sexta-feira, 17 de março de 2017

Utopias – Os primeiros textos utópicos e a moralização das sociedades

Uma utopia pode ser definida como uma construção intelectual de sociedade ideal. Trata-se de uma sociedade impossível pois existe apenas na esfera das ideias, quase sempre falhando na sua possibilidade de concretização pela esmagadora complexidade das sociedades e dos indivíduos. É essa complexidade que se simplifica habitualmente nos postulados de construção das ideias utópicas. Talvez assim seja porque as sociedades não são inventadas num acto isolado e súbito de criação, mas por surgirem de processos complexos e morosos que se ligam à própria história dos grupos humanos.

Não faltaram propostas de utopias ao longo da história do pensamento ocidental. De notar que as utopias eram sempre definidas como alternativas ideais às sociedades existentes na época em que os criadores utópicos as definiam. Podemos até questionar se a ideia dos utópicos era realmente implementar as suas utopias ou apenas alertar para a necessidade de correcções de comportamento, de organização, de atitudes e valores nas suas próprias sociedades.


A Parábola dos Cegos - Pieter Bruegel "o velho"

Destaca-se a proposta filosófica de Platão na sua “República”, datada do século IV a.C., onde propunha uma sociedade aristocrática em que os líderes, chamados de “guardiães”, lideravam a comunidade pelas suas características pessoais, não por heranças, riqueza ou outras formas de diferenciação. De notar que para Platão o objectivo máximo da existência e o sentido da vida era a concretização do Bem. Estes guardiões saberiam com certeza como garantir, pois era mos mais sábios, justos e capazes de governar para o bem. Daí a noção de que as sociedades deveriam ser governadas por filósofos ou que os reis se tornassem eles próprios filósofos. Curiosamente isto vai ser ensaiado na europa do século XVII e XVIII com os “déspotas esclarecidos”, mais de 2.000 anos depois.

Saltando uns séculos, Thomas More escreveu, no início século XVI, a sua “Utopia”. Nesse livro reinventava a sociedade inglesa. Na sua utopia, a sociedade organizava-se em pirâmide, assente sobre o direito electivo familiar. As eleições seriam livres, sem candidaturas e lutas conflituosas. As leis seriam simples e todos os membros desta utopia teriam formação avançada em direito: todos seriam doutores em direito. Defendia que quanto menos leis mas natural, justa e racional seria a sociedade. Todos tinham de trabalhar. De notar que o termo escolhido pelo autor, a “utopia”, tem origens no grego, significando “nenhum lugar”, o que indicia que o objetivo dessa obra fosse o impacto de consciencialização moral mais que uma tentativa real de implementar a solução prescrita.

No século XVII Tommaso Campanella escreveu a “Cidade do Sol” em que defende um modelo de sociedade ideal de inspiração neoplatónica. O Estado era liderado pelo príncipe-sacerdote “Sol”. O monarca Sol era ajudado pela “potência”, “sapiência” e “amor”. Toda a sociedade era profundamente organizada pela razão. A propriedade privada era abolida, tudo era comunitário. Valorizava-se, acima de tudo, a cultura, ciência e educação.

Estas foram apenas algumas das primeiras utopias, algumas das mais conhecidas e que se associam a obras completas publicadas. Muitas outras surgiriam depois, especialmente no século XIX com os movimentos socialistas e anarquistas. Mas isso fica para outro texto. De notar que estas utopias aqui referidas foram muito radicais na sua época, o que levou a perseguições a Campanella e à condenação à morte de Thomas More, embora motivada por outras razões políticas e religiosas, nomeadamente pela sua recusa em aceitar a política matrimonial e religiosa de Henrique VIII. Já de Platão não consta qualquer perseguição, uma vez que era um aristocrata e que a sua cidade de Atenas na altura era uma democracia, apesar dessar mesma sociedade ter condenado Sócrates à morte por este contaminar o espírito da juventude ateniense com as suas ideias e questões.

Referências bibliográficas:
Campanella, Tomás (2006) - Cidade do Sol. Guimarães Editores.
Fernandes, António José (2015) – Introdução à Ciência Política – Teorias, métodos e Temáticas. Porto Editora.
Morus, Tomás (2009) – Utopia. Guimarães Editores.
Platão (2005) – República – ou Politeia. Guimarães Editores.

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