alertando, no entanto, para a não existência de qualquer outra fonte fidedigna que possa contrapor e negar totalmente as descrições de Posidónio e Diodoro. Mesmo com essas lacunas não nos poderemos esquecer que para esses dois historiadores a história de Viriato e dos lusitanos servia para transmitir os seus ideais estóicos. Tal como foi utilizado para fins nacionalistas da nação Portuguesa, tudo indica que na antiguidade tivessem utilizado o mito com intuitos ideológicos, independentemente da veracidade ou razoabilidade dos factos e sua coerência.
Já autores como Vitor Oliveira Jorge e Julian Thomas (2008) referem também o modo como Oliveira Salazar, durante a chefia do Estado Novo, terá inicialmente aproveitado o mito de Viriato para a ele se associar enquanto se assumia como defensor dos interesses nacionais contra os imperialismos estrangeiros nas colónias portuguesas. Essa associação pretendia enviar também uma forte mensagem do autoritarismo do regime e seu ditador, pois, tal como Viriato que morreu traído pelos seus companheiros, se alguém tentasse o mesmo para com Salazar levaria a que os interesses nacionais fossem tomados pelo imperialismo externo.
De notar que em 1940, na sequência da comemoração do centenário da dupla fundação de Portugal, é inaugurada a estátua de Viriato em Viseu. O discurso ai proferido por Lopes Dias, baseado nas descrições literárias humanistas, aproveita o mito para funções nacionalistas (Fabião & Guerra, 1992), tão caras ao Estado Novo.
Apesar desta primeira associação dos desígnios nacionalistas do regime do Estado Novo a Viriato, o regime haveria posteriormente de renegar o chefe lusitano. Foi difícil posteriormente conciliar a identidade nacional, herdeira da romanização, com um Viriato opositor a Roma. Esse paradoxo aprofundou-se ainda mais com a Guerra Colonial, pois Viriato simbolizava a resistência indígena perante o imperialismo estrangeiro, nesse caso o português. Talvez por ai se explique o desaparecimento de Viriato dos manuais escolares a partir de 1968
 
Em conclusão
A memória colectiva portuguesa persiste em relembrar Viriato, sentindo-se honrada na ligação que estabelece com esse símbolo e arquétipo nacional. Ainda que a historiografia, já desde o século XIX, tenha definido a história de Viriato e sua ligação aos portugueses como mítica, Viriato não desaparece da memória dos portugueses. O herói lusitano parece querer resistir à historiografia com a mesma bravura e determinação que terá resistido aos romanos.
Assim, o mito de Viriato, mesmo podendo não ser história factual dá origem indireta à história nacional, de como se tentou alicerçar a identidade nacional num símbolo mais antigo que a própria nacionalidade. Essa história demonstra a existência de um mito quase vivo, que conseguiu sobreviver aos séculos, sendo constantemente adaptado conforme os interesses dos homens, especialmente o interesse de alguns portugueses. Ainda que de uma forma mitológica, Viriato é português, nem que seja por empréstimo utilitário.
Quanto aos factos históricos, dificilmente poderão sustentar o mito comum de Viriato, mas certo é que também não o negam completamente, ainda que as ligações aos portugueses possam ser ténues, dada a distância dos séculos e as muitas movimentações políticas, culturais e de povos que se entrepõem entre ele e os portugueses.
A verdade é que Viriato ainda vive na memória coletiva dos portugueses, contribuindo assim para a sua identidade coletiva.

Referências Bibliográficas
FABIÃO, Carlos & GUERRA, Amílcar. “Viriato: Genealogia de um Mito”. Penélope – Fazer e desfazer a história, nº 8. Lisboa: Edições Cosmos & Cooperativa Penélope, 1992.

HERCULANO, A.” História de Portugal desde o começo da monarquia até ao fim do
reinado de Afonso III.” Vol.1. Lisboa: Bertrand Editora, 2007.


JORGE, Vitor Oliveira & THOMAS, Julian. “Archaeology and The Politics of Vision in a Post-Modern Context”. Newcastle: Cambridge Scholar Publishing, 2008.

MARTINS, Luís. “Representações do Poder Político na Literatura - O exemplo de Viriato”. Revista Discursos: língua, cultura e sociedade. Lisboa: Universidade Aberta, 2000

MATTOSO, José (coord.). “História de Portugal – Antes de Portugal”. Vol. 1. Lisboa: Editorial Estampa, 2006.

