domingo, 30 de março de 2014

Thomas Hobbes e a necessidade de uma ameaça extraterrestre

As ideias de Thomas Hobbes para a organização do Estado foram e continuam a ser polémicas. Isto porque, principalmente, na sua obra “O Leviatã” consta uma fundamentação teórica para legitimar o Estado Absoluto. Esse modelo e princípios, que advogavam a necessidade de um Estado forte e interventivo corporizado na figura de um governante absoluto munido de todos os poderes e meios para defender o próprio Estado, chocam obviamente com os princípios do liberalismo. Hobbes desenvolveu a sua teoria de Estado no século XVII, em período de desenvolvimento dos Estados Modernos. O pensamento liberal era apenas uma semente, e a experiência dos seus tempos, e a da sua própria via, forçavam-no a recorrer ao absoluto para resolver pragmaticamente os problemas do seu tempo: instabilidade social e guerra endémica. Talvez até tenha sido a magnitude da sua obra que forçou a criação de outras antagónicas de via liberalizante – mais isso são só suposições pessoais.
Guernica - Picasso
O problema da teoria de Hobbes acorre especialmente quando descontextualizada do seu momento histórico e político. Isto não serve para desculparmos Hobbes, até porque ele nunca corporizou o seu Leviatã ou foi um tirano que impossibilitou as liberdades. Ele apenas as reformulou e redigiu, e nem sabemos sequer quais as suas reais intenções quando as concretizou. Poderia ter sido irónico – nunca o saberemos.
Por outro lado, Hobbes, seguindo a já citada teoria política do absoluto, reforça mesmo hoje muito importante, ainda que possa ser contrário aos seus próprios princípios, com tendência para negarem o Homem como ser profundamente social, e bem-intencionado por natureza. A sua visão chocava como a visão de Aristóteles, que via o homem como um “animal social” e com a ideia base do “bom selvagem” de Rosseau. Podia dizer-se também que antevia parte do pensamento controverso de Nietzsche e ofendia profundamente ao liberal John Locke. Ou são somente simplificações para que isto se encaixe num texto curto. Ou seja, o tal princípio importante ainda hoje válido é: quando existe um perigo comum mais facilmente se gera unidade e capacidade de cooperação. É uma ideia profundamente pragmática.
Então onde entram os extraterrestres neste assunto? Entram agora. Vou arriscar, como tantos outros fizeram, descontextualizar Hobbes. Partindo das premissas base do seu pensamento, a Paz mundial e harmonia internacional universal somente seriam possíveis enquanto existisse uma ameaça extra planeta: uma ameaça extraterrestre. Assim que a ameaça desaparecesse voltaríamos às nossas guerras internas, perderíamos a paz e capacidade de cooperação.


Referências bibliográficas:
  • Caillé, Alain; 2005. "História Crítica da Filosofia Moral e Política". Verbo.
  • Garcês, Ana Paula; Martins, Guilherme de Oliveira;  2009. "Os Grandes Mestres da Estratégia - Estudos sobre o poder da Guerra e da Paz". Edições Almedina.
  •  Schwanitz, Dietrich , 2012. "Cultura - Tudo o que é preciso saber". Dom Quixote.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Na antiguidade poucos viviam para além dos 40 anos?

É muito comum, quando se fala de esperança média de vida em tempos mais remotos, por exemplo na Antiguidade Clássica ou na Época Medieval posterior, referir-se que rondava pouco mais de 30 anos, talvez 40 no limite. Isto leva a uma conclusão parcialmente errada: que a maioria das pessoas não vivia mais do que os 40 anos. Na prática, ainda que matematicamente justificável, não terá sido bem assim.
Cabeça de um homem idoso - Rembrandt
Apesar das guerras, doenças epidémicas, fomes, falta de higiene e cuidados de saúde, era a mortalidade infantil que desequilibrava a média. Ou seja, se tivermos uma percentagem muito grande de recém-nascidos falecendo: obviamente que isso irá baixar muito a média final global.
Assim, quando nos dizem que as pessoas morriam muito novas na Idade Média, ou por exemplo na Roma Antiga, devemos ser menos precipitados. De facto morriam muitas crianças e recém-nascidos, mas isso não significava que a esperança média de vida para os que sobreviviam fosse tão baixa como normalmente se divulga.Aqui fica um caso do erro que se pode incorrer quando se analisa uma média diretamente sem recurso a outras operações ou ferramentas estatísticas.

quarta-feira, 5 de março de 2014

As Capelas Imperfeitas da Batalha eram Realizáveis

Mosteiro da Batalha - José Cardoso
Fonte: http://davincigallery.net/art/t-13963

Corre um história antiga, provavelmente mais mito que realidade, que as capelas imperfeitas do Mosteiro de Santa Maria da Vitória - ou popularmente mais conhecido como Mosteiro da Batalha - não teriam sido concluídos por se ter achado impossíveis de construir. Ou seja, que o vão - a área livre sem apoios - seria impossível de fazer em pedra pela tecnologia disponível na época. No entanto, tal como refere Paulo Ferreira*, se analisarmos com algum cuidado a planta do mosteiro, notamos que a sala do capítulo tem uma cobertura em pedra e que o vão não é muito diferente, em dimensão livre - sem contar com as capelas radiais, do que existe por concluir nas capelas imperfeitas.


Assim sendo, dificilmente terá sido a limitação técnica a impedir a conclusão das capelas. Se foi possível realizar a sala do capítulo também seria concretizável a cobertura das capelas imperfeitas.
 Talvez, contribuindo para a especulação, os fundos e outros meios necessários tenham sido desviados da Batalha para outros projetos, entre eles arrisco a sugerir o Mosteiro dos Jerónimos e os investimentos necessários no Império além mar que se alargava.
 
Referências bibliográficas
Ferreira, Paulo; 2011. "Arte Portuguesa - História Essencial", Lisboa, Temas e Debates.
 

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