terça-feira, 12 de agosto de 2014

Boca do Inferno – Leituras de história contemporânea


Ler as crónicas de Ricardo Araújo Pereira é arriscar várias coisas. Primeiro, arrisca-se a ler algo escrito em bom português, com uma pontuação, construção frásica e recursos gramaticais impecáveis. Depois, e como é expectável, arrisca-se o sorriso e o riso, ou, para outros, aquela associação bem-humorada que diverte mas que fica guardada no pensamento individual, sem quaisquer manifestações físicas externas – admito que esse é mais o meu caso.

Mas o que me leva a escrever este texto não é nenhum dos dois casos anteriores. O que me motiva a invocar aqui os livros das crónicas “Boca do Inferno” é o seu potencial histórico. Quando peguei no último livro destas crónicas (o 3º no caso em questão), dei por mim a ler as crónicas de uma época passada, daquilo que era a actualidade na altura. Não sei se podem considerar como documentos históricos. Isto porque são crónicas subjectivas de humor, e porque o autor não é obrigado a nenhuma metodologia de criação de conhecimento histórico – embora Paul Veyne diga que a história não tem método. Ricardo Araújo Pereira não esconde os seus gostos e preferências, o que é aceitável e até útil já que se tratam de artigos de opinião. No entanto, por as fazer sobre temas de importância geral contemporânea – na maior parte dos casos – acaba por fazer uma súmula da história recente. Basta pegar nos livros, e se os lermos de seguida, vamos recordar episódios históricos recentes, e vamos fazê-lo de um modo leve e agradável, pois a motivação é a busca pelas interpretações humorísticas do autor. Assim, Ricardo Araújo Pereira faz, talvez sem intenção, bastante pelo desenvolvimento da história contemporânea nas suas obras “A Boca do Inferno”, pois faz-nos recordar a história (no sentido lato do termo) dos últimos anos. E, com as suas opiniões, contribui para que construamos a nossa, interpretando a história recente. Pelo menos não há o risco de sermos ocultamente direccionados para uma determinada prespetiva mascarada de imparcialidade, pois nisso não há dúvidas. Ricardo Araújo Pereira é tudo menos imparcial.
Importa não esquecer que a análise histórica da antiguidade se faz recorrendo também aos cronistas da época, e, que em muitos casos, será difícil saber quais desses escritos constituem provas incontestáveis do que realmente aconteceu. Nunca saberemos, em muito deles, se são de facto imparciais.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa