terça-feira, 30 de junho de 2015

Porque se chama Invicta à cidade do Porto?

Quando se refere o nome da cidade do Porto é muito comum usar em simultâneo o epíteto ou título de “Cidade Invicta”, que é o mesmo que dizer “cidade invencível”.
Então mas de onde virá este honroso titulo? Será alguma influência dos efeitos das vitórias do seu clube de futebol local? Não, nada disso, a razão é histórico/política e remonta a alguns séculos.
Cerco do Porto - Marques de resende. Fonte: http://www.historiadeportugal.info
Recuando na história, constata-se que a cidade foi tomada pelos mouros em 715, sendo apenas reconquistada por Vimara Peres em 868, fundando-se assim o Condado Portucalense. Depois não se regista mais nenhum ataque significativo, com a dilatação das fronteiras em direção a sul. Ou seja, invencível perante os mouros não foi, que de facto ocuparam o território por mais de um século.
Depois o Porto surge associado a alguns grandes feitos da história de Portugal. De notar o apoio imediato ao Mestre de Avis, em 1385, e o contributo para a expansão ultramarina, que lhes atribuíram o título honroso de “tripeiros”, por terem escolhido comer as entranhas dos animais e cedido a carne limpa para o esforço nacional da conquista de Ceuta e sua consequente expansão.
Mas é no século XIX que nasce a principal razão do título. Não terá sido a resistência às invasões francesas, pois foram terríveis para a cidade que nãos lhes conseguiu resistir. No entanto, durante as Guerras Liberais (1832-1834), o Porto foi cercado pelas tropas absolutistas depois do desembarque no Mindelo das tropas liberais apoiando D. Pedro IV, que lutava para garantir o trono à sua filha, a futura D. Maria II, e consequentemente a implementação do liberalismo em Portugal. O Porto demonstrou-se invicto perante os assalto de D. Miguel, tendo sido um ponto-chave para mais tarde assegurar a vitória dos liberais liderados por D. Pedro em todo o país.
D. Maria II então que atribui posteriormente o título de Invicta cidade do Porto, constando ainda hoje essa referência no seu brasão municipal.

Referências Bibliográficas para aprofundar:
  • Câmara Municipal do Porto – História da Cidade. Consultado em 24/06/2015. Disponível em: http://www.cm-porto.pt/historia-da-cidade
  • Bonifácio, Maria de Fátima – Reis de Portugal - D. Maria II. Temas e Debates, 2007.
  • Martelo, David - Cerco do Porto 1832-33 – A Cidade Invicta. Prefácio, 2001.
  • Mattoso, José – História de Portugal – Antes de Portugal. Vol. I.  Editorial Estampa, 1997.
  • Mattoso, José – História de Portugal – O Liberalismo. Vol. V. Editorial Estampa, 1998.
  • Santos, Eugénio - Reis de Portugal - D. Pedro IV. Temas e Debates, 2007.
  • Wikipédia – Porto. Consultado em 24/06/2015. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Porto

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Quem reconstruiu o Castelo de Leiria?

Quem conhece o Castelo de Leiria tem presente a sua peculiar forma, pouco habitual em Portugal. O castelo, especialmente pelas suas arcadas góticas dos paços do castelo, viradas a sul para a cidade, é um miradouro único. Desse espaço “romântico” podemos ver toda a baixa, mas da torre de menagem vigia-se quase todo o concelho e outras terras além.
Ao contrário de muitos outros castelos que se encontram arruinados, o castelo de Leiria foi reconstruído. Diz-se que foi Ernesto Korrodi que o reconstruiu, mas isto não é bem verdade.
Korrodi elaborou, em 1898, um projecto de reconstrução do castelo de leiria, muito ao estilo de Viollet-le-duc, adotando um estilo histórico principal para orientar toda a intervenção, partindo das existências e indícios materiais, mas colmatando o remanescente com a sua imaginação e coerência de estilo adotado. Baseou-se na fase joanina, atribuída a D. João I e D. Duarte, o gótico tardio manifestado em parte no Mosteiro da Batalha. Ou seja, o castelo seria mais um paço residencial tardo gótico que uma fortaleza medieval da reconquista.
Essa proposta foi polémica, tanto pelo estilo principal adotado, pois ao castelo de Leiria localmente surgia sempre a menção a D. Dinis e Rainha Santa Isabel, como pela própria solução de reconstrução integral. Já nessa época, Camillo Boito e outros pensadores do património, condenavam esse tipo de solução, considerando-a destrutiva. Para eles, a opção correta seria a preservação das existências e não a reconstrução e seus perigos de desvirtuamento original.
Contudo, a partir de 1915, o castelo, através de pressões cívicas e políticas locais, principalmente através da Liga de Amigos do Castelo de Leiria, dirigida por Korrodi, o castelo começa a ser intervencionado. Surgiram polémicas entre as entidades e responsáveis envolvidos, mas a partir de 1921 as obras são novamente retomadas, já sobre direção indiscutível de Korrodi.
Até 1933, ano em que Korrodi foi afastado do projeto, o castelo foi sendo reparado e estabilizado, garantindo a sua preservação. Korrodi, já nessa altura, não seguia pelos princípios da reconstrução integral. Dos conhecidos 8 arcos existentes nos paços do castelo, apenas reconstruiu 3. Reabilitou e refez apenas algumas partes, mantendo-se o castelo quase como uma ruina romântica, tirando um ou outro caso (torre de menagem e casa do guarda).
Interpretação da reconstrução do castelo de Leiria por Korrodi
Ou seja, a grande reconstrução, com o traçado mais militar, surge depois do afastamento de Korrodi. Foram imensas as intervenções posteriores no castelo. Reconstruíram-se os pisos superiores dos paços do castelo, demoliram-se alterações feitas por Korrodi na Torre de Menagem e Igreja da Pena. Refizeram-se extensas partes das muralhas, torres e barbacãs. Adotaram-se os merlões (ou ameias) retangulares, embora existam vestígios de terem sido piramidais, de inspiração moçárabe. Refizeram-se acessos e ouros “melhoramentos”, tudo isto em plena ditadura do Estado Novo, com a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) a concretizar a visão ideológica oficial de fundação nacional militarista e austera, ainda que seguindo parcialmente e nada inovando para além dos projetos iniciais de korrodi.
Recorreu-se imenso a betão, tanto para ligar alvenaria de pedra, como o betão armado estrutural para garantir a estabilidade dos elementos mais antigos. Essas intervenções estão disfarçadas e ocultas.
Assim, a reconstrução do Castelo de Leiria deve-se bastante a korrodi, mas a maioria e maior volume de trabalhos foram realizados posteriormente pela DGEMN em pleno Estado Novo.

Ver estudo do autor: Breve Introdução à História do Vandalismo do Castelo de Leiria
Referências bibliográficas
CABRAL, João – Anais do Município de Leiria. Vol. I. Segunda edição revista e aumentada. Leiria, Câmara Municipal de Leiria, 1993.
CORREIA, Adélia Caldas – Valores estéticos-urbanísticos de Leiria Seiscentista. “Actas do Colóquio sobre história de Leiria e da sua região”. Volume I. Leiria: Câmara Municipal de Leiria, 1995.
CARVALHO, Vânia; INÁCIO, Isabel - “Relatório: O projecto de investigação arqueológica do Núcleo do Castelo de Leiria: enquadramento, objectivos e resultados”. Leiria: Câmara Municipal de Leiria, 2011.
CARVALHO, Vânia; INÁCIO, Isabel - O projecto de investigação arqueológica do Núcleo do Castelo de Leiria: enquadramento, objectivos e resultados. “Revista da Associação dos Arqueólogos Portugueses”. Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses, 2013.
COSTA, Lucília Verdelho da – Ernesto Korrodi – 1889-1994 Arquitetura, ensino e restauro do património. Lisboa: Editorial Estampa, 1997.
ESTRELA, Jorge – Korrodi e o restauro do Castelo de Leiria. Leiria: Fundação Mário Soares, 2009.
GOMES, Saul António – Introdução à história do castelo de Leiria. 2ª edição revista e ampliada. Leiria: Câmara Municipal de Leiria, 2004.
GOMES, Saul António – Materiais na região de Leiria em tempos medievais. “História da construção. CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória” & LAMOP - LAMOP – Laboratoire de Médiévistique Occidentale de Paris, 2012.
KORRODI, Ernesto – Estudos sobre a reconstrução do Castelo de Leiria. Reedição do caderno de 1898. Leiria, Imagens & Letras, 2009.
MENDONÇA, Isabel & MATIAS, Cecília - Castelo de Leiria. DGMEN - Direcção-geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, 1991-2000.
MENDONÇA, Isabel & MATIAS, Cecília - Castelo de Leiria / Castelo e cerca urbana de Leiria. SIPA - Sistema de Informação para o património. Actualizado em 2010. Consultado em 6 de Junhos de 2015, disponível em:
http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=3312
NABAIS, António; LOURENÇO, Vitor; FERREIRA, Pedro (coord.) – Torre de Menagem do Castelo de Leiria. Leiria: Câmara Municipal de Leiria, 2001.
SILVA, José Custódio Vieira da Silva – Leiria – 450 anos da Diocese e Cidade. Conferências das Comemorações 1545-1995. Leiria, Arquivo Distrital de Leiria, 1996.
[S.N.] – Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria. 4ª edição ou transcrição da 2ª Edição de 1898. Leiria, Textiverso, 2011.
TOMÉ, Miguel – Património e Restauro em Portugal. Porto: Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto – FAUP, 2002.
ZÚQUETE, Afonso – Monografia de Leiria – A Cidade e o Concelho – 1950. 2ªEdição. Leiria: Folheto Edições & Design, 2013.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

As condições de vida eram piores na Revolução Industrial que na Idade Média?


A propósito de uma pequena investigação sobre a evolução e história da arqueologia urbana no centro histórico de Leiria para o século XXI, deparei-me com alguns estudos curiosos. A propósito das escavações realizadas na Praça Rodrigues Lobo para instalação de rede de saneamento descobriu-se  e escavou-se uma necrópole medieval.

A Construção de Veneza, Sycambria, Cartago e Roma - Crónica de Bouquechardière de Jean de Courcy
Através desse primeiro estudo arqueológico desenvolveram-se várias outras investigações que permitiram perceber como seria a vida socioeconómica da Leiria medieval. Uma das conclusões mais surpreendentes, e que acrescentam conhecimento de interesse geral, foi a constatação que as pessoas que viviam nessa época eram mais altas que os habitantes de Lisboa do início do século XX. Apesar das difíceis condições de vida, da violência direta e indireta, das pestes e guerras, as pessoas que viveram na época medieval seriam, em média mais altas. De notar que a altura média é um indicador de saúde e qualidade de vida.

Então a idade média não seria um período tão negro com alguns nos querem fazer crer? Talvez não. Esta série de dados é corroborada por outros dados correspondentes a outras necrópoles e cemitérios da mesma época noutros locais. A explicação será do efeito  era industrial, que contribuiu para a diminuição das condições de vida, especialmente entre os operários que viviam em meio urbano e suburbano, sujeitos a difíceis condições de trabalho e com poucas condições higiénicas, sanitárias e alimentares. No caso português, segundo Susana Garcia, a causa não será tanto a industrialização, pois era incipiente no nosso país, mas mais como resultado das instabilidades políticas anteriores.

Aqui se demonstra como uma escavação arqueológica proveniente da necessidade contemporânea de melhorar as infra-estruturas urbanas pode gerar avanço no conhecimento científico de interesse geral.
 
Referências bibliográficas.
ERA, Arqueologia, Lda. - Relatório das Escavações arqueológicas na praça Rodrigues Lobo. Leiria: 2002?

GARCIA, Maria Susana de Jesus - Maleitas do corpo em tempos medievais - indicadores paleodemograficos, de stresse e paleopatológico numa série osteológica urbana de leiria. Coimbra: Departamento de arqueologia da universidade de coimbra, 2007. Tese de doutoramento em antropologia biológica.

GARCIA, S. – “Is the Circumference at the Nutrient Foramen of the Tibia of Value to Sex Determination on Human Osteological Collections? Testing a New Method”. International Journal of Osteoarchaeology - Institute J. Osteoarchaeol. Wiley Online Library, 2010.

GASPAR, Sara Joana Pereira - Determinação do sexo em não-adultos: aplicação de um método métrico para o estudo do dimorfismo sexual na colecção osteológica não-identificada de São Martinho (Leria).Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Universidade Técnica de Lisboa, 2013. Seminário Final da Licenciatura em Antropologia.


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