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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

As velas e o terramoto de 1755

O terramoto de 1755 é um dos acontecimentos mais marcantes e dramáticos da História de Portugal, e mesmo o português menos interessado pelos temas históricos já ouviu, com certeza, falar sobre esse fatídico dia, tal como a posterior acção de reconstrução levada a cabo por Sebastião José de Carvalho e Melo – futuro Marquês de Pombal e ministro forte do rei D. José I.
Gravura do terramoto de Lisboa de 1755 - autor desconhecido
Foi no dia 1 de Novembro, um feriado religioso dedicado a “todos-os-santos” segundo tradição católica – algo que acontece ainda hoje -, que a famigerada hecatombe devastou Lisboa, privando-a de uma grande parte do seu património urbano (muitas zonas da cidade foram destruídas e muitos dos principais edifícios ficaram em ruínas) e humano (muitas lisboetas faleceram nesse dia, vítimas do terramoto propriamente dito ou das consequências dele). Mas para que o terramoto de 1755 tivesse atingido o grau de destruição que atingiu, ao ponto de ter causado tal horror que os principais pensadores da época europeus chegaram mesmo a escrever e meditar sobre esse traumático evento (Voltaire e Kant escreveram propositadamente sobre o tema), contribuiu também o que aconteceu imediatamente a seguir ao terramoto propriamente dito. Nesse dia, por ser um importante feriado religioso – dia de todos-os-santos –, as igrejas estavam iluminadas com um número excepcional elevado de velas. Ao ruírem os edifícios, igrejas incluídas, as velas derrubadas propiciaram e causaram incêndios de grande escala (consta que lavraram durante 5 dias sobre as ruínas da capital). Ao deflagrar dos incêndios seguir-se-ia um maremoto – tsunami como é agora mais conhecido – que arrasou com a baixa já destruída. Foi este misto de calamidades que realmente tornou o dia 1 de Novembro de 1755 um dos dias mais negros da nossa História.
Isto na altura pareceu, a uma sociedade bastante religiosa, como que um castigo divino, algo que fez com que alguns pretensos profetas aproveitassem o evento para criticar as praticas e hábitos sociais da Lisboa de meados de século XVIII. Felizmente que estava perto do poder o homem certo (o Marquês de Pombal) para dissipar os obscurantismos e, com a sua energia, assumir as rédeas do governo e reconstruir a nossa capital.
Gravura das ruínas da Ópera do Tejo depois do terramoto de 1755 - Le Blas
O terramoto que destruiu a capital portuguesa chocou toda a Europa e muitos pensadores do iluminismo aproveitaram para teorizar e filosofar sobre as causas, razões e impactos desta calamidade.

É caso para pensar sobre este evento do passado e fazer tudo o que for possível para que não se repita. É caso para ter cuidado com as velas, até porque a mais inocente das velas pode ser provocadora de um acidente e, quando aliada com outros perigos, ascender a um potencial de perigo inimaginável...

Fontes: Cultura, tudo o que é preciso saber - Dietrich Schwanitz

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

“Humores” desregulados – uma causa de doença

Agora que me encontro a recuperar de uma gastroenterite, e que todas as minhas entranhas parecem descontroladas e num frenesim de movimentos e actividade, vem-me de imediato à memória e lembrança uma das teorias de um dos médicos mais importantes da história. Recordo Galeno, médico de origem grega, que praticou e desenvolveu a sua arte e teorias de cura na época imperial romana - considerado por alguns historiadores como sendo romano por ter vivido segundo os costumes de Roma numa época em que a cidade eterna era o expoente máximo cultural do mediterrâneo – e que desenvolveu a sua famosa teoria dos “4 humores”. Para Galeno – muito influenciado pelas teorias e preceitos de Hipócrates – o corpo humano era influenciado por 4 fluidos: bílis amarela, bílis negra, sangue e fleuma. Segundo essa teoria, era a desarmonia dos 4 fluidos que provocava a doença, razão pela qual  muitos dos tratamentos então prescritos eram orientados para reequilibrar esses humores [fluidos]. 
Nº8 - Jackson Pollock
A influência deste médico do século I d.C. continuou por toda a idade média até ao século XVII, época em que se começou a fazer uma nova “ciência” – baseada no empirismo e experimentalismo, o que levou a refutar muitos ensinamentos do passado. Uma das mais conhecidas e aplicadas técnicas de cura (durante todos esses séculos), através da tentativa de harmonizar os fluidos e assim fazer desaparecer a doença, eram as sangrias. O mais curioso – para não dizer repulsivo - era o modo como essas sangrias se realizavam: aplicavam-se sanguessugas em partes predefinidas do corpo do doente e em quantidades específicas, de acordo com o tipo de maleita, de modo a extrair os fluidos em excesso e retomar o são equilíbrio perdido dos fluidos corporais. Consta que estes vermes parasitários tenham sido usados para fins terapêuticos pelo menos até ao século XVIII no Ocidente.

Bem, toda esta incursão histórica só porque me lembrei do seguinte: se tivesse tido este problema [gastroenterite] na época medieval e me tivesse dirigido a um físico [médico da época], em vez de ter ido a um moderno hospital, muito provavelmente ter-me-iam prescrito sanguessugas em vez de uns quantos fármacos na forma de comprimidos.

A verdade é que nesta condição [sofrendo de gastroenterite] consigo compreender perfeitamente a teoria dos “humores” de Galeno ou não sentisse um completo desequilibro de fluidos nas minhas entranhas.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Moisés – um dos grandes generais da história?

No documentário «Batalhas Lendárias: Moisés perseguição mortal» (ou no original «Batles BC: Moses death chase») é feita, segundo uma perspectiva militar, toda uma nova abordagem ao episódio bíblico do êxodo (saída e fuga do Egipto dos Israelitas por volta do século XIII a.C., depois de uma permanência nas terras dos Faraós de cerca de 400 anos – pelo menos pelo que conta bíblia). Nesse documentário Moisés é apresentado mais como um chefe político e militar do que propriamente religioso, mesmo sem o excluir de tal papel - até porque nesses tempos antigos não se faziam o tipo de distinções de papéis que hoje se tenta fazer.
Viagem de Moisés para o Egipto -  Pietro Vannucci Perugino
Na Bíblia, mais concretamente no livro do Êxodo, é descrita a fuga dos israelitas e a consequente deambulação pelos desertos entre Egipto e Canaã, sempre escapando e evitando a adversidade rumo à terra prometida e aos combates que lá teriam de travar para a conquistar. Até aqui nada de novo mas tudo muda quando se começam a analisar alguns desses eventos, que normalmente são atribuídos a intervenções do Deus dos Israelitas, como meras estratégias e tácticas militares provenientes do génio e chefia de Moisés.
Primeiro, no documentário os Israelitas são tidos como guerreiros ao serviço dos Faraós, dai a sua permanência em terras do Egipto, mais concretamente no Nordeste do delta. Aí formavam um exército irregular controlável - pelo Faraó - que constituía uma barreira entre as riquezas do império do Nilo e potenciais povos invasores.
Foi a alteração de estatuto e das condições de serviço ao Faraó que levou os Israelitas à revolta e à saída do Egipto. Supostamente, perderam o estatuto de defensores e guerreiros para o de agricultores e artesãos. Isto aconteceu porque os Egípcios pois começaram a temer que os Israelitas – que eram um importante força militar - e a considera-los como potenciais invasores e conquistadores.
A perda de estatuto obviamente desagradou aos Israelitas, de tal modo que decidiram levar todos os bens que acharam necessários e, sob chefia de Moisés, partiram rumo à terra prometida. De notar que no texto hebraico a palavra usada para descrever a acção dos israelitas é “saquear” e não “pedir” viveres, provavelmente a razão que levou o Faraó a persegui-los posteriormente.
Milagre da Água que sai da rocha de Moisés - Jocopo Tintoretto
Já fora do Egipto, é deserto que a astúcia e genial liderança militar de Moisés se manifesta, pelo menos segundo o documentário em causa. Moisés viveu anteriormente muitos anos nesses desertos, o que fazia dele um conhecedor do terreno – um pressuposto fundamental para boas decisões estratégicas e tácticas no que toca ao comando de exércitos. Moisés conhecia também a organização dos exércitos Egípcios e usou essa informação para os derrotar – principio militar de recolha de informações sobre o inimigo.
No documentário analisa-se o episódio da coluna de fogo e nuvem de fumo que acompanhavam a frente, respectivamente de noite e de dia, da marcha israelita, fenómeno que na bíblia é tido como a manifestação de Deus guiando o seu povo escolhido. No entanto esta manifestação pode ter sido apenas uma imitação dos modos de conduzir e organizar exércitos em marcha segundo os preceitos egípcios, pois era comum que usassem recipientes elevados com brasas incandescentes na frente das colunas de marcha dos seus exércitos. Durante o dia tapavam essas brasas provocando fumo que se via à distância servia para guiar os exércitos, durante a noite atiçavam as brasas de modo a formarem um sinal luminoso igualmente visível à distância. Moisés, aplicando o seu génio militar, inverteu este sistema de comando confundindo os Egípcios que o perseguiam. Colocou o recipiente das brasas à cauda da coluna de marcha e não à cabeça, o que fazia crer aos egípcios que os israelitas andavam perdidos e se aproximavam.
Num outro episódio Moisés usou as chamas para novamente enganar os egípcios. Numa determinada noite, quando os egípcios acampavam perto de si, colocou fogueiras entre o seu povo e os Egípcios, permitindo-lhe esgueirar-se durante a noite mesmo em frente aos olhos egípcios sem ser por eles notado. Já na altura se sabia uma luz numa noite escura oculta o que se passa para além dela. Foi nessa derradeira fuga que Moisés utilizou novamente os seus conhecimentos do terreno, atravessando o Mar de Juncos - e não o Mar Vermelho como se costuma afirmar. Esse Mar era uma espécie de pântano, muito afectado pelas marés e pelos ventos, sendo que em marés baixas e com ventos favoráveis podia de ser atravessado a pé. De manhã, quando os Egípcios tomaram consciência que tinham sido ludibriados decidiram atravessar o Mar de Juncos de Imediato. No entanto, nessa altura, a maré começava de novo a subir e inutilizou os carros de combate egípcios – a principal forma de combate dos faraós – que ao tentar atravessar se atascavam no pântano alagado.
 
Por estes e outros episódios, tendo em conta uma análise militar, bem que Moisés, a ter existindo enquanto figura histórica, pode ter sido um dos melhores generais e estrategas da história militar.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O mais revolucionário dos revolucionários portugueses: Hermínio da Palma Inácio

Um dos actuais best-sellers nacionais é um livro sobre História - estranho pois os tops de vendas costumam ser ocupados apenas por romances e ficções. O livro ‘Histórias Rocambolescas da História de Portugal’ da autoria de João Ferreira é um misto de livro de curiosidades, jornalismo de investigação e compêndio de episódios caricatos e muito particulares da História de Portugal. Não se trata de uma obra académica de História mas tem o grande mérito de fazer despertar no público geral, através da sua leitura, o interesse e o gosto pela História Nacional – pois os vários episódios são, na medida do possível e não fastidiosamente, argutamente completados pelo indispensável enquadramento histórico.
(sem título) - Jean-paul Riopelle
Da obra de João Ferreira poderia ter escolhido muitas das várias referência rocambolescas – segundo as palavras do autor – mas decidi-me a escolher aquela que mais me surpreendeu e que penso ser a menos conhecida. Escolhi o episódio onde são relatadas as aventuras de Hermínio da Palma Inácio (1922-2009), episódio rocambolesco intitulado de ‘Palma Inácio – o último revolucionário romântico’. Palma Inácio foi o derradeiro revolucionário português do século XX, quiçá de toda a História de Portugal. Tinha formação em mecânica de aeronáutica militar e curso de piloto civil. Já em 1947 participou numa tentativa falhada de golpe de estado encetada pelo General Marques Godinho, tendo por isso sido preso e torturado pela PIDE – apesar de ter sido durante 12 dias sujeito à tortura da “estátua” nunca denunciou o seu contacto. Em 1949 concretizou uma fuga rocambolesca: saltou de uma janela a 15 metros de altura com o auxílio de 4 lençóis amarrados; durante o salto foi detectado pelos guardas, os quais derrubou tendo desaparecido juntamente com aos transeuntes que passavam; posteriormente fugiu para Marrocos num cargueiro.
Concretizada a primeira fuga, foi viver para o Brasil onde montou duas empresas de modo a acumular capital para futuras acções revolucionárias, mantendo-se sempre em contacto com a resistência ao regime de Salazar.
Em 1961 coloca em prática a ‘Operação Vagô’: P. Inácio torna-se o primeiro «pirata do ar» ao, em conjunto com 5 companheiros, controlar e desviar um avião da TAP, fazendo-o sobrevoar algumas cidades do sul (Barreiro, Setubal, Beja e Faro) em voo rasante de modo a bombardeá-las com panfletos revolucionários anti-regime e a evitar ser detectado pelos caças da força aérea; a operação de sequestro foi realizada sem qualquer violência (tendo a tripulação chegado mesmo a colaborar e os passageiros a se aperceberam do sucedido só quando aterraram e foram brindado com champanhe, rosas e um pedido de desculpas de Palma Inácio) e plena de sucesso, tendo novamente P. Inácio fugido às mãos do Regime Salazarista e voltado ao Brasil.
Em 1967 decide, em conjunto com outros revolucionários de esquerda, pôr em prática um assalto que financiaria mais actividades revolucionárias e feriria o orgulho do regime. Assim, assaltam à cara destapada – pois tratava-se de um acto político - a delegação do Banco de Portugal na Figueira da Foz, tendo o grupo fugido com o equivalente a uns actuais 5 milhões de euros para França. Com esse dinheiro os assaltantes políticos compraram armas na Checoslováquia e tentaram pôr em marcha mais uma acção revolucionária que pretendia ocupar a Covilhã. A operação falhou e P. Inácio foi novamente preso e novamente fugiu, desta vez dos calabouços da PIDE. Em 1972 entra clandestinamente em Portugal com um novo plano revolucionário em mente: raptar uma alta figura do regime. O plano de rapto é descoberto e P. Inácio é mais uma vez preso. Desta vez só foi libertado de Caxias depois do 25 de Abril.
A partir de então não encetou mais nenhuma actividade revolucionária, a não ser a de recusar qualquer cargo político. Em 2000 foi condecorado com a Ordem da Liberdade. Morre em 2009 num Lar, cuja mensalidade era paga por amigos devido à sua falta de meios financeiros.

Em suma: um verdadeiro revolucionário!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Recordar uma música de Carlos Paião: Senhor Extra-terrestre (cantada por Amália Rodrigues)

No dia em que se assinalam os 22 anos desde o desaparecimento de Carlos Paião, trago aqui ao blogue uma música com letra de sua autoria e cantada por Amália Rodrigues. A música aqui em causa caracteriza-se por ser, no mínimo, bizarra. Parece inacreditável que a música intitulada de ‘Senhor Extra-terrestre’ possa ter sido escrita por quem foi, mas mais incrível é que tenha sido interpretada pela diva nacional.
Ainda - Júlio Resende
Mas, se retirarmos o literalismo à letra e a quisermos interpretar munidos de uma grande dose de sentido de humor – fica evidente que Paião e Amália também o tinham – podemos ver nesta música crítica e intervenção social bem-disposta.
Aqui fica o link para ouvirem esta verdadeira preciosidade: 

segunda-feira, 1 de março de 2010

Será que conhecemos Van Gogh?

Será que conhecemos mesmo Van Gogh, o famoso pintor Holandês expressionista, com fama de miserável e louco? Num texto da edição portuguesa da Courrier Internacional, intitulado de “O pintor que também era escritor”, da autoria de Hans Masselink, somos confrontados de uma recente investigação sobre a correspondência saída da mesma mão com que Van Gogh pintava.

Auto-retrato - Van Gogh
Muitos escreveu Van Gogh, especialmente correspondência para o seu irmão Theo e também entre outros pintores conhecidos dessa mesma época - por exemplo Gauguin, um grande amigo de Van Gogh. Essas cartas foram recentemente alvo de um estudo levado a cabo pelo Museu Van Gogh e pelo Instituto Huygens-KNAW, tendo dessa investigação resultando informações preciosas sobre a personalidade de Van Gogh:
Não era maníaco-depressivo, como se diz muitas vezes. (…) Ele era extremamente fanático, apaixonado, de uma energia fervilhante, incansável”; “Van Gogh não tinha nada de miserável, mesmo se muitas vezes lhe era difícil fazer face às despesas, apesar do seu irmão Theo lhe dar dinheiro suficiente”; “Não era um pintor incompreendido. O mercado não estava preparado para a sua obra. Os quadros do seu amigo Gauguin praticamente não se vendiam, e os dele tão pouco. Mas dentro do círculo de conhecedores foi, porém, bastante apreciado
As razões para os mitos criados em torno de Van Gogh podem ter sido muitas, provavelmente algumas delas passam por simples questões de marketing e publicidade para fazer crescer o valor de mercado das suas obras. Independentemente disso trata-se de um grande pintor, dos melhores e mais originais que a História registou. 

Se há uma coisa que investigação História demonstra é que o conhecimento histórico está em constante construção, e em certos casos desconstrução para nova e revolucionária edificação. Se é mesmo assim, e se tudo isto é mesmo factual para o caso da história de Van Gogh, imagine-se como poderá ser para os grandes momentos da história da humanidade, daqueles que influenciaram e continuam a influenciar a vida de milhões de pessoas.

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