PEREIRA, Maria da Conceição Meireles. "A etno-epo-história e os mitos fundacionais da Nação - «Viriato» de Teófilo Braga". Atas do Seminário Internacional “Identidade Nacional” - entre o Discurso e a Prática, realizado em Lisboa. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2011.

SALEMA DAS NEVES, Manuel. “Entre nacional e local, entre história e memória: estratégias para uma patrimonialização identitária de Viriato”. Múrcia: Universidade Católica San António de Múrcia, 2010.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Decifrando o Estado Islâmico - Um documentário sobre propaganda contemporânea


Dos muitos documentários que atualmente passam nos canais da especialidade em Portugal, infelizmente poucos são os que merecem ser vistos. Mas, felizmente, há sempre exceções. Uma delas é documentário “Decifrando o Estado Islâmico”, exibido no canal Odisseia, da autoria de Riccardo Mazzon, Antonio Albanese e Graziella Giangiulio.


Muitos programas falam do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Daesh), mas este documentário ganha especial interesse. Isto porque exibe informações, muito pouco conhecidas, sobre o modo como funciona a propaganda do Daesh, algo que não chega ao comum espectador ocidental.

A máquina de propaganda do Daesh é profissional, produzindo conteúdos em vários formatos. Os vídeos são chocantes, não tanto pela violência que exibem, mas pelo simples facto de existirem e e retratarem situações reais. Ou seja, a máquina de propaganda do Daesh é incrivelmente forte e sofisticada no modo como alia a técnica à mensagem. Recorrem a técnicas cinematográficas vistas em filmes de qualidade mundial, tudo feito para criar impacto e dimensão épica. Utilizam as mesmas ferramentas do marketing e comunicação utilizadas no ocidente para fomentar o consumo e entretenimento. Utilizam esses meios aplicados ao terror.

Ao contrário do cinema, que tenta simular a realidade, a propagando do Daesh usa a realidade para simular o cinema de acção épico, criando imagens poderosas. Só vendo para acreditar. Mas esses conteúdos, talvez corretamente, são censurados no ocidente, pois servem efectivamente para recrutar jovens ocidentais susceptíveis à sua mensagem. Publico não faltará, uma vez que nas sociedades pós-modernistas os valores estão em contante reformulação e por vezes é difícil definir uma identificação colectiva e individual. Os efeitos do capitalismo consumista e individualista e das políticas falhadas de integração social contribuem também por sua vez para o problema em causa. Misturando os ingredientes da susceptibilidade dos jovens, do seu desenraizamento, da falta de perspetivas de futuro, de uma busca por identidade e sentimento de pertença, fervor religioso, necessidade de realização e glória pessoal, tal como o efeito da cultura de filmes e jogos de vídeo violentos, criam-se as condições para o jihadismos se desenvolver.

A geopolítica, a história e a religião explicam por sua vez também as razões de existirem territórios e momentos próprios ainda mais propícios para o extremismo islâmico ocorrer. Isso daria, como é óbvio, muito mais que escrever.

Assim , do documentário, pode concluir-se que o Daesh tem usado os meios audiovisuais, as redes sociais e outras ferramentas próprias do mundo ocidental, da seu capitalismo, liberalismo e democracias para derrotar o seu inimigo: o próprio Ocidente.

Dificilmente poderá haver uma solução para este problema enquanto continuarmos a ver o problema somente segundo a matriz de valores do ocidente., ainda mais se de modo sectário.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Frente Popular - Quando toda a Esquerda se uniu numa coligação de governo

Diz-se que a história pode ser memória, mas na prespetiva coletiva que resulta da coincidência e partilha das memórias individuais subjetivas. A história tentará escapar a essas fragilidades da memória, mas as ligações existem sempre, nem que seja pela nossa consciência atual e memória ir beber também alguns dos seus conteúdos à história.
 
Bem, isto tudo para relembrar um episódio de história que se liga à realidade política contemporânea portuguesa.  

Cartaz alusivo à Frente Popular Francesa

 
Em 1936 formou-se em França o governo da Frente Popular. Os efeitos da  Grande Depressão massacravam mais uns países que outros, mas muito poucos lhe escapavam, especialmente as democracias liberais como a francesa. Entre 1930 e 1935 o número do desemprego em França subiu de 12.000 para 500.000. A crise eternizava-se sem que as políticas deflacionistas dos governos liberais conseguissem reverter a situação.
 
Tanto a esquerda como a direta mais radical contestavam os governos liberais de então. A esquerda mais moderada pedia soluções inspiradas em Keynes, no New Deal, e no intervencionismo e regulação da economia. A direira tendia para as soluções fascistas, enquanto que a extrema esquerda pendia para os movimentos revolucionários, comunistas ou outros.
 
Desse caos e instabilidade política surgiu então uma novidade política improvável. Surgiu a Frente Popular: uma ampla coligação de esquerda. Estavam incluídos partidários comunistas, socialistas e radicais sob o lema: "Pelo pão, pela paz e pela liberdade". Apesar das clivagens históricas entre as várias fações de esquerda, a coligação formou governo e governou de facto mudando a história. Propôs-se como objetivo principal deter o avanço fascista em França, de modo a evitar o que acontecera na Alemanha e Itália.
 
Apesar desta união de esquerda, os comunistas estiveram ausentes dos governos, o que não impediu a coesão do projeto político de ampla coligação.
 
A Frente Popular foi responsável por notáveis impulsos na legislação social, reforçada e apoiada pelas grandes mobilizações grevistas que envolveram civicamente a classe trabalhadora. Foi um momento simbólico de libertação social. Isso forçou o patronato a pedir ao Governo uma mediação para o conflito que resultou nos "Acordos de Matignon".
 
Os novos acordos permitiram assinar contratos coletivos de trabalho entre empregadores e assalariados, em que se aceitava a liberdade sindical e se previam aumentos salariais. Pouco depois surgiram novos diplomas que implementaram as 40 horas de trabalho semanal e 15 dias de férias pagas por ano a todos os trabalhadores. Estas medidas permitiram criar um clima de paz social e combater a crise económica. Aumentou o poder de compra e criou-se mais emprego devido à diminuição dos horários de trabalho.
 
Tudo o que aqui foi referido resulta de uma decalcação quase integral do manual de História 12ºA - O Tempo da História, da Porto Editora,  adotado para o  ensino formal em Portugal. Não se trata de uma peça de propaganda ideológica. Longe disso, é apenas  história factual e conhecimento geral definido como importante para o percurso escolar nacional. Este conhecimento, mais que a dimensão escolar, é também útil por questões cívicas e políticas para a população em geral. Mas para isso é necessário que faça parte da memória coletiva e não apenas uma matéria a decorar pelos estudantes do ensino secundário.
 
 
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Afastamento entre movimentos de esquerda e igrejas – uma razão urbanística

Os movimentos de esquerda, operários de socialistas e anarquistas raramente tiveram ligação com as igrejas católicas ou protestantes instituídas. Foi assim logo desde o nascimento e ganhar de força destes movimentos, logo nos inícios de século XIX. Essa luta e reivindicações nascem e crescem à medida que a sociedade e era industrial transformam os Estados. O impacto nas populações da industrialização foi imenso, daí o recurso ao termo “revolução”, embora esse efeito não seja apenas social.
Demónios de Krupp - Heinrich Kley
O afastamento entre as igrejas e os movimentos de esquerda pode ser explicado pelo tradicionalismo e modelos sociais doutrinados. As igrejas ligavam-se ao poder político instituído e sustentavam, à sua maneira, as hierarquias e valores antigos. As igrejas tendiam ao conservadorismo social e não à mudança e inovação que propunham e estavam na génese dos movimentos socialistas, esquerdistas e anarquistas. Apesar disso, posteriormente, essa tendência foi rompida com os movimentos de democratas e trabalhadores cristãos, que no século XX muito se aproximaram da social-democracia, dos ditos socialistas mais moderados.

Mas voltemos às origens do século XIX. Para além das razões ideológicas referidas anteriormente, há razões materiais e urbanísticas que podem justificar o afastamento entre movimentos operários e igrejas. Com o crescimento exponencial das cidades na era industrial, devido ao crescimento demográfico e esvaziamento dos campos, as estruturas urbanas destruturaram-se. Os bairros cresceram em torno das fábricas que atraiam massas de trabalhadores às cidades. O planeamento urbano inicial dessa primeira explosão industrial foi incipiente ou mesmo inexistente. As cidades cresciam por si, sem regra nem critério para além do economicismo puro. Nessas novas zonas habitacionais, sem condições de higiene e salubridade do edificado e onde o espaço público era uma miragem, não existiam as estruturas públicas básicas. Nem as igrejas tiveram capacidade de se adaptar a esta realidade. Grande parte dessas comunidades operárias viviam num vazio eclesiástico, sem igrejas e seus sacerdotes, tal como era habitual nas aldeias e vilas de origem e onde essa organização se foi instituído e implementando ao longo dos séculos anteriores.

Agora podermos fazer as seguintes perguntas. Como seria se as comunidades operárias urbanas tivessem sido enquadradas pelas igrejas instituídas? Ou será que, mesmo se tivesse existido esse cuidado de planeamento urbano e de serviço religioso, nada mudaria?
 
 
Algumas referências bibliográficas
Rémond, Réne; "Introdução à história do nosso tempo - Do antigo regime aos nossos dias", 1994.
Chueca Goitia, Fernando. "Breve História do Urbanismo", Editorial Presença, 1996.

 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Porque se chama Invicta à cidade do Porto?

Quando se refere o nome da cidade do Porto é muito comum usar em simultâneo o epíteto ou título de “Cidade Invicta”, que é o mesmo que dizer “cidade invencível”.
Então mas de onde virá este honroso titulo? Será alguma influência dos efeitos das vitórias do seu clube de futebol local? Não, nada disso, a razão é histórico/política e remonta a alguns séculos.
Cerco do Porto - Marques de resende. Fonte: http://www.historiadeportugal.info
Recuando na história, constata-se que a cidade foi tomada pelos mouros em 715, sendo apenas reconquistada por Vimara Peres em 868, fundando-se assim o Condado Portucalense. Depois não se regista mais nenhum ataque significativo, com a dilatação das fronteiras em direção a sul. Ou seja, invencível perante os mouros não foi, que de facto ocuparam o território por mais de um século.
Depois o Porto surge associado a alguns grandes feitos da história de Portugal. De notar o apoio imediato ao Mestre de Avis, em 1385, e o contributo para a expansão ultramarina, que lhes atribuíram o título honroso de “tripeiros”, por terem escolhido comer as entranhas dos animais e cedido a carne limpa para o esforço nacional da conquista de Ceuta e sua consequente expansão.
Mas é no século XIX que nasce a principal razão do título. Não terá sido a resistência às invasões francesas, pois foram terríveis para a cidade que nãos lhes conseguiu resistir. No entanto, durante as Guerras Liberais (1832-1834), o Porto foi cercado pelas tropas absolutistas depois do desembarque no Mindelo das tropas liberais apoiando D. Pedro IV, que lutava para garantir o trono à sua filha, a futura D. Maria II, e consequentemente a implementação do liberalismo em Portugal. O Porto demonstrou-se invicto perante os assalto de D. Miguel, tendo sido um ponto-chave para mais tarde assegurar a vitória dos liberais liderados por D. Pedro em todo o país.
D. Maria II então que atribui posteriormente o título de Invicta cidade do Porto, constando ainda hoje essa referência no seu brasão municipal.

Referências Bibliográficas para aprofundar:
  • Câmara Municipal do Porto – História da Cidade. Consultado em 24/06/2015. Disponível em: http://www.cm-porto.pt/historia-da-cidade
  • Bonifácio, Maria de Fátima – Reis de Portugal - D. Maria II. Temas e Debates, 2007.
  • Martelo, David - Cerco do Porto 1832-33 – A Cidade Invicta. Prefácio, 2001.
  • Mattoso, José – História de Portugal – Antes de Portugal. Vol. I.  Editorial Estampa, 1997.
  • Mattoso, José – História de Portugal – O Liberalismo. Vol. V. Editorial Estampa, 1998.
  • Santos, Eugénio - Reis de Portugal - D. Pedro IV. Temas e Debates, 2007.
  • Wikipédia – Porto. Consultado em 24/06/2015. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Porto

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Quando os Media formam consumidores em vez de cidadãos

Existe, desde há alguns anos para cá, uma tendência para o esvaziamento das entidades que tradicionalmente exerciam poder sobre indivíduos e sociedades (Naim, 2014). Essas instituições, políticas, religiosas, corporativas, cívicas e etc., têm perdido o seu peso nas sociedades contemporâneas. No caso das democracias isso traz um problema considerável, pois é a própria sociedade civil que perde (Levine, 2002). Nessa perda de poder há um acentuar de perda nos grupos de pressão, especialmente dos defendiam os mais desfavorecidos e impotentes, habitualmente defendidos por congregações religiosas, partidos políticos e sindicatos. Há que lembrar também Tocqueville (2001), quando demonstrou que era nessas instituições cívicas que se formava a massa humana crítica e ativa que tornavam uma democracia sadia.
Michael Jackson e Bubbles - Jeff Koons
Um outro aspeto curioso passa pelo falhando do efeito cívico previsto para o crescimento da generalização da educação. Muitos dos poderes tradicionais referidos foram-se esbatendo, direta e indirectamente, pelo crescimento da liberdade individual aliada à universalização da educação. No entanto, esse alargamento da escolarização em quantidade e qualidade, não se transformou em reforço da participação cívica e na melhoria das democracias, isto ao contrário do que muitos previam (Ginsborg, 2008). Apesar desse imprevisível marasmo cívico, não significa que as sociedades contemporâneas sejam incapazes de mobilização por causas particulares. Existem mesmo casos de mobilização massiva, especialmente amplificada pelo acesso à Internet. Mas esse envolvimento cívico assume, muitas vezes, contornos efémeros e pontuais, e não uma atitude continuada que faça parte da vivência quotidiana. 

Curiosamente, nesta derrocada de poderes tradicionais os menos afectados têm sido os económicos, especialmente os de grande escala. As sociedades são cada vez mais consumistas, propensas à busca pela constante novidade material. Entra-se assim numa fase de consumismo e individualismo exacerbado. Essas entidades económicas têm saindo reforçadas e continuam a marcar a sua posição de dominância, contribuindo para fabricar a cultura de massas e o consumismo a ela associada. A vida familiar está impregnada destes valores. Não será de espantar, pois os meios de difusão cultural e informativa – os Media – são controlados pelos tais grupos económicos, interessados no reforço das tendências consumistas. O caso da televisão é o mais marcante, por ser o principal instrumento de difusão cultural familiar. Especialmente por esse meio vão-se formando e reforçando consumidores e não cidadãos. A televisão pretende entreter e não formar. Interessam as audiências e o consumo de determinados produtos e serviços. Parece não importar formar cidadãos com consciência política cívica e democrática (Ginsborg, 2008).


Tendo em conta este estado de coisas, não é estranho o afastamento entre o exercício da cidadania política e os valores e hábitos que se ganham através da cultura familiar. No entanto será interessante perceber os efeitos do reforço do individualismo na procura de entretenimento, especialmente porque o uso da Internet – que é um espaço muito mais livre – vai alastrado e porque a televisão também está a evoluir para formatos mais costumáveis em que se pode escolher o que ver e quando.
 
Referências bibliográficas
• Ginsborg, Paul. “A Democracia que Não Há - O que fazer para proteger o bem político mais precioso dos nossos tempos”. Editorial Teorema, 2008.
• Levine, Peter. “Can the Internet Rescue Democracy? Toward an On-line Commons. Democracy’s Moment: Reforming the American: Political System for the 21st Century”.Lanham, MD, Rowman & Littlefield. 2002.
• Naim, Moises. “O Fim do Poder - Dos campos de Batalha às administrações, aos Estados e às Igrejas. Porque ter poder já não é o que era”. Gradiva, 2014.
• Tocqueville, Alexis de. “Da Democracia na América”. Princípia, 2001.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Geopolítica do Médio-Oriente explicada através de "The Game of Thrones"

Benyamin Nethanyaohu terá,  perante o congresso dos EUA, comparado  a geopolítica do Médio-Oriente ao mundo fantasioso de "The Game of Thrones" e à geopolítica de Westeros. Os comentários a este bizarro acontecimento serão seguramente imensos. Deixo isso aos leitores deste texto. Interessante foi o desenvolvimento subsequente e profundamento da comparação em causa, divulgada depois pelo Washington Post e pelo Courrier International.
 

Aqui fica então o resumo do aprofundamento da comparação (traduzido pelo autor deste blogue) entre a várias casas (ou famílias) e grupos que compõem o universo geopolítico do reino de Westeros:
 
Lannisters – Arabia Saudita. É a casa mais rica e mais pujante de Westeros, assumem-se como "fazedores de reis" ou mesmo como os seus influenciadores mais diretos. Os eus assuntos familiares são sempre prioritários. Muitos criticam a sua brutalidade ou o facto do seu poder residir principalmente nos seus imensos recursos naturais. Mias que tudo defendem a sua hegemonia em Westeros, mas estão em cheque pelas suas recentes ações políticas.

