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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Uma Simplificação Arriscada de Lipovetsky: Um Filósofo das Coisas Banais e da Nossa Vida Atual

Lipovetsky é um filósofo francês, conhecido conferencista, escritor e professor na Universidade de Grenoble.

Participou nos movimentos culturais e intelectuais do Maio de 68 em França, mas desde logo ultrapassou o marxismo para definir novas orientações e maneiras de interpretar o mundo. É o próprio que diz: “Só os idiotas nunca mudam de opinião”.
 
Fonte: http://www.lenouveleconomiste.fr/
É um dos mais famosos e importantes filósofos contemporâneos. Muitos consideram-no um “átomo livre”, um pensador polémico que não hesita em desconstruir a filosofia dos filósofos para a aproximar das pessoas e da actualidade.

Tem-se destacado pela reflexão sobre o mundo contemporâneo, mais concretamente nos temas do individualismo, liberdade, consumo, moda, mercados e outros. Em geral, tem-se dedicado ao estudo do capitalismo e seus efeitos positivos e negativos. Ao contrário de outros filósofos, Lipovetsky parece gostar de tratar as coisas banais, para desconcerto de muitos.

Tem imensas obras publicadas, quase todas traduzidas para português, sendo utilizadas quer por curiosos quer pelos meios académicos. Referem-se então, de um modo quase criminosamente simples, algumas das suas reflexões.

Na “Era do Vazio” e “Império do Efémero” lembra as características das sociedades de consumo capitalistas onde pouco persiste, quase tudo é efémero, gerando-se o vazio entre o frenético da novidade.

Em “O crepúsculo do dever” fala das modificações dos sentimentos de dever, do individualismo no confronto das sociedades com as tradições impostas.

Em “Os Tempos Hipermodernos” defende a tese de um novo termo ("híper") para definir esta nossa época de excessos, do “híper tudo”, do híper consumo, das híper relações, do híper mediatismo da informação.
Na “Sociedade da deceção” refere-se à desconstrução social operada pelo capitalismo, da ilusão individual do tupo poder em potência, mas do, aparentemente, quase nada conseguir para muitos nas sociedades ocidentais (hipermodernas).

Em todas estas obras, e em muitas não outas não citadas, estão sempre presentes os temas da liberdade, individualismo e o fim último que é a felicidade. O capitalismo, apesar de poder parecer, não é demonizado, mas expiado. Se traz malefícios também se relaciona com a democracia e liberdade.
 
Para Lipovetsky, sem capitalismo não há consumo, não há democracia nem liberdade, estando tudo relacionado. É a liberdade - sem juízos de valor associados ao termo - que gera todos esses excessos e híper novos estados e estádios da condição humana. Querer mudar isso é atentar contra a própria liberdade. Mas alerta que nada disto é um fatalismo. A humanidade pode continuar a ser uma comunidade social com projetos comuns, simplesmente só o será e terá tais projetos se em liberdade os pretender.
 
Se o capitalismo é expiado será para lhe fazer a apologia de ser o motor da liberdade e da democracia, através do consumo. Esta opção gera um paradoxo intencional: a crítica do "turbo capitalismo" que desequilibrou o poder entre Mercados e Estados. Lipovetsky também crítica esta mudança, não desligando da sua matriz marxista, pedindo um novo equilíbrio para afinal, como bem identificou: garantir a liberdade e felicidade humana.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Monotonia Urbanistica de Nova York - A especulação Imobiliária

O mundo está repleto de cidades. Apesar de muitas seguirem planos urbanísticos semelhantes todas são diferentes. Não poderia ser de outra forma, pois a sua história, os seus habitantes, as atividades que nelas acontecem, o clima e ambiente, entre outros moldam-nas.

Nova York é única, por todas as razões anteriormente referidas, mas o seu desenho urbano pouca originalidade tem. O crescimento desta cidade, fundada por holandeses que na altura lhe atribuíram o nome de Nova Amsterdão, explodiu no século XIX, especialmente no que toca à ilha de Manhattan. Vivia-se a revolução industrial nos E.U.A. e Nova York era um desses polos industriais e comerciais mais importantes. A pressão e especulação urbana eram enormes. O crescimento contínuo e galopante.
 

Mapa de Nova York de 1897
O urbanismo da cidade é fruto do planeamento aplicado ao capitalismo especulativo. De notar que o crescimento que se dá nessa altura ocorre de modo a manter altos os preços dos terrenos. Isto era possível através da indiferenciação urbana. Ou seja, as ruas eram todas iguais nas suas características, tal como os quarteirões. Até os nomes foram evitados, ficando cada avenida apenas associada a um número, coisa que ainda hoje ocorre.

Esta opção urbana permitiu que todas as novas zonas tivessem o mesmo valor, pois, eram, ao nível do planeamento urbano, iguais. No entanto criou uma malha ortogonal monótona, ao contrário do que acontece nas outras grandes metrópoles.  Só o Central Park, Broadway, Rockefeller Center e algumas zonas ribeirinhas têm algumas daquelas características urbanas distintivas que as fazem sobressair da envolvente e favorecem as múltiplas atividades urbanas, especialmente a fruição de um espaço público de usos múltiplos – A herança do mundo greco-latino e sua valorização do espaço público da ágora, fórum e praça. Esta monotonia é especialmente visível na zona mais interior, na envolvente do Central Park.

Apesar de ser interessante por muitos motivos, incluído as atividades sociais, económicas e culturais, e até o edificado e o próprio local de implantação da cidade, o urbanismo de Nova York foi aborrecidamente manipulado para assegurar a especulação imobiliária.
 
Referências bibliográficas
  • Goitia, Fernando Chueca. "Breve História do urbanismo”. Lisboa: Editorial Presença, 1989.
  • Mumford, Lewis. "A Cidade na História". São Paulo: Martins Fontes, 1998
 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Economia e Ecologia - Quase sinónimos quase opostos

Economia e Ecologia são termos que remetem para áreas de atividade por vezes tão distintas apesar de terem origem onomástica semelhante. Ou seja, ambos derivam da palavra grega Oikos, que significa casa. A economia será então, traduzindo literalmente, “a gestao da casa” que será “Oikos + Nomos”, sendo que Nomos significa Lei/costume/gestão. A ecologia será então, traduzido literalmente, “o estudo da casa” que será “oikos + logos”, sendo que Logos significa conhecimento.

Título desconhecido - Walt Kuhn
Esta constatação onomástica (origem dos nomes) levanta, no mínimo, muitas questões. Se o objecto - Oikos, a casa - é o mesmo porque será que estas duas áreas de conhecimento tantas vezes andam em conflito e lados opostos, defendendo visões, praticas e atitudes nem sempre compatíveis. Se a “ lei ou gestão da casa” anda longe do “conhecimento da casa” a casa não pode estar “arrumada”. Hoje em dia, o conceito da sustentabilidade tem vindo a aproximar as duas áreas, uma vez que ambas recorrem a ele e ele próprio só se concretiza na sua plenitude se a sustentabilidade for financeira e ambiental (tal como outras possíveis vertentes, com tendência para o alargamento do conceito).
Ambientalistas como Satish Kumar, entre outros, têm lutado pela aproximação entre economia e ecologia, sendo que coloca a primeira a depender da segunda, defendendo que “para se gerir uma casa é preciso conhece-la primeiro”. Ou seja, para que se faça economia é preciso primeiro fazer ecologia.
Para além dos jogos de palavras em que podemos cair, a aproximação entre economia e ecologia, independentemente de uma eventual guerra pela supremacia disciplinar, é o um caminho inevitável para garantir a sustentabilidade. Garante-se assim, supostamente, a dimensão ambiental e económica das actividades humanas.

Felizmente a tendência será a aproximação entre economia e ambiente, felizmente para todos nós e para as gerações futuras.


Nota: um agradecimento à Telma Fontes pela indicação do ambientalista Satish Kumar para citação neste texto.

Referências bibliográficas:

terça-feira, 24 de junho de 2014

A economia serve para buscar a felicidade?

Existem imensas definições para caracterizar a economia. Se começarmos pela origem etimológica do termo (Oikos + Nomos = Casa + leis/costume/normas) concluímos que o termo pode ser incrivelmente vasto. Já desde a antiga Grécia filósofos e pensadores dedicaram atenção aos estudos da “economia”, ainda que com uma metodologia e abordagem muito distinta daquilo em que esta ciência (humana) viria a usar atualmente. Terá sido durante a Idade Moderna, com o mercantilismo, e depois na Idade Contemporânea com o desenvolvimento do capitalismo e revolução industrial, que o significado e método clássico de economia se terá definido.

Estúdio com crânio - Georges Braque

De um modo simplista poderia dizer-se que: a economia é a ciência humana que estuda os mecanismos de produção, consumo, distribuição e rendimentos de bens e serviços (sempre limitados) com vista à sua otimização. A definição é simples, e muito limitada, tendo em conta a sua abrangência, porque economia pode ser quase tudo, pois se pensarmos na origem etimológica do termo, será tudo menos simples definir o que são as regras (naturais e artificiais) da nossa casa (ambiente).
 
No entanto, encontrei recentemente uma possibilidade curiosa para o fim ou objetivo da economia que pode ajudar na sua compreensão e simplificação. Segundo o livro “Economia para totós”, a economia é a ciência que pretende otimizar o uso de bens e serviços para garantir o máximo de felicidade aos indivíduos. Não sei se isto é inocente ou não, mas não entra aqui a palavra lucro e acumulação de capital. É curiosa esta mudança, pois a essa “busca pela felicidade” os autores acrescentam também a componente ambiental, no sentido de que a “boa” economia será também a que garante sustentabilidade dos recursos. Ou seja, a economia será então a ferramenta que permite avaliar os recursos e bens, sempre escassos limitados, e organizar todo o sistema produtivo e distributivo de modo a garantir o que as pessoas pretendem, gerando felicidade e sustentabilidade ambiental.
 
Tudo isto pode ser ingenuidade, ou uma mudança de paradigma, especialmente relevante se pensarmos que vivemos numa altura em que se diaboliza a economia e os economistas. Será isto apenas uma ação de marketing, intencional ou não, dos economistas para defenderem a sua ciência - que não por acaso é humana -, tentando liga-la à causa ambiental, humanizando-a e modernizando-a perante o individualismo contemporâneo centrado na busca da felicidade individual?
 
Referência bibliográficas

terça-feira, 6 de maio de 2014

A Ponte Dona Maria Pia - Uma obra prima da engenharia e do património industrial

A Ponte Dona Maria Pia é um dos ícones e marcos da história industrial portuguesa, pelo que significou utilitariamente na sua época de construção, mas também pelo que continua a significar.
Para perceber a importância patrimonial desta estrutura de aço importa perceber a época e contexto da sua construção. Em meados do século XIX vivia-se em Portugal a Regeneração, e o governo de Fontes Pereira de Melo (Martins, 2014; Mattoso, 1998). Isso concretizou-se numa vontade governamental de forçar a modernização e industrialização do país (Cordeiro, 2009). Para a concretização dessa estratégia era imprescindível melhorar as vias de comunicação, conhecidamente deficitárias (Mattoso, 1998), sendo a opção pelo caminho-de-ferro incontornável. Assim fez-se por conectar os principais polos económicos do país, e a ligação Lisboa-Porto (Rodrigues, 2006) não podia ser descurada. Só que isso apresentava um desafio: o atravessamento do rio Douro junto ao Porto. Foi Manuel Afonso Espregueira, enquanto Diretor Geral da Companhia Real dos Caminhos de Ferro, quem resolveu o problema do atravessamento (Cordeiro, 2009), decidindo-se por uma ponte. Essa obra acabou por ser parte vital da revolução dos transportes que ocorreu na época (Mattoso, 1998).
Monte D. Maria Pia - Emílio Biel
Curiosamente, um dos maiores impactos que teve na economia na época foi no setor da construção (Mattoso, 1998) - o que leva a refletir sobre o modo como são planeados, e projetados, desde há séculos, os investimentos em Portugal, sendo que neste caso seria espectável que o maior impacto fosse no setor da indústria de bens transacionáveis, apesar de ser considerado um projeto exemplar a todos os níveis.
Inicialmente estaria previsto consagra-la a D. Fernando, mas acabou por ser D. Maria a dar nome à ponte, aquando da inauguração em 1877 (Costa et al., 2009). Naquela construção manifestou-se a ideologia da época, a da burguesia que quebrava as limitações tradicionais de classe e poder, e que abraçava projectos de investimento e desenvolvimento industrial, especialmente os de construção em aço, permitindo estruturas leves, grandiosas e de rápida execução (Martins, 2014). Talvez não terá sido por acaso que este marco da construção do ferro tenha sido erguido no Porto, cidade comercial e burguesa por excelência.
Para superar o desafio em causa foi lançado um concurso público internacional em 1875 (Franklin, 2010), ao qual concorreram 4 empresas com soluções diferentes. Venceu a proposta de Gustave Eiffel por razões de estética, estrutura, e, talvez mais que tudo, por ser a que menores custos propunha (Costa et al., 2009). Aliás, o preço foi tão baixo em relação aos concorrentes que foi constituída uma comissão excecional de 3 engenheiros franceses para confirmarem a proposta (Franklin, 2010).
Apesar da ponte ser atribuída a Gustave Eiffel, por ser o director do projeto e da empresa, o verdadeiro projetista e responsável pela solução adoptada terá sido Théophile Seyrig (Cordeiro, 2009; Franklin, 2010). Por Seyrig ser subalterno de Eiffel, e por este ter obtido fama imensa com a sua famosa torre de Paris, talvez sejam as razões pelas quais o seu nome raramente se associa à ponte D. Maria (Cordeiro, 2009). De qualquer dos modos, apesar das dúvidas de autoria e tipo de implicação de cada um dos engenheiros, é certo que estiveram
envolvidos, pois anos depois ambos descreveram com muita precisão os cálculo e métodos utilizados, que eram de facto arrojados e na vanguarda da tecnologia da época (Cordeiro, 2009; Franklin 2010). Terá sido essa a razão pela qual conseguiram uma proposta tão melhor que as restantes.
Então mas importa concretizar com mais pormenor o porquê do arrojo e originalidade técnica e estética da ponte. De facto as medidas técnicas adotadas foram vanguardistas. A estrutura é de uma impressionante leveza, composta por um arco biarticulado de 160 metros de vão (Costa, 2009; Franklin, 2010), que suporta o tabuleiro ferroviário de via simples, de 354 metros de comprimento (Rodrigues, 2006), através de pilares em treliça assentes em seis maciços de betão. O tabuleiro superior situa-se a 61 metros de altura do rio (Franklin, 2010). O tabuleiro é composto por 3 partes distintas, sobre o extradorso do arco e sobre as duas secções das margens assentes em pilares. A ponte foi dimensionada e preparada para resistir aos ventos ciclópicos que varrem aquela zona do vale do Douro, tal como para resistir aos gradientes e variações térmicas, com ligações absorventes e adaptáveis (Franklin, 2010).
Impressionante foi o modo como a obra decorreu sem acidentes, apesar dos 150 trabalhadores, da utilização de 1600 toneladas de aço (Costa, 2009) (que vinham na forma de vigas e outros elementos construtivos de França já cortados, furados e prontos a montar e rebitar) e do tempo record de construção em apenas 22 meses, tendo ocorrido nesse período uma cheia do rio (Franklin, 2010). Também o processo construtivo foi inovador, sendo construída simetricamente a partir das margens com as duas secções a avançarem em consola, tendo sido unidas a meio vão com um erro mínimo. Após concluída a ponte, intensamente avaliada, nada de registou de deficitário, e as flechas de 20 a 25 mm são impressionantes até para a tecnologia contemporânea.
Mas existiam limitações, uma vez que apenas uma composição de cada vez, com carga limitada e a velocidades de 20km/h, podia atravessar em segurança a ponte (Costa, 2009).
A ponte, tal como já se referiu, permitiu ao Porto assumir novamente a preponderância económica face a Gaia, onde se estavam a concentrar as atividades trazidas pela ferrovia antes da construção da ponte (Martins, 2014), impossibilitadas de atravessar o rio.
Assim a ponte, que continua ainda em excelente estado de conservação, é a manifestação máxima de uma época em que se inovou, se soube escolher e implementar alguns projetos profícuos e racionalmente constituídos. Também corporizou o desenvolvimento científico e do próprio positivismo da época, com os respetivos impactos sociais. Hoje a ponte continua ser um marco turístico, estando a ser pensados vários projectos de aproveitamento e valorização, o que demonstra como ainda é sentida como um valor importante a preservar.
Bibliografia

Costa, Fábio; Moreira, Miguel; Nunes, Vasco, “Ponte D. Maria - Gustave Eiffel”, blogue Arquitectura do Ferro, 2009, disponível em: http://arquitecturaferro.blogspot.pt/2009/02/ponte-d-maria-gustave-eiffel.html

Cordeiro, José Manuel Lopes, “Ponte D. Maria Pia: uma ponte de Eiffel… e de Seyrig”, Braga, 2009. Disponível em www.ocomboio.net

Guerra, Franklin, 2010, “história da engenharia em Portugal”, Porto, Publindústria.

Martins, A. “Ponte de D. Maria Pia”, IGESPAR, acedido em 8 de Abril de 2014, disponível em: http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/70405/
Mattoso, José (dir.), 1998, “História de Portugal” – O Liberalismo”, Volume 5”, Lisboa, Editorial Estampa.

Rodrigues, Adriano Vasco, 2006, “História breve da engenharia civil – pilar da civilização ocidental”, Porto, Ordem dos Engenheiros Região Norte.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O fraco crescimento da economia portuguesa deve-se aos serviços?

Pretende-se com este texto aproximar algumas explicações para os atuais défices, e que vêm de alguns anos, para o fraco crescimento e performance da economia portuguesa. Fica então esse arriscar de conjeturas.
Auto-retrato com o grupo da Brasileira  - Almada Negreiros
 
O processo de desenvolvimento económico de um país pode-se simplificar, apesar de todos os erros e imprecisões provenientes do particular, em três fases interligadas (Costa et all, 2011):
  1. O desenvolvimento de uma economia arranca com um setor agrícola dominante, com uma produtividade e riqueza associada que cresce lentamente.
  2. Posteriormente, ocorre a industrialização, ocorrendo uma transferência dos recursos e da produtividade dos setores primários para o novo setor naturalmente mais produtivo, tendencialmente o mais industrializado.
  3. Por fim o crescimento económico é dominado pelo setor dos serviços, num setor que tende a apresentar níveis de produtividade e taxas de crescimentos inferiores ao industrial. Com esta terceira fase, as transferências de produtividade e recursos acumulados, tendem a fazer reduzir a própria produtividade de toda a economia, pois como se disse o setor secundário (indústria) é, regra geral, mais produtivo que o terciário (serviços).
Seguramente que existirão muitos casos particulares a escapar a esta simplificação, mas deste modo pode-se ter, pelo menos, uma noção básica dos principais e mais comuns processos de desenvolvimento que seguem as economias padrão.
Tendo em conta que a economia portuguesa tem vim a cair nos últimos anos, e mesmo em décadas anteriores tem crescido abaixo do que seria expectável, a partir do modelo anterior, e cruzando-o com outros dados, poderemos tentar encontrar algumas explicações e constatações.
Num outro texto já se abordou aqui no blogue o problema da baixa produtividade como um dos principais condicionantes da economia portuguesa (Amaral, 2010). Partido desse axioma poderemos encontrar na evolução e predomínio dos setores de atividade em Portugal uma possível explicação para a nossa pouca produtividade e fraco crescimento económico. Se atendermos a que a industrialização foi bastante tardia em Portugal, e que quando ocorreu assentou, salvo algumas exceções, em processos tecnologicamente pouco intensivos e que recorriam a mão-de-obra barata e não especializada, poderemos perceber o pouco valor acrescentado que traziam já na altura. Se atendermos que esse período de crescimento industrial não foi muito extenso e que o setor nunca foi sequer dominante (ver texto sobre emprego; INE, 2013), facilmente compreendemos que nunca se acumularam os capitais necessários para uma industrialização mais tecnológica e com mais valor acrescentado. Os acréscimos de produtividade e capitais vindos do setor agrícola e do industrial possível, mesmo que reduzidos, passaram quase diretamente para o novo e ascendente setor dos serviços (Costa et al, 2011). Assim, nestes complexos processos de transferências de produtividades e capital, fomentou-se precocemente um setor terciário sem ter existido uma indústria de suporte forte. Logo, ficamos muito limitados na nossa produtividade, condicionando assim o nosso crescimento e pujança económica global.
Muitas outras teorias e explicações válidas à parte, estas palavras são apenas uma tentativa de aproximação à compreensão do atual estado económico de Portugal. Provavelmente, antes de atuar, seria necessário primeiro estudar e perceber.

Referências bibliográficas
  • Amaral, Luciano; 2010, “Economia Portuguesa, as últimas décadas”. Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa.
  • Costa, Leonor Freire; Lains, Pedro; Miranda, Susana Munch; 2011, “História Económica de Portugal – 1143-2011”. Esfera dos Livros, Lisboa.
  • INE; 2013, “Portal do Instituto Nacional de Estatística”. Acedido entre 15 de Maio e 30 de Maio de 2013: http://www.ine.pt/xportal
 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Pequena História Recente do Emprego em Portugal e seus Contrastes Regionais

Desde a fundação de Portugal que se registam fortes contrastes na distribuição da população sobre o território português, especialmente entre norte e sul, e litoral e interior (Lema & Amp; Rebelo, 1996). Nessa ocupação, até ao século XX, destacava-se uma maior concentração de população nas zonas de mais intensos recursos: primeiro nas zonas agrícolas; depois junto aos grandes portos comerciais (Costa et al, 2012; Mattoso, 1997; Ramos, 2011).
Mas desde 1950 ocorreu uma grande transformação económica em Portugal que mudou o radicalmente o emprego. A adesão à OECE, EFTA e o aproveitamento dos planos de financiamento internacionais de reconstrução da economia europeia industrializaram o país (Costa et all, 2012). Parte dessa modernização económica, via industrialização, assentou no recurso a mão-de-obra desqualificada que era onerada por baixos salários. Desde então verificou-se um declínio da sociedade tradicional rural (Medeiros, 2006), primeiro com a nova industrialização e depois com terciarização resultante da expansão das atividades de serviços e do próprio Estado Social, também relacionadas com a adesão à CEE e depois com a crescente integração europeia (Costa et all, 2012; Ramos, 2011).
Hoje a tendência para a concentração de população em torno das zonas urbanas (polos metropolitanos do Porto e Lisboa, e cidades médias) de melhor acessibilidade, onde existe mais oferta de equipamentos, bens e serviços, contribuiu para o desenvolvimento e reforço do setor dos serviços (Medeiros, 2006) – que é neste momento o setor que mais população ativa emprega (Pordata, 2013).

Figura 1 – População residente empregada como quadros superiores e profissões intelectuais e científicas, relativamente à população residente empregada, por concelho, em 2001. Fonte: Medeiros (2006)

Por outro lado, as taxas de atividade mais baixas, em oposição às zonas onde a população ativa tem maiores qualificações, situam-se nos concelhos mais envelhecidos e menos urbanos, tal como se demonstra na Figura 1 e 2. 
 
Figura 2 – Taxa de atividade da população por concelho, em 2001. Fonte: Medeiros (2006)

Como seria de esperar, os valores mais elevados de taxa de atividade da população verificam-se nas áreas de maior dinamismo económico, o que significa que nessas zonas os mercados de trabalho são mais ativos em termos de criação de emprego e mais extensivos do ponto de vista das bacias de emprego que geram (Medeiros, 2006).
Figura 3 - Índice de atratividade (total entradas/total emprego). Fonte: Medeiros (2006)
  
 Torna-se evidente (ver figura 3) que as zonas urbanas de mais relevância são aquelas que apresentam também maiores índices de atratividade; expectável uma vez que serão as zonas onde existem mais dinâmicas nos principais setores de empregabilidade: Serviços, de seguida o Secundário a alguma distância, e por último o Primário (Pordata, 2013).
Figura 4 - Índices dominantes casa-trabalho, em 2001. Fonte: Medeiros (2006)
Um outro fator importante para as dinâmicas de emprego das várias regiões é a facilidade das deslocações, a mobilidade e acessibilidade. Na Figura 4 denota-se novamente que os centros urbanos mais populosos, e mais dinâmicos economicamente, são aqueles que apresentam mais capacidade de mobilidade entre “casa e trabalho” (Medeiros, 2006).
Mas não é só a diferença entre urbano e rural que marca as diferenças das dinâmicas de emprego regionais. O contexto cultural tem uma importância imensa (Medeiros, 2006). Um desses exemplos paradigmáticos é o das zonas envolventes ao Grande Porto, em que regionalmente se valoriza mais a entrada cedo no mercado de trabalho, mesmo que com qualificações reduzidas, que a continuidade dos estudos.
Não se poderá caracterizar a estrutura do emprego em Portugal sem abordar também o fator do desemprego. De um modo geral o desemprego atual resulta da restruturação do setor agrícola e das atividades de transformação, tal como de uma indústria que não teve a capacidade de se modernizar, aumentar a produtividade e competir nos mercados internacionais à medida que a economia portuguesa se foi liberalizando (Mederios, 2006; Costa et all, 2012).
Tabela 1 – População total empregada por setor de 1974 a 2012
Fonte: INE, Pordata (2013)

Como se pode confirmar pela tabela 1 e gráfico 1, desde 1974 a percentagem de população ativa no setor industrial tem caído, mas não tanto como no setor agrícola. Depois da época de expansão industrial de1950-1973 (Costa et all, 2012), e da queda do protecionismo do Estado Novo, o setor sofreu um ajustamento gradual rumo à livre concorrência e aumento dos direitos laborais, tendo-se registado uma queda de população empregada de quase 10% do total. 

Figura 5 - Dinâmica do emprego industrial. Fonte: Medeiros (2006)
Apesar da queda, algumas zonas do país mostram-se mais dinâmicas que outras (ver figura 5), especialmente aquelas ligadas a determinados clousters (Medeiros, 2006), que recorrem à especialização/diferenciação, usando tecnologia e recursos humanos qualificados, capazes de competir internacionalmente. Um exemplo disso será a indústria dos Moldes localizada na Marinha Grande e Leiria.

Tabela 2 – População empregada por setor para as NUTSIII e Regiões Autónomas
Fonte: INE, Pordata (2013)


Gráfico 1 – População total empregada por setor de 1974 a 2012 em %
Fonte: INE, Pordata (2013)


Apesar de toda a diversidade regional portuguesa, ao nível do emprego notam-se algumas tendências comuns, mesmo que algumas zonas sejam mais rurais ou urbanas, outras muito mais industrializadas e outras dedicadas ao setor primário, com os serviços empregarem percentagens muito significativas (quase sempre a maior fatia) da população ativa. De 1960 a 2001, tal como se demonstra na tabela 2, com exceção da Grande Lisboa e Grande Porto e de outras zonas pontuais (Serra da Estela; Médio Tejo; Algarve; Baixo Mondego; Entre Douro e Vouga; e Ave), a industrialização cresceu consideravelmente e as atividades Agriculturas perderam muita mão-de-obra. No entanto, o crescimento mais espetacular deu-se no setor dos serviços, num país que em 50 anos deixou de ser maioritariamente Agrícola para se dedicar aos Serviços, sem ter passado por uma economia dominantemente assente no setor industrial (ver gráfico 1).

Referências Bibliográficas
• Amaral, Luciano; 2010. “Economia Portuguesa, as últimas décadas”. Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos.
• Costa, Leonor Freire; Lains, Pedro; Miranda, Susana Munch; 2011. “História Económica de Portugal – 1143-2011”. Lisboa, Esfera dos Livros.
• Estanque, Elísio; 2012. “A Classe Média: Ascensão e Declínio”. Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos.
• Lema, Paula Bordalo; Rebelo, Fernando; 1996. “Geografia de Portugal – Meio Físico e Recursos Naturais”. Lisboa, Universidade Aberta.
• Mattoso, José; 1997. “História de Portugal - vol.IV – O Antigo Regime”. Lisboa, Editorial Estampa.
• Medeiros, Carlos Alberto (Direcção); 2006. “Geografia de Portugal”. Lisboa, Círculo de Leitores.
• Pordata; 2013. “População ativa por atividade económica”. http://www.pordata.pt/, consultado em 15 de Abril de 2013
• Ramos, Rui (Direcção); 2009. “História de Portugal”. Lisboa, Esfera dos Livros.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Portugal - Um País Históricamente Dependente do Exterior

Portugal, atendendo às caraterísticas geográficas não se distingue da vizinha Espanha quando se tenta comparar os dois lados da fronteira (1). No entanto, as fronteiras seguiram, sempre que possível, as linhas de água e cumeada de algumas serras. Tal como Espanha, Portugal vaira nas suas características geográficas de Norte para Sul e do Litoral para o Interior. Talvez por isso se afirme (2;6) que Portugal, enquanto realidade geográfica independente, é uma criação puramente humana. Talvez por isso mesmo se justifique a uniformidade e coesão do território nacional. Ou seja, Portugal nasceu no norte litoral e expandiu-se para sul (3), agregando as novas a diferentes zonas ao longo da reconquista, e posteriormente nas ações de povoamento e dinâmicas internas de ocupação que tentaram desenvolver o território. As várias zonas agregadas contribuíram com determinadas características para um todo nacional interdependente (3). Por exemplo, de um modo resumido: do norte atlântico saíram as grandes massas humanas, a nobreza medieval e a definição da repartição social; do norte interior o sistema municipal e organização concelhia; e do sul a economia urbana com forte relação com a área rural (1). Também as fortes tradições migratórias internas, trabalho sazonal e comércio contribuíram para a homogeneização nacional (6).
Título desconhecido - Amadeo de Souza Cardoso

A tendência dominante de um norte que, através da reconquista se impôs ao sul mas que foi depois por ele influenciado, não são as únicas razões para a coesão nacional. Segundo Orlando Ribeiro (3;6) já existiria uma língua, e talvez culturas comuns, antes da reconquista cristã. A península ibérica, por ser um local de passagem entre continentes, ainda que remoto, conheceu ocupação humana antiga (3). Na faixa ocidental litoral atlântica - sempre a mais remota da península - desenvolveram-se culturas distintas, mas ligadas ao exterior, tanto no paleolítico (os “concheiros”) e no paleolítico (civilização dolmética). Migrações posteriores criaram, na idade do ferro, o desenvolvimento de castros fortificados em altura que dominavam a paisagem. A posterior ocupação romana, integrou os antigos castros e ordenou o território em latifúndios e conventi - surgem muitas das delimitações territoriais, cidades, vias de comunicação que ainda hoje persistem. Terão sido essas delimitações administrativas que contribuíram para a definição das fronteiras do Estado, especialmente porque os Romanos terão também atendido às diferenças étnicas nesses ordenamentos (3). Com as consequentes invasões germânicas, e muçulmanas, grande parte das delimitações persistiram, mudando, em certos casos, apenas quem exercia o poder. A influência muçulmana ocorreu mais na cultura e técnicas que propriamente em mudanças nos limites administrativos.
Com as guerras de reconquista, surgiu a necessidade de repovoar os novos territórios. Desde logo o Estado português criou dependências com o exterior, começando pela própria primeira dinastia, responsável pela independência  que era de origem borgonhesa (4). Tanto a reconquista com o povoamento dependeram do exterior: cruzados estrangeiros ajudaram a tomar as principais praças-fortes do sul; colonos cristãos migraram para os novos territórios; e foram as ordens religiosas que conquistaram os grandes territórios do sul. A dependência para com o exterior continuou, posteriormente, a notar-se na balança de transações. Desde então a produtividade agrícola de Portugal nunca foi suficiente, as terras, apesar do baixo potencial agrícola (1) nunca foram aproveitados em todo o seu potencial, ainda que a esmagadora maioria da população se dedicasse à agricultura. 
O litoral, no final da idade Média e depois com a expansão marítima portuguesa, tendeu a ser a zona mais ocupada. Lisboa foi-se assumindo também como capital e importante cidade Europeia (3), mas sempre em grande dependência, pois era apenas um ponto de passagem do grande comércio que seguia rumo ao norte da Europa  No século XVIII, quando cessaram as remessas de ouro do Brasil e o comércio decresceu, o país tentou desenvolver o território da metrópole, ainda que se tenha continuado a apostar no expansionismo colonialista em África (5).
Importante também foi a recente afirmação de Portugal sobre uma grande zona de domínio económico e político. No entanto, essa pretensão tem assentado mais na herança histórica que no efetivo domínio e controlo dessas águas (2), algo que reforça a sensação da continua incapacidade de tirar o máximo partido do território continental.


Bibliografia

  1. Belo, Duarte; Daveau, Suzanne; Mattoso, José; 2011.”Portugal – O Sabor da Terra. Um retrato histórico e geográfico por regiões”. Lisboa, Temas e Debate.
  2. Daveau, Suzanne; 1998. “Portugal Geográfico”. Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1998.
  3. Lautensach, Hermann; Ribeiro, Orlando. 1989. “Geografia de Portugal - Comentários e atualização de Suzzane Daveau. Lisboa: Edições João Sá da Costa.
  4. Mattoso, José; 1997. “História de Portugal vol.II – Monarquia Feudal”. Lisboa, Editorial Estampa.
  5. Medeiros, Carlos Alberto. 2006. “Primórdios da evolução dos pais. A expansão marítima e os seus reflexos”. Geográfica de Portugal. Revista Portuguesa de Geografia.
  6. Ribeiro, Orlando; 2011. “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”. Lisboa, Letra livre.

sábado, 27 de outubro de 2012

Investir na Bolsa – A Ilusão da Superioridade Individual Perante o Mercado


Por vezes é, mesmo, preciso ler uma ideia escrita para depois essa mesma ideia, desconhecida e encoberta até então, se tornar evidente e clara. Um livro, como haverá muitos mais, onde se divulga um infindável rol de ideias é o “Pensar, Depressa e Devagar”, de Daniel Kahneman, psicólogo vencedor do prémio Nobel da Economia. A obra é um verdadeiro marco – grande em todos os sentidos, pois consta com mais de 500 páginas -, um compêndio de exemplos e explicações sobre economia comportamental, segundo a visão da psicologia social.

Os Amantes - Magritte
Uma das ideias fortes do livro, com vários estudos a demonstraram, defende que, em muitos casos, para situações de incerteza considerável, não há especialista e informação que valha: normalmente a sorte é quem desempenha o principal papel. Esta posição é polémica, mesmo entre a comunidade científica. No fundo, o autor tentar alertar para os constantes enviesamentos e erros de perceção na tomada de decisão, mesmo entre os mais sabedores e experientes, considerando que isso é próprio do modo como funciona o pensamento humano (ou cognições) - podendo ser dividido um conjunto de dois sistemas, um mais imediato e simples (mas potencialmente erróneo), e outro mais aprofundado e moroso (mas altamente consumidor de "energia").
O caso dos investimentos em bolsa é um dos exemplos trazidos pelo autor para demonstrar como, por vezes, os especialistas tomam decisões, supostamente sustentadas, mas com resultados completamente aleatórios, sem o admitirem (sem admitirem enviesamentos). O autor vai mais longe: acaba por, com as suas palavras, nos fazer refletir sobre a própria condição humana. Kahneman leva-nos a refletir e questionar sobre: o que leva os corretores e investidores, tendencialmente em pé de igualdade entre pares, a pensarem que sabem mais que os restantes negociadores em bolsa? Quando alguém vende assume que a ação irá descer, esperando que o comprador pense o contrário; e quem compra assume e segue pelo caminho exatamente oposto, esperando o contrário do vendedor. Entre amadores e curiosos que se aventuram na bolsa seria de esperar que façam erros de investimento, mas o mesmo não será  aceitável para especialistas, pelo menos em condições "normais". Podemos até lembrar um dos princípios da teoria económica clássica, de onde se conjetura que os mercados e os atores económicos são racionais nas suas escolhas – supostamente, é claro. Então não seria racional admitir que, estando nas mesmas condições - de um modo aproximado é claro -, os nossos semelhantes e concorrentes saberiam o mesmo que nós? Não seria essa posição, no mínimo, um sinal de humildade? Supostamente, a eficiência dos mercados levaria que a margem dos preços fosse mínima, pois quem vende falo-ia pelo valor justo e no sentido da compra o mesmo aconteceria. Mas, como comprova Kahneman, as decisões humanas, mesmo as económicos, são, por vezes, muito pouco racionais.
Na sua suposta arrogância intelectual, o filósofo Sócrates só poderia rir  enquanto, hipoteticamente, diria algo do género: só sei que nada seimas saberão eles que sabem muito menos do que pensam, sabendo todos o mesmo, e equilibrando-se enquanto grupo assim?
Sempre fomos condicionados pela nossa soberba, pelos mercados e pelas decisões, e parece que iremos continuar a ser, com ilusões de sabedoria altamente enviesadas. Os resultados estão à mostra, ou talvez não, pois estas palavras podem ser apenas ser mais um enviesamento de perceção e análise.

Referências bibliográficas:
Kahneman, Daniel. "Pensar, Depressa e Devagar". Temas e Debates, 2011.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Produtividade – Provavelmente o Maior Défice da Economia Portuguesa

O grande problema da economia portuguesa é a falta de produtividade. Recorrendo ao glossário da obra onde baseou parte substancial deste texto, Produtividade (ou PIB por trabalhador-hora): corresponde à quantidade de bens e serviços produzida num país dividida pelo conjunto de empregados e pelas horas por si trabalhadas. 
Na obra “Economia Portuguesa, as últimas décadas” Luciano Amaral faz um síntese sobre a história da economia portuguesa desde os anos 60 do século XX até ao ano de 2010 – de notar que Portugal na altura ainda não estava sob resgate financeiro da troika, embora a obra em nada fique desatualizada por isso. Para Luciano Amaral o problema central é a produtividade, baseando essa constatação na análise histórica económica
A Sesta - José Malhoa
O autor não teme polémicas, e assume-as com frontalidade – a sua visão sobre o Estado Novo é potencialmente polémica. Defende que entre os anos 60 e 74, do século passado, ocorreu o período de ouro da economia portuguesa. Isto porque a produtividade nesses anos foi crescente, superior ao crescimento dos salários/custos do trabalho, e serviu para aproximar a economia portuguesa dos países desenvolvidos. Segundo o autor existia na época disponibilidade de financiamento para a economia, devidamente auxiliada pelo próprio controlo que o Estado exercia com a Moeda e sobre um mercado interno e de exportação devidamente controlado. Não eram de diminuir também as remessas provenientes dos emigrantes que contribuíam para uma maior disponibilidade da moeda, uma maior liquidez da banca nacional. O corporativismo e o controlo Estatal, conjuntamente com horários de trabalho intermináveis, poucos ou nenhuns direitos laborais – de notar que não existia salário mínimo, poucas ou nenhumas férias e sequer nem subsídio de desemprego efetivo -, ajudam em muito a gestão empresarial. A mão-de-obra era dócil e em grande quantidade. Assim, parece que não seria muito difícil que a economia crescesse, pois isso era feito à custa do próprio trabalhador, de uma série de restrições e sujeições que nem sempre contribuíam para a melhoria da qualidade de vida da população. Aqui se prova que nem sempre há uma relação direta entre crescimento económico e crescimento da qualidade de vida, pelo menos na mesma quantidade/qualidade. Há que lembrar que, por exemplo, se a dívida pública era baixa isso se devia ao pouco investimento, comparativamente com o atual, que o Estado fazia em Saúde, Prestações Sociais e Educação, entre muitas outras.
Mas porque não temos maior ou mais produtividade? Será por lacunas ao nível humano, especialmente da especialização/educação/formação e da rigidez do mercado de trabalho português? Segundo Luciano Amaral a razão principal pode não ser nenhuma dessas, embora as admita parcialmente. Isto porque Portugal flexibilizou muito o seu mercado de trabalho, ao nível dos restantes parceiros económicos, e porque os investimentos em educação têm sido imensos, dos maiores a nível europeu. Mas como sabemos, analisar sistemas complexos, ainda para mais de sociedades complexas com infindáveis relações endógenas e exógenas, é difícil estabelecer absolutos, com causas e efeitos estanques. No entanto, as constatações e sugestões do autor devem-nos fazer refletir.
Na obra é apresentada uma outra possível razão para a falta de produtividade nacional, uma para além das que habitualmente nos são apresentadas nos meios não especializados. Essa razão será a baixa intensidade capitalística em comparação com os outros países desenvolvidos. Separa-nos dos países mais desenvolvidos muito mais a diferença entre capital físico que o capital humano. Isto pode querer dizer várias coisas: que a nossa quantidade/qualidade tecnológica (equipamentos, maquinaria, etc.) disponível, tendo em conta as horas que trabalhamos, é baixa; e/ou a produtividade do capital em Portugal é baixa. Então, a nossa baixa produtividade, pelo menos não tão alta como seria suficiente para que a economia possa suportar uma qualidade de vida generalizada mais sustentável - sem défices e endividamentos, quer públicos quer privados –, pode depender muito mais da fraca rendibilidade do próprio capital que da mão-de-obra. Provavelmente é por isso que no estrangeiro os trabalhadores portugueses são dos mais produtivos. Aqui pode-se dizer que se sentem também os efeitos do modo como se organiza o trabalho em Portugal, de como se faz a gestão de recursos e da própria produção, podendo-se estabelecer uma relação com falta de formação e especialização – teoria que talvez Luciano Amaral não subscreva. Um dado importante, e relacionado com a baixa produtividade capitalística – algo que sugeri ao autor na apresentação do Livro em Leiria –, são os hábitos de investimentos que se fazem em Portugal. Podemos constatar que uma parte significativa do investimento (e dos própios emprestimos da banca a particulares), pelo menos o do pequeno investidor, se aplica no setor imobiliário, com rendibilidades muito diferentes e inferiores  ao que se poderia obter no setor da industria e dos bens transacionáveis (ver texto do blogue “Especulação Imobiliária - um mau investimento“), mas de aparente menor risco e com ganhos (aparentes) mais imediatos (especialmente se se associarem à especulação imobiliária).
Voltando à definição de produtividade: se trabalhamos horas a fio com pouca tecnologia seguramente que seremos pouco produtivo; se repetirmos processos redundantes, por falta de organização, seguramente que seremos pouco produtivos; se alongarmos horários de trabalho só para parecer que trabalhamos mais, seguramente que seremos pouco produtivos; se não investirmos o capital acumulado em projetos de valor acrescentado, seguramente que seremos pouco produtivos; se a mão-de-obra não estiver motivada seguramente seremos pouco produtivos... A lista poderia continuar até se acabarem os carateres...
O tema, por ser muito complexo, por se relacionar com o momento presente, por ser pluridisciplinar, poderia só por si encher todos os textos deste blogue. No entanto, fica aqui uma abordagem superficial, ainda que já muito longa, ao tema da fraca produtividade da economia nacional.

Referências Bibliográficas
Amaral, Luciano. "Economia Portuguesa, as últimas décadas". Lisboa, FFMS: 2010.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Especulação Imobiliária - um mau investimento

  Num artigo (1) do jornal Le Monde Diplomatique, Pedro Bingre do Amaral, trata o assunto do descontrolo do sector imobiliário e dos efeitos da bolha especulativa imobiliária nacional. Muitos foram já os escritos sobre a especulação imobiliária, mas este artigo vai mais longe, nele o autor acaba por retratar também os hábitos e tendências económicas de investimento nacionais, apontando algumas razões para a debilidade da economia portuguesa e sua relação – causa efeito - com o sector imobiliário nacional, e também com a política de gestão de solos e ordenamento do território.

Corvos voando sobre Seara de trigo - Van Gogh
  Apesar dos axiomas do liberalismo económico apontarem para a defesa do mercado livre, sem regulamentação estatal, alguns dos ideólogos - e verdadeiros paladinos - dessas mesmas teorias (Stuart Mill e David Ricardo), tal como cita Pedro Bingre Amaral, advertiam que: “numa economia demasiado leve na tributação do património e mal regulada em termos de mercados de solo (agrícola ou urbanizável) existe uma tendência irreversível para a maioria dos ganhos de produtividade – de crescimento da riqueza – ser apropriada por rentistas e especuladores imobiliários, espoliando-se toda a sociedade para pagar o oportunismo de um ínfimo número acaparadores de imóveis”. Ou seja, sem regulação e controlo alguns indivíduos beneficiam de ganhos sem que, pelo valor direto ou indireto da transação (ou até valor acrescentado), tragam valor à sociedade em que se inserem e que se relaciona com os solos em causa. Ainda mais pernicioso que isso, tal como refere o autor, é o crescimento económico com base na especulação imobiliária que prejudica tanto a economia nacional como a vida do cidadão comum, os efeitos são micro e macro económicos. Aprofundando mais essa questão, as pessoas que contraem dívida para adquirir os bens inflacionados acabam por perder os ilusórios ganhos de poder de compra associados ao natural e espectável crescimento dos salários, pois estão a comprar algo inflacionado e longe do valor real do bem não inflacionado. Em suma, em vez das famílias prosperarem economicamente a tendência pode ser efetivamente o contrário devido à especulação imobiliária, podendo-se atingir a catástrofe se a bolha especulativa efetivamente rebentar e ficar evidente que se pagou e continuará a pagar algo que não vale o que se supunha. Em parte foi isto que aconteceu nos EUA – a crise do subprime - e a razão do início da crise de 2008 que alastrou por contaminação ao mundo. Mas por cá a nossa economia sofre também, ainda que doutro modo, de uma muito própria especulação e descontrolo imobiliário.
  O caso do imobiliário nacional é paradigmático. Com 12% dos imóveis vazios, valor que pode atingir os 25% se se considerarem as habitações de segunda residência, como explicar o contínuo contrair de crédito para continuar a investir no imobiliário? Como explicar que, em Portugal, uma das primeiras opções, apesar da quantidade de casa vazias, seja optar pelo endividamento para construir ou comprar novo, vendo essa opção como um bom investimento, proveitoso e de rentabilidade garantida para o futuro? Provavelmente, de um modo simplista, a resposta para isso é: a instalada ilusão especulativa imobiliária. Tal como refere o autor do artigo que sustenta este texto, como explicar que o preço do m2 de uma construção de habitação em zona rural de Portugal seja cerca de 1200€ enquanto que no perímetro urbano de Berlim, com salários que facilmente triplicam os nossos, os valores rondem os 1400€? As respostas são várias, entre elas ficam algumas bem evidentes: as falhas de planeamento, controlo e ordenamento do território que deixaram terreno livre para a criação de uma bolha especulatória imobiliária e desordenamento do território (e da utilização dos próprios solos) alargados a todo o território nacional.
  Outro aspeto caricato da nossa nacionalidade, já também referido, é a tendência de investimento. É usual, quando um cidadão português pensa em investimento, considerar logo, como umas das primeiras opções, em adquirir imobiliário para legar à família ou para esperar a sua valorização para posterior venda. Mas de onde vem então essa suposta valorização? A resposta é, salvo algumas exceções – valor artístico, de autor, ou outros do imóvel -, a especulação. Pois, se pensarmos, um imóvel por si só nada, pior ainda quando muito deles estão vazios (25% na pior das hipóteses), nada acrescenta ou produz de valor. Esta afirmação pode ser contestada, dizendo por exemplo que uma habitação traz valor acrescentado por criar mais habitabilidade. Certo, mas se ninguém necessitar dessa suposta mais-valia o imóvel de pouco serve, logo pouco vale.
  Os investimentos dos portugueses tendem muito para o sector imobiliário, dai talvez a razão para a qual o investimento em Portugal, estatisticamente, ser pouco rentável (2) comparado com outros países. Isto pode ser apenas mais uma especulação, mas que será de Portugal quando e se a bolha da especulação imobiliária, ainda que de dimensões não comparáveis à dos EUA, verdadeiramente rebentar e muito do valor investido revelar ser uma mera ilusão? Pior será quando se demonstrar que esse investimento foi, ainda por cima, urbanisticamente desordenado causando insustentabilidade urbana (3)(4). Preocupante será também o excesso de peso do sector da construção civil na economia portuguesa, sector que com a contração na construção contrai diretamente a própria economia.
  Esperemos que o choque possa ser evitado: que todas as habitações vazias possam ser habitadas, que seja evitado o recurso excessivo ao crédito e se recorra mais ao arrendamento (com regras adequadas), e claro, que se regule o sector imobiliário (e se faça efetivo ordenamento dos solos e do território) de modo a que a especulação seja uma área de investimento insustentável.

Referências Bibliográficas:
1 – "Neoliberalismo, um álibi da especulação imobiliária". Pedro Bingre do Amaral. Nº43 da edição portuguesa do jornal Le Monde Diplomatique de Maio de 2010.
2 – “Economia Portuguesa – as últimas décadas”. Luciano Amaral. Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010
3 – “Transportes urbanos e habitação - uma relação indissociável de custos”. Texto do blogue “A Busca pela Sabedoria”, disponível em:
http://abuscapelasabedoria.blogspot.com/2011/05/transportes-urbanos-e-habitacao-uma.html
4 – “As disfuncionalidades urbanas das "Cidades Médias". Texto do blogue “A Busca pela Sabedoria”, disponível em: http://abuscapelasabedoria.blogspot.com/2011/01/as-disfuncionalidades-urbanas-das.html

domingo, 11 de dezembro de 2011

Filme “Sem tempo” – onde literalmente o tempo é dinheiro

Assim que vi o trailer do filme “Sem tempo” (ou “in time” no original) fiquei logo de curiosidade aguçada, pois, pelo que demonstravam as imagens, estava-se perante uma ficção social que, a ser bem feita, poderia ser uma experiência cinematográfica muito interessante – daquelas que nos fazem refletir durante e após o fim do filme.

Analisando o filme pelo desempenho dos atores, pela fotografia, guarda-roupa, encadeamento da acção e afins, mesmo com alguns apontamentos bastante interessantes, nada sobressai espetacularmente. Na sequência da ação e do drama até diria que existem algumas partes desconexas. Falta alguma coerência e ligação entre os vários momentos do filme para dar mais coerência a esta ficção. Apesar disso, ultimamente Justin Timberlake começa a esboçar contornos de um artista à moda antiga, um quase humanista que toca várias artes.
Mas agora aquilo que me fez gastar um “post” aqui no blogue com este filme. A ficção social, a sociedade criada para dar o ambiente social ao filme é das mais originais que se têm visto no cinema para o grande público nos últimos anos. Os autores conseguiram, sem recursos a grandes efeitos especiais ou tecnologia, recriar uma sociedade completamente diferente, num futuro desconhecido e estranho, mas que muito nos faz refletir sobre o mundo de hoje e até sobre a intemporal condição humana. Numa altura em que o jargão “crise económica” está na ordem do dia, este filme apresenta um futuro sem dinheiro, onde o tempo é, literalmente, o dinheiro. O que é delicioso - embora "agridoce" -nesta obra é a forma como foi reinventada a noção de tempo e a sua influência nas vidas e sociedades Humanas.
Para melhor enquadramento, sem com isso querer estragar a história e o prazer de assistir a este filme, é adequado fazer aqui uma pequena referência a essa sociedade ficcional criada. Imagine-se – tal como imaginaram os autores – uma sociedade onde toda a humanidade tinha sido geneticamente modificada para parar de envelhecer aos 25 anos de idade, ou seja, todos teriam acesso à imortalidade com o aspeto e vitalidade dos 25. No entanto, a partir dos 25 um relógio biológico introduzido com a alteração genética inicia uma contagem decrescente que marca o fim da dita imortalidade. Ou seja, a imortalidade tinha data marcada, com um tempo a esgotar-se constantemente. Mas esse tempo poderia ser aumentado ou diminuído por transferências. É ai que entra o dinheiro, com o tempo de cada a um a transformar-se no seu dinheiro, isto num vínculo muito pessoal do qual dependia a sua própria vida. Então neste novo mundo o tempo ganha uma nova dimensão comercial. Para viver mais seria preciso ganhar tempo, trabalhando, fazendo comércio e afins, ou simplesmente roubando. Tudo se pagava e comprava com o tempo que cada um transportava consigo no seu “relógio”. Quando o tempo se esgotasse, no relógio de cada, um simplesmente o fim chegava, vinha uma morte inevitável programada geneticamente. Assim, viviam somente – pelo menos em teoria – os que faziam por merecer

Dá então para imaginar quais as consequências desta ficcional da oportunidade de poder ser imortal. Mas seira este modelo justo, quem viveria mais tempo ou mesmo atingisse a imortalidade era quem merecia de facto? No filme fica evidente que isso estava reservado penas aos mais ricos (em tempo). A própria posse do tempo influenciava o modo como o seu portador o via e dependia: “para quê correr quanto temos todo o tempo do mundo”. Os pobres, por outro lado, passavam a vida a correr tentando aproveitar todos os minutos e segundos de uma vida insegura e incerta – apesar do seu aspeto exterior. O paralelismo com a vida de hoje é evidente: as classes mais desfavorecidas trabalham para viver cada dia, enquanto que as mais privilegiadas criam novas necessidades e ocupações para gastar o seu tempo.

A condição humana – ainda que isso seja uma coisa difícil de definir – é tão colocada em causa no filme que as reflexões que dele podemos retirar são imensas. O facto de ninguém envelhecer para além dos 25 anos acabava com as diversidades etárias sociais: todos tinham a mesma aparência, independentemente da experiência de vida que tinham. Não havia distinção de aspeto etário entre pais, filhos e avós; todos se assemelhavam se conseguissem continuar a ter tempo de vida. Seria suportável viver numa sociedade destas? Apesar dessa possibilidade - ainda que apenas muito ténue na atualidade -, hoje muitos tentam evitar a sua idade, apesar de todas implicações e relações sociais que dai dependem e resultam.

No próprio filme é referido, por uma das personagens com mais tempo da “alta finança do tempo”, que esta sua sociedade “assentava nos princípios do evolucionismo darwinista capitalista, pela sobrevivência dos mais fortes e aptos”, daqueles que tinham mais tempo. Apesar de tudo, se calhar, viver para sempre, ser jovem para sempre, ainda por cima quando isso não está ao alcance de todos, pode não ser assim tão bom e lá grande evolução

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O que é mais seguro: o transporte colectivo ou o individual?

Provavelmente - digo eu especulando - o senso comum diz-nos que é mais seguro viajar num automóvel ligeiro do que num transporte público, mas parece que estatisticamente, e na maior parte dos casos, não é bem assim. Segundo Daniel Murta*, "os riscos no transporte público são sub-avaliados pelos utentes, enquanto os do transporte público são sobre-avaliados pelos próprios e pela sociedade (por comparação com os primeiros)". Esta noção deve-se a dois factores segundo o autor: a falsa sensação de segurança quando se está ao controlo de uma viatura - no caso do automóvel ligeiro; e, fobias e medos, não comprovados estatisticamente, associados à morte colectiva - no caso do transporte colectivo.
Remadores no Chatou - Renoir
Para esta sensação errónea de segurança contribui também  o efeito de tragédia colectiva, muitas vezes explorado e amplificado pela comunicação social e até pelo cinema. Quantos não são os casos mediáticos de acidentes onde a contabilização de vítimas choca e causa medo, quando no fundo muitos mais são os sinistros nos transporte individual. 
Outro aspecto, este muito mais economicista, que tende a tornar os transportes colectivos mais seguros que os individuais, são as questões relacionadas com os seguros e indemnizações. No transporte colectivo, em caso de acidente, o valor das indemnizações atingiria montantes imensos por se tratarem de muitas pessoas, obrigando isso a que os construtores e operadores cuidem muito mais da segurança - ainda que pelas razões menos correctas. Por outro lado, no transporte individual, os custos e riscos são suportados apenas pelo próprio condutor, quanto muito pelo fabricante de automóvel também.
Assim, a segurança rodoviária pode ser uma questão económica, mais do que preocupação pela vida humana. Mas que dizer quando se comprova que são os próprios indivíduos que descuidam a sua segurança ao assumirem que, por serem eles próprios os condutores, circulam muito mais seguros. Não pensarão isso todos os condutores? Provavelmente sim, e provavelmente continuarão a pensar, a não ser que, como no caso dos transportes colectivos, a economia faça o seu papel de promotora "segurança".

Fontes Bibliográficas:
* Murta, Daniel. "Quilómetros, Euros e pouca terra - Manual de Economia dos Transportes". Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010.

sábado, 22 de outubro de 2011

País ou Estado mais pequeno do mundo?

Numa recente conversa à mesa, discutia-se entre amigos qual o país mais pequeno do mundo. A discussão começou por centrar-me mais naquilo que distinguia um País de um Estado. Nem sempre a distinção entre estes dois conceitos é óbvia – os pratos e talheres foram nossas testemunhas -, pois o termo País pode ser utilizado para nomear um Estado ou outra Entidade Política – por exemplo federação de Estados. De um modo simplista e pragmático, País e Estado podem ser consideramos a mesma coisa, se assim forem considerados por outros países e estados - o risco de paradoxo aqui é evidente, pois caso ninguém reconhecesse outrem não existiriam Países ou Estados. Confuso (1)(2)! 
Para ser mais simples ainda, apesar dos termos poderem significar a mesma coisa, um Estado relaciona-se mais com o governo e o país com o espaço territorial (3), ou seja, Estado com a dimensão política e País com a geográfica (4). Apesar desta distinção, política e geografia aparecem muitas vezes relacionadas uma com a outra: a política (no sentido da organização e gestão de sociedades humanas) relaciona-se ou acontece para ou numa determinada geografia e a ocupação humana e exploração dos recursos partem sempre de um tipo de política, por mais simples que seja.
Estas simples explicações, ou até talvez mesmo ingénuas, servem para a introdução àquele que é o propósito deste texto: Estado ou País mais pequeno do mundo. O Estado ou país – neste caso discutível para alguns - oficial mais pequeno do mundo será o Vaticano. Mas existe um, ainda que não sendo reconhecido por outros Estados ou países, que consegue ser ainda mais pequeno que o Estado Pontífice; falo de Sealand.
Sealand situa-se no Mar do Norte mas não é uma ilha, nem sequer tem terra, rochas ou areias. Sealand é uma plataforma militar marítima construída durante a 2º Guerra Mundial como posto avançado para prever e prevenir os ataques alemães, tendo sido no final da guerra utilizada como apoio ao ataque continental do Aliados às forças nazis que ocupavam a Europa continental (5)(6). Mas é depois da guerra, e de ser abandonada pelos ingleses, que a história desta antiga plataforma – intitulada até 1966 de Rough Towers - ganha contornos de excentricidade, um tanto ou quanto burlesca.
Em 1967 a estrutura é ocupada por Roy Bates, alguns familiares e amigos. Baytes autonomeou-se príncipe, constituindo assim o principado de Seland. Desde então começou a emitir passaportes e selos de correio, criou uma constituição, um hino e uma bandeira, tendo até cunhado dólares de ouro e prata (5)(6). Esta bizarria só foi possível de manter por a plataforma hoje estar fora das águas territoriais inglesas, a umas meras 3 milhas.
Mais haverá para contar sobre sealand, mais casos caricatos: chegou a ter um golpe de estado - encetado por um alemão - e de um terrível incêndio. Até a crise financeira passou por Sealand, com o príncipe herdeiro disposto a vender o seu principado (5).
Mesmo com todos os esforços dos seus governantes, Sealand não é considerado um país ou Estado de facto, pois nenhum outro o reconheceu como tal.

Referências e Notas:
(1) http://pt.wikipedia.org/wiki/Estado
(2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Pa%C3%ADs
(3) Definição de Estado: Nação organizada politicamente. Fonte: Infopédia, disponível em http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/Estado
(4) Definição de País: - espaço demarcado por fronteiras geográficas e dotado de soberania própria; estado; nação. Fonte Infopédia, disponível em http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/Pa%C3%ADs
(5) http://pt.wikipedia.org/wiki/Sealand
(6) http://www.sealandgov.org/

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