quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Terror Viking – Um documentário sem cornos



De uma série de documentários intitulados de Guerreiros (Wariors), exibidos no Canal de História, dedicados às classes guerreiras de várias sociedades ao longo da história, trago aqui algumas palavras sobre os vikings. Apesar de algumas imprecisões e de um excesso de recurso ao espectáculo visual e de ação forçada, o documentário tem a capacidade, através de exemplificações práticas, de nos conseguir fazer entrar, um pouco, no mundo dos vikings.
Os vikings eram os guerreiros mais temidos e odiados do seu tempo, foram considerados piratas, salteadores, bárbaros, mas será que foram tudo isso? Ou será que foram também algo mais? E, já agora, quando ganharam os vikings os cornos?


Chegada de Vikings a Wirral - Chris Collingwood


A História, cultura e geopolítica
Aparentemente, de um momento para o outro, no debaldar do século VIII a Europa começou a sofrer ataques (Em 793 d.C. navios vikings chegam a Lindisfarne em Inglaterra e saqueiam violentamente o mosteiro existente, chacinando os monges. Estes ataques que iriam durar pelos próximos 300 anos), investidas e pilhagens por parte de povos que chegavam nos seus rápidos barcos vindos do norte. 
Vejamos primeiro a geografia da península escandinava, mais concretamente aquela que caracteriza a Noruega. Naquilo que hoje são alguns dos países mais civilizados do mundo, especialmente na Noruega e Suécia, mas também na Dinamarca, durante a baixa Idade Média ascende e desenvolve-se a cultura Viking. A geografia e o clima adverso desses territórios, (só a Noruega tem mais de 24.000 quilómetros de costa com Fyords profundos a dilacerar a paisagem), condicionaram a formação de grandes estados ou uniões políticas coerentes. Esses territórios eram dominados por pequenas tribos e grupos que lutavam habitualmente entre si, unidos por uma cultura semelhante que os incentivava a essa atitude bélica, formava-se uma cultura de guerreiros destemidos e implacáveis. Para esses povos o ponto de encontro mais acessível, estranhamente, situava-se no Mar. Os seus barcos eram utilizados para trocas comerciais, mas especialmente para, quando unidos nos embates das abordagens, servirem de campos de batalha aquático. Habitualmente, durante essas batalhas e depois de múltiplas abordagens, os barcos eram unidos formando plataformas mais ou menos conexas de combate. A dificuldade em combater no mar, em espaço exíguos, balançantes, instáveis e confusos obrigam os guerreiros vikings a desenvolver técnicas de combate que evitavam o erro e o descuido, obrigavam-nos a muita coordenação e manobras de equilíbrio incomparáveis. Eram mestres em combates corpo a corpo a curta distância, exímios no combate rápido anfíbio.
As artes bélicas, como modo de vida e influência económico-social, assumiam grande importância nas sociedades escandinavas. Provavelmente terão sido essas razões que levaram a que os povos escandinavos saírem dos seus territórios e partissem à aventura, conquistando e saqueando o mundo conhecido. A própria religião viking exercia também uma importante influência marcial. O deus supremo do panteão viking era Odin, deus da guerra. Os vikings acreditavam que se morressem honradamente e com bravura em combate teriam acesso ao paraíso, ao valhala, com o próprio Odin a resgatar todos os bravos guerreiros que tombassem em batalha. A sua perícia e convicções religiosas faria deles guerreiros temíveis.
Outra razão, associada também à cultura e religião, era a política interna na Escandinávia e o modo como estava organizada a economia e o poder das elites locais. Na altura dos maiores ataques vikings os grandes estados da Escandinávia estavam em formação e os novos reis e líderes, devido à cultura guerreira em lhes assistia, foram impelidos a provar a sua coragem e capacidade bélica em conquistas, pilhagens e atos de bravura no estrangeiro. Sendo que as riquezas pilhadas eram igualmente essenciais para o estatuto necessário a um rei viking. A guerra no estrangeiro servia para financiar a própria guerra no país natal, nas habituais disputas entre reis e pretendentes, com exércitos cada vez mais numerosos e bem equipados. 
A partir do século IX praticamente toda a Europa do Norte é pilhada, os vikings atacam: Dublin, Edimburgo  Hamburgo, Paris, etc. Por volta do século X a maior parte das cidades rendiam-se automaticamente quando surgiam os temíveis homens do norte, pagando enormes quantias de resgate para serem poupadas da destruição. 
Mas depois de séculos de conquistas e pilhagens por toda a Europa, depois de terem sofrido processos de aculturação, as comunidades escandinavas tornaram-se menos belicosas, tendo a conversão ao cristianismo para isso contribuído. 


Técnicas e tecnologias
Uma das armas terrestres preferidas dos vikings eram os machados. Usavam, preferencialmente, machados de uma só mão que lhes permitia erguer um escudo na outra. No entanto, o machado dinamarquês, pensado para se usar com as duas mãos, era impressionantemente grande: composto por um cabo de madeira que podia atingir os 2 metros, com uma lâmina de aço que podia chegar a pesar 3 kg. Por outro lado, utilizavam também pequenos machados de arremesso, por exemplo semelhantes com as “Franciscas” dos Francos, que conseguiam atirar certeiramente a mais de 45 metros
Sem matéria-prima dificilmente os vikings poderiam ter as armas necessárias aos constantes combates que desencadeavam. Pela Escandinávia, a turfa contém muito minério de ferro arrastado das montanhas e depositado nas zonas baixas. Os vikings desenvolveram técnicas siderúrgicas e metalúrgicas (inspirados nos inventores da técnica de fundição de metal dos pântanos inventada pelos romanos) de tratarem este material natural, extrair o necessário ferro para produzirem então as suas armas que eram especialmente letais nas suas mãos. 
Os Vikings foram também exploradores, comerciantes e colonizadores. Sabe-se que atingiram, com os seus barcos, o Mar Negro, o Mediterrâneo e até a América do Norte - antecedendo Cristóvão Colombo em mais de 400 anos. Formaram vários Reinos na Europa, por exemplo: alguns pequenos reinos na Irlanda e Inglaterra, o Ducado Normando (normando significava Homem do Norte) em França, o Reino de Nápoles e Sicília em Itália. Paradoxalmente constituíram a guarda de elite do Imperador Bizantino: os varegues. O próprio principado de Novgorod, que mais tarde daria origem ao reino e Império Russo, tem também origens e relações com os Vikings. Ou seja, para além de guerreiros temíveis, tiveram de ser também os melhores marinheiros do seu tempo. Para isso contribuiu a mestria no domínio da vela em alto mar, uma vela muito manobrável controlável por cordas, que ajudava a condução do barco em simultâneo com o tradicional leme. Essas velas eram feitas de lá ou linho e impermeabilizadas com sebo – pensa-se que valiam mais que o próprio barco. Os barcos – os drakars -podiam alcançar velocidades de 48 km/h com tripulações que iam até um máximo de 60 homens. No mar orientavam-se pelo Sol, pelas algas (se eram velhas ou novas e que direção tomavam com as correntes), pela direção do voo das aves, observavam todos os elementos, animais e plantas marinhas para ajudar na sua localização. Os vikings podiam aguentar meses em alto mar, pescando e dormindo no fundo dos navios em sacos cama de pele me morsa ou foca. Apesar de toda a tecnologia que na altura os distinguia, o facto das tripulações serem compostas por homens que eram simultaneamente guerreiros e marinheiros/remadores garantia que o barco poderia estar sempre em movimento – isso obrigava a um exercício constante da tripulação, que detinha, inevitavelmente, força e resistência muito acima da média. Também por utilizarem barcos muito exíguos, criava-se, indiretamente, o reforçar dos laços entre os tripulantes, criando uma camaradagem e confiança que lhes davam uma vantagem táctica militar superior no campo de batalha. 
Os viking eram também distintos engenheiros navais. Os tripulantes dos drakars sabiam construir os seus próprios barcos. Com os seus machados conseguiam habilmente transformar troncos de árvores em tábuas, e sem esquemas escritos, conseguiam construir os seus barcos apenas recorrendo à memória e as dimensões medidas a olho. Um barco médio precisava de madeira de mais de uma dúzia de árvores de porte médio (carvalhos, abetos e pinheiros). O design dos barcos permitia que fosse remado para trás e para a frente instantaneamente, sem terem de dar a volta. Eram calafetados com lá, pelo de animais ou musgo cobertos de sebo. Mas a maior vantagem da embarcação era o seu pequeno calado. Os fundos apenas mergulhavam 50 cm na água, permitindo navegar em águas muito baixas e desembarcar praticamente em todo o lado. 
Mas os barcos não era as únicas construções Vikings que os distinguiam no seu tempo. O modo com construíam fortes em terra dava-lhes também distinta vantagem. Construíam, habitualmente, recintos de planta circular perfeita, com diâmetros entre os 100 e os 300 metros. O perímetro era formado por uma elevação de terra reforçada de madeira e cercada por um fosso. No interior as construções eram dispostas seguindo um padrão quadrangular, existindo: estábulos, oficinas, armazéns, residências e até cemitérios.
No que toca às armas, os vikings não utilizavam só machados de combate. Recorriam muito habitualmente também a espadas, com design muito típico. Essas lâminas eram semelhante aos gládios romanos, mas mais esbeltas e alongadas, com punho quase sem proteção de mão. Por outro lado, as lanças eram muito populares, tendo, à semelhança dos hoplitas gregos, técnicas próprias de combate em grupo, que potenciavam a coordenação em linhas ordenadas, conjugando sobreposições de escudos e lanças em riste – podiam formar o chamado muro de escudos.

Então e os Cornos?
Sabe-se hoje que os vikings estavam muito longe de ser selvagens desmiolados, brutos que espalharam violência e destruição pela Europa. Eram na realidade formidáveis guerreiros, vindos de uma zona geográfica agreste e de extremos que os endurecia. Eram portadores de uma cultura guerreira que fomentava a coragem e os feitos militares. Detinham tecnologia pragmaticamente evoluída e adequada para as suas conquistas e explorações.
Funeral de um Viking - Frank Bernard Dicksee

Então e os capacetes Vikings? O seu aspeto era muito diverso, mas parece que nunca foi hábito utilizarem cornos como ornamentação. Essa visão foi inventada na época vitoriana (século XIX) para recriações românticas historicamente pouco fiáveis. Os únicos cornos que usavam tinham como função servir de recipientes de bebida, até porque os cornos estavam associados à fertilidade e não à arte bélica pelo que se sabe. Os vikings, a terem cornos não os usariam nos capacetes…

Este documentário pode ser visto, em 5 parte, respetivamente, mas sem legendas em:
Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5

Outras referências bibliográficas de cruzamento de dados:
“Solar, David; Villalba, Javier. 2005. “História Universal – Idade Média”. Círculo de Leitores.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa