segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

As criações de Tolkien – Documentário sobre a mitologia de "O Senhor dos Anéis"


Segundo o documentário “Clash of Gods: Tolkien Monsters”, a monumental obra de J. R. R. Tolkien é uma: “combinação de influências antigas modernas para criar a mais ambiciosa das viagens mitológicas desde a odisseia”. Esta afirmação tem um imenso peso, e, para os conhecedores da importância cultural das obras de Homero, uma comparação deste género, mesmo que não sendo verdadeira, é, por si só, já um grande elogio e honra.
Tendo o objetivo ou não de superar Homero - segundo o documentário em causa isso era um dos objetivos-, Tolkien terá tido como objetivo escrever uma mitologia própria e original para o seu país, tendo-se baseado, principalmente, nas antigas Sagas Vikings/Escandinavas, em Beowulf, Lenda do Rei Artur, Bíblia e em muitos outros textos antigos, misturando-os com as influências e experiências do seu mundo contemporâneo.
Segue uma pequena descrição, mais ou menos separada por temas, sobre o imaginário da obra de Tolkien, sobre a sua fantasia épica, registada em vários livros, sobre a “Terra Média”, local onde, entre outras histórias, acorrem o enredo de “O Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit”.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da Mitologia Europeia na Obra de Tolkien
Na mitologia nórdica o mundo é constituído por 3 níveis: superior - Asgard (local onde os deuses vivem); o inferior - Hell (o submundo dos mortos; entre os dois fica o Midgard, a terra que fica entre o meio rodeada pelo oceano- mundo habitado por elfos, anões e homens). O midgard traduz-se facilmente por "Terra Média". 
Podemos encontrar referências a um anel poderoso na lenda do Rei Artur e os Cavaleiros da Tabula redonda. Nessa lenda existem objectos mágicos entre eles um anel da invisibilidade. Mas o Anel do Senhor dos Anéis corrompe e cria adição à sua pose por quem o usa, pois nele está impregnada a essência e espírito maléfico do seu criador - Sauron. A ideia de um anel amaldiçoado encontra-se noutra saga Islandesa. Nela um rei possui um anel de ouro que lhe dá uma riqueza inimaginável, algo desperta a inveja do seu filho. A tentação leva à loucura, com o príncipe a matar o pai para se apoderar do anel, que depois esconde-o numa caverna. Lá o anel amaldiçoado transforma o príncipe numa horrível serpente. Essa saga, no fundo, é bastante semelhante ao que acontece com Gollum - que mata o seu amigo Deagol para se apoderar do anel, que o vai corrompendo e transformando em mostro ao longo da sua longa vida numa escura caverna.
A Saga de Beulf relaciona-se especialmente com “O Hobbit”, que conta a história de Bilbo Baggins, tio de Frodo. A história passa-se anos antes e tem relação direta com o enredo e ação de “Senhor dos Anéis”. 

A Influência da Infância Campestre na obra de Tolkien
Uma das principais personagens de “O Senhor dos Aneis” é bem demonstrativo dos seus valores e ideais de Tolkien. Frodo vivia no Shire, terra de extensas colinas e verdes campos, é lá que vive a sua raça - os hobbits. Os hobitts são seres campestres, semelhantes a humanos mas com altura até 1,20m. Andam descalços pois têm uma planta do pé muito resistente e pés cobertos de pelos. São um povo caseiro e pacífico que não se mete em grandes aventuras. Os autores do documentário associam a vida calma do Shire à infância do Tolkiean na região rural do ocidente da Inglaterra, a Cornualha. Alguns dos ideias de Tolkien, do abraçar de uma vida rural, pastoral e simples transparece na vida dos hobbits, a simplicidade do antigamente em detrimento da grandeza e da pretensão da época contemporânea.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Hobbit"

A Influência da Católica na Obra de Tolkien
Descobriu-se, através de uma planta encontrada em 1977, que Tolkien tinha criado um mito de criação para a sua epopeia. Com essa descoberta cria-se uma nova palavra para esse novo estilo literário: a mitopeia. Isso significava que, para além da ação descrita enquanto história de ficção, Tolkien tinha criado todo um mundo, um ambiente, uma geografia, culturas, religiões e os próprios mitos dentro dos mitos ficcionais. A história da criação da Terra Média só foi publicada depois da morte do autor, num livro chamado Silmarilion. Este era o plano, o projecto, as bases e fundações do seu mundo fantasioso. Tudo o que tinha acontecido milhares de anos antes, e que era omisso ou apenas tenuemente referido nas obras anteriores. Curiosamente, a fonte que mais influenciou - atendendo ao documentário - essa criação foi até mais a Bíblia que os próprios Mitos Nórdicos. Tolkien era um católico romano extremamente devoto, por razões pessoais e historial familiar Na mitopeia de Tolkiean existe um Deus supremo chamado Iluvatar. Esse deus cria seres angélicos chamados Ainur que entoam canções tão belas que o mundo surge a partir delas. O mundo é criado através de uma sinfonia gigante ou música dos Ainur, definindo assim todas a história do mundo que Deus torna real. 
Os autores relacionam uma raça criada por Tolkien com o imaginário judaico-cristão. Referindo que os elfos seriam uma raça de seres quase perfeitos e imortais que representam a visão que os humanos seriam se não tivessem sido manchados pelo pecado original de Adão e Eva

Tolkiean, o Linguista
Para Tolkien os jogos de palavras eram um hábito antigo, que depois aprofundou na sua carreira académica. Já em criança inventara muitas expressões que contribuiriam para as línguas do universo da Terra Média, especialmente a complexa língua dos elfos. Partes significativas da língua dos elfos tinham como base uma língua verdadeira: o finlandês. Tolkien apreendera-o quando estudava o mito nacional da Finlândia chamado kalevala - onde existem anões e elfos
Como linguista que era, não é de espantar que Tolkien, na sua Terra Média, tenha criado várias línguas diferentes para cada raça de criatura, dizendo a própria língua muito sobre cada uma das raças que a utilizava. Por exemplo: os Elfos, os seres que mais se aproximavam dos ideais de perfeição, eram os que tinham a língua mais refinada e complexa; aos anões associou as antigas runas escandinavas.
A palavra hobbit tem muitas semelhanças com a palavra "habito" ou em latim, habitus, significando uma criatura de hábitos e que está habituada a sua maneira de viver e tem uma existência muito comum. Já Frodo significa sensato em escandinavo e anglo-saxónico antigo.
O centro de Mordor, o monte "Doom" vai beber da influência do inferno cristão - um local de fogo e enxofre. Numa relação com o inferno de Dante, este local negro e estéril. Mordor é semelhante a Mortor (morte ou assassino em anglo-saxónico) e a Morf (assassinato em escandinavo antigo), ambos com relações com o termo morte.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da 1ªGuerra Mundial
Mas há uma experiência da vida real que inspirou e influenciou Tolkein e a sua obra: a sua participação como soldado nas trincheiras da 1ª guerra mundial. As suas experiências de guerra tiveram influência nas batalhas da Terra Média, no seu relato, descrições e realismo sangrento e destrutivo dos conflitos. Tal não é de admirar pois Tolkien, como tenente do exército Inglês, participou diretamente na batalha do Somme, onde morreram 1,5 milhão de homens. A visão do pântano dos mortos associa-se à visão do verão das trincheiras, dos corpos podres dos soldados, estáticos sobre as águas que se acumulavam.
É talvez no livro “O Hobbit” em que a própria visão pessoal dou autor é mais perfeitamente personificada e tornada numa alegoria. Esse livro acaba com uma batalha entre 5 exércitos, lutando pelo tesouro do dragão. Ai Bilbo vê muitos dos seus amigos morrer e percebe a futilidade da guerra. Tal como Bilbo, tolkien viu os seus companheiros morrer em batalha. Em França lutou ao lado de três dos seus amigos mais íntimos, tendo sobrevivido apenas um. Novamente, tal como anteriormente com Bilbo, Tolkien reflete em Frodo muitas das suas angústias e pensamentos. Frodo, quando regressa ao Shire não se consegue adaptar, tem pesadelos terríveis. Tal como Tolkien, tem recordações traumáticas. Frodo ficou devastado pelas terríveis experiências que viveu, tal como o próprio Tolkien depois da 1ª guerra mundial.
De todas as outras personificações e alegorias de Tolkien salientam-se os Orcs, que simbolizam as atrocidades, violências e horrores cometidos na guerra. Os Orcs são soldados de infantaria, são Elfos corrompidos, degenerados, deformados, conspurcados e de aspeto horrível. São descritos como criaturas fascinadas por máquinas, pelo fabrico de coisas inteligentes e pelo lucro, que tentam fazer com que outras raças trabalhem para eles. Os autores do documentário fazem aqui uma dupla relação com a Alemanha Nazi e com o Capitalismo Selvagem. Talvez o nome dos orcs se tenha inspirado em Beowulf, onde existe uma descrição de todas as criaturas do mal que descenderam de Caim, depois deste ter assassinado Abel. Entre elas estão os Orcs.

Gandalf, um herói nórdico com parecenças com Cristo?
Depois de “O Senhor dos Anéis” ter sido escrito, Gandhalf tornou-se o arquétipo dos feiticeiros. Antes disso, mesmo nas ficções, a magia era considerada como algo malévolo, especialmente anticristã por se associar ao mundo pagão. Mas Gandhalf é solidamente um ser benigno, que tenta fazer o melhor para o bem comum. A Personagem de Gandhalf tem como inspiração a mitologia nórdica, mas não só. Em escandinavo antigo Gandhalf significa: “elfo mágico” ou “elfo que usa a magia”. Outra possível inspiração é o deus Viking: Odin. Para os escandinavos Odin representava muitas coisas: deus da sabedoria; deus da guerra; deus da morte; ou o errante - a maior relação com gandhalf. Um dos seus aspetos de Odin é ser o deus das máscaras e das muitas identidades - tem centenas de nomes e disfarces. Quando viaja pela terra viaja como o viajante cinzento, veste uma túnica cinzenta, tem um chapéu largo de abas e uma longa barba. Tal como Odin, Gandhalf vagueia pela Terra Média durante anos, trabalhando secretamente para destruir as suas forças maléficas. 
Os autores do documentário também relacionam a personagem de Gandhalf com a história de Jesus. Isto porque se autossacrifica, morre e regressa como “O Branco”. Gandalf talvez seja a mistura de Odin e Jesus – uma mistura de temas cristãos e pagãos. 
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

Crítica à Industrialização e mecanização
Quando os hobbits regressam ao Shire ficam em estado de choque. As pessoas estão oprimidas, o ambiente está poluído e há maquinaria por todo o lado. Isso simbolizaria um dos maiores medos de Tolkien. No interior de Inglaterra vira a mesma transformação a acontecer. Tolkien desde criança via a industrialização como um fenómeno proveniente da corrupção humana. O desejo de industrializar estava inequivocamente ligado a um desejo de domínio das pessoas e da natureza. O culto da natureza e a influência das mitologias nórdicas, e também celtas, são muito evidentes em todo o imaginário “Tolkiano”.

Conclusão
Muito mais haveria por dizer sobre as obras de Tolkien, mas limitei-me quase sempre ao que constava no documentário em causa, e mesmo assim o texto ficou excessivamente longo. Talvez se salve por estar dividido por temas e por serem muitos os fãs de Tolkien que  não dispensaram tudo aquilo que se possa registar e escrever sobre o assunto – apesar deste texto ser uma pequena epopeia...
Tolkien, apesar de ter partido e sido influenciado pela mitologia antiga, é o pai da ficção fantástica “medievalesca”, misturando os valores da Alta Idade Média com a magia e fantástico da mitologia das culturas nórdicas, ainda que com pitadas de inspiração judaico-cristã. Sem ele dificilmente o género seria aquilo que conhecemos hoje.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Mediterrânico – A estranheza de um clima pouco apto para a Agricultura


Em Portugal, como em qualquer outro país de clima predominantemente mediterrâneo, os Invernos são as estações mais húmidas e frias (ainda que desordenadamente) e os Verões secos e quentes. Por cá [Portugal] podemos pensar que pelo resto do globo os Invernos e Verões, a nível climático, se estruturam de modo semelhante aos nossos, apenas com variações nas quantidades de precipitação e temperatura. No entanto, o clima mediterrâneo é tudo menos comum na terra: apenas 3% do globo apresenta um clima do tipo mediterrânico (Bacia Mediterrânica; Costa da Califórnia; Costa central do Chile; Sudoeste da África do Sul; Costa Sul e Sudoeste da Austrália).
Montanhas na Provença - Cezanne
No clima mediterrânico, por mais normal que nos possa parecer – como habitantes de um país marcado por esse tipo de clima -, os Verões são muito singulares, pois é, simultaneamente, a época mais seca do ano. Curiosamente – provavelmente só para nós -, nas restantes regiões subtropicais temperadas, por exemplo, em Washington, que fica à mais ou menos à mesma latitude que Braga, os meses de Verão são os de maior precipitação! Aí, o calor significa mais humidade, e não secura como por cá [Portugal].
Apesar do clima mediterrânico ter muitas vantagens turísticas, pois o calor e a quase ausência de chuva nos Verões são ideais para atividades exteriores, na agricultura a mesma combinação é uma desvantagem, pois a vida vegetal desenvolve-se preferencialmente com humidade e calor em simultâneo – basta lembrar o caso da exuberância das selvas tropicais. Ou seja, no clima mediterrânico, à medida que os meses avançam e da primavera se passa para o verão, as chuvas começam a diminuir. Faltando a humidade e calor em simultâneo, a vegetação e a agricultura, por consequência, tenderá a ser menos favorecida nos países mediterrânicos. Mesmo assim, algumas espécies, tal como as oliveiras e as videiras adaptam-se bem a este clima, tal como todo o tipo de culturas de regadio, garantindo a mão humana aquilo que a natureza não provém.
Poderíamos então dizer que a irrigação resolveria os problemas e obstáculos à agricultura nos climas secos, tal como é o clima mediterrânico no verão. Mas podemos muito bem estar enganados, pois o excesso de irrigação leva à salinização dos solos e à sua consequente infertilidade. Esse fenómeno explica-se pela presença de sais, ainda que em pequenas quantidades, na água doce e que acabam por precipitar e se depositar nos solos, uma vez que o calor faz evaporar apenas a água (alusão direta às salinas). Apesar de ser um processo lento, a salinização dos solos acaba por ser inevitável. Hoje, na Mesopotâmia  muitos dos solos que foram irrigados e férteis durante séculos são agora estéreis. O mesmo parece estar a acontecer em Israel.
Esperemos então que as zonas mediterrânicas não atinjam o mesmo nível de saturação e salinização dos solos existentes já noutras regiões - onde se inclui obviamente Portugal, e mais particularmente o Alentejo. Esperemos que saibamos perceber as nossas limitações e o modo de as ultrapassar, sem soluções que agravem ainda mais as condicionantes naturais. Nem sempre forçar a natureza a uma coisa não natural tem bons resultados – redundâncias e trivialidades à parte. Por vezes a "fatura" vem anos, séculos ou milénios depois...
Nota: Usar o termos Mediterrânico ou Mediterrâneo é indiferente, segundo o sítio da Internet "Cinerdúvidas". Ver mais em: http://www.ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=15372

Referências Bibliográficas:
  • Daveau, Suzanne. 1998. “Portugal Geográfico”. Edições João Sá da Costa.
  • Pereira, Ana Ramos. 2002. “Geografia Física e Ambiente”. Universidade Aberta
  • Ribeiro, Orlando. 2011. “Portugal o Mediterrrâneo e o Atlântico”. Letra livre.
  • Wikipédia. "Mediterranean climate". Consultado em 18 de Dezembro de 2012, disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Mediterranean_climate

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Efeito Borboleta - O Filme


Ao pegar no DVD “Efeito Borboleta” – confesso – preparava-me para o ver já com algumas ideias pré-concebidas em mente. Contava que o filme tratasse algum tema relacionado com  teorias da conspiração, ou então contasse a história de um qualquer pequeno evento, insignificante, que pudesse causar no final do filme um grande e imprevisível acontecimento, contando especialmente que isso fosse uma grande catástrofe. Espera por uma história de traços ficcionais mas que traduzisse uma realidade credível e possível de acontecer na nossa realidade, ainda que pudesse ser "hollywoodescamente catastrófica". Ou seja, esperava que fosse uma demonstração, em grande escala, de um emaranhado de personagens e grandes eventos que envolvessem, de algum modo, o coletivo e a própria humanidade. Mas não se passsou nada disso.

O filme começa por citar um chavão e citação das teorias de Edward Lorenz, que, relacionando-as com a Teoria do Caos, alerta para que:  pequenas mudanças nas variáveis iniciais de sistemas complexos podem resultar em grandes efeitos de grande escala. No entanto, há que lembrar que as teorias de Lorenz eram de cariz climático, sendo a conhecida citação das asas da hipotética borboleta, que provocariam uma tempestade do outro lado do planeta, uma metáfora climática.
Voltando ao filme. Em o “Efeito Borboleta” a teoria do caos é adaptada à vida de um jovem, interpretado por Ashton Kutcher – provavelmente a sua melhor performance no cinema até hoje. O protagonista tem a capacidade de, através de inexplicáveis poderes, modificar acontecimentos e atos que teve no passado, podendo mudar assim o seu presente, no entanto sem controlar todas as consequência efeitos desencadeados por essas pequenas mudanças do passado. Não revelarei mais, mas digo ainda que o filme é rápido e violentamente emocionalmente, surpreendente, com cenas que quase chegam a assustar pela tensão que induzem, e empolgante até um final imprevisível.
Apesar deste filme ser uma tentativa demonstrativa muito parcial e particular das ideias subjacentes à teoria do caos, é um bom filme para exercícios de autorreflexão, que demonstram como atos simples podem condicionar toda uma vida, ou vidas.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Rembrant e o Engano Anatómico


Rembrandt, um dos principais mestres da pintura do século XVII, criou uma série de obras-primas, marcando um género próprio. Apesar da sua pintura, de um modo geral, se inserir no género barroco, de dominar o típico chiarrusco da época - de suposta inspiração no mestre italiano Caravaggio, característico pelos ambientes escuros de iluminação dramaticamente pontual. Apesar de ser marcadamente sóbrio e coerente com a influência Calvinista das Províncias Unidas onde vivia e que se emancipavam da Imperial Espanha, o supostamente sóbrio Rembrandt, opondo-se aos adornos e elementos faustosos do pintor Rubens que não muito longe servia pela arte os interesses do poder aristocrático e católico, demonstrou ser um artista criativo e até talvez irreverente
Lição de Anatomia - Rembrandt
Uma das curiosidades do trabalho de Rembrandt é tão visível  num dos seus quadros que facilmente passa despercebida.  Na obra "A Lição de Anatomia", o mestre holandês retrata uma cena típica do seu tempo, época em que desenvolveu a génese daquilo que seria o "espírito cientifico . No entanto, retratou anatomicamente mal o corpo do autopsiado! A mão direita do corpo é  retratada mais como uma "mão esquerda" de um braço demasiado comprido. Como explicar isto? Seguramente não foi engano. Estará aqui o início do quebrar de regras que séculos mais tarde caracterizaria a história da pintura? Será um ato de crítica disfarçado? Será Rembrandt percursor do modernismo, surrealismo, ou outro qualquer "ismo" onde a criatividade e a capacidade de espantar tenham lugar. No fundo, talvez fosse só uma artista a tentar libertar-se das amarras do formalismo e das regras para dar lugar à criatividade, mesmo que fosse ele próprio a limitar-se - como acontece em tantos de nós.
Seja como for, a "Lição de Anatomia" é, no mínimo, paradoxal, podendo ser muito mais coisas, ou não fosse uma peça de arte, e como tal dependesse – como dizia Hegel - do público para quem foi criada, das suas perceções e sensações que nele desperta.

Referências bibliográficas

  • Farthing, Stephen. "1001 Paitings you need to see before you die". Octopus, 2011.
  • Hegel. "Estética". Guimarães Editores, 1993.
  • Schwanitz, Dietrich. "Cultura - Tudo o que é preciso saber". Dom Quixote, 2012


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Pirâmides pelo Mundo – Uma Razão Técnica


Muito se tem especulado sobre a razão (ou razões) pela qual as culturas antigas construíram pirâmides. Numa análise global pela história da arquitetura monumental da humanidade, comprova-se que várias civilizações e culturas, em épocas históricas e em geografias diferentes, por vezes em qualquer relação entre si, construíram pirâmides monumentais. 
A Pirâmide de Caio Céstio em Roma - Jean-Baptiste Lallemand
Independentemente das funções e significados políticos, sociais e religiosos, tendo em conta a tecnologia que essas sociedades detinham, dificilmente poderiam ter feito outro tipo de construções. A construção de grandes estruturas estava limitada à tecnologia e materiais existentes. Em pedra, dificilmente se poderia construir algo monumental e de altura considerável que não fossem pirâmides ou formas piramidais. Pois, como se sabe, por mais resistente que seja um tipo de pedra, apesar da boa resistência à compressão, dificilmente aguenta grandes esforços de tração e flexão. Logo, dificilmente se conseguiria fazer algo de imponente em altura que não fosse respeitando as propriedades naturais das pedras - enquanto elementos singulares que são empilhados e ligados para gerar um todo sólido, de base mais larga que o topo
Do ponto de vista da mecânica de solos o fenómeno físico que demonstra o porquê das formas das pirâmides é bem conhecido: depende e relaciona-se com a propriedade ou parâmetro de “ângulo de atrito interno”. Esse tal ângulo é aquilo que define a inclinação que se forma quando se despeja areia num monte, as inclinações dos planos imaginários tangentes às superfícies. Dependendo do tipo de areia ou solo (e extrapolando para a pedra), o monte que se forma, com um hipotético despejo, apresenta um determinado ângulo, definido entre as superfícies tangenciais do próprio monte. De um modo simplista, representa o ângulo que garante a estabilidade estabilidade que um monte de uma determinada areia (solo ou inerte), ou seja, pode-se considerar como o valor quantificável da quantidade de atrito entre as partículas que impede que o hipotético monte se desmorone por ação da gravidade
Assim, mesmo que os antigos construtores das antigas pirâmides, um pouco por todo o mundo, não compreendessem a característica do ângulo de atrito interno, percebiam perfeitamente qual o ângulo que garantiria estabilidade a uma determinada pirâmide, muito provavelmente em relação aos montes que se poderiam construir, em estabilidade, de um determinado tipo de pedras.
No antigo Egipto há provas destes testes falhados e de sucesso de protopirâmides. Algumas ruíram, noutras o design foi sendo aperfeiçoando até se chegar àquilo que conhecemos como as pirâmides clássicas, e que se correlacionam com a teoria de solos do ângulo de atrito interno.
Na antiguidade tentou-se construir muitos outros tipos de estruturas (de relembrar que entre os primeiros monumentos estão os montes de terra e pedras - as mamoas ou tumuli), mas aos nossos dias chegaram apenas as mais sólidas, e essas são, sem dúvida, as pirâmides. Por isso, do ponto de vista estrutural e construtivo, a opção da monumentalidade estava muito condicionada, daí certas formas serem incontornáveis, tal como as leis da física o ditam. Se assim não fosse, os elementos mais altos do mundo não teriam a forma que têm: as montanhas seriam mais parecidas com torres do que com pirâmides.

Referências de documentários:
  • Out of Egipt - http://dsc.discovery.com/tv/out-of-egypt/

Bibliografia:
  • Cardoso, J. L. “Pré-História de Portugal”. Verbo, 2002.
  • Fernandes, M. M. “Mecânica dos Solos – Conceitos e Princípios Fundamentais”. FEUP Edições, 2011.
  •  Llera, R. R. “Breve História da Arquitectura”. Editorial Estampa, 2006.


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Linhas de Wellington – As linhas de vida cruzadas de uma sociedade em fuga


Sempre que um filme português, sobre Portugal ou feito por portugueses, se destaca, de algum modo, tento aborda-lo aqui no blogue. Muitos me escaparam com certeza, mas “As Linhas de Wellington” não podia deixar de por cá passar.
No primeiro impacto, no filme, impressiona o rol de atores e atrizes - verdadeiramente impressionante. Conseguiram juntar: Jonh Malkovich, Catherine Deneuve, Michel Piccoli, Isabelle Huppert, Marisa Paredes, Melvil Poupaud, Chiara Mastroianni, Vincent Perez, e muitos outros intérpretes estrangeiros. Do lado dos portugueses são de destacar: Nuno Lopes, Adriano Luz, Soraia Chaves. Tantos nomes sonantes, de tantas nacionalidades, que deve ter sido difícil reunirem todos eles. Provavelmente valeu nesse admirável feito o prestígio de quem pensou inicialmente no filme, mas que não teve tempo de o ver nascer antes de morrer – Raoul Ruiz morreu em 2011, tendo sido a sua esposa, Valeria Sarmiento, auxiliada por Paulo Branco, a realizar o filme. Apesar de algumas grandes performances, nem todas são assim tão boas, especialmente as de alguns atores que, apesar de contínuos desempenhos fracos, continuam a ter papeis aqui e ali. Mas Escolhendo o desempenho que mais surpreende pela positiva: parece que o filme foi feito a pensar em Victoria Guerra, ou então a jovem atriz é realmente muito talentosa.
Passando ao enredo. O filme retrata a caminhada das gentes do centro de Portugal e dos exércitos Luso-Ingleses desde a Batalha do Buçaco até à segurança das Linhas de Torres Vedras, desenhadas e pensadas por Wellington – o comandante das tropas que defendiam Portugal, e que mais tarde derrotaria Napoleão em Waterloo. Apesar na vitória luso-inglesa no Buçaco, civis e militares vêm-se obrigados à fuga, descendo o mais rápido que podem rumo a sul, fugindo do colossal exército do Marechal Massena - comandante da terceira invasão francesa, que tinha como objetivo controlar de vez Portugal. Essa caminhada forçada é descrita e recriada através da visão dos seus vários participantes, soldados e toda una sociedade que seguia em fuga. São cruzadas histórias de vida, relatados os dramas e dificuldades de quem viveu e foi sujeito àquele negro período da nossa história. Estas Linhas de Wellington poder-se-iam chamar as “Linhas de vida dos Fugitivos de Massena”. A ação do filme é lenta, tal como aquela longa marcha de fuga, em tempos que a tração animal era o mais veloz dos meios de transporte terrestres. O desenrolar dos acontecimentos é polvilhado de episódios de forte carga emocional e outros de forte dimensão poética.
Tirando um ou outro apontamento não muito conseguido no ambiente e cenário de recriação, um ou outro mau desempenho de um ou dois atores, e também alguns diálogos que parecem desajustados da mentalidade e cultura dos primeiros anos do século XIX português, estamos perante um bom filme! Recomendável de ver, especialmente para os Portugueses, sendo um bom modo de ver cinema de qualidade, feito cá, e de aprender algo sobre e com a nossa história.

sábado, 27 de outubro de 2012

Investir na Bolsa – A Ilusão da Superioridade Individual Perante o Mercado


Por vezes é, mesmo, preciso ler uma ideia escrita para depois essa mesma ideia, desconhecida e encoberta até então, se tornar evidente e clara. Um livro, como haverá muitos mais, onde se divulga um infindável rol de ideias é o “Pensar, Depressa e Devagar”, de Daniel Kahneman, psicólogo vencedor do prémio Nobel da Economia. A obra é um verdadeiro marco – grande em todos os sentidos, pois consta com mais de 500 páginas -, um compêndio de exemplos e explicações sobre economia comportamental, segundo a visão da psicologia social.

Os Amantes - Magritte
Uma das ideias fortes do livro, com vários estudos a demonstraram, defende que, em muitos casos, para situações de incerteza considerável, não há especialista e informação que valha: normalmente a sorte é quem desempenha o principal papel. Esta posição é polémica, mesmo entre a comunidade científica. No fundo, o autor tentar alertar para os constantes enviesamentos e erros de perceção na tomada de decisão, mesmo entre os mais sabedores e experientes, considerando que isso é próprio do modo como funciona o pensamento humano (ou cognições) - podendo ser dividido um conjunto de dois sistemas, um mais imediato e simples (mas potencialmente erróneo), e outro mais aprofundado e moroso (mas altamente consumidor de "energia").
O caso dos investimentos em bolsa é um dos exemplos trazidos pelo autor para demonstrar como, por vezes, os especialistas tomam decisões, supostamente sustentadas, mas com resultados completamente aleatórios, sem o admitirem (sem admitirem enviesamentos). O autor vai mais longe: acaba por, com as suas palavras, nos fazer refletir sobre a própria condição humana. Kahneman leva-nos a refletir e questionar sobre: o que leva os corretores e investidores, tendencialmente em pé de igualdade entre pares, a pensarem que sabem mais que os restantes negociadores em bolsa? Quando alguém vende assume que a ação irá descer, esperando que o comprador pense o contrário; e quem compra assume e segue pelo caminho exatamente oposto, esperando o contrário do vendedor. Entre amadores e curiosos que se aventuram na bolsa seria de esperar que façam erros de investimento, mas o mesmo não será  aceitável para especialistas, pelo menos em condições "normais". Podemos até lembrar um dos princípios da teoria económica clássica, de onde se conjetura que os mercados e os atores económicos são racionais nas suas escolhas – supostamente, é claro. Então não seria racional admitir que, estando nas mesmas condições - de um modo aproximado é claro -, os nossos semelhantes e concorrentes saberiam o mesmo que nós? Não seria essa posição, no mínimo, um sinal de humildade? Supostamente, a eficiência dos mercados levaria que a margem dos preços fosse mínima, pois quem vende falo-ia pelo valor justo e no sentido da compra o mesmo aconteceria. Mas, como comprova Kahneman, as decisões humanas, mesmo as económicos, são, por vezes, muito pouco racionais.
Na sua suposta arrogância intelectual, o filósofo Sócrates só poderia rir  enquanto, hipoteticamente, diria algo do género: só sei que nada seimas saberão eles que sabem muito menos do que pensam, sabendo todos o mesmo, e equilibrando-se enquanto grupo assim?
Sempre fomos condicionados pela nossa soberba, pelos mercados e pelas decisões, e parece que iremos continuar a ser, com ilusões de sabedoria altamente enviesadas. Os resultados estão à mostra, ou talvez não, pois estas palavras podem ser apenas ser mais um enviesamento de perceção e análise.

Referências bibliográficas:
Kahneman, Daniel. "Pensar, Depressa e Devagar". Temas e Debates, 2011.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

"A Vida de Brian (Life of Brian)" - História de um filme Irreverente

A Vida de Brian” é a segunda longa-metragem de cinema dos Monty Python. Depois de sucessos que abalaram e mudaram para sempre o humor, com a série Flying Circus exibida na BBC entre 1969 e 1974 e filme “Monty Python e a Busca pelo Cálice Sagrado” de 1974, os Monty Python arriscaram em cinemas de humor como nunca se tinha visto. Em 1979 ousaram levar a sua irreverência humorística mais uma vez ao cinema, e dessa vez com uma sátira refinada, ainda que tendencialmente absurda e até parva, sobre temas religiosos! Não é que não o tivessem já feito por diversas vezes, nos seus muitos sketchs, mas em “A Vida de Brian” essa seria a razão de ser de todo o filme. Ainda se especula o que os terá levado a entrar em tal arriscada aventura. Há quem diga que a ideia surgiu por acaso, fruto de um desabafo de Eric Idle e Terry Gilliam, que, depois de infindáveis pressões dos Media para que se soubesse qual seria o seu próximo filme, disseram um dos primeiros nomes que lhes veio à cabeça: “Jesus Cristo – A Busca pela Glória (ou, O Deseja de Glória)”. Estranhamente ou não, em 1978, todo o grupo decide fazer umas férias de trabalho nos Barbados, nas caraíbas, e de lá surge a ideia final para um segundo filmes, com Jesus como tema principal.
Excerto de cena polémica do filme, com crucificados cantando

A EMI, que tinha assumido o financiamento do filme quando todas as outras grandes companhias o tinham recusado, depois de ver o guião desistiu também da ideia. O filme era demasiado vanguardista, ousado e arriscado! Por isso, reconhecendo o valor das ideias dos Monty Python, George Harryson – ex-beatle – mobilizou a comunidade artística britânica, formou uma nova produtora – “Hand-Made Films”, e conseguiu assegurar os 4 milhões de dólares necessários para que o filme se fizesse. Foi um exemplo de mobilização e voluntariado, sem precedentes, entre os artistas da época, por um projeto polémico, criativo e inovador.
A estreia do filme caiu como uma bomba! As polémicas foram imensas. Em muitas locais foi apelidado de blasfemo. Deu origem e infindáveis debates e discussões, o que trouxe ainda mais notoriedade à obra. Os Monty Python envolveram.se nos debates e tentaram defender-se das acusações públicas de blasfémia por parte de algumas comunidades e instituições religiosas. Os Python defendiam que a sátira era para com todas as pessoas e acontecimentos que se criaram e formaram em torno da vida de Jesus, e não para com próprio Jesus, seus princípios e filosofia. Para os Python, o filme, acima de tudo, servia para criticar o fanatismo e as visões afuniladas. O filme serviria, através do humor, para “abrir mentes” e defender a liberdade religiosa e de opinião, com respeito pelas liberdades filosóficas e religiosas de todos.
Hoje, “A Vida de Brian” é considerado uma das melhores comédias de sempre, um marco do cinema que contribuiu para o debate sobre a liberdade de crença – seja ela qual for – e do próprio humor. O Filme destacou-se também pelo movimento voluntário de artistas, decididos a contribuir para um projeto artístico e intelectual que acreditavam ser importante e merecedor de ser visto e apreciado por todos. Por fim, é também um hino ao otimismo e de como a atitude positiva perante a vida pode ajudar em qualquer situação!

Fontes:
  • "Os Monty Python - Autobiografio pelos Monty Python". Oficina do Livro. 2007
  • Documentário: "Monty Python: Almost the truth (Lawyer's Cut)"

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Enciclopédia - O Monumento do Iluminismo

A praticamente todas as épocas históricas conseguimos, direta ou indiretamente, associar monumentos, construções humanas ou obras de arte incontornáveis. Algumas dessas criações quase as definem e servem de ícones e marcas desses momentos históricos.
O Iluminismo foi marcante para a sociedade ocidental, e até para o mundo que se foi encurtando e aproximando nos séculos seguintes (especialmente depois da industrialização e do colonialismo). Dessa importante época história o principal monumento, na aceção do termo e sua relação com objeto ou coisa que serviu e serve para recordar na memória coletiva (Choay, 2010), não foi um edifício, conjunto urbano, obra de arte plástica ou afins. O principal, e mais importante, monumento que nos legou o Iluminismo foi a Enciclopédia (Schwanitz, 2012). Ou seja, um objeto. Não de arte, mas de saber!
Experiência de Um Pássaro Numa Bomba de Ar - Joseph Wright of Derby
Nessa época de transição, e que levou em muitos sítios, mas especialmente em França, à revolução, esse livro foi incontornável. Aliás, nesse mesmo e noutros formatos, ainda continua a ser – veja-se a importância das enciclopédias online. Consciente, ou inconscientemente, a Enciclopédia pretendia deter todo o conhecimento da humanidade, de um modo ordenado e de fácil consulta. Seria a “bíblia da ciência” – paradoxos à parte -, acessível e universalista. Para certos autores e pensadores (Schwanitz, 2012) a Enciclopédia tinha, para além disso, como objetivo substituir a própria Bíblia: substituir o obscurantismo da religião de então pela nova ciência, pelo positivismo do novo empirismo que ajudava a desvendar os mistérios do mundo. Vontades de substituição da religião pela ciência à parte, isso não significava, nem de perto nem de longe, que os iluministas fossem ateus. Poucos, ou quase nenhuns, o eram de facto. De um modo geral, não negavam Deus, até porque precisavam de uma entidade para explicar o início e a ordem do universo, a razão de todas as regras e leis que comprovavam e registavam. Os iluministas eram, tendencialmente, deístas (visão de Deus como arquiteto/planeador das regras do universo, mas não como agente interventivo e presente num mundo que se foi desenvolvendo pelas suas próprias regras) em oposição a posição tradicional teísta (Deus como ser que criou e intervém constantemente no universo) da religião instituída.
Hoje, esse grande monumento do Iluminismo persiste. Ficou a herança de ordenar e catalogar o conhecimento. Não se substituiu a bíblia, por várias razões que nem dependem da qualidade enciclopédias que se foram criando. Muito pelo contrário, até parece que a enciclopédia ajudou a criar mais bíblias, pois contribuiu para o banalizar do nome, tornando-o um adjetivo. Nos nossos dias existem enciclopédias e bíblias de tudo e mais alguma coisa, num especificar cada vez maior do conhecimento, sendo o termo “bíblia” aplicado para um livro importante de uma determinada área do saber – há bíblias para tudo e todos os temas, no sentido de ser um livro “quase sagrado”, de tão importante que pode ser no tema em causa.
Para além do contributo científico e cultural que foi a enciclopédia, e para além do universalismo do conhecimento que permitiu, ela demonstrou que não existem livros infalíveis – ou não tivessem as enciclopédias e bíblias erros como todos os outros livros e escritos por mão humana.

Referências Bibliográficas
  • Choay, Françoise. “Alegoria do Património”. Edições 70. Lisboa, 2010.
  • Schwanitz, Dietrich. “Cultura – Tudo o Que é Preciso Saber”. Dom Quixote. Lisboa, 2012.


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Uma Estátua a Lúcifer?

Em Madrid, num dos seus mais importantes e monumentais jardins da cidade, existe um monumento em honra de uma figura muito pouco habitual, sendo talvez mesmo o único no mundo. No Jardim do Bom Retiro, perto no coração de Madrid, existe, já muito adentro do próprio jardim, um monumento com uma estátua estranha. Essa estátua em bronze, de finais do século XIX, representa, de um modo dramático, o Anjo Caído, ou seja, Lúcifer. Esta descoberta é de surpreender, ou talvez não. Apesar do forte catolicismo de Espanha, sempre houve rasgos criativos de artistas espanhóis capazes de ir quebrando as normas - basta pensar na história da arte espanhola e os exemplos serão muitos. 
De qualquer dos modos, esta pode ser vista como apenas mais uma manifestação de origem judaico-cristã , semelhante a tantas outras, pois o episódio do Anjo Caído é Bíblico. No entanto, junto à estátua, existe uma marca topográfica altimétrica no pavimento. Ora, essa marca assinala, precisamente, um ponto de cota de 666 metros acima do nível do mar, que em Espanha se regista em Alicante. Como se sabe esse número seria o, igualmente Bíblico, "Número da Besta", o número que assinalaria os seguidores da Besta, Lúcifer ou Satanás antes do Juízo Final. Hoje sabe-se que o número da besta, de acordo com uma tradução mais correta e recentes investigações, é o 616 (ver artigo relacionado), mas, de qualquer dos modos, o significado mantêm-se. 
Será então  este monumento realmente um estátua de honra a Lúcifer?

