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domingo, 30 de março de 2014

Thomas Hobbes e a necessidade de uma ameaça extraterrestre

As ideias de Thomas Hobbes para a organização do Estado foram e continuam a ser polémicas. Isto porque, principalmente, na sua obra “O Leviatã” consta uma fundamentação teórica para legitimar o Estado Absoluto. Esse modelo e princípios, que advogavam a necessidade de um Estado forte e interventivo corporizado na figura de um governante absoluto munido de todos os poderes e meios para defender o próprio Estado, chocam obviamente com os princípios do liberalismo. Hobbes desenvolveu a sua teoria de Estado no século XVII, em período de desenvolvimento dos Estados Modernos. O pensamento liberal era apenas uma semente, e a experiência dos seus tempos, e a da sua própria via, forçavam-no a recorrer ao absoluto para resolver pragmaticamente os problemas do seu tempo: instabilidade social e guerra endémica. Talvez até tenha sido a magnitude da sua obra que forçou a criação de outras antagónicas de via liberalizante – mais isso são só suposições pessoais.
Guernica - Picasso
O problema da teoria de Hobbes acorre especialmente quando descontextualizada do seu momento histórico e político. Isto não serve para desculparmos Hobbes, até porque ele nunca corporizou o seu Leviatã ou foi um tirano que impossibilitou as liberdades. Ele apenas as reformulou e redigiu, e nem sabemos sequer quais as suas reais intenções quando as concretizou. Poderia ter sido irónico – nunca o saberemos.
Por outro lado, Hobbes, seguindo a já citada teoria política do absoluto, reforça mesmo hoje muito importante, ainda que possa ser contrário aos seus próprios princípios, com tendência para negarem o Homem como ser profundamente social, e bem-intencionado por natureza. A sua visão chocava como a visão de Aristóteles, que via o homem como um “animal social” e com a ideia base do “bom selvagem” de Rosseau. Podia dizer-se também que antevia parte do pensamento controverso de Nietzsche e ofendia profundamente ao liberal John Locke. Ou são somente simplificações para que isto se encaixe num texto curto. Ou seja, o tal princípio importante ainda hoje válido é: quando existe um perigo comum mais facilmente se gera unidade e capacidade de cooperação. É uma ideia profundamente pragmática.
Então onde entram os extraterrestres neste assunto? Entram agora. Vou arriscar, como tantos outros fizeram, descontextualizar Hobbes. Partindo das premissas base do seu pensamento, a Paz mundial e harmonia internacional universal somente seriam possíveis enquanto existisse uma ameaça extra planeta: uma ameaça extraterrestre. Assim que a ameaça desaparecesse voltaríamos às nossas guerras internas, perderíamos a paz e capacidade de cooperação.


Referências bibliográficas:
  • Caillé, Alain; 2005. "História Crítica da Filosofia Moral e Política". Verbo.
  • Garcês, Ana Paula; Martins, Guilherme de Oliveira;  2009. "Os Grandes Mestres da Estratégia - Estudos sobre o poder da Guerra e da Paz". Edições Almedina.
  •  Schwanitz, Dietrich , 2012. "Cultura - Tudo o que é preciso saber". Dom Quixote.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Os limites da liberdade em Democracia – O Paradoxo da liberdade para a Antidemocracia

No século XVII Descartes resolveu um paradoxo. Foi nesse século que o empirismo desabrochou e o nascimento daquilo que seria o método científico - que pressupunha que tudo pudesse ser colocado em causa. Assim, Descartes, como filósofo de topo do seu tempo, quis colocar tudo em causa (nem que fosse aparentemente). Chegou à conclusão que se poderia colocar praticamente tudo em causa menos a sua própria existência, ou seja, se ele próprio enquanto ser não existisse não poderia colocar em causa a existência de tudo o resto. Daí então a sua famosa frase ou expressão: “penso, logo existo”.
América, uma profecia (ilustração do livro) - William Blake
Pegando nesta “artimanha intelectual” de Descartes para evitar o paradoxo – uma afirmação que origina uma contradição lógica – parto para o conceito de Democracia. A esse tipo de governo e organização social associa-se a liberdade – uma não vive supostamente sem a outra. Sendo que é, pelo que se conhece, nas sociedades democráticas onde se consegue atingir maiores e mais desenvolvidos níveis de liberdade individuais e coletivas. Em teoria a liberdade que se permite numa democracia poderia – e pode mesmo pois já aconteceu na história – criar um paradoxo. Ou seja, o sistema democrático poderia ser obliterado se permitir a liberdade de se atentar contra ele. Partindo deste princípio, as democracias podem permitir todas as liberdades menos a de deixarem que os seus membros decidam em liberdade acabar com elas, limitando depois então as liberdades em última estância. Assim, arrisco a dizer: “Sou livre e democrata, logo sou contra a liberdade de ser antidemocrata”.
Talvez este seja um dos aspetos paradoxais que impeçam que as democracias possam ser completamente democráticas e livres, pois seria incoerente que se pudessem autodestruir, pois assim se violariam os seus próprios princípios de liberdade universais.

domingo, 8 de setembro de 2013

Em Portugal as Liberdades e a Democracia saíram do autoritarismo Militar

A Idade Contemporânea, de um ponto de vista histórico universal – que acaba por ser só da própria Europa, ou não fossem os meios académicos ainda muito eurocêntricos -, começa com a Revolução Francesa, que será o marco a partir da qual se darão mudanças que ditaram o fim do Antigo Regime – o dos privilégios de classe, tais como aqueles que tinham a nobreza e o clero. A partir de 1789 foram muitas as revoluções liberalizantes, umas com sucesso outras nem por isso, umas mais no sentido da democratização outras no sentido autoritário ou de defesa do domínio de certas elites.
Antítese da Calma - António Dacosta
Em Portugal, depois das invasões francesas, o século XIX foi muito rico em instabilidade, golpes e revoluções, no fundo não muito diferente das atribulações da Europa de então. O século XX não foi muito diferente, pelo menos se excluirmos os quase 40 anos que durou o Estado Novo e os últimos 25 anos do final do século. Se pela Europa fora as revoluções se davam tanto por força de mobilizações de civis e militares, por cá a regra parece ter sido quase sempre o domínio do militar. Lembremo-nos dos golpes de 1820 – o primeiro golpe de sucesso do liberalismo em Portugal – e de todos os restantes que daí em diante que foram apoiados ou dirigidos diretamente pelos corpos militares. Obviamente que o poder das armas e a organização da instituição marcial são os modos eficazes de conseguir fazer uma revolução política, fazendo cair à força o poder instituído. No entanto, o facto curioso prende-se com a própria natureza das organizações militares. Como sabemos, a estrutura dos exércitos não é, nem de perto nem de longe, democrática. Os soldados não elegem as chefias, nem a progressão na carreira militar se dá por voto de representação, nem sequer perante popularidade entre pares. Aliás, provavelmente o peso dos pares é mesmo insignificante, pois são hierarquias rígidas que dominam e às quais é necessário obedecer. Ou seja, o sistema militar tem muito mais de feudal e autoritário que democrático. Apesar disso foram, especialmente em Portugal, os militares que forçaram a implementação do liberalismo e depois da democracia, ainda que outros tenham, em determinadas circunstâncias, criado as condições para surgirem ditaduras. Esta relação entre militares e democracia não deixa de ser paradoxal. A explicação possível que me ocorre é que, estando sujeitos a códigos de conduta tão rígidos e hierarquizados, sabem melhor do que ninguém o valor que tem a liberdade. Outra opção poderá ser as da características da própria sociedade portuguesa, que nesses tempos, não muito distantes, ainda era muito ruralizada e facilmente controlável pelas elites tradicionais - se é que ainda não continua a ser. 

Referências bibliográficas
Medina, João. 1994. "História de Portugal Contemporâneo: Político e Institucional". Universidade Aberta.
Medeiros, C. A. (Direcção),2005-2006. "Geografia de Portugal". Círculo de Leitores
Ramos, Rui (coordenação), 2012. "História de Portugal". Esfera dos Livros
Rémond, René, 1994. "Introdução à História do nosso tempo". Gradiva.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Como as Despesas de Guerra Medievais deram Poder aos Parlamentos


O caso paradigmático de “Parlamento” mais conhecido foi o que emanou da monarquia medieval Inglesa, até porque foi provavelmente – se não mesmo com toda a certeza – o primeiro a funcionar regularmente. Não confundir funcionamento de parlamentos com cortes medievais, pois são substancialmente diferentes, pois nos “parlamentos” o Povo tem representação garantida, enquanto que as primeiras cortes tenderam a ser reuniões consultivas do governante com o clero e a nobreza. Consta que as primeiras cortes alargadas começaram a ser reunidas na Flandres – os países baixos - em 1127, mas no final do século XII já aconteciam também nos reinos peninsulares, especialmente no reino de Leão – de onde se emancipou Portugal. 
Parlamento Inglês com Eduardo (I ou III) - autor e data desconhecida
Curiosamente, e por mais paradoxal que possa parecer, a necessidade de consulta à sociedade da época, por parte dos governantes medievais, aconteceu em plena época feudal. Então porque precisavam os supostos “todos poderosos” medievais de ouvir e seguir opiniões dos seus súbditos? Bem, não parece que se pudessem considerar os líderes medievais como aficionados dos modelos democráticos, até porque dificilmente os conheceriam ou sequer compreenderiam – admito aqui a pura especulação, mais ou menos preconceituosa. A explicação passa mais pela necessidade e não tanto pela vontade. 
O sistema feudal, ou relações feudais, definia muito concretamente quais as obrigações e direitos entre senhores e vassalos. Antes da Baixa Idade Média os soberanos dependiam, grande parte, diretamente dos seus vassalos – o Estado estava longe de ser uma realidade. Como o clima era de guerra constante, com cada vez mais especialização, os custos militares ultrapassavam muitas das vezes aquilo a que as obrigações feudais exigiam. Assim, o soberano via-se obrigado a consultar e pedir autorização aos seus vassalos e súbditos para lançar impostos adicionais
Esta obrigatoriedade de consulta e aprovação às cortes ou parlamentos, que funcionavam por representação especialmente para os elementos do Povo, fizeram com que essas instituições consultivas fossem ganhando cada vez mais importância. Foi na Inglaterra que o parlamentarismo ganhou mais importância política, tendo posteriormente (já na época moderna) ficado com a maior parte do poder. Isto porque, à custa da aprovação de novos impostos, o parlamento inglês foi reservando para si o poder legislativo.
Assim, foi a guerra, a necessidade de financiar as guerras dos monarcas medievais, que deu poder às cortes, e posteriormente aos parlamentos, tendo indiretamente contribuído para o desenvolvimento das democracias ocidentais.

Referências Bibliográficas:
"A Evolução do Mundo Medieval". David Nicholas, Publicações Europa-América, 1999

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Aos Franceses pouco interessam os Escândalos Sexuais dos seus Políticos?


O escândalo sempre foi algo muito apetecível como tema de controvérsia, quer as pequenas fofocas entre amigos, conhecidos ou vizinhos ou até aquelas relacionadas com as grandes figuras públicas. Dos vários tipos de escândalos, os de conduta sexual estão estre os mais sensacionalistas, e, no caso das figuras públicas ou de proa da sociedade, esse potencial de interesse parece subir ainda mais. Uma razão sociológica evidente relaciona-se com a procura, pelas massas, daquelas características mundanas naquelas personalidades que lhes são, por vezes, apresentadas como arquétipos de perfeição, e modelos a seguir e sinónimos de sucesso. 
Infinidade de maquinas de escrever e infinidade de macacos, e infinidade de tempo = Hamlet - Arman

Mas essa importância pelo escândalo associado às elites não se verifica em todos as sociedades, umas valorizam mais esta procura pelo escândalo privado que outras. Por exemplo, nisto, Inglaterra e França são muito diferentes, especialmente no que toca à vida dos seus políticos/líderes. São os próprios jornalistas franceses a admitir que a vida privada e os escândalos dos seus políticos não interessam à população – alguns jornalistas, em recente reportagem do magazine “Capital” do canal francês M6, referiram vários casos de escândalos abafados e não divulgados por não interessarem ao público francês, um exemplo foi o caso da segunda família de François Mitterrand, que nunca foi revelada durante os anos da sua presidência*. 
Curioso? Sim, de facto. Que quererá isto significar do ponto de vista sociológico e cívico? Um nível superior de cidadania política? Mais respeito pelas pessoas enquanto representantes das pessoas? Uma ilusão e estado que se pretende manter, independentemente da verdade? Bem. Talvez, talvez sim, talvez não. 

quinta-feira, 15 de março de 2012

O estranho caso do Imperador Constantino - um cristão por convicção ou interesse?


Parece que foi séneca que disse “a religião é verdadeira para as gentes comuns, falsa para os sábios e útil para os políticos [ou governantes]”. Estas palavras são muitas vezes utilizadas de um modo avulso em debates mais ou menos teológicos/políticos (ou ateológicos/ateológicos), no entanto gostaria de dedicar aqui alguma atenção à terceira parte da afirmação desse filósofo romano para tratar um evento histórico importantíssimo para o Ocidente, desencadeado por outro famoso romano. Refiro-me a Constantino que colocou fim às perseguições do império romano aos cristãos e a sua conversão ao cristianismo no fim da sua vida.

Batalha da Ponte de Mílvio - Giulio Romano

 O episódio da Batalha da Ponte de Mílvio, com a impressionante vitória de Constantino sobre Maxnésio (ou Magnésio), é considerado um dos pontos de viragem da história do Ocidente. Consta, pelo menos em algumas das fontes - especialmente segundo Eusébio de Cesaréia -, que Constantino, em situação de desvantagem, tomou uma decisão estranha para a época: decidiu, depois de um sonho com uma cruz na véspera da batalha, pintar nos escudos dos seus soldados cruzes, de modo a supostamente pedir auxílio ao deus dos cristãos. Curioso é que o próprio Constantino não era cristão, quando jovem terá sido iniciado no culto do Sol  (ver texto sobre Invictus Dominus Imperii Romani) muito popular na época, logo era um Pagão. Curiosamente nem sequer a comunidade cristã da época era muito numerosa, muito menos na parte ocidental do Império, onde se estima, por exemplo, que os cristãos perfizessem apenas 10% da população da cidade de Roma. Ferninad Lot aponta como razões para essa estranha opção de Constantino como uma espécie acto de desespero supersticioso, uma vez que o seu opositor tinha o apoio da grande maioria dos poderes pagãos, e também porque tentava aproveitar o mito de que quem perseguisse os cristão acabava tendo um fim trágico. Dificilmente poderemos concluir, em absoluto, deste episódio quais as reais intenções de Constantino, se a sua opção terá sido movida pela , pela estratégia visionária, calculismo ou pelo desespero. Provavelmente foi um misto das três em doses muito próprias.
 O próprio continuar da história do reinado de Constantino revela alguns aspetos igualmente estranhos. Depois de um período de tolerância religiosa, à medida que o seu imperium (reinado) vai durando, começa a favorecer os cristãos, e mais para o final da sua vida a desmantelar na prática os cultos pagãos. Curiosamente só foi batizado mesmo antes da morte. Apesar disto ser habitual na época, não podemos deixar de questionar, dado que o cristianismo foi essencial para a legitimação do poder de Constantino, o porquê de um batismo tão tardio. Seria mesmo cristão? Dificilmente saberemos.
Certo era a importância que o imperador dava à unidade do Império (culturalmente e politicamente), e para o final da sua vida também à unidade do próprio cristianismo, pois nessa altura existia uma infindável quantidade de tendências e grupos cristãos distintos. Independentemente disso, Constantino fundou uma nova capital, com o seu próprio nome, que seria a Nova Roma – Constantinopla. A existência dessa nova capital contribui de facto para a separação e divisão do Império Romano em: Ocidente e Oriente. A nova capital, com o passar dos séculos tornou-se culturalmente Grega, aumentando ainda mais a separação, que transitou também para a religião e a própria Igreja. Depois do Cisma passaram a existir duas grandes Igrejas, A Romana e a Grega, aquelas hoje conhecidas, respectivamente, por Católica e Ortodoxa.
 Se Constantino tomou causas religiosas pela utilidade política só podemos especular. No entanto, parece que as suas estratégicas políticas e religiosas, independentemente das suas influências relacionais entre si, provavelmente não correram como planeado, pelo menos em parte.
 Pouco podemos concluir sobre o caso concreto de Constantino lembrando a frase de Séneca, mas este tema tem mais que matérias para longas reflexões. Pelo menos fica evidente que o assunto, relações e razões destes casos são tudo menos simples, que dificilmente se pode resumir a uma ou duas frases feitas, especialmente se forem descontextualizadas.

Referências Bibliográficas: 
A Fim do Mundo Antigo e o Princípio da Idade Média. Ferdinad Lot. Edições 70.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Influências para as unidades e divisões dos países e nações da América Latina

Ao fazer alguns estudos sobre o livro do registo do II Congresso do Distrito de Leiria e Alta Estremadura deparei-me com um precioso texto de Joaquim Romero de Magalhães, intitulado de "Os espaços da administração portuguesa do século XVI". O autor, nesse texto, defende a tese de que em portugal sempre se organizou o seu território de modo a que fosse sempre fortalecida a unidade nacional, mesmo ainda em tempos anteriores  à invenção do próprio nacionalismo - aquele que hoje conhecemos e se associa à ascensão dos Estados-Nação do século XIX. Em Portugal, por várias razões, entre elas a necessidade de unidade para fins militares relacionadas com o receio permanente de invasões do vizinha Espanha, nunca se pretendeu reforçar o poder regional, nem pela criação de novas fronteiras regionais com poder efectivo, nem pela união dos concelhos em regiões, isto já em pleno século XVI. Não é então de estranhar, ainda que as muitas razões de antigamente pouco sentido talvez ainda façam, que ainda hoje seja difícil discutir o tema da regionalização, quanto mais proceder à discussão dos modelos de aplicação a Portugal.
Paineis "Guerra e Paz" - Candido Portinari
Para Joaquim Romero Magalhães foram a característica unidade portuguesa e o separatismo de Espanha (com as suas regiões com fortes tendências nacionalistas que acentuam a distinção e separação, por exemplo são notórios os casos do País Basco e da Catalunha) que condicionaram a história e geopolítica dos países da América Latina. Teriam sido então as características de unidade interna e nacional dos países colonizadores a influenciar os países que nasceram das antigas colónias. Daí termos apenas um país falante do Português nas Américas e uma imensidão de outros falantes de Castelhano.  Claro que as influências das metrópoles europeias não foram as únicas razões para as fronteiras e existências dos vários países, até porque as culturas e sociedades pré-colombianas existentes contribuíram também indiscutivelmente para isso (a civilização Azteca influenciou muito o México, tal como a Inca o Peru).
Os países da América Latina, ainda que muitos habitantes desses países não hesitem em dizer que prefeririam ter sido originalmente colónias de países anglo-saxónicos, herdaram muita da genética a cultura dos países Ibéricos - para o bem e para o mal. Fica a questão: qual terá sido o melhor modelo herdado afinal afinal?

domingo, 29 de janeiro de 2012

A Maçonaria (portuguesa) segundo o Diário de Notícias

 Parece que Portugal acordou para a Maçonaria, apesar de estar por terras lusas há pelo menos dois séculos. Curioso, mas coisa simples de explicar quando são os próprios Media que definem os interesses pela notícia, enquanto coisa valorativa. Como o tema está na berra, não podia deixar de recuperar um recorte de jornal de há uns tempos que guardei, de uma edição do Diário de Notícias (DN) que fazia uma grande reportagem sobre a maçonaria nacional. O artigo em si, demorando-se em pelo menos 12 páginas, aborda e faz uma leitura abrangente dessas sociedades secretas, expondo alguns casos e características da maçonaria em Portugal (referindo mesmo alguns dos destacados membros de hoje e de ontem – aquilo que parece cativar a imaginação das pessoas nos dias que correm). De tudo o que trata e apresenta a dita reportagem, trago aqui ao blogue principalmente os conteúdos explicativos e de razão de ser – segundo o DN – da própria maçonaria, especialmente da portuguesa.
O mito de Orfeu - Marc Chagall
  Se a origem medieval da maçonaria é real ou fictícia – uma espécie de mito histórico da criação da própria maçonaria – quase ninguém saberá. Provavelmente só os membros dessas sociedades maçónicas mais tradicionais, caso guardem documentos e outros testemunhos ou provas, o podem atestar. De qualquer dos modos, mesmo podendo a maçonaria não ser tão antiga como a existência das guildas ou grupos de mestres-pedreiros que construíram as catedrais e edifícios mais complexos medievais, os símbolos e associações, tal como o próprio nome, bebem muito desses tempos. Não é por acaso que maçon em francês quer dizer pedreiro - aquele que trabalha a pedra. É que na Europa Medieval cristã os mestres-pedreiros medievais eram dos poucos a ter conhecimentos de matemática, geometria, gestão e capazes de projetar. Há que lembrar que as poucas universidades que existiam eram de criação muito recente e se dedicavam quase exclusivamente aos estudos da teologia e do direito (quanto muito medicina também em alguns casos com a denominação de física); o estudo das bases que seriam a ciência de hoje nas universidades ainda teria que esperar uns séculos. Ainda na língua francesa, “franc-maçon” significa “pedreiro livre”, numa relação com o livre construtor, aquele que pela sua liberdade, capacidade e conhecimentos podia construir algo de novo ( e no caso da pedra, transformar uma pedra bruta num elemento perfeitamente geométrico e/ou ornamentado). Os conhecimentos que estes mestres construtores tinham deram-lhe, em tempos feudais medievais e de liberdades condicionadas, um estatuto social distinto. Não eram nobres, mas tinham algumas regalias e liberdades especiais (incluindo a de deslocação e trabalho por conta de quem escolhessem), pois o poder secular e religioso precisava dos seus saberes e conhecimentos para a construção das grandes obras – aquelas que aspiravam a tocar os céus e ficar, metaforicamente, mais perto de Deus.
  Mais tarde, depois do renascimento, quando o conhecimento dos antigos clássicos começou a ser redescoberto. Também com um maior acesso à informação e sua disseminação mediante a invenção e generalização da imprensa, o conhecimento acumulado do passado e restrito a alguns grupos – guildas de ofícios, onde se incluíam os mestres-pedreiros, o saber das universidades e do mundo sacro – passa a ser de acesso mais facilitado. Mas foi durante o Iluminismo do século XVIII – sem se saber o que deu origem a quê, se o iluminismo à maçonaria ou a maçonaria ao iluminismo, ou se mera coincidência entre ambos - que a maçonaria ganhou o cunho, simbolismo e razão de ser que a caracteriza ainda hoje. A Maçonaria nessa altura ganhou o cunho, mais que tudo, filosófico e cultural - os pedreiros talhariam da ignorância o saber, e do homem rude o homem aperfeiçoado. O objetivo não seriam as construções de pedra mas as do saber. Diz-se que foi da maçonaria que nasceu o triplo ideal de: igualdade, liberdade e fraternidade. Diz-se também que a maçonaria esteve envolvida em muitas das revoluções e lutas pela liberdade, exemplo da Revolução francesa, Independência Americana, da Independência do Brasil e da Revolta Liberal em Portugal (1820). Já a relação com a Implantação da República em Portugal em 1910 é também inegável.
  Hoje existem pelo menos dois tipos diferentes de maçonaria: a regular e a irregular. Na regular é obrigatório que cada maçon confesse uma religião, pois, independentemente de qual for, terá de crer no “Grande Arquitecto” ou GADU – a entidade, força ou divindade da qual o universo tem origem e razão de ser, seja qual for o nome que lhe atribua (Javé, Jeová, Alá, Deus, Buda, etc.). Ou seja, na maçonaria regular é possível estarem reunidos na mesma loja (a maçonaria organiza-se em lojas, o que pode não ser um espaço físico mais apenas a designação do grupo em causa) maçons de várias religiões, sendo vedada a presença apenas a ateus. Por outro lado, na maçonaria irregular podem ser admitidos ateus. Também apenas na maçonaria irregular se permite a iniciação de mulheres, em lojas femininas ou mistas.
  Segundo o artigo onde se baseia a maior parte da informação, que a primeira loja maçónica nasceu em Inglaterra em 1717, mas as origens, tal como já foi referido, parecem ser muito anteriores. Em Portugal a maçonaria organiza parece ter surgido no dealbar do século XIX, embora se haja indícios de alguns destacados portugueses que já anteriormente tinham ligações maçónicas a lojas fora do país. Atualmente existem em território nacional duas grandes obediências: uma regular com a designação de “Grande Loja Legal de Portugal” ou “Grande Loja Regular de Portugal” (GLLP/GLRP); e outra irregular com a designação “Grande Oriente Lusitano” (GOL). Consta que ambas terão cerca de 2000 maçons entre os seus membros, perfazendo então mais de 4000 maçons a nível nacional inseridos em ambas as duas grandes obediências, mas existem seguramente mais maçons com outras obediências não tão numerosas e conhecidas.
Os graus da maçonaria, ou hierarquias, podem obedecer a dois sistemas distintos. Ou se segue o rito escocês ou o rito de York. No primeiro existem 33 graus (ou níveis) enquanto no segundo apenas 10. Em Portugal o mais praticado parece ser o escocês.
  Os símbolos maçónicos são muitos, podendo ser consideramos os seguintes como mais importantes: o compasso (símbolo da retidão, ação do homem sobre a matéria e sobre si mesmo, e moralidade); o esquadro (símbolo da justiça, exatidão, do espírito, pensamento, e do absoluto pela relação com o círculo); a letra “G” (significa: gravitação, geometria, geração, génio, gnose, glória, e grandeza); o avental (símbolo de trabalho, com diferentes cores e inscrições para distinguir os vários níveis dentro da hierarquia maçónica); os 3 pontos (significam: luz, trevas e tempo; nascimento, vida e morte; sabedoria, força e beleza; liberdade, igualdade e fraternidade); a pedra por talhar e a pedra talhada (relação com a busca pela perfeição através da dedicação e trabalho), e; as colunas (símbolos dos limites do mundo, da vida e da morte, do ativo e do passivo, do elemento masculino e feminino).
  Hoje, atendendo novamente à reportagem, o acesso à maçonaria é mais liberalizado que em épocas do passado. Hoje pode-se ser iniciado na maçonaria por convite ou por autoproposta. No entanto, os maçons, segundo eles mesmos, tendem a ser cuidadosos e exigentes na admissão de novos membros. Explica o DN que são város os paços para se tornar maçon: Convite (ou autoproposta); investigação sobre o candidato; rito de iniciação, com chegada de olhos vendados ao local para o efeito (templo ou local de reunião da loja ou obediência), seguido de interrogatório e “testamento maçónico” – um documento de teor filosófico -, de 3 voltas ao templo - na presença dos “irmãos” maçónicos de loja - e por fim, dada a última volta, o candidato é considerado maçon, recebendo o grau mais baixo – grau de “aprendiz” -, sendo de seguida queimado o seu testamento maçónico.
  Nos dias que correm, em sociedades democráticas e onde se aspira a cada vez mais transparência pode ser difícil de perceber e compreender a razão de ser deste tipo de sociedades secretas. Tais receios e incompreensões ganham outra dimensão, no caso da maçonaria, por serem constituídas, habitualmente, por elites. Ou seja, é normal, especialmente por desconhecimento, que se se desconfie sobre quais os assuntos e propósitos maçónicos. Os receios, tendo em conta alguns casos divulgados nos Media, poderão ter real fundamento. No entanto, atendendo a história (perseguições, punições, violências e intolerâncias), é igualmente compreensível que alguns maçons tenham receio em revelar a sua filiação iniciática.
  Para melhor compreensão da maçonaria e seus objetivos, é útil citar aqui José Manuel Anes e a definição que ele próprio dá de maçonaria: “Organizações fraternais, com uma determinada regra de funcionamento e de vida, sujeita a uma hierarquia cujo o objetivo é o aperfeiçoamento espiritual dos seus membros”. Com esta definição e objetivos não será difícil ter simpatia perante estas organizações. No entanto, podem existir linhas muito ténues entre desenvolvimento (e aperfeiçoamento) dos membros destes grupos e favorecimento dos mesmos à custa de toda a sociedade. Claramente isso, a acontecer, seria uma óbvia subversão dos ideais maçónicos tal como são apresentados pelos próprios membros; provavelmente é mesmo ai que reside toda a polémica em torno da maçonaria nos dias que correm. Numa sociedade democrática até faz todo o sentido que os indivíduos se queiram aperfeiçoar pelo seu próprio mérito e valor, pois até será toda a sociedade que ganhará com isso. O que falha depois será a relação do ideal com o real
  De qualquer dos modos, tal como em muitas outros assuntos, há que evitar o obscurantismo e preconceito. Uma opinião sobre este assunto será tanto mais válida quanto mais informada for. Aqui entramos no paradoxo, pois, como estas sociedades são supostamente secretas, dificilmente as opiniões sobre o que são e o que fazer poderão ser verdadeiramente informadas.

sábado, 22 de outubro de 2011

País ou Estado mais pequeno do mundo?

Numa recente conversa à mesa, discutia-se entre amigos qual o país mais pequeno do mundo. A discussão começou por centrar-me mais naquilo que distinguia um País de um Estado. Nem sempre a distinção entre estes dois conceitos é óbvia – os pratos e talheres foram nossas testemunhas -, pois o termo País pode ser utilizado para nomear um Estado ou outra Entidade Política – por exemplo federação de Estados. De um modo simplista e pragmático, País e Estado podem ser consideramos a mesma coisa, se assim forem considerados por outros países e estados - o risco de paradoxo aqui é evidente, pois caso ninguém reconhecesse outrem não existiriam Países ou Estados. Confuso (1)(2)! 
Para ser mais simples ainda, apesar dos termos poderem significar a mesma coisa, um Estado relaciona-se mais com o governo e o país com o espaço territorial (3), ou seja, Estado com a dimensão política e País com a geográfica (4). Apesar desta distinção, política e geografia aparecem muitas vezes relacionadas uma com a outra: a política (no sentido da organização e gestão de sociedades humanas) relaciona-se ou acontece para ou numa determinada geografia e a ocupação humana e exploração dos recursos partem sempre de um tipo de política, por mais simples que seja.
Estas simples explicações, ou até talvez mesmo ingénuas, servem para a introdução àquele que é o propósito deste texto: Estado ou País mais pequeno do mundo. O Estado ou país – neste caso discutível para alguns - oficial mais pequeno do mundo será o Vaticano. Mas existe um, ainda que não sendo reconhecido por outros Estados ou países, que consegue ser ainda mais pequeno que o Estado Pontífice; falo de Sealand.
Sealand situa-se no Mar do Norte mas não é uma ilha, nem sequer tem terra, rochas ou areias. Sealand é uma plataforma militar marítima construída durante a 2º Guerra Mundial como posto avançado para prever e prevenir os ataques alemães, tendo sido no final da guerra utilizada como apoio ao ataque continental do Aliados às forças nazis que ocupavam a Europa continental (5)(6). Mas é depois da guerra, e de ser abandonada pelos ingleses, que a história desta antiga plataforma – intitulada até 1966 de Rough Towers - ganha contornos de excentricidade, um tanto ou quanto burlesca.
Em 1967 a estrutura é ocupada por Roy Bates, alguns familiares e amigos. Baytes autonomeou-se príncipe, constituindo assim o principado de Seland. Desde então começou a emitir passaportes e selos de correio, criou uma constituição, um hino e uma bandeira, tendo até cunhado dólares de ouro e prata (5)(6). Esta bizarria só foi possível de manter por a plataforma hoje estar fora das águas territoriais inglesas, a umas meras 3 milhas.
Mais haverá para contar sobre sealand, mais casos caricatos: chegou a ter um golpe de estado - encetado por um alemão - e de um terrível incêndio. Até a crise financeira passou por Sealand, com o príncipe herdeiro disposto a vender o seu principado (5).
Mesmo com todos os esforços dos seus governantes, Sealand não é considerado um país ou Estado de facto, pois nenhum outro o reconheceu como tal.

Referências e Notas:
(1) http://pt.wikipedia.org/wiki/Estado
(2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Pa%C3%ADs
(3) Definição de Estado: Nação organizada politicamente. Fonte: Infopédia, disponível em http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/Estado
(4) Definição de País: - espaço demarcado por fronteiras geográficas e dotado de soberania própria; estado; nação. Fonte Infopédia, disponível em http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/Pa%C3%ADs
(5) http://pt.wikipedia.org/wiki/Sealand
(6) http://www.sealandgov.org/

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Quando os heróis nacionais não coincidem com as fronteiras - Garibaldi

Cá por Portugal, provavelmente por termos fronteiras continentais definidas há séculos – se excluirmos o caso de Olivença –, Estado e Nação significam, na prática, a mesma coisa. Mas, em muitas regiões da Europa os dois conceitos são bem diferentes, muito devido à história geopolítica desses locais, com fronteiras a mudarem e territórios a alternar de Estado para Estado. Em certos países, alguns dos seus heróis e personalidades famosas não nascerem nesses mesmos países que hoje os reclamam com orgulho. Casos como o de Garibaldi são quase caricatos.
Homenagem a Giuseppe Garibaldi - Rubens Fogacci
O conhecido revolucionário italiano, que muito contribuiu para a unificação de Itália (numa altura em que outras Estados controlavam partes do actual território italiano), e até para as independências e afirmações nacionalistas da América do Sul (Rio Grande do Sul, Uruguai, Brasil, etc.), afinal não nasceu no actual território de Itália. Garibaldi nasceu em Nice, na sua altura Nizza , uma cidade que pertencia ao ducado da Sabóia. Ou seja, Garibaldi nasceu na actual França, mesmo que na altura o território ainda não fosse francês. Parece paradoxal que Garibaldi tivesse conseguido unificar a Itália sem que a sua cidade natal fosse integrada nesse projecto nacional, uma frustração para o próprio e, provavelmente, para os italianos de hoje, que recordam Garibaldi um pouco por todo o país através da toponímia e de estátuas em alguns dos locais mais nobres das suas cidades. Curiosamente Garibaldi é também reconhecido como herói em França. Não é também por acaso que foi na época de Garibaldi, ao longo do século XIX, que se “inventaram” muitas nacionalidades e até o próprio nacionalismo na Europa, sendo de então a criação do Estado-Nação de forte cariz nacionalista, um tipo de Estado forte, sustentado nas populações - características, cultura, necessidades, etc. - e não na figura de um monarca despótico. Essa "invenção" teve aspectos positivos, pois dotaram os Estados de uma força que permitiu reforçar a protecção social, as liberdades e a implementação, em alguns casos, de mais liberdade. No entanto existiu o reverso da medalha e nem todas as experiências foram positivas. Muitos Estados-Nação, munidos de forte sentimento nacionalista, muitas vezes associado a um culto da superioridade da raça levou à xenofobia, ao expansionismo desumanizante e a constantes estados de guerra - as Guerras Mundiais, por exemplo. 
Mas Garibaldi é lembrado por ter sido um dos principais defensores de um projecto socialista para as nações que viviam ainda algemadas pelos Estados Policiais absolutistas do século XIX. Por isso, e pelo seu envolvimento em muitos palco no antigo e novo mundo, Garibaldi é um herói Internacional.  
Discordando ou não das tendências políticas desta personagem histórica, há que reconhecer no homem o mérito de ter tentado algo novo, algo diferente com o intuito de libertar os Povos da opressão - um idealista, mas alguém que devemos recordar com estima!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Uma monarquia pode ser totalmente democrática?

Aparentemente, se desconhecêssemos o mundo que nos rodeia, especialmente se estivéssemos desatentos à geopolítica europeia e só considerássemos o significado das palavras , provavelmente diríamos categoricamente que "Monarquia" e "Democracia" remetem para conceitos opostos e incompatíveis.  Pois, Monarquia, que significa "governo de um ou por um", é exactamente o oposto - se considerarmos que o singular é oposto do plural - da Democracia, que significa "governo do povo ou governo de muitos".  Mesmo que não sejam conceitos antagónicos, são pelo menos incompatíveis do ponto do vista ideal político ou então do semântico/lógico - o que é plural não pode ser singular em simultâneo. Quanto muito, uma Democracia poderia ser singular no sentido de um só governar, mas esse alguém teria de ser o Povo enquanto grupo, ou seja, no trono não poderia haver um só rei vitalício.
Retrato da família do Rei Carlos IV - Goya
Supostas incompatibilidades à parte, pela nossa Europa existem muitas Democracias - algumas bem antigas como a Inglesa -  que vivem sobre a alçada de Monarquias. Apesar de serem Democracias de facto, muitas até mais livres e desenvolvidas do que outras que persistem em regimes republicados, afirmo, sem receios, que uma Democracia desse tipo não pode ser uma "Democracia Completa". Isto porque, focando a atenção no exemplo do "Chefe de Estado", basta esse cargo ser vedado ao Povo, mesmo que alguém desse Povo demonstre ser o mais capaz para o assumir o cargo em benefício de todo o dito Povo, para que o "Governo do Povo" seja parcial e logo parcial a concretização da Democracia. Por outras palavras, se o Povo não pode aceder a todos os cargos de chefia do Estado então a Democracia plena ficou por realizar - se se atender ao significado do termo em causa.
 
Apesar de tudo o que aqui afirmei, não tenho também receio em afirmar - agora numa perspectiva muito mais pragmática - que é preferível uma boa monarquia assente num regime democrático do que uma república assente numa "má democracia"
.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Revolta Estudantil de 69 e o 25 de Abril de 74 - Uma Possível Relação

No Documentário Crise Académica de 69, uma produção nacional do Canal de História, é apresentado e descrito um dos eventos políticos nacionais mais importantes entre o periodo da candidatura de Humberto Delgado em 1958 e da Revolução de 25 de Abril de 1974.
Os anos 60 foram verdadeiros anos de revolução e mudanças sociais por toda a Europa (e não só), especialmente entre os mais jovens e os meios académicos. No documentário em causa referem-se algumas das razões dessa mudança. Entre elas: a criação do Pacto de Varsóvia, como a possibilidade que permitia democratizar o acesso ao Ensino Superior especialmente pela possibilidade de ser frequentado pela classe operária; os escritos e influência filosófica de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, através da corrente filosófica do existencialismo que valorizava os indivíduos e as suas liberdades, que levou a exigir na prática mais liberdade e democracia. Em França o culminar dessa mudança foi o conhecido Maio de 68. Em Portugal, essas mesmas ideias, que por cá eram ainda mais revolucionárias - devido à existência de um Estado Anti-democrático desde 1928 -, chegaram e foram assumidas pela comunidade académica de Coimbra, especialmente pelos seus estudantes, em 1969, o que levaria aos acontecimentos da Crise Académica de 69.
Maio de 68 II - Júlio Pomar
Os estudantes de Coimbra exigiam mais liberdade na sua Universidade, que era um modo indirecto de o fazer para toda a sociedade Portuguesa. A partir de então os estudantes, através das repúblicas, associações, grupos culturais, e até movimentos políticos clandestinos, concretizaram, neste período histórico específico, a um novo activismo cívico e político.
Provavelmente o evento que despoletou todas as posteriores acções mais visíveis foi o acontecimento que ocorreu aquando da inauguração do edifício da Faculdade de Matemática. Para esse evento deslocaram-se a Coimbra os Ministros das Obras Públicas, da Educação (o célebre historiador televisivo Hermano Saraiva) e Presidente da República de então, Almirante Américo Tomás. Os estudantes defendiam que deveriam participar activamente nessa acontecimento académico. De modo a cumprir essa vontade é decidido, entre os estudantes, que Alberto Martins, presidente da Associação académica de Coimbra, deveria pedir a palavra durante o decorrer da cerimónia.  Hoje em dia a possibilidade de alguém se fazer ouvir e poder intervir é um dado adquirido, mas naquela altura este acto era uma verdadeira afronta ao Regime e uma manifestação mais que evidente vontade de ter mais liberdade.
Assim, Alberto Martins cumpre a sua missão, levanta-se e diz: ”Sua Ex.ª, Senhor Presidente da República, dá-me permissão que use da palavra nesta cerimónia em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra?”. A História conta que a palavra lhe foi negada e que a cerimónia fora repentinamente terminada.
Esta tomada de posição valei a prisão a Alberto Martins, que no dia seguinte viria a ser libertado, depois da pressão dos estudantes que se mobilizaram e se manifestaram junto do cárcere. Apesar do sucesso da manifestação os manifestantes, como seria de esperar,  foram violentamente dispersados e os feridos foram bastantes.
A partir de então as manifestações e activismos despoletaram e foram ganhando cada vez mais força e notoriedade por Coimbra. Fizeram-se assembleias gerais, marchas, protestos e até greves às aulas e exames, tudo de um modo pacífico e simbólico.
Uma das resposta do Regime fascista foi punir os elementos mais activistas dos movimentos estudantis, incorporando-os no exercito, e forçando-os a lutar no Ultramar, ao todo foram 59. Foram incorporados como "traidores à pátria". Isso deixou um grande incomodo entre os militares, por se considerarem diminuídos do seu estatuto de "espelho e orgulho da nação" para algo semelhante a "ferramenta de repressão e castigo do Regime".
Assim, directa ou indirectamente, estes 59 castigados foram "minando" - palavras dos entrevistados para o documentário - e estabelecendo contactos com os oficiais mais liberais, aqueles que pretendiam também mais liberdade e democracia (é nesses militares que se manifestou a influência dos ideias democráticos ocidentais que chegavam via formação militar de topo através da NATO - algo já aqui referido no blogue em anterior texto) e que mais tarde seriam os Capitães e os responsáveis pela Revolução - que foi na sua génese principalmente militar (algo tratado também em anterior texto aqui no blogue) - do 25 de Abril de 1974. Não será de todo descabido então considerar que a revolta académica de 69 também influenciou o golpe militar e revolução de 74.
No entanto, com a mudança de Ministro da Educação, quando José Hermano Saraiva foi substituído em Janeiro de 1970, todos os castigos e medidas de repressão foram retirados e revogados. Assim, pode-se dizer - e são os próprios dirigentes das revoltas estudantis que o afirmam - que de facto a revolta estudantil de 1969 triunfou. Não admira que os envolvidos se sintam honrados e orgulhosos disso hoje.  
Será que no futuro as gerações de hoje terão motivos para se orgulhar pelo seu activismo cívico e político, ainda por cima quando não temem repressões e têm liberdade de actuação?

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Governo que nem 5 minutos governou

Já anteriormente referi, a propósito de outro tema, a obra "Histórias rocambolescas da História de Portugal" - obra capaz de despertar, mesmo naqueles mais adversos às coisas do passado, uma genuína curiosidade pela História de Portugal. De novo aqui no blogue volto a referir a obra de João Ferreira para voltar novamente ao tema da 1ª República em Portugal (a anterior referencia centrava-se em torno da questão: Afinal quantas repúblicas existiram em Portugal, 3 ou 2?). Este novo texto recai nesse conturbado, e verdadeiramente revolucionário, período histórico/político onde se radicalizou (exemplo do anticlericalismo) e se fez avançar e evoluir o país (exemplo da instrução escolar  generalizada e do aumento das liberdades individuais), mas mais concretamente naquilo que foi, provavelmente, o cúmulo da instabilidade governativa nacional. 
O Salto do Coelho - Amadeo de Souza Cardoso
 João Ferreira diz-nos que: "Em menos de 16 anos, entre 5 de Outubro de 1910 e 28 de Maio de 1926, sucederam-se 8 chefes de Estado e 42 Governos". Tamanho alvoroço político parece quase inacreditável, e ainda inacreditável é o facto de ter existido um Governo que nem 5 minutos durou. Em 1920 o Governo de Fernandes Costa demitiu-se ainda antes sequer de ser empossado, só porque se juntou uma multidão de protesto no Terreiro do Paço quando o pretenso novo Governo se preparava para seguir para a sua suposta tomada de posse. Em jeito de gozo, e brincadeira, este ficou conhecido para a História como "O Governo dos 5 minutos". A bem da verdade o nome até que é gracioso, pois este Governo nem sequer 5 minutos!
As razões de antigamente hoje não se justificam, até porque, embora se diga que esta 3ª República é jovem, a consciência democrática de hoje é muito superior à do inicio do século, numa época em que se vivia muito na base do "experimentalismo político" e que uns meros contestatários podiam intimidar um qualquer Governo.
De facto evoluímos muito, muito mesmo! Saber governar em democracia é saber lidar e respeitar o contraditório, sem medos e receios se o apoio popular for de facto maioritário e legitimado por eleições rectas.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Maquiavel – o irónico e sarcástico?

Volto o referir aqui, mais uma vez, a obra “Platão e um Ornitorrinco entram num bar”, mas desta vez a referência a esse peculiar livro não serve para apresentar anedotas, chalaças, ou histórias engraçadas, serve para introduzir uma teoria alternativa sobre um autor histórico da ciência política e a sua obra mais conhecida. Falo de Maquiavel [1] e do seu conhecidíssimo manual de governação “O Príncipe”.
Nicolau Maquiavel - Santi-di-Tito
A páginas tantas do livro “Paltão e um ornitorrinco…” , na parte de filosofia política, surge um pequeno texto com letras a vermelho que diz mais ou menos isto:Alguns historiadores acreditam agora que Maquiavel estava a gozar connosco com uma espécie de maquiavelismo invertido – parecendo mau quando, estaria a satirizar o despotismo? No seu ensaio “the prince: political science os satire?”[2] o historiador Garrett Mattingly, vencedor do prémio Pulitzer, afirma que Maquiavel foi interpretado de uma forma errónea: “a noção de que este pequeno livro pretendia ser um tratado serio e cientifico sobre governo contradiz tudo o que conhecemos acerca da vida de Maquiavel, acerca dos seus escritos e acerca da história do seu tempo.
Será que Maquivel estava na sua suposta obra sobre governação política - “O Príncipe” - a ser irónico ou sarcástico? Terão os governantes e políticos do Ocidente andado enganados estes séculos todos? Será o próprio adjectivo de “maquiavélico” - que em sentido figurado significa astuto, manhoso, irónico, imoral [3] – despropositado e desadequado da figura histórica que lhe deu origem?

Mattingly [2] afirma que, estudando as muitas outras obras escritas pelo florentino, se denota que Maquiavel considerava as repúblicas e o governo pelo povo o melhor sistema politico-governativo – uma clara oposição à defesa de um governo por um príncipe despótico (ainda que o termo “príncipe” possa simbolizar apenas “governante”, sem que nada tenha que ver com sistemas hereditários monárquicos). Nas várias peças de teatro, poemas e outras obras literárias de maior sensibilidade escritas por Maquiavel, Mattingly[2]  considera  transparecer o superior desenvolvimento moral e ético do autor - valores antagónicos à valta de escrúpulos com vemos hoje é traçada a personalidade de Maquiavel.

Mas ainda hoje, a grande maioria, considera “O Principe” de Maquiavel como um dos cânones da arte governativa (onde se defende a máxima, de um modo simplista, de que: "os fins justificam os meios" [4]) e que foi escrito como tributo a César Bórgia [5] – um dos principais príncipes do renascimento Italiano, conhecido pela sua crueldade, calculismo e despotismo.

Podemos só concluir que fica a dúvida, que não podemos se calhar jamais concluir quais os verdadeiros intentos de Maquiavel. Não saberemos se a história lhe fez justiça. Independentemente disso, ler “O Príncipe” é algo que recomendo a todos. A consequente interpretação  fica depois ao critério de cada um.
Fontes:

quinta-feira, 24 de março de 2011

Cuidado com a Língua: a origem da palavra Camarada

No primeiro episódio da 7ª série do programa Cuidado com a Língua (com conteúdos da autoria e responsabilidade  de José Mário Costa *) , exibido no passado dia 21 de Março de 2011, são, como habitualmente nas anteriores séries, estudadas e apresentadas as origens etimológicas, as semânticas e as grafias de várias palavras da nossa língua. Felizmente a RTP voltar a apostar neste verdadeiro programa de serviço público, algo de especial importância em ano de vésperas de implementação do Acordo Ortográfico - pois as dúvidas e falta de informação são mais que muitas.
Quarto em Ainmillerstrasse - Kandinsky
 Mas foi uma palavra tratada nesse programa que me fez escrever aqui este texto. Trata-se da palavra Camarada, que segundo essa peça televisiva tem como origem o termo Castelhano Câmara. O termo começou a ser usado em tempos medievais entre homens de armas que partilhavam a mesma câmara, ou seja, partilhavam o mesmo quarto ou abrigo. Então, aqueles que partilhassem o mesmo quarto ou câmara, que até podia ser uma tenda ou qualquer outro abrigo, intitulavam-se a eles próprio e pelos outros de camaradas. O termo Camarada passou e foi adaptado às demais línguas europeias e ainda hoje é utilizado nos meios militares e políticos. A associação ao meio militar é mais que óbvia, isto porque o inventou e pelo tradicionalismo que é próprio a esse meio. Já nos meios políticos essa designação está associada aos partidos de esquerda, muito provavelmente por questões ideológicas (defesa do cooperativismo, do comunitarismo, da fraternidade e da igualdade) e/ou pela própria ascensão e génese dessas tendências políticas que, mais ou menos militarizadas, sempre se assumiram como forças de luta, nem que fosse social.São várias as fontes que corroboram estas palavras [1] [2] [3] [4].
Parece que apenas a esquerda italiana não usa o termo, preferindo campagni, pois os fascistas italianos adoptaram primeiro o termo camarati. Esta excepção pode justificar-se pelo forte pendor militarista do partido fascista italiano, no entanto não consegui descobrir qualquer fonte que corroborasse isto.
Uma fonte em especial [5] vai mais atrás e aponta a origem para a própria palavra câmara. Segundo essa fonte, câmara deriva da palavra grega  Kamára que é o nome de uma parte dos navios, uma parte abobadada. Mas tendo sido a única fonte encontrada a fazer esta referência há que deixar ressalvas adicionais e evidencias a falibilidade dessa associação ao grego antigo.

Voltando aos nossos dias, e tentando deixar uma pergunta final para reflexão, tocando no próprio sentido de existência e organização da humanidade em sociedades: precisará esta nossa sociedade contemporânea de mais camaradas e camaradagem em oposição a colegas e colegismos (que são aqueles que partilham apenas ofícios e actividades, sem que a isso se associe qualquer laço afectivo, emocional ou filantrópica)?

Notas:
* Este texto foi corrigido pois detectou-se que o instituto Camões [6] não tinha qualquer participação neste magazine, a informação inicial tratou-se de um lapso. O autor, José Mário Costa, fez chegar essa informação aqui ao blogue via "a sua opinião". A correcção foi feita de imediato. Aproveito para agradecer a correcção.

Fontes:
[1] http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=15808 
[2] http://www.answers.com/topic/comrade 
[3] http://www.pstu.org.br/teoria_materia.asp?id=6091&ida=0 
[4] http://www.etymonline.com/index.php?term=comrade 
[5] http://origemdapalavra.com.br/palavras/camarada/
[6] http://cvc.instituto-camoes.pt/aprender-portugues/a-falar/cuidado-com-a-lingua.html


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Conferência-debate com Carvalho da Silva em Alqueidão da Serra- algumas notas

No sábado dia 29 de Janeiro de 2011 participei, enquanto moderador, numa conferência-debate em Alqueidão da Serra - freguesia do concelho de Porto de Mós do distrito de Leiria - que tinha como orador o Doutor Carvalho da Silva - um dos mais importantes sindicalistas portugueses da actualidade e também investigador da área das ciências sociais, mais concretamente do CES. Foi a minha primeira experiência nestas andanças mas, atrapalhações e nervosismos à parte, senti que foi deveras enriquecedora - para mim e para todos os presentes -, quer pela experiência, quer pela partilha de saber por parte do orador. 
Lendo o jornal - José Malhoa
Pareceu-me tão interessante o que foi dito em Alqueidão da Serra naquela noite, que não podia deixar de trazer e registar aqui no blogue alguns dos conteúdos tratados.
Deixava então aqui, em honra ao orador e a sua disponibilidade, algumas das ideias que fixei das suas várias intervenções (lembro que estas foram as minhas interpretações das suas palavras e não a reportagem objectiva do que se passou): 
  • Os políticos não são todos maus na medida em que num qualquer grupo de executantes, praticantes, profissionais ou outros, também nunca todos podem ser maus - resposta a um dos presentes que da plateia disse: "os políticos são todos maus, são todos iguais"; 
  • Cuidado com as generalizações, pois através delas podem ser cometidas as mais grandes injustiças - uma clara referência a perda de direitos e ajudas sociais; 
  • Os cidadãos só acedem realmente à informação se a discutirem, se discutirem o que ouvem e vêm através dos Media - referindo-se que aceder à Internet, ver televisão, ouvir rádio, não é suficiente para estarmos informados, temos de discutir e colocar em causa toda essa informação .  
  • Os cidadãos devem ser os motores da mudança social através da participação cívica - comentário ao estado da nossa democracia que só se pode concretizar pela participação politica e cívica de todos os cidadãos. 
  • A vida sempre foi altamente instável, não podemos dizer aos nossos jovens que, só por a sua o ser também, que não devem ter esperança de um futuro melhor - referiu que há umas décadas a vida era muito mais instável e não era por isso que a esperança morria, todas as sociedades devem cultivar a esperança de que se irá viver melhor, caso contrário o próprio sentido de ser da sociedade deixa de fazer sentido. 
  • Temos de debater os sistemas vigentes e procurar a sustentabilidade a todos os níveis - uma clara alusão à necessidade de encontrar soluções, entre todos os parceiros sociais, para a estabilidade e sustentabilidade do Estado Social. 
  • Devido aumento da esperança média de vida temos de dar ocupação aos nossos idosos, pois podem ainda ser ainda muito úteis à sociedade - uma chamada de atenção para o papel dos idosos na sociedade contemporânea e para a necessidade de os valorizar por todo o potencial social que têm, tal como por razões económicas. 
  • O cortar no custo de produção não deve passar imediatamente cortar nos salários, até porque os custos com os salários representam, em média e regra geral, menos de 15% dos custos reais de produção - apontou para a necessidade de focar os cortes em todos os outros custos e não nos salários, pois será voltar aos salários de subsistência, com todos os malefícios que dai advêm. 
  • O crescimento tem de ser assente no trabalho e não no consumo - critica à sociedade consumista esvaziada de valores. 
  • O individualismo sempre existiu, simplesmente hoje torna-se um valor em si e  prejudica  as dinâmicas sociais que estão ligadas à necessidade de trabalhar em conjunto por causas e melhorias colectivas - crítica ao individualismo contemporâneo, especialmente ao culto do individual em detrimento do colectivo nos dias que correm. 
  • Não deve existir a culpabilização pessoal sobre o desempregado, pois essa situação não depende só dele, mas sim de muitos factores externos a ele - a responsabilização deve ser distribuída por todos, especialmente pelo Estado e outras instituições de grande abrangência social. 
  • Em Portugal não trabalhamos menos que nos outros países, a nossa falta de produtividade está relacionada com a falta de organização do próprio trabalho - crítica ao aumento dos horários de trabalho e defesa da necessidade de reestruturar dos modelos e organização do trabalho em Portugal. 
  • A falta de ética e consciencialização é um facto, especialmente em algumas figuras que deveriam ser exemplos - todos se devem guiar por padrões elevados de ética e moral, mas do topo da sociedade, e de que tem responsabilidade sobre o colectivo, deve sempre vir o exemplo. 
  • Portugal tem muitas lacunas, especialmente na educação, situação que ainda não recuperamos do antigamente - referência a uma das maiores lacunas  da sociedade portuguesa que ainda tem baixos níveis de educação, qualificação e formação, apesar de ter havido uma grande evolução.

Nestes breve resumo por tópicos, apesar de ter sido a minha percepção a compilar as palavras que aqui deixo, tentei usar do máximo de objectividade e tocar, o quanto possível, no que Carvalho da Silva transmitiu, tentando evitar a minha própria opinião ou juízos de valor sobre o que foi transmitido - o que por vezes, apesar da vontade, se torna impossível.

Aproveito também para agradecer o convite ao professor Jorge Pereira e à Associação Coral Calçada Romana pelo convite que me fizeram para participar nesta iniciativa.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

César, Czar, Kaiser - títulos de imperador, apesar de Júlio César nunca o ter sido

Júlio César é uma das personalidades mais conhecidas da história. Invocar este nome é falar automaticamente de Roma, da cidade mas também do Império. No entanto Júlio César, apesar de ter liderado o povo de Roma durante alguns anos da sua vida, nunca foi formalmente Imperador de Roma, até porque na altura Roma era uma república e não um Império ou monarquia. Aliás, a sua morte aconteceu porque os senadores da república temiam o regresso da monarquia. 
Assassinato de Júlio César - Jean-Léon Gérôme
 Assim César morre em 44. a.C.,  assassinado pelos senadores de Roma, numa tentativa para manter a república - regime que à data durava quase há 5 séculos. 
A república de Roma nasceu quando o último rei de Roma foi expulso da cidade em 509 a.C.. Foi desde essa data que as famílias nobres de Roma - os patrícios - assumiram o poder através dum sistema de governo republicano, apesar dos vários conflitos e tensões com a Plebe que acabaria por ganhar também o seu papel e importância politica. Júlio César, já depois de ter sido cônsul (todos os anos eram eleitos dois cônsules como líderes políticos supremos de Roma, um modo de evitar a concentração de demasiado poder numa só pessoa), torna-se ditador de Roma (cargo temporário previsto apenas para situações excepcionais de instabilidade ou perigo para a república de Roma - isto porque na altura estava a decorrer uma guerra civil - que permitia que o nomeado não ter par com quem partilhar o governo e estar acima da lei). Como Júlio César foi  conseguindo que o cargo de ditador lhe fosse renovado por várias vezes - algo anómalo - os senadores de então ,considerando que a república corria perigo, começaram a conspirar contra o antigo general e agora ditador e acabaram por o assassinar.
Curiosamente o acto dos senadores assassinos não garantiria a continuidade da república por muito mais tempo. Passado alguns anos a república converteu-se em Império monárquico. Foi Octávio, sobrinho-neto de Júlio César, cognominado de o Augusto - "o magnifico" - verdadeiramente o primeiro Imperador Romano. Octávio, utilizou a herança de César para legitimar e consolidar o seu poder, mas mais que isso, adoptou e transformou o próprio nome do tio-avô num título Imperial - os Imperadores Romanos seriam intitulados de "Césares". Aliás, foi tão significativa a associação do nome César aos Imperadores Romanos que outros povos, inspirados pela magnificência do passado de Roma e por terem também eles próprios aspirações imperiais, adoptariam à sua própria língua o título de César como título de Imperador. Temos o caso do Imperador da Rússia que se intitulava de Czar e o da Alemanha que era conhecido por Kaiser.

Se a lembrança do seu nome é a única forma do Homem atingir a imortalidade, seguramente que César se tornou imortal e, para além desse feito já de si considerável, consegui ser também imperador de vários Estados ao longo da História, isto mesmo sem nunca ter sido Imperador da sua própria nação. 
Resta saber se realmente a sua suposta famosa ambição previu alguma vez tal sucesso - ainda que relativo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ainda há economistas que exigem a regulamentação dos Mercados

Num texto que me chegou pela mão, aliás, pelo e-mail, de um amigo, é exposta uma interessante análise e argumentação sobre questões relacionadas com a actual crise económica. Deste documento, assinado por vários membros da “Associação Francesa de Economia Política” e intitulado de “Manifesto dos economistas aterrorizados – Crise e Dívida na Europa: 10 falsas evidências, 22 medidas em debate para sair do impasse”, constam vários exercícios de análise e resolução para a dita crise. Mas, desse documento, o que me fez mesmo criar este texto foi: a argumentação destes economistas contra a teoria – tão cara aos defensores do neo-liberalismo – de que os mercados são auto-reguláveis, que se auto-equilibram no sentido da sua própria sustentabilidade e eficiência. Sendo essa falácia - segundo os autores - ainda mais marcante e evidente no caso dos mercados financeiros.
Cesto de maças - Cézanne
Então, para estes economistas franceses, nos Mercados a concorrência auto-regula-se devido à chamada “lei da oferta e da procura”, teoria que consiste em: “…quando o preço de um bem aumenta, a oferta e os compradores reduzem a procura; o preço baixa e regressa, portanto, ao nível de equilíbrio”. Eu diria - relembrando as palavras de um amigo economista, - que isto só é verdade se realmente todos os intervenientes nos Mercados forem racionais – coisa que nem sempre acontece como todos sabemos.
Bem, mas estas palavras nada têm de novo ou inovador, esta explicação não é mais do que economia e teoria dos Mercados do mais básico e simples, algo corriqueiro e ao nível daquilo que se considera ser cultura geral. A próxima constatação também nada traz de novo, especialmente para quem se dedica a tentar perceber e compreender os fenómenos de especulação, mais propriamente os fenómenos que provocam as famosas “bolhas especulativas”. No entanto, dado o momento que vivemos parece-me importante  voltar a reforçar – tal como fazem os autores do documento em causa – que, se os Mercados nem sempre são auto-reguláveis, muito menos propensos à auto-regulação serão os Mercados Financeiros.
A desregulamentação leva, directa ou indirectamente, à especulação (racional ou não). O  caos extremo, resultante das actividades especulativas, marcou um dos dias mais terrivelmente conhecidos da História do século XX, refiro-me à quinta-feira negra de 1929, evento que só não voltou a repetir-se com a crise de 2008 (tendo em conta as óbvias diferenças) devido à intervenção forçada – regulação à força – que Estados e outras Entidades concretizaram. Vejam-se então as palavras dos autores do documento sobre a descrição do processo que origina as famosas “bolhas especulativas”, fenómenos que podem levar ao caos: “…[no caso dos Mercados financeiros,] quando o preço [de um produto ou bem financeiro] aumenta é frequente constatar não uma descida mas sim um aumento da procura! De facto, a subida de preço significa uma rentabilidade maior para aqueles que possuem o título, em virtude das mais-valias que auferem. A subida de preço atrai portanto novos compradores, o que reforça ainda mais a subida inicial. As promessas de bónus incentivam os que efectuam as transacções a ampliar ainda mais o movimento. Até ao acidente, imprevisível mas inevitável, que provoca a inversão das expectativas e o colapso..."

Muito pessoalmente – sendo pouco importante aqui a minha opinião pois sou um mero curioso nestas lides -, vejo como inevitável e, acima de tudo, desejável, a regulamentação séria e consciente, em ser totalitária ou repressiva de modo a evitar males ainda piores, dos Mercados – Mercados financeiro incluídos.

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