Stark – Movimentos democráticos de oposição internos. Os movimentos existentes nos vários países que chegam ao poder mas são derrubados ou que ficam perto de o conseguir mesmo antes de serem esmagados. Tiveram um pequeno momento de sucesso, mas depois são atraiçoados e aniquilados. Alguns membros sobreviventes desta família entram na clandestinidade ou sob a proteção de poderes que não podem confiar.
Baratheon – Autocratas Árabes. Governaram durante algum tempo Westeros. Agora dependem dos Lannister devido às agitações generalizadas no reino, mas tentam encontrar novos aliados fora da sua terra natal.
Targaryen – Estados Unidos da América. São uma dinastia que vem de longe e dominou durante décadas. A sua hegemonia deve-se ao seu superior poder de fogo. As relações de interesses com os Lannisters entraram em crise, Muitos em Westeros desejam o seu regresso e intervenção para garantir a estabilidade do reino.
Greyjoy – Turquia. São nostálgicos da época em que reinavam sobre grandes áreas do território de Westeros. Para todas as outras casas isso são apenas histórias antigas, pois os Greyjoy mantém-se isolados nas suas fortalezas, rodeados de inimigos.
Martell – Irão. Vêem-se como distintos das outras grandes casas de Westeros, de uma origem etnica orgulhosamente diferente. Têm profundo ódio aos Lannisters e Tyrells.
Tyrell – Israel. Possuem um reino prospero. Apesar das diferenças, encontraram uma causa comum com os Lannister.
Os selvagens – os islamitas instalados a norte do muro. Intitulam-se como os povos livres que recusam as regras do sistema instituído.
Os caminhantes brancos – O Estado Islámico. A sua tática de terrível eficácia consiste em recrutar em massa novos membros. Ninguém sabe ao certo de onde vêm e o que querem, mas todos concordam que são abomináveis.
A guarda da Noite – Os Curdos. Estão encarregados da defesa de Westeros das invasões vindas do norte do muro, dos selvagens e dos caminhantes brancos. Há quem pense que são apenas mais uns criminosos.

Os povos dos rios - Iémen, Síria, Iraque e outros. São os povos que pagaram o maior preço com as guerras e destruição entre as grandes casas, pois, outrora, as suas terram eram pacíficas.


Fontes:

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A democracia ateniense era a mais desenvolvida da antiguidade?

Quando falamos na história dos regimes políticos, e das democracias em particular, é inevitável falar abordar a ateniense. Existem obvias razões para isso, porque por lá, por aquelas polis (cidade), passaram e viveram algumas das mais famosas personalidades da antiguidade (filósofos, políticos, artistas, etc.), porque os atenienses estiveram envolvidos nos principais acontecimentos políticos e militares da época naquela zona do globo com importância futura na história do ocidente (guerras médias com os persas, guerra do Peloponeso, etc.), porque desenvolveram um império naval mercantil e militar considerável, porque criaram uma cidade imensa dentro da realidade grega clássica (ricamente embelezada com monumentos, arte e arquitetura) e, entre outras razões, porque tinham uma democracia (com relatos das suas práticas a chegarem aos dias de hoje, sendo o episódio da condenação à morte de Sócrates marcante pelas questões que levanta).
Discurso fúnebre de Péricles - Philipp Von Foltz
No entanto, existiam várias democracias na Grécia antiga. É o próprio Aristóteles que nos diz isso, pois terá compilado a constituição de praticamente todas elas, mesmo as das polis que assentavam noutro tipo de regimes (monarquias, tiranias, oligarquias, etc.). Infelizmente muitos dos escritos e registos de Aristóteles perderam-se. Somente a constituição de Atenas sobreviveu de todo esse seu trabalho de compilação.
Assim, hoje, dificilmente saberemos se a verdadeira e mais desenvolvida democracia grega da antiguidade clássica terá sido a ateniense. Não sabemos exatamente quantas mais teriam existido nem qual terá sido a primeira. Esta questão tem importância pois sabemos dos limites desta democracia, que não era universal e deixava de parte a maioria da população (mulheres, escravos, estrangeiros e outros que perdessem a sua cidadania/direitos políticos).
Mas, partindo dos outros registos e vestígios das antigas polis, quase todas com elementos comuns, como por exemplo ágoras e assembleias de cidadãos, provavelmente os princípios democráticos podem ter sido bastante generalizados, nem que fosse em sistemas mistos, mais ou menos desenvolvidos de cidadania e envolvimento político cívico dos habitantes da cidade no seu governo.
 
Referências bibliográficas:
  • Farago, France. "As Grandes Correntes dos Pensamento Político". Porto Editora, 2007.
  • Ferreira, José Ribeiro. "História das civilizações clássicas I - Grécia". Universidade Aberta, 1996.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

George Orwell, 1984, Marx, Materialismo e o perigo do Totalitarismo

Tanto se poderia dizer sobre a obra 1984 de George Orwell - pseudónimo de Eric Arthur Blair. Trata-se da obra que elevou o conceito de ficção social – ou distopia - a um patamar de genialidade. A obra é fortíssima, capaz de impressionar o leitor e o força-lo a pensar, sobre si e sobre a sociedade em que vive, sobre a história, a política e o mundo em geral.
Queria salientar três curiosidades desta obra, que se sentem com a leitura e que a prolongam para outros caminhos.
Cartaz contemporâneo do lançamento de 1984 alusivo ao Big Brother
 
Primeiro, o final do livro é descrito de uma forma incrivelmente realista, forte e tão credível que podemos ficar quase incomodados, numa relação direta com os últimos anos de vida do autor, que escreveu o livro em contrarrelógio. Orwell sofria de tuberculose e temia não terminar a obra. Talvez só por isso a obra tenha a força final que tem.
Segundo, algures no livro, num dos excertos citados em leitura pela personagem principal, encontramos uma descrição bastante simples e útil para a compreensão das teorias marxistas, da luta de classes e do materialismo histórico e da dialética marxista. Concordando-se ou não com Marx, a sua obra filosófica é importantíssima para compreender a história contemporânea, e a própria humanidade. Orwell explica muito bem, através de um excerto citado na sua obra de um outro escrito ficcional, aquilo a que Marx chamou a “luta de classes” pelo “controlo dos meios de produção”, de como as classes imediatamente abaixo da dominante (“medias” ou outras) fizeram revoluções para tomar o poder ao longo da história, criando ciclos de revoluções que levaram à mudança social. Essa luta pelo poder coincidia com a luta e procura do domínio dos meios de produção (“a riqueza”). Isto ajuda a compreender também a dialética marxista, ao fundamentar o constante confronto pelo domínio material como o motor para todas as mudanças nas sociedades humanas (sociais, culturais, religiosas, etc.).
Terceiro, o livro avisa (urgentemente) para os perigos do totalitarismo, de como pode desumanizar a própria humanidade, com homens e mulheres vivendo vidas esvaziadas de sentido sem liberdade para se realizarem individualmente. Esta mensagem continua muito atual, ainda que felizmente as “quase profecias” catastróficas de Orwell felizmente não se tenham vindo a concretizar.
Há que lembrar que 1984 é publicado em 1949, período em que a Europa estava seriamente ameaçada pelo avanço soviético de Estaline, em que na China chega ao poder Mao Zedong e que, apesar da vitória dos aliados e da democracia na europa ocidental, por todo o mundo brotavam governos autoritários. Orwell, apesar de escrever uma ficção, tem a capacidade de não misturar a teoria do materialismo histórico e a dialética marxista com os totalitarismos o geral. Talvez assim se perceba o porquê de Orwell se ter voluntariado para a guerra civil de Espanha como soldado contra o fascismo totalitarista de Franco, atitude que conciliou com as suas supostas tendências marxistas não totalitaristas – que podem ser vistas (ou não) como um contrassenso, uma vez que Marx defendia a necessidade da ditadura do proletariado como estágio intermédio antes de se chegar ao comunismo ideal.
Muito mais haveria para falar do autor e da sua obra – por exemplo que é dela que nasce o conceito pernicioso de “Big Brother”, da sociedade do controlo informativo total em rede em tempo real.
Em sumula, diria que se trata de uma ficção social com forte pendor filosófico e de ligação a quase todas as ciências sociais. Seja como for, 1984 é uma obra indispensável, muito importante para a formação cultural e cívica individual.
 
Referências bibliográficas gerais:
Uma busca pela wikipédia é suficiente para a generalidade dos conceitos, sendo que são tratados de modo introdutório e resumido simplificado para enquadrar a obra 1984:
Referências Bibliográficas mais aprofundadas:
  • Engels, Friedrich; Marx, Karl; "Manifesto do Partido Comunista", Edições Avante, 2011.
  • Marx, Karl; "O Capital", tomo I, II e III, Edições Avante.
  • Orwell, George; "1984", Antígona, 2007
  • Rémond, Réne; "Introdução à história do nosso tempo - Do antigo regime aos nossos dias", 1994.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sócrates, Platão e Aristóteles - Os Antidemocratas

Surpreendentemente (ou não) 3 dos maiores nomes da filosofia grega, todos com ligação à cidade de Atenas, durante o regime democrático, eram críticos da democracia. Os conhecidos Sócrates, Platão e Aristóteles criticavam diretamente o sistema democrático vigente. Obviamente que cada um seguia o seu modelo conceptual filosófico, e alguns eram bem divergentes, mas ambos consideravam que a democracia que conheciam não levava ao “bom governo” da polis. Eram vários os casos de tomadas de decisão absurdas. Eram vários os casos dos cargos públicos serem ocupados por cidadão incompetentes e impreparados para os desafios da governação. Não esquecer que muitos dos cargos eram obtidos por sorteio. Segundo os filósofos citados – de um modo geral e simplificado -, os cidadãos eram facilmente manipulados. Um desses casos foi a condenação à morte de Sócrates, por ter colocado em causa a democracia quando levava os jovens a refletir sobre as suas falhas. O desenrolar desastroso da condução da política ateniense durante a Guerra do Peloponeso contra Esparta resultou também de más decisões, tudo devido a instabilidade governativa e pela escolha de maus líderes. Depois disso Atenas nunca mais atingiu a sua anterior glória.
Atenas - Philipp Foltz
Todos eles dedicaram parte do seu pensamento filosófico a definir novas formas de governo que consideram superiores à democracia. Por exemplo, Platão defendia um modo particular de aristocracia (em igualdade de oportunidades) e Aristóteles uma versão moderada de oligarquia (assente no constitucionalismo), sendo que todos consideravam a tirania igualmente má. De notar que os modelos monárquicos e aristocráticos que defendem não coincidem com os sistemas de governo que conhecemos e aconteceram ao longo da história, as suas conceções são conceptuais e até utópicas (ver também notas/links [1] e [2]).
Raramente se refere esta vertente antidemocrática destes três filósofos. É certo que a democracia na sua época estava longe der ser universal como hoje, e não existiam os mecanismos e meios que hoje existem. Também as suas sociedades são incomparáveis, pois não podemos comprar geografias e realidades históricas tão diferentes. Cada sociedade tem de ser analisada e compreendida na sua realidade geográfica e histórica.
Por outro lado, tendo sido homens que tanto contribuíram para o desenvolvimento do pensamento ocidental, e também para o conhecimento e ciência, talvez seja por simpatia, nesta era das democracias, que se lhes omite essa “falha”.


Notas/Links referidos no texto:
[1] - Defender a Aristocracia faz sentido?
[2] - Tecnocracia – A Utopia que Platão Prescreveu na sua República?

Fontes bibliográficas:
Farago, France;"As Grandes Correntes do Pensamento Político"; Porto Editora, 2007.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

"No geral somos idiotas" - Um vídeo inspirado nos textos deste blogue

Recentemente participei em mais um Ignite, o nº 53 realizado em Portugal. Nessa edição comemoraram-se os 40 anos da liberdade política em Portugal. O tema desse Ignite foi a Democracia, e o espaço o Museu da Eletricidade - esse marco nacional do património industrial, excelentemente aproveitado e valorizado como museu e sala de eventos.
Partilho aqui o vídeo dessa minha participação pois ela inspirou-se em vários dos textos criados para este blogue, entre eles: Afinal de onde vêm e quem são os idiotas? ; Quando os Ministros eram escravos ; etc.
O vídeo tinha como objetivo fazer consciencialização para a necessidade de mais participação cívica política, pois esse é o único modo de concretizar na plenitude uma democracia. Se assim não for dificilmente a democracia será conveniente e verdadeiramente democrática, pensada e criada para todos os cidadãos, independentemente das eventuais hierarquias ou classes sociais, formais ou informais. A ignição para este vídeo foram as origens etimológicas dos termos "idiota", "ministro", entre outras curiosidades e conhecimentos multidisciplinares.
Fica então a partilha do vídeo.  

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