terça-feira, 29 de julho de 2014

Tecnocracia – A Utopia que Platão Prescreveu na sua República?

Ao ler-se a República de Platão, fica a sensação que o conhecido filósofo não era grande apreciador da Democracia. Para ele o sistema ideal seria a Aristocracia [2], no sentido da etimologia da própria palavra, que era nada mais nada menos que “o governo dos melhores” [3]. Ou seja, Platão, no seguimento do pensamento socrático, considerava que o regime democrático muito suscetível de decisões políticas erradas, por desconhecimento e manipulação dos cidadãos ignorantes nos assuntos mais complexos, correndo-se também o risco dos cargos de topo serem ocupados por pessoas impreparadas para as exigências reais.
Os pretendentes - Leopold Schmutzler
Na sua defesa da atribuição dos cargos governativos aos “melhores” pretendia salvaguardar o bom governo [3]. Esses melhores seriam identificados depois pelas suas capacidades, conhecimentos. Não é por acaso que Platão considerava deverem ser os filósofos a governar, ou seja, os sábios, pois nessa altura a sabedoria era tendencialmente transversal e abrangente, ainda que alguns desses sábios se especializassem.
Assim, deste modo, será que Platão, segundo as suas palavras, próprias do seu tempo, em a República, defendia a tecnocracia [5;6]. Ou seja, que os melhores em cada área - no caso contemporâneos os técnicos [4] - deveriam ser os responsáveis governativos públicos pelas mesmas, numa clara oposição à democracia, em que qualquer cidadão poderia desempenhar qualquer cargo público.
Não é de estranhar que isto tenha sido polémico na altura, tendo o próprio Sócrates [1], entre outras razões também, cometido suicídio devido a estas críticas à democracia ateniense.
Quase na mesma lógica, mas já no século XIX, Max Weber refere-se ao termo "burocracia" como o governo da razão, numa relação de proximidade com a atual tecnocracia, isto sem qualquer conotação negativa assim associada. Para Weber, o poder burocrático (exercido por técnicos segundo a nossa atual conceção) seria um dos poderes daquilo que prescrevia como "Troikocracia" [7], que seria no fundo um equilíbrio de poderes (carismático, tradicional e burocrático) capaz do melhor sistema de governo possível.
Hoje em dia ainda se debate qual o equilíbrio entre democracia e tecnocracia, os limites e esferas de ação ideais de cada um desses sistemas/prescrições governativas. Resta saber qual será o próximo passo. Será que se cumpre o ideal platónico dos "filósofos" passarem a ser os nossos governantes? Será pela nomeação direta desses tais sábios ou pela transformação de todos os cidadãos, devido à crescente escolarização, em filósofos na especialidade (técnica)?
 
Referências bibliográficas

[1] "A Apologia de Sócrates", Platão, Guimarães editora, 2009.
[2] "Defender a Aristocracia faz sentido?", texto do blogue a Busca pela sabedoria, disponível em:
http://abuscapelasabedoria.blogspot.pt/2009/09/aristocracia.html
[3] "República ou Politeia", Platão, Guimarães Editores, 2005.
[4]"Técnico",  Dicionário online da Porto editora, disponível em:
http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/t%C3%A9cnico
[5]"Tecnocracia", Dicionário online da Porto editora, disponível em: http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/tecnocracia
[6]"Tecnocracia", InfoEscola, disponível em: http://www.infoescola.com/formas-de-governo/tecnocracia/
[7] "Troikocracia, Weber e o Marquês de Pombal - segundo Miguel Pereira Lopes",  texto do blogue a Busca pela sabedoria, disponível em: http://abuscapelasabedoria.blogspot.pt/2014/05/troikocracia-weber-e-o-marques-de.html

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