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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Porque não usavam coroa os reis de Portugal?

A monarquia portuguesa teve uma particularidade especial pouco conhecida. Entre 1640 e 1910, com a restauração da independência e domínio da casa de Bragançana sobre a coroa portuguesa, nenhum rei ou rainha foi formalmente coroado. Os monarcas eram consagrados através de um processo cerimonioso e simbólico chamado de aclamação, em que a coroa e septo era colocados ao seu lado, mas sem a formalização da coroação, que implicava colocar a coroa na sobre a sua cabeça. Também nos atos e representações oficiais não se utilizava diretamente a coroa.

Imagem de Nossa Senhora de Fátima da autoria de José Ferreira Thedim

Esta prática e tradição começou com o fundador da dinastia de Bragança, D. João IV, que, por altura da restauração da independência em 1640, em vez de envergar a coroa a colocou aos pés de uma imagem da Virgem Maria, coroando-a simbolicamente como "Rainha de Portugal". Não sabemos se isto foi um ato de fé e de uma tentativa de mobilizar essa força motivadora para a dificil guerra que teria de ser travada pelos portugueses de modo a manter a sua independência face a Espanha, se um ato político para ajudar a reconhecer a independência do reino aos olhos do Vaticano. Pode muito bem ter sido uma mistura das duas coisas. 

Desde então os monarcas da casa de Bragança dispensaram a coroa e a virgem Maria em Portugal passou a usar coroa e a ser a padroeira do reino. É por isso que não encontramos representação dos monarcas portugueses deste período com coroa e também por isso que as imagem religiosas da virgem Maria aparecem ricamente coroadas. Já antigamente se representava a virgem maria em atos simbólicos de coroação, existindo pinturas famosas de Rubens e Velásquez, entre outros, sobre esse tema. Mas esta ligação particular à história de Portugal veio reforçar ainda mais essa iconografia em Portugal, sendo a imagem da Nossa Senhora de Fátima um desses casos paradigmáticos.


Algumas referências bibliográficas para aprofundar este tema:

Costa, Leonor Freire & Cunha, Mafalda Soares da (2008). D. João IV. Reis de Portugal. Lisboa: Temas e Debates, Circulo de Leitores.

Silva, Hugo Ribeiro da (2013). "O Clero catedralício português e os equilíbrios sociais do poder (1564-1670)". Lisboa: Centro de Estudos de História Religiosa

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Qual foi o primeiro Museu de Portugal?

Hoje celebra-se o dia internacional dos museus. Mas o que é um museu? Seria a casa das musas, aquele local onde todas as artes se juntavam e inspiravam a humanidade. Hoje existe museus para todos os gostos, de todos os tipos, recorrendo a inúmeras técnicas de museologia, exibindo as suas museografias direta e indiretamente. Alguns nem edifícios têm, nem peças dignas de serem apreciadas como tesouros.

Paço Real da Ajuda (em madeira)

Mas quais são os museus mais antigos de Portugal? Onde começaram as práticas museológicas?

Podemos começar pelos museus, ou proto museus, de influência iluminista e enciclopédica típicos do século XVIII. Mas podemos ir um pouco mais atrás, aos gabinetes de curiosidades e tesouros. Paulo Oliveira Ramos (1993) sugere a importância da coleção de antiguidades de: D. Afonso, 1.º Duque de Bragança (1377-1461); do 1.º Marquês de Valença (?-1460), filho do 1.º Duque de Bragança, composta por peças de arte e arqueologia; André de Resende (1500-1573), que recolheu cipos e lápides com inscrições romanas, árabes e hebraicas; padre Manuel Severim de Faria (1582?-1655), que continha um grande conjunto de vasos e outros artefactos romanos.

Podemos considerar que o primeiro museu português foi o Real Museu da Ajuda, criação do Marquês e Pombal para D. José I (1761-1788). Nesta altura esse museu ainda se revestia de um cariz privado, que servia tanto como prestígio para o rei detentor da coleção como tinha intenções formativas e educativas para o rei e a corte. Não esquecer que se vivia a era do iluminismo, e que a influência do Marquês de Pombal era forte em todos os domínios da vida política portuguesa. Este museu é também simbólico dessa intenção modernizadora de Portugal e do acompanhamento dos ideais filosóficos do iluminismo.

Referências bibliográficas:
Ramos, Paulo Oliveira (1993). Breve História do Museu em Portugal. In Trindade-Rocha (coord.) (1993), Iniciação à Museologia. Lisboa: Universidade Aberta.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Usar um livro era uma forma prática de afirmação religiosa?

Bíblia pode ser traduzido como “livros”, do plural grego de biblion que significava, comumente, rolo de papiro. Assim o termo Bíblia aponta para um conjunto de livros num sentido largo do termo, de tal forma que o livro sagrado do cristianismo foi considerado como: O Livro. Mas este domínio dos termos, em que um objete recebe o nome de todo um conjunto pode ter razão de ser histórica e religiosa. Gregos e Egípcios usavam rolos de papiros, e em certos casos pergaminhos em quantidades massivas, sendo o caso da biblioteca de Alexandria um caso paradigmático, onde, supostamente, existiam milhões de rolos de papiros em que se reunia todo o conhecimento de então. Ainda hoje os Judeus usam nos seus cerimoniais rolos de pergaminho onde se inscreve o Talmude e a Tora, sendo elementos sagrados e simbólicos dos réus rituais.

Natureza Morta com Bíblia - Van Gogh

Sabe-se hoje ser pouco provável que tenham sido os cristãos a inventar os códices, aquilo a que hoje chamamos livros, que são, no fundo, aglomerados de folhas com uma sequência que se pode folhear e ler sem desagregação, com capa e contracapa, ilustrados ou não.  Consta que já os romanos utilizavam aglomerados de folhas, em simultâneos com os cadernos de tabuinhas de cera onde escreviam com um objeto pontiagudo e apagavam raspando a cera. Provavelmente foram os egípcios de influência greco-latina, descendentes dos construtores da biblioteca de Alexandria, que começaram a utilizar aglomerados de folhas, formando os primeiros porto-códices. Podem também ter sido os romanos como já se disse, pois há alguns vestígios escritos disso. Não sabemos ao certo se era algo comum por todo o mundo mediterrânico. O que pode ter acontecido foi uma adoção dos códices pelos cristãos como forma prática e diferenciadora de reunirem os seus textos de forma organizada, portátil e fácil leitura. Seria um elemento que os diferenciava simbolicamente e formalmente. Há que lembrar que o cristianismo, quando nasceu, era uma inovação religiosa, social e cultural pelo que não será absurdo que tenham adotado essa inovação em oposição aos usos e práticas literárias das outras religiões e influências culturais.

Posteriormente os livros (codices) tiveram uma grande aceitação sob a influência da cultura islâmica e do ressurgimento cultural do império carolíngio, com as atividades literárias a serem fortemente incentivadas nos mosteiros. Nessa altura os livros já se assemelhavam muito ao que hoje conhecemos. Ainda hoje, apesar dos das alternativas digitais, os livros continuam a ser dominantes. Curiosamente, ou não, algumas formas de cristianismo continuam a assumir muito a sua relação com os livros, especialmente com a bíblia. Algumas fazem disso ainda uma imagem de marca, ao contraria da igreja católica que foi abandonando essa relação privilegiada com o livro.

Referências bibliográficas:

Diringer, David (2011). The Book Before Printing: Ancient, Medieval and Oriental (Lettering, Calligraphy, Typography). Dover Publications.

Roberts, Colin H. & Skeat, T. C. (1987). The Birth of the Codex. Oxford University Press.

terça-feira, 20 de março de 2018

Como os câmbios serviam para esconder o pecado de cobrar juros

O sistema bancário, como hoje o conhecemos, terá nascido da ação dos banqueiros das cidades-estado independentes italianas, dessa complexa rede de bancos, famílias e sucursais. Este sistema lidava com muitas moedas, dentro e fora do espaço da península itálica. A conversão do cambio, com as suas múltiplas taxas entre moedas, diferindo de local para local, era transposta para as letras de crédito. Já se recorria a papeis devidamente reconhecidos para transferi dinheiro entre instituições, credores e devedores – algo que os cavaleiros templários se tinham especializado antes de serem perseguidos.

A Calúnia de Apelles - Sandro_Botticelli

Mais que uma mera conversão de moedas, o câmbio era um modo evitar a sansão canónicas da Igreja católica – algo que não se podia ignorar. Para a igreja católica a usura era um pecado grave, atividade típica dos judeus e outros que se tornavam impuros por venderem dinheiro aos olhos da doutrina dominante. O câmbio e o recâmbio camuflavam no os empréstimos e respetivas taxas de juro cobradas. Os fluxos complexos que os capitais assumiam, com contínuos câmbios e recâmbios entre várias sucursais, com alguns testa-de-ferro no meio do processo faziam perder o rasto para uma análise quanto ao pecado da usura [1].

No entanto este método implicava imensos riscos, pois dependia do valor espectável de cada moeda no futuro, sendo altamente arriscado efetuar estes câmbios e recâmbios com moedas instáveis para ocultar juros de empréstimo a longo prazo. Os principais bancos tentavam colocar representantes e abrir sucursais nas principais praças para estarem perto dos mercados e dos decisores políticos, de modo a poderem influenciar decisões e atividades que fizessem variar a economia e tesouros que se relacionava com cada moeda. A circulação de informação era constante, para que se pudesse mitigar riscos e tomar medidas e ações políticas e económicas em tempo útil. Não é por isso de estranhar que os Medicis, principais banqueiros de Florença, depois de toda a Itália e da Europa tenham conjugado o poder económico com o poder político, especialmente depois de se transformarem na agência bancária do Papa. Acediam assim também facilmente a toda a europa, no sistema paralelo de propriedades e tesouro da Igreja. Um sistema que se sobrepunha e cruzava com a rede de cidades-estado, bancos, instituições, redes de comércio, reinos impérios do mercado europeu medieval, quase sempre bastante atomizado até ao início da Idade Moderna.

Posteriormente, com o movimento protestante fortemente influenciador no centro e norte da europa, a prosperidade financeira deixou de carregar uma conotação negativa. Prosperar economicamente para os protestantes passou a ser um ato digno de um bom cristão, mesmo que fosse a operar nos mercados financeiros, desde que de forma legitima. Terá sido esta mudança a inspirar Max Weber e a sua obra, em que desenvolveu a teoria da relação do protestantismo com o espírito do capitalismo [2]. O que não impede que o capitalismo, pelo menos numa forma precoce, tenha começado em Itália ainda na Idade Média e sob domínio religioso católico.

Assim, a complexidade do sistema bancário e financeiro vem de há muito tempo. A relação entre economia, política e religião também.

Referências bibliográficas:

[1] Delumeau, Jean (2007). A Civilização do Renascimento. Edições 70.

[2] Weber, Max (2015). A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Editorial Presença.

terça-feira, 13 de março de 2018

Ser de Direita ou de Esquerda dependeu da forma de sentar

Pensando nos textos aqui no blogue sobre política, foram sendo abordadas as diferenças entre esquerda e direita por diversas vezes, mas nunca de uma forma em que isso constituísse o tema principal de um texto. Chegou então a hora de fazer esse texto, muito por causa de um livro da autora de Diogo Freitas do Amaral que recentemente li. No seu livro, “Uma Introdução à Política”, o conhecido político e professor universitário, resume, de forma simples a génese dessa distinção [1].
A diferença entre esquerda e direita surgiu da Revolução Francesa, mais concretamente dos Estados Gerais, que foram as assembleias representativas da população francesa que quebraram com décadas de absolutismos, justificadas pelas crises financeiras do Estado francês e domínio filosófico do iluminismo entre as elites intelectuais. Os Estados Gerais desempenharam um importante papel na fase inicial do processo revolucionário. Os Estados Gerais iriam transforma-se em Assembleia Nacional [2].

Abertura dos Estados Gerais em Versalhes - Auguste Couder

Os termos distintivos surgiram por razões de posicionamento na assembleia. Observando pelos olhos do presidente da assembleia, os que se sentavam à sua direita ficaram apelidados de partidários de direita e os restantes de esquerda. Mas esta forma de sentar, segundo Diogo Freitas do Amaral, não surgiu do acaso. Essa disposição foi influenciada pela tradição greco-romana e cristã de que “os melhores ou mais qualificados se sentavam à direita do magistrado ou de Deus, ao passo que os piores ou menos qualificados estavam do lado esquerdo”. O autor refere também a origem latina da palavra esquerda, que, ainda hoje em italiano, se diz “sinistra”.  Também em português antigo “filho da mão esquerda” significava filho ilegítimo [1].

Resumidamente, as classes privilegiadas que pretendiam conservar os seus privilégios, passaram a ser apelidados de partidários de Direita, ou conservadores. Os que queriam conquistar mais direitos e melhorar a sua condição económica e social, passaram a constituir os partidários de esquerda. De notar que o autor deixa transparecer aqui a sua opinião, referindo que no primeiro caso a designação foi pejorativa enquanto que na segunda foi elogiosa [1].

Para Diogo Freitas do Amaral, foi somente no século XX, com a modernidade das ideologias extremistas, do comunismo e do fascismo, que se separaram as esquerdas e as direitas entre moderados e extremistas. No entanto, os extremismos políticos são mais antigos, sugiram na própria revolução francesa, sendo famoso o caso dos jacobinos. Posteriormente FORAM VÁRIOS os episódios políticos desencadeados pelos defensores do retorno do absolutismo monárquico, tal como dos anarquistas entre os vários movimentos socialistas e libertários [3]. Seja como for, o objetivo do livro é uma introdução, pelo que se trata de uma simplificação perfeitamente adequada.

Assim, da próxima vez em que se sentarem numa assembleia pensem bem em que ala querem ser vistos.

Referências bibliográficas:
[1] Amaral, Diogo Freitas do (2014). Uma Introdução à Política. Lisboa: Bertrand.
[2] Vovelle, Michel (2007). A revolução Francesa 1789-1799. Lisboa: Edições 70.
[3] Fernandes, António José (2008). Introdução à Ciência Política: teorias, métodos e temáticas. Porto: Porto Editora.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Namoro em Portugal durante a Ditadura do Estado Novo

Nos anos 50 Portugal vivia em ditadura de cariz conservador, em que os padrões morais eram assumidos diretamente pelas forças sociais dominantes e pelo próprio Estado, de mão dada com a Igreja Católica.

Para o estudo da melancolia em Portugal - Nikias Skapinakis

Sobre os relacionamentos amorosos caia um profundo peso moralista, que tentava asfixiar demonstrações públicas de carinho, mesmo entre os casais casados e moralmente enquadrados na doutrina católica vigente. Os namoros eram encenações que tendiam à encenação social e a uma certa dose de hipocrisia, própria das normas sociais vigentes. A homossexualidade nem sequer era considerada por ser um tabu.

As raparigas eram vistas como as principais culpadas dos atrevimentos dos rapazes, tal como demonstra do texto de 1958 de Maria Franco na revista Menina & Moça (M&M), uma publicação da Mocidade Portuguesa Feminina. Defendia-se que as raparigas deveriam ser as guardiãs da moral e dos bons costumes. Se demonstrassem esse tipo de comportamento e conduta, segundo os valores da época, poderiam então aceder ao topo do seu papel social: serem as donas de casa, defensoras da harmonia do lar. Alertavam-se as raparigas de que os rapazes gostavam de diversão, mas que só casavam com raparigas moralmente intactas. Ou seja, virgens e sem experiências relacionais. Isto colocava um peso enorme sobre os impulsos amorosos e criava uma poderosa da repressão da sexualidade, uma vez que era o próprio ditador, Oliveira Salazar, quem reservava e defendia publicamente para as mulheres o papel doméstico. Se as jovens mulheres não conseguissem casar seriam párias da sociedade ditatorial do Estado Novo.

Curioso é também o editorial do padre Gustava de Almeida, de 1964, escrito na mesma revista M&M, em que culpa as influências estrangeiras pela degradação da moral das jovens e das mulheres. Criticava o uso de calças e do ato de fumar. Argumentava contra os perigos da época: dos efeitos nefastos da influência de “camaradagens suspeitas”, “influência da maldita literatura francesa”, do “figurino francês” e do “ensino universitário”.

Assim, os encontros entre os jovens português da época eram sujeitos a uma apertada vigilância. O namoro era uma instituição rígida que servia para elevar as virtudes femininas definidas pelo conservadorismo da época. O namoro servia para casar. Acontecia à soleira da porta ou no interior da casa se a relação tivesse notória aprovação. A maior liberdade social dava-se nas classes sociais mais pobres, nos meios rurais e operários. Era nos grupos mais abastados em que o controlo se dava de forma mais apertada, pois estavam em causa questões económicas e de estatuto social. A aprovação parental para o casamento era muito forte nas classes médias e altas, enquanto que nas classes mais pobres podiam assistir-se a taxas de reprovação de 66% para as raparigas e de 73% nos rapazes.

Estas informações devem ser contextualizadas na época. Não esquecer da periferia de Portugal, longe das ideias progressistas do centro e norte da Europa. Os métodos contracetivos não estavam generalizados em Portugal e o peso de uma classe clerical moralmente dominante tinha enorme influência num país que se fechava ao mundo mais desenvolvido. A esmagadora maioria da população portuguesa vivia com escassos recursos e numa situação de quase analfabetismo e infoexclusão. Isto viria a mudar na década de 70, fortemente depois do 25 de abril de 1974, mas, ainda assim, muitas destas heranças ainda haveriam de persistir muitos anos na sociedade portuguesa, abertamente ou sob diversos disfarces.

Referências bibliográficas:
Almeida, Ana Nunes de (coord.) (2011), Os Nossos Dias.  In Mattoso, José (Dir.) História da Vida Privada em Portugal. Lisboa: Temas e Debates.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Porque andam sempre os norte-americanos no tribunal?

Para quem não seja norte-americano pode parecer excessivo o peso que o sistema judicial tem na vida dos norte-americanos. Para nós europeus parece realmente excessivo. Fica a sensação que se vai a tribunal por tudo e por nada. Quando importamos a cultura audiovisual norte-americana lá estão as infindáveis séries e filmes de advogados, tribunais e processos judiciais. Mas haverá com certeza uma razão para isso.

Calúnia de Apeles - Botticelli

Uma possível explicação prende-se com a história dos próprios EUA. Sendo um país que nasceu no século XVIII, em que alguns dos seus “pais fundadores” eram proeminentes pensadores do iluminismo, não se estranha que tenham tentado evitar a arbitrariedade do poder absoluto, criando um sistema judicial forte e igualitário para todos os cidadãos livres. Por outro lado, tratava-se de um país construído por emigrantes, de muitos recém-chegados provenientes de muitas origens, de línguas, hábitos e culturas diferentes. A estrutura social estava em convulsão e construção. Era seguramente necessário ter uma base legal forte, evidente e que todos pudessem de imediato interiorizar e recorrer para manter alguma paz social.

Os conflitos, quando não resolvidos de forma mais violenta, passavam automaticamente para a esfera legal, numa visão muito pragmática que caracteriza a cultura norte americana. Sendo as estruturas sociais europeias sólidas, mesmo que as nacionalidades sejam mais recentes, existem um legado histórico de organização social que hoje pode estar a favorecer uma maior tolerância que evita conflitos. Esse legado, na forma da organização das sociedades, com todos os seus mecanismos, parece contribuir para gerar diferenças grandes nas mentalidades europeias e norte-americanas. O peso do individualismo é também maior nos EUA apesar de uma maior predisposição para o associativismo, registada por Tocqueville no século XIX como sendo aquilo que permitia o funcionamento da democracia norte-americana.

Apesar dos múltiplos conflitos, que historicamente assolaram a europa parece, hoje em dia os europeus conseguem, aparentemente, recorrer mais à cooperação e negociação, conseguindo-se chegar a modos alternativos menos confrontacionais de resolver conflitos. Numa sociedade assim o sistema judicial não tem de ser solicitado com tanta frequência, reduzindo a sua importância cultural na própria sociedade. Mas o mundo globaliza-se e as culturas homogeneízam-se e é necessário resolver conflitos que não param de surgir. Será que iremos tender para um crescimento do uso dos tribunais ou poderemos evitar isso através da cooperação e tolerância?

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Séries históricas: as línguas e comunicação em "Maximiliano: poder e paixão"

Por mais apelativos que possam ser as séries, filmes e romances históricos correm-se inúmeros riscos nessas criações. Podem ser modos de despertar e consciencializar públicos mais generalistas para os conhecimentos históricos, mas, quase na mesma medida, podem ser fontes de transmissão de desinformação quando são excessivamente criativas e vão para além dos conhecimentos históricos para se tornarem vendáveis e mais "espetaculares". 


A propósito destas questões, que são habituais quando se reflete sobre epistemologia da história, está neste momento em exibição, na RTP2, uma série histórica que apresenta algumas características particulares. Trata-se de "Maximiliano: poder e paixão", no original "Maximilian: Das Spiel von Macht und Liebe", da autoria de Martin Ambrosch e realização de Andreas Prochaska. A série retrata a ligação entre a casa da Borgonha e os Habsburgos, que viria a reordenar a ordem política e cultural da europa a partir do século XV. De notar que os Habsburgos eram a família reinante da atual Ausrtria, enquanto que a Borgonha pertence hoje à atual França, tendo sido um ducado que atuava como reino importante e rico da Idade Média. De notar que o primeiro rei de Portugal era descendente paterno do duque da Borgonha, isto mais de quatro séculos antes, demonstrando a importância dessa região onde se desenvolveu a importante e poderosa ordem monástica de Cluny, que viria a contribuir posteriormente para a nossa conhecida Ordem de Cister. A Borgonha incorporava cidades como Dijon, Besançon, Metz, Luxemburgo e chegou a controlar a flandres e os países baixos. 

Na série salientam-se pelo menos dois fatores curiosos. Apesar do orçamento não ser, com certeza, enorme que permitisse reproduções exatas dos contextos há cuidado histórico, tendo em conta as limitações deste tipo de projetos. Algo que salta à vista prende-se com a presença das múltiplas línguas em simultâneo. Em muitos diálogos os intervenientes falam a sua própria língua, independentemente do interlocutor. Por exemplo, é comum numa conversa uma das personagens falar em francês enquanto a outra responde em alemão. Isto levanta algumas questões interessantes. Na idade média o latim seria a língua erudita e escrita internacionalmente pelos intelectuais. Provavelmente, na prática, o latim pouco seria utilizado fora destes círculos. Parece muito provável que talvez esta fosse mesmo a prática, de cada um falar na sua língua local, sendo que é do conhecimento comum que é mais fácil compreender uma língua que fala-la. Fica a hipótese. Por outro lado, as diversas conotações que se sentem nos discursos de Maria de Borgonha que aludem a um nacionalismo da Borgonha parecem ser anacrónicas, especialmente porque o seu reino era multiétnico, multilinguístico e fruto de um sistema de conquistas e domínios feudais. Ainda assim tenta-se explicar a complexidade do sistema feudal medieval europeu, numa altura em que não tinha aina sido inventado o Estado-Nação. 

Referências bibliográficas:
Ducado da Borgonha, in Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ducado_da_Borgonha
Maximiliano: poder e paixão, in RTP, disponível em: http://media.rtp.pt/extra/estreias/maximiliano-poder-amor/
Reino da Borgonha, in Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Reino_da_Borgonha
Solar, Davis & Villalba, Javier (Dir.) (2007). História da Humanidade: Idade Média. Lisboa: Circulo de Leitores.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Desde quando existe Espanha e desde quando deixámos de ser espanhóis?

Se quisermos ser precisos podemos dizer que Espanha existe apenas desde os finais do século XVI, somente quando Portugal foi incorporado na união política dos vários reinos da península Ibérica. Antes disso existiam os reinos de Castela, Leão, Aragão e Portugal. A história pode ser muito mais complexa que isso se recuarmos mais no tempo. Fiquemos por esta simplificação e vamos apenas recuar no tempo para encontrar a origem do termo Hispânia, que provém da herança latina, da ocupação romana da península a quem os romanos haviam chamado Hispânia. Mas antes deles os gregos já a conheciam como sendo Ibéria. Ou seja, foi somente quando todos os reinos estiveram sob a mesma suserania é que se passou a chamar a esta unidade política reino de Espanha. D. Filipe II, conhecido como Filipe I de Portugal, foi então o primeiro rei de Espanha.
 
Entrada de D. Filipe II em Lisboa
 
Aquando da Guerra da Restauração da independência portuguesa, o Conde Castelo Melhor, que foi quem dirigiu as negociações de tréguas em 1665, estando no trono o rei Afonso VI, conhecido pela sua incapacidade para governar, sempre recusou a possibilidade do Rei Filipe IV, conhecido como Filipe III em Portugal, pudesse continuar a utilizar o título de rei de Espanha. Isto porque denotava um domínio, ainda que simbólico, sobre Portugal. Mas com o tratado de Lisboa de 1668, já com Castelo Melhor afastado da liderança política portuguesa e com a morte de Filipe IV, Portugal aceitou que o rei vizinho continuasse a utilizar o título oficial de Rei de Espanha.

Este texto baseia-se num artigo [1] de João Casaca, membro concelheiro da Ordem dos Engenheiros, ele próprio engenheiro Geógrafo. O autor considera que até essa altura os portugueses, que sempre se tinham considerado como espanhóis, por habitarem na Hispânia, na mesma medida em que somos europeus por habitarmos na europa, deixaram de ser assumir e considerar como tal. Parece uma assunção discutível, mas deixa-nos a pensar seja como for.

Ainda antes da formação de Portugal há que lembrar o feito de Afonso VII de Castela que se tornou rei da Galiza, rei de leão, rei de Castela e de Toledo, e senhor por vassalagem de Aragão e do candado/marca da Catalunha, tendo sido considerado imperador da Hispânia a partir de 1135, depois de ter sido coroado imperador na catedral de Leon pelo Antipapa Anacleto II [2]. Nesta coroação não participou Afonso Henriques de Portugal. O título de imperador, que tudo indica ter sido meramente honorifico, deixaria de fazer qualquer sentido com o reconhecimento da independência do reino de Portugal pelo tratado de Zamora em 1143 e da União do reino de Aragão com os condados da Catalunha, nascendo por essa via a coroa de Aragão, totalmente formalizada em 1164 com elevação ao trono de Afonso II de Aragão [3].

Referências:
[1] – Casaca, João (2016). “A geopolítica e o corónimo Espanha”. Apontamento Histórico. In A Internet das Coisas. Revista Ingenium. II Série, n.º 154. Julho/Agosto 2016. Disponível em:
http://www.ordemengenheiros.pt/pt/centro-de-informacao/publicacoes/revista-ingenium/revista-ingenium-n-o-154-julho-agosto/
[2] – “Afonso VII de Leão e Castela”. In Wikipédia. Disponível em:
 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_VII_de_Le%C3%A3o_e_Castela
[3] – “Coroa de Aragão”. In Wikipédia. Disponível em:https://pt.wikipedia.org/wiki/Coroa_de_Arag%C3%A3o

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Armas pré-históricas que forçaram a comunicação - Documentário: O Grande Romance do Homem

O documentário "The Book of Man", da autoria de Daniel Leconte, exibido recentemente na RTP2 com a tradução de "O Grande Romance do Homem", ensaia-se uma história da pré-história da humanidade, desde os primeiros hominídeos até ao desenvolvimento da escrita, aquele momento em que, supostamente, nasce a história: fruto dos primeiros documentos escritos.
 
Homo Erectus - Zdenek Burian
 
O documentário centra-se na linguagem humana que permite a diferenciação da espécie pela complexa capacidade de comunicar. Refere-se que a linguagem será tão antiga como o Homo Erectus, isto com base na teoria de que para produzir os primeiros bifaces seria necessário um desenvolvimento cerebral e de ordenamento do pensamento para executar esse tipo de tarefa precisa, meticulosa e fruto de planeamento, que só era viável se existissem as capacidades inerentes à linguagem. Esta visão é revolucionária, uma vez que se pensava que a linguagem tivesse surgido muito mais tarde.

Leconte refere também outra curiosidade. Partindo dos casos conhecidos de outros primatas em que a predisposição para o homicídio é real, a facilidade com que os primeiros hominídeos poderiam matar os seus semelhantes, com paus, pedras ou outros utensílios toscos mas letais, criou a necessidade de comunicar e estabelecer empatia de modo a garantir segurança, isto em espécies já habituadas a viver em sociedade. Ou seja, o comunicar poderia ser mais valioso para criar empatia e garantir segurança do que propriamente para transmitir informação.

Todas estas teorias, tal como outras que são explanadas neste documentário, salientam o  grande desconhecimento sobre a nossa pré-história. Muitas conclusões resultam de explicações possíveis carregadas de grandes doses de incerteza, mas particularmente educativas, uma vez que muito falam e tentam explicar o porquê da nossa diferenciação enquanto espécie e a origem de comportamentos que ainda hoje apresentamos e manifestamos.
 
Ver documentário:
 
 
 

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Alemanha, alemães e os exónimos: chamar nomes estranhos aos outros

São inúmeros os povos que ficaram conhecidos por nomes pelos quais não se reconheceriam normalmente, mas que acabam por os tolerar e até adotar, ainda que as origens possam não ser as mais simpáticas. Como alguns destes processos ocorreram há séculos, depois de múltiplas aculturações, mudanças mais ou menos violentas, já ninguém os toma como insultuosos ou desadequados. No fundo, os exónimos podem ser isso mesmo, dar nomes estranhos a termos estrangeiros para os adaptar à língua própria, mesmo que nada tenha que ver com o original.
 
Idun and the Apples - James Doyle Penrose

Um desses casos prende-se com a etimologia da Germania que para nós portugueses, é conhecida como Alemanha. Pegando apenas em algumas entradas da Wikipédia, devidamente referenciados, e outros textos de especialistas, podemos fazer um pequeno exercício de curiosidade sobre a origem do nome desse povo e dessa terra que conhecemos por alemães (ou germânicos) e Alemanha (ou Germânia).

Existem várias alternativas, umas mais rebuscadas que outras, mas todas elas igualmente interessantes. O objetivo aqui não é encontrar a mais correta, até porque pelas fontes não existem certezas absolutas, mas fazer um apanhado das várias possibilidades e refletir sobre as várias possibilidades.

A primeira hipótese é de que “Germanus”  e o plural “Germani” em latim surgiram a partir de “gérmen”, que significa semear ou disseminar, sendo utilizada também com o sentido de “parente” ou “aparentado”. Esse termo terá sido primeiro utilizado em 223 a.C. na inscrição Fasti Capotolini “Galleis Insvbribbus et Germ”, que pode ser traduzida por “povos próximos ou relacionados com os gauleses”. Também por influência de exônimo (que consiste numa tradução de um nome próprio para um língua estrangeira) celta o termo parece ter significado simplesmente “vizinho”. Em Irlandês antigo “vizinho” dizia-se “gair” e em galês “ger”, que apontava para a noção de “próximo”. Por outro lado, em Inglês “gash” significava “corte ou arranhão”, derivando dos proto-indo-europeu: “Khar”, “Kher”, “Ghar”, “Gher”. Esta última hipótese já aponta para uma relação com termos militares e bélicos.

Tácito parece ser o único autor antigo a sugerir que a origem do nome “germânico” remontasse ao nome de uma antiga tribo que durante o domínio romano havia mudado de nome, embora não existam mais provas do que a mera referência do autor. Já Estrabão associou os povos bárbaros do norte da Europa que não eram Celtas a descrição de “germânico”. Mas foi Posidónio o primeiro a utilizar o nome, por volta de 80 a.C. no seu livro n.º 30. Sabe-se desta referência pela citação do 4.º livro de Ateneu, que em cerca de 190d.C. citou Posidónio: “Os Germani à tarde servem à mesa carne assada com leite, e bebem seu vinho não diluído”. [1].

Sem dúvida que “Germano”, ou “German”, era o apelido usado por gauleses e romanos para designar os povos do outro lado do Reno. Mas existe outras possibilidades para a origem dessa palavra. Da composição de “ger”, que significaria lança,  surgem os “homens da lança [4]”. Outra possibilidade, embora aparentemente menos direta, é a da palavra “Wermann”, relacionada “War” em inglês e que provém do velho “ger” de origem indo-europeia. De índole militar surge “Germanus” em latim e “Guerra” como palavra de adaptação para os galo-romanos, que já teriam utilizado o termo antes dos romanos para os seus “vizinhos” [2]. O termo “alemães” deriva do baixo latim, “alamanus”, tomado do "Alemannen" em germânico que era uma das etnias dos povos germânicos que vivia no sudoeste do atual território Alemão, podendo significar “homens estrangeiros” também [3].

Segundo Johann Zeuss, em irlandês antigo, “gair” significava “vizinho”. Por seu lado, Eric Patridge sugere que “gar” ou “govin” significava “gritar”, defendendo que a teoria de relacionamento com “ger”, a lança, estava obsoleta [4], e que a origem da palavra estava então no termo “homens barulhentos” [5]. Outra possibilidade é a da relação com ganância “greed” [5].

São então várias as possibilidades. Para os restantes povos, os germânicos poderiam bem ser aqueles vizinhos barulhentos que andam armados com lanças, sempre preparados para a guerra. Talvez por isso os alemães não usarem nem os termos de origem alemã nem germânica e optarem por Deutsch que em germânico antigo significará qualquer coisa como “do povo“ ou “popular“. Ou seja, o mais correto será mesmo utilizar o termo Deutsch e Deutschland pois estes termos parecem ser menos exónimos, ou seja, traduções de outras línguas que nem sempre são muito simpáticas e adequadas a descrever e identificar quem descrevem. Colocando-nos atualmente no papel dos alemães, parece credível que gostem mais de ser conhecidos como „vizinhos“ do que como „homens das lanças“, sendo que „povo“ sempre parece muito mais neutro.

Referências bibliográficas:
[1] “Germanos”, Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Germanos
[2] BOSWORTH, Joseph. (1836). The Origin of the English, Germanic, and Scandinavian
Languages and Nations: With a Sketch of Their Early Literature and Short Chronological Specimens ... from the Moeso-Goths to the Present Time,

[3] “Germanicos”, Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Alem%C3%A3es
[4] “Names of Germany”, Wikipédia, disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Names_of_Germany
[5] PARTRIDGE, Eric (1958). Origins: A short etymological dictionary of modern engkish. Routledge.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Venezuela: a pequena Veneza?

A versão mais comum para a etimologia do nome Venezuela remete para uma associação que os primeiros exploradores terão feito com a cidade de Veneza. Quando os primeiros exploradores entraram no lago Maracaíbo em 1499 Américo Vespúcio associou as casas construídas sobre estacas de madeira de Palafintos do povo Añu, elevando-as acima do lago, às construções da cidade de Veneza. Assim a zona ficou conhecido como “Pequena Veneza” que em italiano se forma pela adição do sufixo de diminutivo dando origem à palavra “Venezuela”.
 
Arturo Michelena - Ataque aos Barcos
Fonte: http://www.theequinest.com/arturo-michelena-2/

Mas existe uma outra versão, segundo Martin Fernández de Enciso que afirma na obra Summa de Geografia de 1519 que junto ao logo existia uma rocha plana sobre a qual estava edificada um povoado indígena conhecido como Veneciuela.

Assim, o nome Venezuela pode ser nativo ou não, pois não se sabe se o nome atribuído ao povoado situado na tal rocha se relaciona ou não com a associação de Américo Vespúcio a Veneza do primeiro povoado que terão encontrado anos antes.

Estas origens etimológicas levantam questões interessantes sobre a história e afirmação dos povos. Será que os descendentes dos indígenas aceitam este nome? Será que não deixa ainda amarras perante um colonialismo? Mas, ao mesmo tempo, os atuais venezuelanos também são, na esmagadora maioria, descendentes de não-nativos, se é que isso hoje ainda tem algum significado.

Na construção dos nacionalismos e identidades coletivas existem processos de criação e invenção de símbolos, narrativas e cultura que podem ser modificados. Outros países mudaram os nomes que se alicerçaram com o colonialismo, outros parecem querer manter essa herança histórica.
 
Referências:
Venezuela, New World Encicplopédia [em linha]. Consultado em 1-08-2017. Disponível:
http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Venezuela
Venezuela, Wikipédia [em linha]. Consultado em 1-08-2017. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Venezuela

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Como o Urbanismo Linear salvou Estalinegrado dos Nazis

O desenho urbano das cidades tem um efeito marcante nas sociedades urbanas, que vai além da funcionalidade, vivência e atividades urbanas nelas desenvolvidas. Um desses casos é o da antiga cidade de Estalinegrado, atual Volgogrado.

A cidade passou a ostentar o nome de Estalinegrado a partir de 1925, em plena implementação do comunismo no antigo império russo. Como cidade que detinha o nome do líder, Estaline não pode deixar de dedicar recursos e esforços para o seu crescimento e enriquecimento, tal como a sua defesa durante a 2.ª Guerra Mundial.

Desenhos originais de Arturo Soria y Mata (1882)
Fonte: https://web.archive.org/web/20140604075645/http://www.alu.ua.es/a/arg18/Web/arturo_soria.html
Os urbanistas soviéticos tentaram implementar novos princípios urbanistas que pudessem materializar a ideologia comunista. Intervieram em várias cidades, incluindo Estalinegrado, onde implementaram o modelo de cidade linear, criado no final do século XIX por Arturo Soria y Mata, mas depois desenvolvido por M. Okhitovich and M. Ginsburg já com intenções políticas e ideológicas, apelidadas de desurbanismo por diluírem ainda mais a cidade no campo. Embora em Estalinegrado esse modelo não tenha sido tão evidente como em Magnitogorsk, a influência dessa nova visão do urbanismo soviético teve os seus efeitos na cidade. No fundo isso resultou de expansões de novas zonas urbanas de forma linear ao longo de grandes vias que se conectavam entre si. Este modelo acentuava a igualdade entre as várias zonas urbanas, pois diluía o princípio clássico de um centro urbano em que se concentravam as principais funções nevrálgicas, com diferentes graus de hierarquia e importância e múltiplos centros organizadores do espaço urbano.
 
Plano Geral de Magnitogorsk por Ernst May (1931)
Fonte: https://thecharnelhouse.org/2010/10/01/ernst-may-%E2%80%9Ccity-building-in-the-ussr%E2%80%9D-1931/
 
Apesar do conceito de cidade linear hoje ser insustentável há que relembrar que estes modelos foram desenvolvidos antes da massificação do uso do automóvel individual, partindo do princípio em que as vias lineares que definiam a forma linear urbana seriam servidas por comboios.

Aquando da invasão Nazi durante a 2.ª Guerra Mundial Estalinegrado foi atacada e cercada, sendo uma cidade chave importante para a estratégia alemã de acesso aos campos petrolíferos da zona do Cáucaso e do Mar Cáspio, numa zona de atravessamento do grande rio Volga. Importava também o objetivo simbólico destruidor da moral inimiga caso conquistassem a cidade que ostentava o nome do líder comunista.
 
Cidade estrada de Edgar Chamberless (1910)
fonte: http://arqui-2.blogspot.pt/2015/02/la-influencia-de-la-ciudad-lineal-de.html
 
Por razões de uma anormal dureza do inverno russo, pela disposição da cidade ao longo do rio Volga, pelo sacrifício inacreditável de vidas humanas dos defensores, mas também pelo seu urbanismo linear, em que na prática não existia apenas um único centro para dominar e conquistar, os nazis nunca conseguiram conquistar totalmente a cidade, perdendo depois de muito esforço a batalha de Estalinegrado e ditando o desfecho da 2.ª Guerra Mundial.
 
Algumas referências bibliográficas:
CHUECA GOITIA, Fernando. Breve História do Urbanismo. Editorial Presença, 1996.
GILBERT, Martim. A Segunda Guerra Mundial. Dom Quixote, 2009.
MUMFORD, Lewis. A Cidade na História. Martins Fontes, 1998.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Desaparecimento dos pavimentos em pedra após Maio de 68 em Paris


Pode ser uma tremenda coincidência mas os pavimentos de Paris começaram a mudar depois de 1968. Nesse ano deu-se uma revolução que acabou por não o ser, conhecida como o movimento de Maio de 1968.
 
Manifestação em 6 de Maio de 1968 no Bairro Latino
Fonte: http://www.mheu.org/en/timeline/manifestation-1968.htm
 
Esta revolução colocou França em sobressalto, paralisou o governo e provocou eleições antecipadas. Ao movimento estudantil juntaram-se parte consideráveis da sociedade francesa, numa altura que governava o general Charles de Gaulle, um antigo herói da primeira e segunda Guerra Mundial. O movimente era inspirado por ideias esquerdistas e anarquistas, mas mais tarde ficou evidente que era uma manifestação do individualismo libertário, tendo sido usada como expressão do que se definiria como pós-modernismo de reacção aos movimentos massificadores que diluíam as liberdades individuais – daí o slogan “É proibido proibir”. O movimento, apesar dessas tendências esquerdistas, era profundamente libertário perante os valores da “velha sociedade”, seguindo as tendências dos movimentos sociais dos países desenvolvidos de então, que contribuíam para ampliar as liberdades individuais e coletivas.

Durante as manifestações, greves e acções do Maio de 1968 deram-se imensos confrontos com a polícia, verdadeiras lutas de rua onde tudo era utilizado como arma. Nessa altura, especialmente em Paris, os pavimentos eram feitos em calçada de pedra, sendo as pedras utilizadas como arma de arremesso contra a polícia.
 

Les Tabliers de la Rue Rivoli -  Robert Doisneau (1978)

Desde então as ruas de Paris foram sendo pavimentadas com betuminoso e hoje é raro encontrar zonas onde persistam os pavimentos em pedra. Poderá ter sido coincidência, e tal substituição ter ocorrido apenas pela melhor adequação ao tráfego automóvel, mas o certo é que esta mudança contribuiu para alterar a imagem das ruas e avenidas de Paris. Diria que se perdeu um valioso património urbano e paisagístico.
Rue de Rivoli na atualidade
Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Rue_de_Rivoli
 
Referências:
Maio de 68. Infopédia [em linha], disponível em:
https://www.infopedia.pt/$maio-de-68
Maio de 1968. Wikipédia [em linha], disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Maio_de_1968

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Origem do termo “Freelancer”

Tal como a tradução direta  do inglês indica um “freelancer” é uma lança livre. A origem do termo estará relacionada com a Idade Média, quando os cavaleiros “alugavam” a sua lança. Ou seja, trabalhavam ao serviços do senhor feudal que os contratasse, isto porque era responsabilidade desse senhor garantir a seguranças das suas terras e participar em guerras, desencadeadas por ele ou a quem devesse vassalagem. No sistema feudal cada proprietário, ou “gestor” em nome doutrem, de terras devia vassalagem a um senhor de estatuto superior, que em teoria gerava uma cadeia de ligação até ao próprio rei. O rei (que supostamente era o maior dos senhores, num sistema que não conhecia ainda os valores do nacionalismo nem a organização do Estado Moderno), ou os vários senhores feudais poderiam solicitar aos seus vassalos (dependentes hierárquicos) serviços militares, quase sempre contabilizados em homens de armas ou abastecimentos, para além dos habituais impostos cobrados das mais variadas formas. Num sistema em que a moeda era escassa, o imposto poderia ser cobrado e pago em horas de serviço, dependendo da especialidade das pessoas em causa.
 
Excerto da Tapeçaria de Bayeux

Ao analisarmos a Tapeçaria de Bayeux, referente à batalha de Hastings de 1066, que confirmou a conquita do reino de Inglaterra pelo Duque da Normandia (que curiosamente era vassalo do rei de França), ficou evidente a importância que a cavalaria deteve no campo de batalha. Nesta tapeçaria, que é um verdadeiro documento de suporte histórico, registam-se visualmente as mudanças e diferenças entre as táticas militares dos exércitos anglo-saxónicos, que defendiam Inglaterra com as suas táticas de infantaria pesada que recorria maioritariamente a grandes machados, e a flexibilidade do exército normando e da sua cavalaria conjugada com outras unidades militares especializadas, tais como arqueiros. Na batalha de Hastings ainda se ilustram alguns dos cavaleiros a usar as suas lanças como armas de arremesso e penetração de estocada, mas sem transmitirem o potencial de carga da cavalaria que ficaria associada ao imaginário popular dos torneios medievais.
 
Excerto da Tapeçaria de Bayeux
 
Posteriormente, os cavaleiros passaram a dominar os campos de batalha, sendo os “tanques da idade média”, e a lança usada nas cargas de cavalaria de modo semelhante ao que se representa nas recriações contemporâneas dos torneios medievais. O cavaleiro passou a usar a sua lança de uma forma mais sólida e integrada, criando uma simbiose artificial entre a arma, o seu corpo, a armadura e o cavalo, como arma que permitia transferir eficazmente e com precisão a força da carga do cavalo contra os oponentes. Terá sido isto a fazer destacar o valor das lanças, ao ponto de representarem os próprios cavaleiros.

Séculos depois, o termo foi adaptado, já na época contemporânea, para qualquer profissional que “alugasse” os seus trabalhos de forma temporária para a realização de um determinado serviço, habitualmente relacionado com uma ou mais áreas de especialidade, reforçando a sua individualidade.

Nota: o documentário "Sword, Musket & Machine Gun: Britain’s Armed History " foi exibido em Portugal no canal Odisseia, com informação disponível em: http://odisseia.pt/programas/combate-armado-da-espada-a-metralhadora/

Fontes vídeo e online:
• “Freelancer”.  Wikipédia. [em linhas], disponível em: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Freelancer
• Sword, Musket & Machine Gun: Britain’s Armed History. [documentário vídeo]  Trailer disponível em in: https://www.youtube.com/watch?v=OgYQ9d0rRQU

Foste bibliográficas de apoio
• NICHOLAS, David. A Evolução do Mundo Medieval: Sociedade, Governo e Pensamento na Europa: 312-1500. Lisboa: Públicações Europa-América, 1999.
• SOLAR, David; VILLALBA, Javier (Dir.). História da Humanidade: Idade Média. Barcelona: Circulo de Leitores: 2007.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Quando existiam dois e mais Papas em simultâneo

Houve um momento em que existiram dois Papas, dois chefes da igreja católica, reconhecidos como tal por vários reinos. Chamou-se a esse período da história medieval: “O Grande Cisma”. Poderíamos pensar que eram eventuais questões religiosas e espirituais que estavam em causa e levaram a essa separação, mas não foi bem assim. O facto de terem existido duas cortes pontífices, uma em Avinhão e outra em Roma, cada uma com o seu respetivo Papa, acontecia, principalmente, por questões políticas e administrativas.

Papa Inocêncio X - original de Velasquez (Sec XVII) e estudo de Francis Bacon (Sec. XX)
Fonte de imagem: http://de.phaidon.com/agenda/art/articles/2013/february/08/the-truth-behind-francis-bacons-screaming-popes/

O seculo XIII foi politicamente atribulado, com inúmeras guerras, locais entre senhores feudais e das restantes de maior escala entre reinos. O papado estaria envolvido direta e indiretamente em algumas delas. De notar que a própria igreja era uma poderosa organização que se constituía senhorios territoriais e administrativos. Existiam os “Estados Pontifícios” em Itália, em que o Papa era seu senhor ou príncipe, inserido no complexo sistema feudal medieval.

Voltando ao século XIII, a situação política na península italiana foi particularmente caótica. Os conflitos entre o poder papal e alguns dos reinos mais poderosos europeus eram uma realidade, especialmente por questões de propriedades fundiárias, de administração e tributação. De notar que a Igreja detinha propriedades muito consideráveis que administrava diretamente e indiretamente, que estavam isentas de impostos e dos contributos que o sistema feudal exigia por toda a europa, o que obviamente desagradava aos governantes, especialmente quando precisavam de mobilizar estes recursos para as suas campanhas militares.

Em 1309 o papado comprou a localidade de Avinhão à rainha Joana de Nápoles. Nessa cidade seria instalada a nova residência oficial, abandonando a histórica cidade eterna. Os papas deixaram Roma. A partir daí a composição do colégio dos cardeais seria maioritariamente francesa, resultando na eleição maioritária de papas franceses, de tal modo que o papado parecia ser um instrumento da coroa francesa.

Em 1377 o papa Gregório XI sentiu que Roma era de novo segura e voltou à cidade. Depois da sua morte uma multidão aprisionou os cardeais que, sob ameaça de mutilação por parte da população, escolheram um papa romano. O novo Papa, Urbano VI, forçou os cardeais a abandonar o seu estilo de via faustoso. Mas sabendo disto o rei Carlos V de França impeliu os cardeais franceses a abandonarem Roma. Posteriormente elegeram o primo do rei Carlos V, o cardeal Roberto de Geneva como novo Papa Clemente VII. A sua corte papal instalou-se de novo em Avinhão.

A europa dividiu-se politicamente, e supostamente religiosamente. Ingraterra, parte da Alemanha e da Itália apoiavam Urbano, embora com oposição em Milão e Nápoles. França e os seus aliados, incluindo a Escócia, apoiavam Clemente. A cristandade teria dois Papas.

Em 1409 reuniu-se um concilio na cidade italiana de Pisa em que se escolheu um novo Papa sem que se garantisse que o Papa de Roma e o de Avinhão Abdicassem. Por isso, nessa altura existiam formalmente três Papas em simultâneo.

Em 1414 reuniu-se um novo concílio em Constância. O Papa Romano abdicou enquanto o de Avinhão e o de Pisa foram depostos pelo concílio, embora continuassem a defender a sua legitimidade.

Seguiram-se vários outros concílios onde se tentaram eleger novos Papas, alguns em simultâneo, quase sempre motivados por disputas entre os vários reinos, por questões fiscais, mas também por uma crescente necessidade de reformar a igreja que se tinha secularizado e fortemente envolvido nas questões políticas e militares da época. Seria o prenuncio das futuras e definitivas separações cristãs que resultaram dos movimentos reformistas e protestantes no século XV em diante.

Referências Bibliográficas:
  • CUNHA, Mafalda Ferin. O que Foi: Reforma e Contra-Reforma. Lisboa: Quimera: 2002.
  • NICHOLAS, David. A Evolução do Mundo Medieval: Sociedade, Governo e Pensamento na Europa: 312-1500. Lisboa: Públicações Europa-América, 1999.
  • SOLAR, David; VILLALBA, Javier (Dir.). História da Humanidade: Idade Média. Barcelona: Circulo de Leitores: 2007.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Os Segredos da Bíblia - Um documentário à moda antiga do Canal de História

Provavelmente o título deste texto já terá afastado a grande parte dos interessados. Ultimamente o Canal de História não tem exibido verdadeiros documentários e apresenta um rol repetitivo de reality shows, de contexto norte-americano, que têm vindo a destruir a credibilidade do canal. Não que se deva esperar assistir a profundos e exaustivos documentários académicos, mas pelo menos exige-se que o dito canal tenham alguns conteúdos que se baseiem em fontes e em construções historiográficas minimamente sérias, caso contrário seria preferível e mais honesto mudar-lhe o nome.

A descrença de São Tomas - Caravaggio

No entanto, recentemente, provavelmente recuperando programas mais antigos, o Canal de História voltou a exibir um documentário à moda antiga. Ainda que seja bastante sensacionalista pela temática, a série de programas “Os Segredos da Bíblia” parece indiciar a tentativa de mais seriedade. São referidas fontes. Surgem comentários de enquadramento de alguns especialistas e a informação é apresentada quase sempre na forma de hipótese.

Em “Os Segredos da Bíblia” questiona-se a origem dos textos que compõem a coletânea de textos históricos, míticos e religiosos a que chamamos Bíblia. Entre muitas curiosidades são levantadas muitas questões que podem ser de extrema relevância, uma vez que os escritos da bíblia foram muito influentes na história da humanidade.
Refiro de seguida alguns exemplos de questões levantadas no documentário em causa, apenas a título de exemplo:

O novo testamento pode ter sido escrito por pessoas que não eram contemporâneas de Jesus, que podem ter vivido mais de 100 anos depois e que assinaram em nome dos seus discípulos para serem mais credíveis.

A referência a "virgem" Maria pode ser o resultado de um erro de tradução, pois no texto original estaria escrito "jovem mulher" que depois deu origem a “virgem” nas posteriores traduções.
Existem evangelhos que relatam o episódio do nascimento de Cristo numa casa normal, sem referências aos estábulos e animais.

O relato do episódio da ressurreição terá sido adicionado muitos anos depois ao texto original do evangelho, colmatando páginas supostamente desaparecidas para dar um final mais interessante ao relato que originalmente terminava com o relato do túmulo vazio.

Sabe-se que a compilação da bíblia tradicional católica romana resulta de ordens imperiais de uniformização dos vários cultos cristãos, que eram imensamente diversos e estavam espalhados especialmente pela zona oriental do império. De referir que foram muitos os livros e textos da época que foram retirados à versão final aprovada, isto porque detinham referências que, supostamente, não se conjugavam com a visão dos líderes religiosos cristãos no poder eclesiástico e nem com a visão política administrativa do Império Romano que via na uniformização religiosa uma ferramenta poderosa de gestão e estabilidade política. Ainda hoje existem várias versões da Bíblia com variações nos textos que inclui.

A postura e atitudes de Deus também parecem ir mudando ao longo dos textos, tornando-se mais benevolente à medida que a antiguidade dos textos diminui.

Todas estas referências são apresentadas como hipóteses viáveis no documentário, pelo que têm a grande vantagem de nos levarem à reflexão e a questionar. Só por isso vale a pena ver o programa, pois é uma maneira quase lúdica de aceder de forma introdutória a estes conteúdos, que habitualmente estão em formatos mais pesados.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A Máquina da Dívida e a ditadura dos credores

Recentemente, o canal Odisseia exibiu o documentário "Máquina da Dívida" da autoria de Laure Delesalle. Nele a autora faz uma sucinta análise sobre o modo como se foram construindo as dívidas dos Estados.
 
O Banqueiro e a sua mulher - Marinus Van Reymerswaeke
 
A autora, numa clara tendência económica e política anti neoliberal, resume a uma série recente de eventos históricos para estabelecer a origem das colossais dívidas públicas dos países desenvolvidos. Tudo terá começado com o fim do padrão-ouro aplicado ao Dólar, tornando-se uma moeda fiduciária, sem relação com as reservas federais de ouro dos EUA, em 1971. Terá sido o modo encontrado pelos EUA para emitir moeda necessária ao financiamento das dispendiosas guerras periféricas, mas que eram essenciais para a dinâmica da Guerra Fria. Posteriormente, os sucessivos efeitos das crises petrolíferas, iniciadas em 1973, com as escaladas de preços nas economias de consumo, completamente dependentes do petróleo, geraram grandes inflações, aumento generalizado dos preços, quebras de investimento, redução das poupanças e a necessidade de recorrer ao crédito para manter os níveis de vida crescentes nos países desenvolvidos.

Este terá sido o processo inicial, que passou a decorrer numa economia mundial globalizada e de intrincadas interdependências, que tornou os Estados, na construção e manutenção das suas políticas sociais e de bem-estar, completamente dependentes dos credores. A própria globalização económica terá contribuído para a dificuldade de controlo das dívidas futuras, pois nos anos 80 reforçou-se o otimismo nas políticas neoliberais que acentuaram as tendências de desregulamentação e redução do peso dos Estados na economia, tornando as dívidas soberanas cada vez mais suscetíveis de serem influenciadas pela especulação e pelos mercados financeiros internacionais flutuantes.

Segundo Laure Delesalle instalou-se a ditadura dos credores. Se na Idade Média os soberanos podiam contrair divida quase infinita aos credores para as suas dispendiosas guerras e projetos, pois podiam simplesmente recorrer da força para apagar literalmente as dívidas soberadas, atualmente os mecanismos de controlo são indiretos ou quase inexistentes. Mesmo que se apliquem medidas de austeridade, a carga de juros pode ser tão pesada que se torna insustentável pagar efeitvamente a dívida, contraindo-se novos empréstimos para pagar os empréstimos antigos e os seus juros. Por outro lado, hoje os credores perderam o rosto.


Podem ser obtidas mais informações sobre este documentário em: http://odisseia.pt/programas/a-maquina-da-divida/
 
 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Definir o urbanismo pelo arado: origens do termo urbanismo e da prática de gestão das cidades

Voltando aos temas da origem de determinas palavras vamos entrar no domínio do urbanismo.  Qual a origem do termo “urbano”?

Consta que o substantivo urbano advenha do latim, da palavra "urbs", que significava cidade e tinha uma relação com à delimitação da cidade de Roma, do "urbum" que lhe definia os limites. Os romanos utilizavam o arado (ulmus aratri) para traçar os limites de um novo colonato. Traçavam o limite numa terreno livre de modo a criar uma área confinada para nela se construir a nova cidade, que iria albergar os lotes, arruamentos, praças e outros elementos urbanos (1). Para além disso os romanos faziam muitos outros rituais de consagração da própria proto cidade.

Arando em Nevernais - Rosa Bonheur

Este conceito romano diverge e afasta-se do termo grego “polis”, que significa cidade mas aponta mais para o sentido de comunidade humana. Isto poderá servir para nos questionarmos para a forma como ambas as comunidades viam as cidades e as suas comunidades urbanas, se era o contexto social que definia a cidade ou se era a forma da cidade que definia o contexto social.

Por outro lado, os romanos utilizavam de um modo mais abrangente o termo "civitas" também como sinónimo de cidade, com o conceito a aproximar-se mais do conceito alargado da "polis" grega.  De notar as aproximações e relações do termo "civitas" com civismo, civilidade, civilização, etc., estando tudo relacionado mais com a cultura e comportamentos que com uma dimensão material, embora a palavra “urbanidade” seja igualmente comportamental.

A gestão das cidades a partir da época contemporânea, mais concretamente de Ildefons Cerdá com o seu famoso plano de Barcelona de 1855 e de Haussmann em Paris em 1860, foram definidas como intervenções urbanísticas, em grande relação com o desenho e organização funcional material da cidade. 

Desde então a gestão das cidades mudou muito mas continua a ser definida como “urbanismo” e não “polismo” ou “civitismo”. Claro que parece anedótico e é uma brincadeira, até porque o urbanismo não se define hoje em dia pela relação direta com o termos latinos que lhe deram origem, mas parece evidente que fez um caminho para se libertar da inflexão do traçado e passar a assumir, de uma forma integrada e interdisciplinar, as questões sociais, ambientais e outras. Cada vez mais a gestão das zonas urbanas quer ser sustentável em toda a dimensão disciplinar que o termo comporta, sendo o traçado um dos elementos para chegar a esses fins, não o fim em si mesmo.

Fica a curiosidade da origem do termo e de quanto ele pode ter influenciado uma prática.

Referência bibliográfica:
[1] Francesco Bandarin & Ron Van Oers - The historic urban landscape: managing heritage in a urban century. Oxford: Wiley Blackwell, 2012.  p107

sexta-feira, 17 de março de 2017

Utopias – Os primeiros textos utópicos e a moralização das sociedades

Uma utopia pode ser definida como uma construção intelectual de sociedade ideal. Trata-se de uma sociedade impossível pois existe apenas na esfera das ideias, quase sempre falhando na sua possibilidade de concretização pela esmagadora complexidade das sociedades e dos indivíduos. É essa complexidade que se simplifica habitualmente nos postulados de construção das ideias utópicas. Talvez assim seja porque as sociedades não são inventadas num acto isolado e súbito de criação, mas por surgirem de processos complexos e morosos que se ligam à própria história dos grupos humanos.

Não faltaram propostas de utopias ao longo da história do pensamento ocidental. De notar que as utopias eram sempre definidas como alternativas ideais às sociedades existentes na época em que os criadores utópicos as definiam. Podemos até questionar se a ideia dos utópicos era realmente implementar as suas utopias ou apenas alertar para a necessidade de correcções de comportamento, de organização, de atitudes e valores nas suas próprias sociedades.


A Parábola dos Cegos - Pieter Bruegel "o velho"

Destaca-se a proposta filosófica de Platão na sua “República”, datada do século IV a.C., onde propunha uma sociedade aristocrática em que os líderes, chamados de “guardiães”, lideravam a comunidade pelas suas características pessoais, não por heranças, riqueza ou outras formas de diferenciação. De notar que para Platão o objectivo máximo da existência e o sentido da vida era a concretização do Bem. Estes guardiões saberiam com certeza como garantir, pois era mos mais sábios, justos e capazes de governar para o bem. Daí a noção de que as sociedades deveriam ser governadas por filósofos ou que os reis se tornassem eles próprios filósofos. Curiosamente isto vai ser ensaiado na europa do século XVII e XVIII com os “déspotas esclarecidos”, mais de 2.000 anos depois.

Saltando uns séculos, Thomas More escreveu, no início século XVI, a sua “Utopia”. Nesse livro reinventava a sociedade inglesa. Na sua utopia, a sociedade organizava-se em pirâmide, assente sobre o direito electivo familiar. As eleições seriam livres, sem candidaturas e lutas conflituosas. As leis seriam simples e todos os membros desta utopia teriam formação avançada em direito: todos seriam doutores em direito. Defendia que quanto menos leis mas natural, justa e racional seria a sociedade. Todos tinham de trabalhar. De notar que o termo escolhido pelo autor, a “utopia”, tem origens no grego, significando “nenhum lugar”, o que indicia que o objetivo dessa obra fosse o impacto de consciencialização moral mais que uma tentativa real de implementar a solução prescrita.

No século XVII Tommaso Campanella escreveu a “Cidade do Sol” em que defende um modelo de sociedade ideal de inspiração neoplatónica. O Estado era liderado pelo príncipe-sacerdote “Sol”. O monarca Sol era ajudado pela “potência”, “sapiência” e “amor”. Toda a sociedade era profundamente organizada pela razão. A propriedade privada era abolida, tudo era comunitário. Valorizava-se, acima de tudo, a cultura, ciência e educação.

Estas foram apenas algumas das primeiras utopias, algumas das mais conhecidas e que se associam a obras completas publicadas. Muitas outras surgiriam depois, especialmente no século XIX com os movimentos socialistas e anarquistas. Mas isso fica para outro texto. De notar que estas utopias aqui referidas foram muito radicais na sua época, o que levou a perseguições a Campanella e à condenação à morte de Thomas More, embora motivada por outras razões políticas e religiosas, nomeadamente pela sua recusa em aceitar a política matrimonial e religiosa de Henrique VIII. Já de Platão não consta qualquer perseguição, uma vez que era um aristocrata e que a sua cidade de Atenas na altura era uma democracia, apesar dessar mesma sociedade ter condenado Sócrates à morte por este contaminar o espírito da juventude ateniense com as suas ideias e questões.

Referências bibliográficas:
Campanella, Tomás (2006) - Cidade do Sol. Guimarães Editores.
Fernandes, António José (2015) – Introdução à Ciência Política – Teorias, métodos e Temáticas. Porto Editora.
Morus, Tomás (2009) – Utopia. Guimarães Editores.
Platão (2005) – República – ou Politeia. Guimarães Editores.

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