Anjo Caído no Jardim do Bom Retiro - Fotografia do autor

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Hard Candy - Drama Psicológico Sexual Distorcido


Hard Candy é um daqueles filmes que marcam! Primeiro, no filme, apesar de ser desempenhado por um rol de 5 personagens, praticamente toda a ação é encarnada apenas pelas duas personagens principais. São elas que dão toda a alma (e corpo) ao filme, é da interpretação superior dos dois atores que este filme, com um enredo originalmente bem desenhado, se constrói. O ambiente, tal como o número de personagens verdadeiramente ativas, é bastante restritivo, pois o filme desenrola-se, praticamente todo, numa luxuosa casa de arquitetura contemporânea, que se permite a uma fotografia própria com cenas visualmente muito interessantes.
Este é um filme de enganos, de reviravoltas e de sequências de cenas surpreendentes. Trata-se o tema da pedofilia, com as duas personagens a criarem um drama psicológico muito intenso, onde transpiram de tensão, e nós com elas.
Ellen Page demonstra, mais uma vez, ser uma incrivelmente talentosa atriz, apesar da idade. Incrível como são tantos os filmes onde as suas interpretações se destacam, sendo neste a sua performance levada ao auge do bom. Parece até que a história foi feita propositadamente a pensar nela, ou simplesmente engana-nos por ser uma atriz tão talentosa.
Apesar de tudo, Hard Candy, é um filme intenso, emotivo e capaz de nos prender, um doce cinematográfico com amargos agridoces psicológicos, de humor negro e expiatório, demonstrando o pior e o melhor da condição humana.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Introdução à História – Uma obra sem ponto final de Marc Bloch

Este último ano teve, sem dúvida, uma leitura que me marcou. Não se trata de ficção, romance ou conto. O título do livro diz tudo: “Introdução à História”. Com um nome tão direto e quase cru, direcionado para um área tão específica do saber, o mais provável é não despertar um interesse generalizado, e até parecer estranho ser aqui referida. Este título, quase quadrado, esconde um conteúdo único muito eclético. O próprio livro e o autor têm uma história para além da história, da história que pretendem querer introduzir. Esta obra de Marc Bloch - importante historiador medieval do século XX – tem a sua própria história, escrita num dos períodos mais negros da história do século XX. Nesse labor, do conhecido historiador, é dado o passo para uma “nova história”, termo que a própria história registará como nova abordagem ao estudo e análise da própria história enquanto ciência.
Marc Bloch - David Levine
Fonte
Marc Bloch, neste, como em mais escritos da sua autoria, e em consonância com outros companheiros historiadores do seu tempo que seguiam a mesma tendência, quis mudar o modo como se contava, registava e fazia história – a historiografia não seria mais a mesma. Queria que a história deixasse de abordar e tratar apenas os grandes feitos, os grandes líderes, as grandes coisas. Queria que a história passasse a estudar toda a sociedade, também os pequenos feitos, os indivíduos comuns, a sociedade no seu todo, algo que nos fizesse aproximar mais do passado, com uma visão apropriada ao Homem real. Bloch queria que na história passasse a constar o todo, e não o particular que alguém decidiu destacar no passado, por razões várias. Bloch defendia que a história devia ser mais um exercício de reflexão e criação que propriamente de acumulação acrítica de conhecimento passado. Esta nova forma de ver o passado foi revolucionária para a História, e tem hoje claras influências na sociedade contemporânea. Emancipou o Homem na história, e permitiu que o estudo da história fosse dinâmico e passível de novas construções para o presente e futuro. Fez com que a história se relacionasse com as outras ciências de um modo pluridisciplinar e fosse uma das bases de planeamento para o futuro.
Introdução a História” é uma obra inacabada, Marc Bloch nunca a terminou… Não lhe permitiram dar o ponto final no seu magistral trabalho. Muito mais haveria para escrever, tal como o próprio autor planeara. Marc Bloch foi fuzilado em 1944. Bloch era judeu, tinha sido soldado na primeira Guerra Mundial, e quando a França fora ocupada pelos Nazis abandonou o mundo académico e alistou-se na Resistência Francesa. Durante a Guerra foi capturado, torturado pela Gestapo, e executado por ordens de Klaus Barbie, o conhecido oficial das SS e da dirigente da Gestapo.
Da obra inacabada surgiu a oportunidade de fazer jus ao autor e continuar o seu trabalho. Muitos historiadores o fizeram, muitos continuaram a fazer história, abraçando-a como “nova”. Por ironia do acaso, e do papel que o próprio Marc Bloch deixou na história, hoje temos todos ao nosso dispor uma obra inacabada para continuar a escrever a nossa história.
Nota: este texto foi criado propositadamente para o blogue "7 Autores", a convite de Silvia Alves, mas como a temática se enquadra âmbito deste espaços, decido publica-lo aqui também.

domingo, 16 de setembro de 2012

Após Acordo Ortográfico a maioria das visitas ao Blogue veem do Brasil

O mais recente acordo ortográfico, que entrou em vigor em 2009 em Portugal (1.1), gerou desde então, ao longo de um processo moroso que começou muito antes (1.2), grande discussão e contestação. 
Do lado dos detratores do acordo defende-se, entre muitas posições, a descaracterização da Língua Portuguesa, e o seu afastamento para com as suas origens históricas. Do lado dos defensores do acordo empunha-se o estandarte da oportunidade de crescimento da língua, dos espaços e mercados do português como língua muito mais universalista. No fundo, as mudanças, via acordo ortográfico, aproximariam o português dos vários países de língua oficial portuguesa, dando-lhes escala em todos os sentidos, potencialmente alargando o próprio grupo da lusofonia. A isso juntar-se-lhe-ia todo o potencial económico associado decorrente do alargamento e criação de um mercado cultural único para os vários países, ou seja, haveriam muitos mais leitores e os custos de publicação e divulgação seriam reduzidos.
Bem, ambas as posições são, no mínimo, defensáveis, mas ainda haverá - com certeza - muita discussão sobre este assunto, e só o tempo revelará que as previsões se concretizarão.
Baile Popular -Di Cavalcanti
A experiência aqui do blogue, no que toca à escrita segundo o novo Acordo Ortográfico, tem sido reveladora: desde que os textos começaram a ser publicados segundo o novo Acordo Ortográfico o número de visitas vindas do Brasil subiu exponencialmente, sendo hoje o país de onde mais se visita A Busca pela Sabedoria. Obviamente que este exemplo não é representativo e não serve para provar nada, mas pode servir para refletir. 
No entanto, apesar das vantagens de crescimento do mercado para as publicações em português há um dado curioso que raramente é divulgado. Apesar de existir um novo Acordo Ortográfico com o intuito uniformizar o português falado pelo mundo fora, existem variantes para cada país dentro do atual acordo! No fundo, continua a não haver uniformidade total.
Talvez venha um dia em que o português seja uma língua uniforme mundial ou então que desapareça para dar origem a outras línguas. Ninguém saberá isso, até porque a Língua Portuguesa nunca foi estanque, até porque não nasceu do nada e porque tem, como todas as línguas, uma história de reformulações alterações, divergências e uniformizações.

Fontes:
(1) -Portal da Língua Portuguesa, disponível emhttp://www.portaldalinguaportuguesa.org/acordo.php
(2) - História da língua portuguesa, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_l%C3%ADngua_portuguesa

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Estupidez Humana – Um Ensaio de Cipolla


Lidamos diariamente com a estupidez, pelo menos não temos qualquer problema em, na mais ingénua e despreocupada das análises, classificar e adjetivar comportamentos e ações como sendo estúpidas. Ao enveredarmos por esses ajuizamentos podemos cair, paradoxalmente (ou não), na estupidez. Por mais simples que possa parecer, distinguir entre a estupidez e não estupidez nem sempre é fácil. Pois, nem sempre temos todos os dados, todas as informações e todo o discernimento para tais aventuras cognitivas. As nossas limitações e enviesamentos são muitos, com o pensamento imediato – útil mas por vezes estúpido – a ganhar a melhor perante o sistemático e aprofundado (1) – tendencialmente mais preguiçoso.
Ego - De Chirico
Por tudo isso, e por muito mais, o curioso ensaio de Carlo M. Cipolla intitulado de “As Leis Fundamentais da Estupidez Humana” ganha um particular interesse. Essa obra, tendencialmente bem-humorada, sarcástica, irónica, caustica e crítica tenta simplificar e sistematizar, de um ponto de vista utilitarista, a estupidez humana. Assim, é quase um escrito de intervenção social, conceptual.
Cipolla defende que a estupidez humana é uma caraterística universal, que afeta todos os grupos humanos de igual modo e em igual proporção. O autor dividiu a humanidade, principalmente segundo as ações de influência económico-sociais (privilegiando os efeitos das relações entre indivíduos), em: Ingénuos; Inteligentes; Bandidos; e Estúpidos. Essa divisão é feita através de uma análise custo-benefício, um excelente princípio e ferramenta para quantificar caraterísticas difíceis de quantificar e avaliar.
Passo apenas a citar então, tento em conta as quatro divisões anteriores, a definição que Cipolla dá aos estúpidos (2): “Uma pessoa estúpida é aquela que causa um dano a outra pessoa ou a um grupo de pessoas, sem retirar qualquer vantagem para si, podendo até sofrer um prejuízo com isso". Segundo esses mesmos princípios, então os Ingénuos seriam os se prejudicam a si próprios mas trazem ganhos aos outros (2). Os Inteligentes seriam os que trazem ganhos a si e aos outros (2). Por fim, os Bandidos traziam ganhos próprios à custa de prejuízos para os demais (2).
As quatro categorias, aplicando-as a um gráfico de dupla escala ortonormado cartesiano (com um eixo a representar os ganhos próprios e o outro os custos ou danos), definem quatro quadrantes. Assim, de um modo muito simples – talvez até demasiado simples, mas mais que adequado pois trata-se de um ensaio tendencialmente humorístico, não científico e exaustivo -, recorrendo a geometria básica, catalogam-se os comportamentos da humanidade, e seus efeitos. Esta construção e ordenação seria de extrema utilidade caso a estupidez se conseguisse evitar, pois, tal como a define o autor, ser estúpido resulta, de um modo absoluto, na introdução de perdas na Humanidade, vista como um sistema económico-social onde se podem considerar as várias facetas da humanidade. 
O livro “Allegro ma non troppo” contém ainda um divertido ensaio sobre a história da Europa, tendo o gosto, consumo e busca pela pimenta como força motriz dos principais acontecimentos. Mas é na segunda parte, no ensaio sobre a estupidez que a obra ganha uma outra vertente. Não se podendo obrigar ninguém a ler ou a apreciar as letras – e ainda bem -, pelo menos pode-se sugerir. Desse modo, recomendo fortemente a leitura deste livro, especialmente porque estes pequenos excertos de “As leis fundamentais da estupidez humana” são apenas partes de um texto muito mais divertido e rico. Estupido será, podendo, não ler… Pois, é imensa a nossa capacidade para ignorar a nossa ignorância (1), ou estupidez… Neste caso (2), ignorar a estupidez, pode ser extremamente danoso, especialmente para os outros!

Referências Bibliográficas
1 –Kahneman, Daniel. “Pensar, Depressa e Devagar”. Temas e Debates, 2012
2 – Cipolla, Carlo M. “Allegro ma non troppo – seguido de as leis fundamentais da estupidez humana”. Edições Textografia, 2008.

domingo, 2 de setembro de 2012

A Busca pela Sabedoria faz 3 anos!

Já passaram três anos desde que me estreei na "blogosfera".  Na altura, essa aventura começou como uma necessidade de escapar ao mundo cinzento e quadrado da vida quotidiana e às rotinas profissionais, quase sempre limitativas da busca e análise de conhecimentos universalizantes humanistas. Este blogue foi o primeiro de vários, nele, e por ele, enveredei numa disciplina informar de tentar sistematizar ideias e pensamentos, baseados em leituras e outras aquisições de conhecimentos e experiências várias. Paradoxalmente, acabei por cair numa rotina também, pois ter um blogue exige contínua atualização e introdução de novos textos. Mas como a diversidade dos conteúdos é tão grande, infindável mesmo, a rotina que se criou foi benéfica para o desenvolvimento  e aprofundamento da desejada busca pessoal, a qual queria o mais eloquente possível
Três pares de sapatos - Van Gogh
Três anos passados, quase 150.000 visitas e mais de 200 textos depois, a vontade é de não parar, de continuar - haja tempo para poder colocar em "blogue" tudo aquilo que me vai parecendo ter interesse para esta busca. 
A Busca pela Sabedoria vai ganhando maturidade, e provavelmente em breve será a altura para tentar novas realizações e etapas. Pode ser que um dia, se se concretizarem algumas propostas, do blogue nasça algo mais palpável e físico. Quem sabe?
Aproveito para agradecer a todos os visitantes, pessoas que têm comentado os textos, que me têm corrigido  erros que sempre vão aparecendo e feito sugestões de todo o tipo: Muito obrigado! Agora é tempo de "mudar de botas" e me pôr novamente a caminho desta busca. Até breve, até próximo post!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Compêndio de curiosidades e tradições sobre casamentos


No ano passado, por volta desta altura, decidi, por razões particularmente pessoais, fazer uma pesquisa informal pela Internet sobre curiosidades e tradições associadas directamente e indirectamente aos casamentos. Assim resultou um pequeno compêndio de duas páginas destinado a encher com outros conteúdos algumas mesas. Muitas destas informações são mitos ou interpretações erróneas, algumas perto da verdade ou do que se sabe historicamente, outras são meras fantasias criadas para dar sentido a alguns comportamentos- ainda que tenha feito alguma filtragem. De qualquer dos modos, verdade ou mito, algumas destas explicações são divertidas e curiosas o suficiente para que sejamos levados a investigar sobre a sua veracidade. Fica então o dito compêndio, ordenado alfabeticamente. Agora é uma questão de investigar, ficando aqui a possibilidade para comentar, refutando ou reforçando com fontes credíveis, para quem quiser entrar nessa busca.
O Casamento - Adrien Moreu

Alianças
As alianças de casamento e de compromisso são usadas no quarto dedo, porque outrora no Egipto se pensava que uma veia nesse dedo estava directamente ligada ao coração. A aliança representa um circulo, ou seja, uma ligação perfeita entre o casal. O círculo representava para os Egípcios a eternidade, tal como o amor, que deveria durar para sempre.

Algo velho, novo, emprestado e azul
O ditado, "Algo velho, algo novo, algo emprestado e algo azul” é usado desde os tempos Victorianos. O “algo velho” representa os laços da família e a sua vida passada; "Algo novo" representa a sua nova vida juntos e os seus desejos de felicidade, prosperidade e sucesso; "algo emprestado" de uma mulher casada e feliz para emprestar a boa sorte; e "algo azul" representa a felicidade e a constança.

Atirar Arroz
A tradição de atirar grãos de arroz sobre os noivos, após a cerimónia nupcial, teve origem na China, onde um Mandarim quis mostrar a sua riqueza, fazendo com que o casamento da sua filha se realizasse sob uma "chuva" de arroz.

Brindes e bebidas
No Japão, o casal de noivos bebe 9 goles de sake, tornando-se marido e mulher a partir do primeiro gole.
Na China, a cor do amor é o vermelho, durante a cerimónia do casamento, o casal bebe vinho com mel de dois copos atados com uma fita vermelha.
As noivas do Médio Oriente pintam motivos henna nas suas mãos e pés para as proteger do mau-olhado. 
Os franceses muitas vezes fazem brindes num copo especial com duas pegas, especial para os noivos.

Beijo
Nos tempos romanos, o beijo selava o acordo do casal de assumir um compromisso para a vida.

Bolo de Casamento
A tradição do bolo de casamento remonta à antiga Roma, onde na cerimónia de casamento se partia um pedaço de pão sobre a cabeça da noiva para o bem da fertilidade.
O bolo da noiva é, desde há séculos, um símbolo de boa sorte e de festividade. No tempo dos Romanos, a noiva comia um pedaço de bolo, e exprimia o desejo de que nunca lhes faltasse o essencial para viverem.
A tradição do "tradicional" bolo de casamento empilhado, partiu de um jogo, onde a noiva e o noivo tentavam beijar-se por cima de um bolo, que se tornava cada vez maior, tentando não o derrubar.

Bouquet da noiva
O bouquet da noiva tem origem medieval. Nesta época, as mulheres levavam ervas aromáticas para afugentar os maus espíritos. Pouco a pouco, o ramo da noiva tornou-se um hábito em todos os casamentos e, com a passagem do tempo, acrescentaram-se significados às diferentes flores.
O bouquet pode ter surgido também na Grécia como uma espécie de amuleto contra o mau-olhado e, na sua confecção, era utilizado o alho.

Chover no casamento
De acordo com a tradição hindu, chover no dia do casamento é considerado um sinal de sorte.

Damas de Honor
As testemunhas, ou damas de honor exigidas num casamento romano, protegiam a noiva, vestindo-se de maneira semelhante a ela, enganado assim os maus espíritos, evitando o mau olhado e a inveja.

Dar o Nó
A expressão “dar o nó” vem de antigas tradições relativas aos casamentos Egípcios e Hindus, onde as mãos da noiva e do noivo são literalmente atadas, demonstrando o seu laço de união.

Diamantes
Diamantes sobre ouro ou prata, ficaram muito populares a formalizar um compromisso, devido aos Venezianos o terem feito, por volta início do século XVI.

Danças
Na Turquia, antes da noiva sair do local da cerimónia, pede às suas amigas solteiras para escreverem os seus nomes na sola dos seus sapatos. Depois da noite de dança, a tradição dita que a assinatura da pessoa que estiver mais gasta será a próxima pessoa a casar.

Data para casar

A popularidade dos casamentos em Junho descende da deusa Romana Juno, que era o deusa do casamento, do nascimento e do coração.
No Brasil, o mês preferido também é Maio, provavelmente, pela referência de Maya, Maria, mãe.

Despedidas de solteiro
As despedidas de solteiro foram originadas pelos soldados Espartanos, que se despediam dos seus dias de solteiros com uma festa desconcertante.
Em Portugal o típico vestido de casamento, antes do século vinte era tradicionalmente preto.

Evitar casar em família
Na tradição católica originalmente usava-se anunciar o casamento, afixando a intenção dos noivos, para assegurar que estes não eram família.

Flor na lapela
A tradição do casamento de o noivo usar uma flor no fato origina dos tempos medievais quando os cavaleiros usavam uma flor para simbolizar a pessoa amada como prova do seu amor. 

Levar a noiva ao colo

Os romanos carregavam a mulher no colo ao levá-la para casa, para evitar que ela tropeçasse, o que significava mau presságio.

Lua-de-Mel
A Lua-de-mel tem origem no povo germânico, pois era costume se casar na Lua Nova. Na cerimonia, os noivos bebiam uma mistura de água com mel para proporcionar boa sorte. 
O costume também poderia ter nascido em Roma: os convidados pingavam gotas de mel na porta de entrada da casa dos noivos para que estes tivesse uma "vida doce". 
Os judeus acreditam que casar na Lua Crescente é prenúncio de felicidade.
Outra opção é termo lua-de-mel vir também do tempo em que o casamento era um rapto, muitas vezes contra a vontade da rapariga. O homem apaixonado raptava a mulher e escondia-a durante um mês (de uma lua cheia até à outra) num lugar afastado. Durante esse período, tomavam uma bebida fermentada, à base de mel, que devia durar 28 dias, o tempo do mês lunar. 
A lua-de-mel, tal como a conhecemos hoje, tem origens nos hábitos ingleses do século XIX. O recém-casado passava uma época no campo para se libertar das obrigações sociais

Posição dos Noivos
A razão da noiva ficar sempre do lado esquerdo do seu noivo tem a sua origem nos anglo-saxões. O noivo, temendo a tentativa de rapto da noiva, deixava sempre o braço direito livre para tirar a sua espada.

Roubar a noiva e bater o pé
Na Finlândia existe a tradição do  roubo da noiva, feito pelo padrinho do noivo. Para a reaver, não necessariamente sóbria, o noivo terá de completar com sucesso uma ou mais tarefas. Também na Finlândia existe a tradição do "bater do pé": o casal deve bater o pé (com força) no momento em que a faca toca o fundo do prato do bolo. O primeiro a bater o pé demonstra logo aí quem manda em casa.

Sorte e Fertilidade

As ferraduras são consideradas objectos de boa sorte num casamento devido à sua forma em lua, que se diz símbolo da fertilidade.
Na Alemanha, a noiva transporta sal e pão no seu bolso para assegurar recompensa, o noivo transporta grãos de cereais, para dar saúde e sorte.
Os ingleses acreditam que se a noiva encontrar uma aranha no vestido de casamento, esta trará sorte ao casamento. 
Na Holanda planta-se um pinheiro fora da casa dos recém-casados, símbolo de fertilidade e de sorte.
 Uma noiva sueca costuma colocar uma moeda de prata oferecida pelo seu pai e uma moeda de ouro oferecida pela sua mãe, em cada sapato, assegurando que ela nunca passará sem eles.
Na Índia, o irmão do noivo atira com flores sobre o casal no fim da cerimónia para os proteger do mal.
No Egipto, para dar boa sorte, as mulheres egípcias beliscam a noiva no dia do seu casamento.
Na África do Sul, ambos os pais da noiva e do noivo, transportam fogo, simbolizando o fogo que passa dos seus corações acendendo um novo fogo no coração dos recém-casados.
As mulheres marroquinas tomam um banho de leite para se purificarem antes da cerimónia do casamento.

Vestido de Noiva
A tradição ocidental do vestido branco foi iniciada em 1840 em Inglaterra pela Rainha Victoria, no seu casamento com o príncipe Alberto. No Japão, o branco foi utilizado para as noivas, muito antes da Rainha Victoria o ter popularizado no mundo ocidental.
Na Dinamarca, as noivas e os noivos tradicionalmente trocam as roupas um com o outro, para confundir os maus espíritos.

Véu e grinalda da Noiva
O uso do véu da noiva era um costume da antiga Grécia. Os gregos acreditavam que a noiva, ao cobrir o rosto, ficava protegida do "mau-olhado" das mulheres e da cobiça dos homens. Tinha ainda um significado especial para a mulher: separava a vida de solteira da vida de casada e futura mãe. Hijab (véu), quer dizer, em árabe, "o que separa duas coisas".
O uso da grinalda permitia que a noiva se distinga dos convidados, fazendo com que se pareça com uma rainha. Tradicionalmente, quanto maior a grinalda, maior é o símbolo de status e de riqueza.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa