quinta-feira, 15 de março de 2012

O estranho caso do Imperador Constantino - um cristão por convicção ou interesse?


Parece que foi séneca que disse “a religião é verdadeira para as gentes comuns, falsa para os sábios e útil para os políticos [ou governantes]”. Estas palavras são muitas vezes utilizadas de um modo avulso em debates mais ou menos teológicos/políticos (ou ateológicos/ateológicos), no entanto gostaria de dedicar aqui alguma atenção à terceira parte da afirmação desse filósofo romano para tratar um evento histórico importantíssimo para o Ocidente, desencadeado por outro famoso romano. Refiro-me a Constantino que colocou fim às perseguições do império romano aos cristãos e a sua conversão ao cristianismo no fim da sua vida.

Batalha da Ponte de Mílvio - Giulio Romano

 O episódio da Batalha da Ponte de Mílvio, com a impressionante vitória de Constantino sobre Maxnésio (ou Magnésio), é considerado um dos pontos de viragem da história do Ocidente. Consta, pelo menos em algumas das fontes - especialmente segundo Eusébio de Cesaréia -, que Constantino, em situação de desvantagem, tomou uma decisão estranha para a época: decidiu, depois de um sonho com uma cruz na véspera da batalha, pintar nos escudos dos seus soldados cruzes, de modo a supostamente pedir auxílio ao deus dos cristãos. Curioso é que o próprio Constantino não era cristão, quando jovem terá sido iniciado no culto do Sol  (ver texto sobre Invictus Dominus Imperii Romani) muito popular na época, logo era um Pagão. Curiosamente nem sequer a comunidade cristã da época era muito numerosa, muito menos na parte ocidental do Império, onde se estima, por exemplo, que os cristãos perfizessem apenas 10% da população da cidade de Roma. Ferninad Lot aponta como razões para essa estranha opção de Constantino como uma espécie acto de desespero supersticioso, uma vez que o seu opositor tinha o apoio da grande maioria dos poderes pagãos, e também porque tentava aproveitar o mito de que quem perseguisse os cristão acabava tendo um fim trágico. Dificilmente poderemos concluir, em absoluto, deste episódio quais as reais intenções de Constantino, se a sua opção terá sido movida pela , pela estratégia visionária, calculismo ou pelo desespero. Provavelmente foi um misto das três em doses muito próprias.
 O próprio continuar da história do reinado de Constantino revela alguns aspetos igualmente estranhos. Depois de um período de tolerância religiosa, à medida que o seu imperium (reinado) vai durando, começa a favorecer os cristãos, e mais para o final da sua vida a desmantelar na prática os cultos pagãos. Curiosamente só foi batizado mesmo antes da morte. Apesar disto ser habitual na época, não podemos deixar de questionar, dado que o cristianismo foi essencial para a legitimação do poder de Constantino, o porquê de um batismo tão tardio. Seria mesmo cristão? Dificilmente saberemos.
Certo era a importância que o imperador dava à unidade do Império (culturalmente e politicamente), e para o final da sua vida também à unidade do próprio cristianismo, pois nessa altura existia uma infindável quantidade de tendências e grupos cristãos distintos. Independentemente disso, Constantino fundou uma nova capital, com o seu próprio nome, que seria a Nova Roma – Constantinopla. A existência dessa nova capital contribui de facto para a separação e divisão do Império Romano em: Ocidente e Oriente. A nova capital, com o passar dos séculos tornou-se culturalmente Grega, aumentando ainda mais a separação, que transitou também para a religião e a própria Igreja. Depois do Cisma passaram a existir duas grandes Igrejas, A Romana e a Grega, aquelas hoje conhecidas, respectivamente, por Católica e Ortodoxa.
 Se Constantino tomou causas religiosas pela utilidade política só podemos especular. No entanto, parece que as suas estratégicas políticas e religiosas, independentemente das suas influências relacionais entre si, provavelmente não correram como planeado, pelo menos em parte.
 Pouco podemos concluir sobre o caso concreto de Constantino lembrando a frase de Séneca, mas este tema tem mais que matérias para longas reflexões. Pelo menos fica evidente que o assunto, relações e razões destes casos são tudo menos simples, que dificilmente se pode resumir a uma ou duas frases feitas, especialmente se forem descontextualizadas.

Referências Bibliográficas: 
A Fim do Mundo Antigo e o Princípio da Idade Média. Ferdinad Lot. Edições 70.

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