segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

As criações de Tolkien – Documentário sobre a mitologia de "O Senhor dos Anéis"


Segundo o documentário “Clash of Gods: Tolkien Monsters”, a monumental obra de J. R. R. Tolkien é uma: “combinação de influências antigas modernas para criar a mais ambiciosa das viagens mitológicas desde a odisseia”. Esta afirmação tem um imenso peso, e, para os conhecedores da importância cultural das obras de Homero, uma comparação deste género, mesmo que não sendo verdadeira, é, por si só, já um grande elogio e honra.
Tendo o objetivo ou não de superar Homero - segundo o documentário em causa isso era um dos objetivos-, Tolkien terá tido como objetivo escrever uma mitologia própria e original para o seu país, tendo-se baseado, principalmente, nas antigas Sagas Vikings/Escandinavas, em Beowulf, Lenda do Rei Artur, Bíblia e em muitos outros textos antigos, misturando-os com as influências e experiências do seu mundo contemporâneo.
Segue uma pequena descrição, mais ou menos separada por temas, sobre o imaginário da obra de Tolkien, sobre a sua fantasia épica, registada em vários livros, sobre a “Terra Média”, local onde, entre outras histórias, acorrem o enredo de “O Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit”.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da Mitologia Europeia na Obra de Tolkien
Na mitologia nórdica o mundo é constituído por 3 níveis: superior - Asgard (local onde os deuses vivem); o inferior - Hell (o submundo dos mortos; entre os dois fica o Midgard, a terra que fica entre o meio rodeada pelo oceano- mundo habitado por elfos, anões e homens). O midgard traduz-se facilmente por "Terra Média". 
Podemos encontrar referências a um anel poderoso na lenda do Rei Artur e os Cavaleiros da Tabula redonda. Nessa lenda existem objectos mágicos entre eles um anel da invisibilidade. Mas o Anel do Senhor dos Anéis corrompe e cria adição à sua pose por quem o usa, pois nele está impregnada a essência e espírito maléfico do seu criador - Sauron. A ideia de um anel amaldiçoado encontra-se noutra saga Islandesa. Nela um rei possui um anel de ouro que lhe dá uma riqueza inimaginável, algo desperta a inveja do seu filho. A tentação leva à loucura, com o príncipe a matar o pai para se apoderar do anel, que depois esconde-o numa caverna. Lá o anel amaldiçoado transforma o príncipe numa horrível serpente. Essa saga, no fundo, é bastante semelhante ao que acontece com Gollum - que mata o seu amigo Deagol para se apoderar do anel, que o vai corrompendo e transformando em mostro ao longo da sua longa vida numa escura caverna.
A Saga de Beulf relaciona-se especialmente com “O Hobbit”, que conta a história de Bilbo Baggins, tio de Frodo. A história passa-se anos antes e tem relação direta com o enredo e ação de “Senhor dos Anéis”. 

A Influência da Infância Campestre na obra de Tolkien
Uma das principais personagens de “O Senhor dos Aneis” é bem demonstrativo dos seus valores e ideais de Tolkien. Frodo vivia no Shire, terra de extensas colinas e verdes campos, é lá que vive a sua raça - os hobbits. Os hobitts são seres campestres, semelhantes a humanos mas com altura até 1,20m. Andam descalços pois têm uma planta do pé muito resistente e pés cobertos de pelos. São um povo caseiro e pacífico que não se mete em grandes aventuras. Os autores do documentário associam a vida calma do Shire à infância do Tolkiean na região rural do ocidente da Inglaterra, a Cornualha. Alguns dos ideias de Tolkien, do abraçar de uma vida rural, pastoral e simples transparece na vida dos hobbits, a simplicidade do antigamente em detrimento da grandeza e da pretensão da época contemporânea.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Hobbit"

A Influência da Católica na Obra de Tolkien
Descobriu-se, através de uma planta encontrada em 1977, que Tolkien tinha criado um mito de criação para a sua epopeia. Com essa descoberta cria-se uma nova palavra para esse novo estilo literário: a mitopeia. Isso significava que, para além da ação descrita enquanto história de ficção, Tolkien tinha criado todo um mundo, um ambiente, uma geografia, culturas, religiões e os próprios mitos dentro dos mitos ficcionais. A história da criação da Terra Média só foi publicada depois da morte do autor, num livro chamado Silmarilion. Este era o plano, o projecto, as bases e fundações do seu mundo fantasioso. Tudo o que tinha acontecido milhares de anos antes, e que era omisso ou apenas tenuemente referido nas obras anteriores. Curiosamente, a fonte que mais influenciou - atendendo ao documentário - essa criação foi até mais a Bíblia que os próprios Mitos Nórdicos. Tolkien era um católico romano extremamente devoto, por razões pessoais e historial familiar Na mitopeia de Tolkiean existe um Deus supremo chamado Iluvatar. Esse deus cria seres angélicos chamados Ainur que entoam canções tão belas que o mundo surge a partir delas. O mundo é criado através de uma sinfonia gigante ou música dos Ainur, definindo assim todas a história do mundo que Deus torna real. 
Os autores relacionam uma raça criada por Tolkien com o imaginário judaico-cristão. Referindo que os elfos seriam uma raça de seres quase perfeitos e imortais que representam a visão que os humanos seriam se não tivessem sido manchados pelo pecado original de Adão e Eva

Tolkiean, o Linguista
Para Tolkien os jogos de palavras eram um hábito antigo, que depois aprofundou na sua carreira académica. Já em criança inventara muitas expressões que contribuiriam para as línguas do universo da Terra Média, especialmente a complexa língua dos elfos. Partes significativas da língua dos elfos tinham como base uma língua verdadeira: o finlandês. Tolkien apreendera-o quando estudava o mito nacional da Finlândia chamado kalevala - onde existem anões e elfos
Como linguista que era, não é de espantar que Tolkien, na sua Terra Média, tenha criado várias línguas diferentes para cada raça de criatura, dizendo a própria língua muito sobre cada uma das raças que a utilizava. Por exemplo: os Elfos, os seres que mais se aproximavam dos ideais de perfeição, eram os que tinham a língua mais refinada e complexa; aos anões associou as antigas runas escandinavas.
A palavra hobbit tem muitas semelhanças com a palavra "habito" ou em latim, habitus, significando uma criatura de hábitos e que está habituada a sua maneira de viver e tem uma existência muito comum. Já Frodo significa sensato em escandinavo e anglo-saxónico antigo.
O centro de Mordor, o monte "Doom" vai beber da influência do inferno cristão - um local de fogo e enxofre. Numa relação com o inferno de Dante, este local negro e estéril. Mordor é semelhante a Mortor (morte ou assassino em anglo-saxónico) e a Morf (assassinato em escandinavo antigo), ambos com relações com o termo morte.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da 1ªGuerra Mundial
Mas há uma experiência da vida real que inspirou e influenciou Tolkein e a sua obra: a sua participação como soldado nas trincheiras da 1ª guerra mundial. As suas experiências de guerra tiveram influência nas batalhas da Terra Média, no seu relato, descrições e realismo sangrento e destrutivo dos conflitos. Tal não é de admirar pois Tolkien, como tenente do exército Inglês, participou diretamente na batalha do Somme, onde morreram 1,5 milhão de homens. A visão do pântano dos mortos associa-se à visão do verão das trincheiras, dos corpos podres dos soldados, estáticos sobre as águas que se acumulavam.
É talvez no livro “O Hobbit” em que a própria visão pessoal dou autor é mais perfeitamente personificada e tornada numa alegoria. Esse livro acaba com uma batalha entre 5 exércitos, lutando pelo tesouro do dragão. Ai Bilbo vê muitos dos seus amigos morrer e percebe a futilidade da guerra. Tal como Bilbo, tolkien viu os seus companheiros morrer em batalha. Em França lutou ao lado de três dos seus amigos mais íntimos, tendo sobrevivido apenas um. Novamente, tal como anteriormente com Bilbo, Tolkien reflete em Frodo muitas das suas angústias e pensamentos. Frodo, quando regressa ao Shire não se consegue adaptar, tem pesadelos terríveis. Tal como Tolkien, tem recordações traumáticas. Frodo ficou devastado pelas terríveis experiências que viveu, tal como o próprio Tolkien depois da 1ª guerra mundial.
De todas as outras personificações e alegorias de Tolkien salientam-se os Orcs, que simbolizam as atrocidades, violências e horrores cometidos na guerra. Os Orcs são soldados de infantaria, são Elfos corrompidos, degenerados, deformados, conspurcados e de aspeto horrível. São descritos como criaturas fascinadas por máquinas, pelo fabrico de coisas inteligentes e pelo lucro, que tentam fazer com que outras raças trabalhem para eles. Os autores do documentário fazem aqui uma dupla relação com a Alemanha Nazi e com o Capitalismo Selvagem. Talvez o nome dos orcs se tenha inspirado em Beowulf, onde existe uma descrição de todas as criaturas do mal que descenderam de Caim, depois deste ter assassinado Abel. Entre elas estão os Orcs.

Gandalf, um herói nórdico com parecenças com Cristo?
Depois de “O Senhor dos Anéis” ter sido escrito, Gandhalf tornou-se o arquétipo dos feiticeiros. Antes disso, mesmo nas ficções, a magia era considerada como algo malévolo, especialmente anticristã por se associar ao mundo pagão. Mas Gandhalf é solidamente um ser benigno, que tenta fazer o melhor para o bem comum. A Personagem de Gandhalf tem como inspiração a mitologia nórdica, mas não só. Em escandinavo antigo Gandhalf significa: “elfo mágico” ou “elfo que usa a magia”. Outra possível inspiração é o deus Viking: Odin. Para os escandinavos Odin representava muitas coisas: deus da sabedoria; deus da guerra; deus da morte; ou o errante - a maior relação com gandhalf. Um dos seus aspetos de Odin é ser o deus das máscaras e das muitas identidades - tem centenas de nomes e disfarces. Quando viaja pela terra viaja como o viajante cinzento, veste uma túnica cinzenta, tem um chapéu largo de abas e uma longa barba. Tal como Odin, Gandhalf vagueia pela Terra Média durante anos, trabalhando secretamente para destruir as suas forças maléficas. 
Os autores do documentário também relacionam a personagem de Gandhalf com a história de Jesus. Isto porque se autossacrifica, morre e regressa como “O Branco”. Gandalf talvez seja a mistura de Odin e Jesus – uma mistura de temas cristãos e pagãos. 
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

Crítica à Industrialização e mecanização
Quando os hobbits regressam ao Shire ficam em estado de choque. As pessoas estão oprimidas, o ambiente está poluído e há maquinaria por todo o lado. Isso simbolizaria um dos maiores medos de Tolkien. No interior de Inglaterra vira a mesma transformação a acontecer. Tolkien desde criança via a industrialização como um fenómeno proveniente da corrupção humana. O desejo de industrializar estava inequivocamente ligado a um desejo de domínio das pessoas e da natureza. O culto da natureza e a influência das mitologias nórdicas, e também celtas, são muito evidentes em todo o imaginário “Tolkiano”.

Conclusão
Muito mais haveria por dizer sobre as obras de Tolkien, mas limitei-me quase sempre ao que constava no documentário em causa, e mesmo assim o texto ficou excessivamente longo. Talvez se salve por estar dividido por temas e por serem muitos os fãs de Tolkien que  não dispensaram tudo aquilo que se possa registar e escrever sobre o assunto – apesar deste texto ser uma pequena epopeia...
Tolkien, apesar de ter partido e sido influenciado pela mitologia antiga, é o pai da ficção fantástica “medievalesca”, misturando os valores da Alta Idade Média com a magia e fantástico da mitologia das culturas nórdicas, ainda que com pitadas de inspiração judaico-cristã. Sem ele dificilmente o género seria aquilo que conhecemos hoje.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Mediterrânico – A estranheza de um clima pouco apto para a Agricultura


Em Portugal, como em qualquer outro país de clima predominantemente mediterrâneo, os Invernos são as estações mais húmidas e frias (ainda que desordenadamente) e os Verões secos e quentes. Por cá [Portugal] podemos pensar que pelo resto do globo os Invernos e Verões, a nível climático, se estruturam de modo semelhante aos nossos, apenas com variações nas quantidades de precipitação e temperatura. No entanto, o clima mediterrâneo é tudo menos comum na terra: apenas 3% do globo apresenta um clima do tipo mediterrânico (Bacia Mediterrânica; Costa da Califórnia; Costa central do Chile; Sudoeste da África do Sul; Costa Sul e Sudoeste da Austrália).
Montanhas na Provença - Cezanne
No clima mediterrânico, por mais normal que nos possa parecer – como habitantes de um país marcado por esse tipo de clima -, os Verões são muito singulares, pois é, simultaneamente, a época mais seca do ano. Curiosamente – provavelmente só para nós -, nas restantes regiões subtropicais temperadas, por exemplo, em Washington, que fica à mais ou menos à mesma latitude que Braga, os meses de Verão são os de maior precipitação! Aí, o calor significa mais humidade, e não secura como por cá [Portugal].
Apesar do clima mediterrânico ter muitas vantagens turísticas, pois o calor e a quase ausência de chuva nos Verões são ideais para atividades exteriores, na agricultura a mesma combinação é uma desvantagem, pois a vida vegetal desenvolve-se preferencialmente com humidade e calor em simultâneo – basta lembrar o caso da exuberância das selvas tropicais. Ou seja, no clima mediterrânico, à medida que os meses avançam e da primavera se passa para o verão, as chuvas começam a diminuir. Faltando a humidade e calor em simultâneo, a vegetação e a agricultura, por consequência, tenderá a ser menos favorecida nos países mediterrânicos. Mesmo assim, algumas espécies, tal como as oliveiras e as videiras adaptam-se bem a este clima, tal como todo o tipo de culturas de regadio, garantindo a mão humana aquilo que a natureza não provém.
Poderíamos então dizer que a irrigação resolveria os problemas e obstáculos à agricultura nos climas secos, tal como é o clima mediterrânico no verão. Mas podemos muito bem estar enganados, pois o excesso de irrigação leva à salinização dos solos e à sua consequente infertilidade. Esse fenómeno explica-se pela presença de sais, ainda que em pequenas quantidades, na água doce e que acabam por precipitar e se depositar nos solos, uma vez que o calor faz evaporar apenas a água (alusão direta às salinas). Apesar de ser um processo lento, a salinização dos solos acaba por ser inevitável. Hoje, na Mesopotâmia  muitos dos solos que foram irrigados e férteis durante séculos são agora estéreis. O mesmo parece estar a acontecer em Israel.
Esperemos então que as zonas mediterrânicas não atinjam o mesmo nível de saturação e salinização dos solos existentes já noutras regiões - onde se inclui obviamente Portugal, e mais particularmente o Alentejo. Esperemos que saibamos perceber as nossas limitações e o modo de as ultrapassar, sem soluções que agravem ainda mais as condicionantes naturais. Nem sempre forçar a natureza a uma coisa não natural tem bons resultados – redundâncias e trivialidades à parte. Por vezes a "fatura" vem anos, séculos ou milénios depois...
Nota: Usar o termos Mediterrânico ou Mediterrâneo é indiferente, segundo o sítio da Internet "Cinerdúvidas". Ver mais em: http://www.ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=15372

Referências Bibliográficas:
  • Daveau, Suzanne. 1998. “Portugal Geográfico”. Edições João Sá da Costa.
  • Pereira, Ana Ramos. 2002. “Geografia Física e Ambiente”. Universidade Aberta
  • Ribeiro, Orlando. 2011. “Portugal o Mediterrrâneo e o Atlântico”. Letra livre.
  • Wikipédia. "Mediterranean climate". Consultado em 18 de Dezembro de 2012, disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Mediterranean_climate

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Efeito Borboleta - O Filme


Ao pegar no DVD “Efeito Borboleta” – confesso – preparava-me para o ver já com algumas ideias pré-concebidas em mente. Contava que o filme tratasse algum tema relacionado com  teorias da conspiração, ou então contasse a história de um qualquer pequeno evento, insignificante, que pudesse causar no final do filme um grande e imprevisível acontecimento, contando especialmente que isso fosse uma grande catástrofe. Espera por uma história de traços ficcionais mas que traduzisse uma realidade credível e possível de acontecer na nossa realidade, ainda que pudesse ser "hollywoodescamente catastrófica". Ou seja, esperava que fosse uma demonstração, em grande escala, de um emaranhado de personagens e grandes eventos que envolvessem, de algum modo, o coletivo e a própria humanidade. Mas não se passsou nada disso.

O filme começa por citar um chavão e citação das teorias de Edward Lorenz, que, relacionando-as com a Teoria do Caos, alerta para que:  pequenas mudanças nas variáveis iniciais de sistemas complexos podem resultar em grandes efeitos de grande escala. No entanto, há que lembrar que as teorias de Lorenz eram de cariz climático, sendo a conhecida citação das asas da hipotética borboleta, que provocariam uma tempestade do outro lado do planeta, uma metáfora climática.
Voltando ao filme. Em o “Efeito Borboleta” a teoria do caos é adaptada à vida de um jovem, interpretado por Ashton Kutcher – provavelmente a sua melhor performance no cinema até hoje. O protagonista tem a capacidade de, através de inexplicáveis poderes, modificar acontecimentos e atos que teve no passado, podendo mudar assim o seu presente, no entanto sem controlar todas as consequência efeitos desencadeados por essas pequenas mudanças do passado. Não revelarei mais, mas digo ainda que o filme é rápido e violentamente emocionalmente, surpreendente, com cenas que quase chegam a assustar pela tensão que induzem, e empolgante até um final imprevisível.
Apesar deste filme ser uma tentativa demonstrativa muito parcial e particular das ideias subjacentes à teoria do caos, é um bom filme para exercícios de autorreflexão, que demonstram como atos simples podem condicionar toda uma vida, ou vidas.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa