segunda-feira, 10 de julho de 2017

Quando um jogo de tabuleiro contribui para um projeto colaborativo sobre metabolismo urbano: Urbanwins e Dixit


Penso que já todos ouvimos e lemos muitas referências ao uso de jogos de tabuleiro modernos em contextos não lúdicos, até em empresas, aplicados a dinâmicas orientadas para as suas necessidades e atividades. Este texto não aborda essas imensas possibilidades, mas apenas um caso muito concreto de aplicação real em Leiria.


A propósito de um projeto da União Europeia, que está a decorrer em Leiria, chamado UrbanWins, surgiu a necessidade de animar as sessões colaborativas públicas locais. Do guião e indicações de orientação constava a necessidade de criar algum tipo de atividade para fazer “desbloquear” os participantes.

As sessões de trabalho públicas cooperativas do projeto UrbanWins pretendiam envolver vários cidadãos locais, técnicos e não técnicos. Os participantes que se inscrevessem nas sessões de trabalho destinadas a abordar o tema do metabolismo urbano, dos resíduos e demais assuntos relacionados, seriam alocados a várias mesas de trabalho. Nelas iriam encontrar, seguramente, muitos desconhecidos. Havia necessidade de desbloquear e incentivar as pessoas a falarem um pouco de si e do tema em causa, antes de partir para a metodologia colaborativa propriamente dita do projeto.

Foi para este momento de preparação e desbloqueamento que surgiu a ideia de utilizar cartas do jogo Dixit. À entrada do espaço em se realizou o evento, depois de cada participante receber, de forma alectória, indicação da mesa em que se iria sentar, havia um painel disposto com várias cartas do Dixit Odissey. Cada participante foi convidado a escolher uma carta do seu agrado, sem qualquer sugestão ou outra orientação.

Depois de todos os participantes estarem devidamente sentados o condutor da sessão pediu para que cada pessoa se apresentasse e explicasse se havia alguma relação entre o tema a tratar e a carta que cada um havia escolhido. De notar que os participantes não sabiam o intuito da escolha da carta.

De um modo geral, quase todos os participantes disseram que escolheram a carta de forma aleatória, mas de imediato conseguiram fazer uma leitura e análise da sua escolha, encontrando uma justificação de cariz ambiental para a sua opção subjetiva e supostamente aleatória. Afinal as escolhas não tinham sido assim tanto ao acaso. Afinal havia sempre uma relação, mesmo que inconsciente, com o tema a tratar. As cartas, com os seus desenhos surrealistas, permitiram explorar a subjetividade de cada participante e iniciar o processo criativo que se queria depois potenciar posteriormente na sessão propriamente dita do Urbanwins, direcionada para os temas do metabolismo urbano e ambiente urbano.
Nota: para conhecer as atividades que se realizam em Leiria envolvendo jogos de tabuleiro modernos basta seguir a página do Clube de Boardgamers de Leiria.
#urbanwins #dixit #boardgamersleiria

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Como o Urbanismo Linear salvou Estalinegrado dos Nazis

O desenho urbano das cidades tem um efeito marcante nas sociedades urbanas, que vai além da funcionalidade, vivência e atividades urbanas nelas desenvolvidas. Um desses casos é o da antiga cidade de Estalinegrado, atual Volgogrado.

A cidade passou a ostentar o nome de Estalinegrado a partir de 1925, em plena implementação do comunismo no antigo império russo. Como cidade que detinha o nome do líder, Estaline não pode deixar de dedicar recursos e esforços para o seu crescimento e enriquecimento, tal como a sua defesa durante a 2.ª Guerra Mundial.

Desenhos originais de Arturo Soria y Mata (1882)
Fonte: https://web.archive.org/web/20140604075645/http://www.alu.ua.es/a/arg18/Web/arturo_soria.html
Os urbanistas soviéticos tentaram implementar novos princípios urbanistas que pudessem materializar a ideologia comunista. Intervieram em várias cidades, incluindo Estalinegrado, onde implementaram o modelo de cidade linear, criado no final do século XIX por Arturo Soria y Mata, mas depois desenvolvido por M. Okhitovich and M. Ginsburg já com intenções políticas e ideológicas, apelidadas de desurbanismo por diluírem ainda mais a cidade no campo. Embora em Estalinegrado esse modelo não tenha sido tão evidente como em Magnitogorsk, a influência dessa nova visão do urbanismo soviético teve os seus efeitos na cidade. No fundo isso resultou de expansões de novas zonas urbanas de forma linear ao longo de grandes vias que se conectavam entre si. Este modelo acentuava a igualdade entre as várias zonas urbanas, pois diluía o princípio clássico de um centro urbano em que se concentravam as principais funções nevrálgicas, com diferentes graus de hierarquia e importância e múltiplos centros organizadores do espaço urbano.
 
Plano Geral de Magnitogorsk por Ernst May (1931)
Fonte: https://thecharnelhouse.org/2010/10/01/ernst-may-%E2%80%9Ccity-building-in-the-ussr%E2%80%9D-1931/
 
Apesar do conceito de cidade linear hoje ser insustentável há que relembrar que estes modelos foram desenvolvidos antes da massificação do uso do automóvel individual, partindo do princípio em que as vias lineares que definiam a forma linear urbana seriam servidas por comboios.

Aquando da invasão Nazi durante a 2.ª Guerra Mundial Estalinegrado foi atacada e cercada, sendo uma cidade chave importante para a estratégia alemã de acesso aos campos petrolíferos da zona do Cáucaso e do Mar Cáspio, numa zona de atravessamento do grande rio Volga. Importava também o objetivo simbólico destruidor da moral inimiga caso conquistassem a cidade que ostentava o nome do líder comunista.
 
Cidade estrada de Edgar Chamberless (1910)
fonte: http://arqui-2.blogspot.pt/2015/02/la-influencia-de-la-ciudad-lineal-de.html
 
Por razões de uma anormal dureza do inverno russo, pela disposição da cidade ao longo do rio Volga, pelo sacrifício inacreditável de vidas humanas dos defensores, mas também pelo seu urbanismo linear, em que na prática não existia apenas um único centro para dominar e conquistar, os nazis nunca conseguiram conquistar totalmente a cidade, perdendo depois de muito esforço a batalha de Estalinegrado e ditando o desfecho da 2.ª Guerra Mundial.
 
Algumas referências bibliográficas:
CHUECA GOITIA, Fernando. Breve História do Urbanismo. Editorial Presença, 1996.
GILBERT, Martim. A Segunda Guerra Mundial. Dom Quixote, 2009.
MUMFORD, Lewis. A Cidade na História. Martins Fontes, 1998.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa