sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Afastamento entre ciências naturais/exatas e ciências sociais - O fator histórico

Pegando num livro, quase por acaso, dedicado a cosmologia, centrado no tempo e em explicações com base num universo entrópico e ligado aos sistemas irreversíveis, próprios da termodinâmica, encontro algo que ensaia uma explicação simples para a diferença entre ciências sociais e naturais. Aliás, essa referência vai mais longe, e serve para explicar o afastamento entre disciplinas e até as apetências e gostos que podemos (ou nos fazem) ter por determinados assuntos.

Os Amantes - Magritte

O livro em causa é o “Nascimento do Tempo” de Llya Prigogine. No início desse ensaio o autor usa a dimensão histórica para distinguir as ciências sociais das ciências naturais (ou ditas exatas). Ou seja, as ciências sociais são completamente dependentes e imersas em realidades históricas: estudam objectos que têm sempre uma dimensão histórica. Imaginemos, por exemplo, a sociologia, que ao estudar uma sociedade não pode descurar que essa sociedade existe num momento histórico próprio que a define, ou então a psicologia, em que um perfil psicológico corresponde a um indivíduo historicamente existente, que é sempre produto do seu tempo. Por outro lado, as ciências exatas e as mais abstractas, como a Matemática, podem viver (supostamente) fora da dimensão histórica no que toca aos seus objectos de estudo. Podem ser tão abstractas que dispensam esse enquadramento ou envolvente. Embora isto não seja de facto assim na acumulação de saber, pois desenvolver estudos, seja qual for a disciplina, faz-se sempre uma recolha histórica de saber (ver "Um investigador é sempre um Historiador"). O conhecimento disciplinar pode ser visto como um acumular histórico desse conhecimento de especialidade, logo é quase impossível escapar à história de um ponto de vista epistemológico. No entanto, o objeto pode estar mais ou menos afastado das dimensões históricas, ainda que seja difícil o completo afastamento, mesmo para a matemática, tendo em conta que, tal como se disse anteriormente, existe sempre inerente a história da própria matemática quando a praticamos.

Mesmo que possa ser uma realidade relativa, esta simples dimensão que separa as duas grandes áreas científicas pode contribuir para explicar o afastamento disciplinar entre as duas áreas. No fundo, apesar de todas as diferenças, o que as separa é a história. Talvez seja por isso que os estudantes das áreas científicas naturais e exatas tenham alguma tendência para o distanciamento face à história, e vice-versa para as ciências sociais.

Provavelmente a verdadeira multidisciplinariedade e cruzamento de saberes, cada vez mais valorizados em simultâneo com a especialização, só acontecerá quando se conseguir ligar a ciência no seu todo através da história, e não usar a história como meio de separação.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Afastamento entre movimentos de esquerda e igrejas – uma razão urbanística

Os movimentos de esquerda, operários de socialistas e anarquistas raramente tiveram ligação com as igrejas católicas ou protestantes instituídas. Foi assim logo desde o nascimento e ganhar de força destes movimentos, logo nos inícios de século XIX. Essa luta e reivindicações nascem e crescem à medida que a sociedade e era industrial transformam os Estados. O impacto nas populações da industrialização foi imenso, daí o recurso ao termo “revolução”, embora esse efeito não seja apenas social.
Demónios de Krupp - Heinrich Kley
O afastamento entre as igrejas e os movimentos de esquerda pode ser explicado pelo tradicionalismo e modelos sociais doutrinados. As igrejas ligavam-se ao poder político instituído e sustentavam, à sua maneira, as hierarquias e valores antigos. As igrejas tendiam ao conservadorismo social e não à mudança e inovação que propunham e estavam na génese dos movimentos socialistas, esquerdistas e anarquistas. Apesar disso, posteriormente, essa tendência foi rompida com os movimentos de democratas e trabalhadores cristãos, que no século XX muito se aproximaram da social-democracia, dos ditos socialistas mais moderados.

Mas voltemos às origens do século XIX. Para além das razões ideológicas referidas anteriormente, há razões materiais e urbanísticas que podem justificar o afastamento entre movimentos operários e igrejas. Com o crescimento exponencial das cidades na era industrial, devido ao crescimento demográfico e esvaziamento dos campos, as estruturas urbanas destruturaram-se. Os bairros cresceram em torno das fábricas que atraiam massas de trabalhadores às cidades. O planeamento urbano inicial dessa primeira explosão industrial foi incipiente ou mesmo inexistente. As cidades cresciam por si, sem regra nem critério para além do economicismo puro. Nessas novas zonas habitacionais, sem condições de higiene e salubridade do edificado e onde o espaço público era uma miragem, não existiam as estruturas públicas básicas. Nem as igrejas tiveram capacidade de se adaptar a esta realidade. Grande parte dessas comunidades operárias viviam num vazio eclesiástico, sem igrejas e seus sacerdotes, tal como era habitual nas aldeias e vilas de origem e onde essa organização se foi instituído e implementando ao longo dos séculos anteriores.

Agora podermos fazer as seguintes perguntas. Como seria se as comunidades operárias urbanas tivessem sido enquadradas pelas igrejas instituídas? Ou será que, mesmo se tivesse existido esse cuidado de planeamento urbano e de serviço religioso, nada mudaria?
 
 
Algumas referências bibliográficas
Rémond, Réne; "Introdução à história do nosso tempo - Do antigo regime aos nossos dias", 1994.
Chueca Goitia, Fernando. "Breve História do Urbanismo", Editorial Presença, 1996.

 

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa