quinta-feira, 24 de março de 2011

Cuidado com a Língua: a origem da palavra Camarada

No primeiro episódio da 7ª série do programa Cuidado com a Língua (com conteúdos da autoria e responsabilidade  de José Mário Costa *) , exibido no passado dia 21 de Março de 2011, são, como habitualmente nas anteriores séries, estudadas e apresentadas as origens etimológicas, as semânticas e as grafias de várias palavras da nossa língua. Felizmente a RTP voltar a apostar neste verdadeiro programa de serviço público, algo de especial importância em ano de vésperas de implementação do Acordo Ortográfico - pois as dúvidas e falta de informação são mais que muitas.
Quarto em Ainmillerstrasse - Kandinsky
 Mas foi uma palavra tratada nesse programa que me fez escrever aqui este texto. Trata-se da palavra Camarada, que segundo essa peça televisiva tem como origem o termo Castelhano Câmara. O termo começou a ser usado em tempos medievais entre homens de armas que partilhavam a mesma câmara, ou seja, partilhavam o mesmo quarto ou abrigo. Então, aqueles que partilhassem o mesmo quarto ou câmara, que até podia ser uma tenda ou qualquer outro abrigo, intitulavam-se a eles próprio e pelos outros de camaradas. O termo Camarada passou e foi adaptado às demais línguas europeias e ainda hoje é utilizado nos meios militares e políticos. A associação ao meio militar é mais que óbvia, isto porque o inventou e pelo tradicionalismo que é próprio a esse meio. Já nos meios políticos essa designação está associada aos partidos de esquerda, muito provavelmente por questões ideológicas (defesa do cooperativismo, do comunitarismo, da fraternidade e da igualdade) e/ou pela própria ascensão e génese dessas tendências políticas que, mais ou menos militarizadas, sempre se assumiram como forças de luta, nem que fosse social.São várias as fontes que corroboram estas palavras [1] [2] [3] [4].
Parece que apenas a esquerda italiana não usa o termo, preferindo campagni, pois os fascistas italianos adoptaram primeiro o termo camarati. Esta excepção pode justificar-se pelo forte pendor militarista do partido fascista italiano, no entanto não consegui descobrir qualquer fonte que corroborasse isto.
Uma fonte em especial [5] vai mais atrás e aponta a origem para a própria palavra câmara. Segundo essa fonte, câmara deriva da palavra grega  Kamára que é o nome de uma parte dos navios, uma parte abobadada. Mas tendo sido a única fonte encontrada a fazer esta referência há que deixar ressalvas adicionais e evidencias a falibilidade dessa associação ao grego antigo.

Voltando aos nossos dias, e tentando deixar uma pergunta final para reflexão, tocando no próprio sentido de existência e organização da humanidade em sociedades: precisará esta nossa sociedade contemporânea de mais camaradas e camaradagem em oposição a colegas e colegismos (que são aqueles que partilham apenas ofícios e actividades, sem que a isso se associe qualquer laço afectivo, emocional ou filantrópica)?

Notas:
* Este texto foi corrigido pois detectou-se que o instituto Camões [6] não tinha qualquer participação neste magazine, a informação inicial tratou-se de um lapso. O autor, José Mário Costa, fez chegar essa informação aqui ao blogue via "a sua opinião". A correcção foi feita de imediato. Aproveito para agradecer a correcção.

Fontes:
[1] http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=15808 
[2] http://www.answers.com/topic/comrade 
[3] http://www.pstu.org.br/teoria_materia.asp?id=6091&ida=0 
[4] http://www.etymonline.com/index.php?term=comrade 
[5] http://origemdapalavra.com.br/palavras/camarada/
[6] http://cvc.instituto-camoes.pt/aprender-portugues/a-falar/cuidado-com-a-lingua.html


sábado, 19 de março de 2011

Mais um filme de Emir Kusturica: A Vida é um Milagre

Tendo referido aqui no blogue o filme Gato Preto, Gato Branco, de Emir Kustorica, não posso deixar passar a oportunidade de escrever também sobre a obra A Vida é um Milagre do mesmo autor, pelo menos enquanto o filme ainda me está fresco. Neste caso o facto de estar a opinar com as imagens e sons bem vivos na memória é essencial. Pois, como a grande maioria dos filmes de Kusturica, A Vida é um Milagre é um frenesim de cor e música. Uma miscelânea de humor e drama tresloucado e caracterização social de um povo, região e determinados eventos histórico-sociais.
"Paisagem infernal" bósnia - Mirza Ajanovic
 Se em Gato Preto Gato Branco a acção se passa na Servia à beira rio Danúbio e seus barcos, num ambiente humano étnico muito ligado ao mundo cigano, em A Vida é um Milagre tudo circula em torno da ferrovia e dos comboios, retratando a mistura cultural e étnica da Bósnia. Retrato esse da mistura e ambiente imediatamente antes, durante e depois do conflito do inicio dos anos 90 que levou, mais tarde, à independência da Bósnia. Quem não conhece, como eu, essa realidade, muito própria, dificilmente poderá atestar a veracidade dos conteúdos e ambientes, mas, mesmo sendo tudo pura ficção, depois de ver este filme, efectivamente somos levados a sentir que viajamos pela Bosnia.
Quem pretende ver este filme, que é um tanto ou quanto longo, tem de se preparar para uma viagem desvairada – talvez ainda mais do que em Gato Preto Gato Branco -, de ambientes e acontecimentos improváveis, sempre acompanhados pela mais que célebre Banda do próprio Emir Kusturica.
Mas se quisermos simplificar o enredo, este filme não é mais do que duas histórias de amor vividas pela mesma pessoa: o amor por um filho e o amor por uma mulher.

terça-feira, 15 de março de 2011

Serão as Redes Sociais um perigo intelectual?

Parece que lá nos confins da Grécia Antiga, lá para os lados da Atenas Democrática, Sócrates, aquando do auge da influência de em vida, dizia temer a escrita. Parece que o filósofo tinha receio de que a o acto de escrever e ler, em vez do falar e reflectir sem auxiliares físicos, contribuísse para que as pessoas ficassem esquecidas. Ou seja, como podiam escrever tudo, não tinham de exercitar a memória. Curioso é que conhecemos estes receios de Sócrates porque Platão usou da temida escrita para nos legar essas informações. 
Os condutores - Fernand Léger
 
Hoje, e a propósito de um artigo da revista Super Interessante, intitulado de "Dissidentes Digitais", da edição mensal de Novembro de 2010, alguns pensadores e investigadores temem também os efeitos da tecnologia na intelectualidade, mais propriamente as Redes Sociais e a própria Internet.
Segundo esse artigo Nicholas Carr adverte para os "efeitos devastadores nas nossas aptidões cognitivas" e para a redução drástica da "capacidade de concentração". Refere-se que Jaron Lanier considera a capacidade de qualquer um fazer divulgações, e interacções por comentários ou outros, torna difícil de reconhecer o talento dos criadores e a qualidade do que se produz. Ainda no mesmo texto Lee Siegel é apresentado como o mais incisivo dos detractores das Redes Sociais, desvendando porventura o cerne das críticas negativas: "a Web 2.0 [onde se incluem as redes sociais] destrói a autoridade dos especialistas e afecta de uma forma muito negativa o progresso da sociedade e da cultura".
Mas parece que nem todos os opinantes destes assuntos, pelo menos os que o artigo revela, se opõem às novas possibilidade da Web 2.0. O texto refere Michael  Agger que considera muitas das ideias anteriormente citadas como o reflexo de uma elite que teme perder a importância e peso intelectual que detinha até há pouco tempo. Agger considera positiva a democratização da rede e todas as possibilidades de partilha e troca de ideias que permite.

Todo o tipo de receios acerca da Web 2.0 não devem seguramente ser ignorados, havendo muitos que fogem para além das temáticas aqui tratadas, nomeadamente a segurança de menores e a privacidade quando é inconsciente e irreflectida. No entanto, do ponto de vista da informação, há que ter em conta a qualidade dos conteúdos que vamos partilhando. Os padrões mínimos terão de ser estabelecidos pelos próprios utilizadores da rede. Isto será verdadeiramente um reflexo democrático e que pode potenciar o espírito crítico e intelectual, uma vez que terá de ser cada utilizador  a fazer o filtro entre o que pode ter interesse e qualidade.

Já não é primeira vez que refiro aqui no blogue a necessidade de haver cada vez mais formação para lidar com toda a informação que nos chega, especialmente se pensarmos que isso está também relacionado com o próprio exercício da cidadania em democracia - a cidadania só é plena quando informada. Sendo parte dessa informação e saber, que do meu ponto de vista interessa cultivar, a capacidade de não temer a tecnologia e dela tirar o melhor proveito, tal como fez Platão na altura quando começou a usar a escrita para registar filosofia. Quão pobres estaríamos se não se Platão, tal como muitos outros, tivesse temido a tecnologia?

sábado, 12 de março de 2011

Crítica ao filme "o discurso do rei

Que dizer sobre “O Discurso do Rei”? Tratando-se do aclamado vencedor dos Óscares 2011 uma quantas letras, aparentemente ordenadas, acerca do filme não serão de todo desajustadas.
Este filme tem os ingredientes adequados para ganhar pelo menos um Óscar, isso parece-me óbvio, mas são também alguns dessas mesmas características que podem fazer cair este filme na banalidade. Mas comecemos por aquilo que provavelmente lhe deu o Óscar: trata-se de mais um filme supostamente baseado em factos reais – algo que fica sempre bem e que aparentemente dá outra pertinência à fita que se gasta; trata-se de um filme de época – mais um apelo aos que apreciam um viagem histórica, mesmo que não apreciem um estudo metódico dessa área; tem excelentes desempenhos por parte dos actores, especialmente do protagonista – sendo essa performance potenciada pela existência de um “Handicap” característico da personagem, neste caso o gaguejar; o enredo desenrola-se segundo as expectativas dos espectadores – a história retrata o herói que passa de um estado de negação e falta de auto-confiança para chegar e salvar o dia, isto ajudado por um relacionamento, inicialmente condenado ao insucesso, com outro herói secundário, mas que acaba por dar em amizade e admiração. Ou seja, nada de novo a nível cinematográfico...

Este meu discurso pode parecer muito crítico e até azedo, mas até apreciei bastante o filme e verdadeiramente penso que merece ser visto. No entanto, parece-me que o filme peca por alguma falta de originalidade no modo como está organizada a acção. No fundo, tirando as magníficas representações e o recriar dos ambientes de época, tem um certo sabor a banalidade… 
De qualquer dos modos, vale a pena ver o vencedor dos Óscares de 2011!

domingo, 6 de março de 2011

"Psicologia" - a facilidade e leviandade de uma classificação

Há uns dias acrescentou-se um separador de classificação aqui dos textos que sempre tentei evitar: Psicologia. Não por considerar a área de pouca importância, muito pelo contrário. Evitei-o simplesmente por, mesmo não tendo qualquer formação na área, ter a noção de que é com a maior das facilidades e superficialidade que se considera algo como de "psicológico" ou "psicologia", especialmente por parte nos curiosos da área. Agora, também aqui no blogue muito provavelmente se errará ao identificar e associar alguns textos à psicologia quando no fundo retratam apenas sentimentos, reflexões e tudo aquilo que define a Condição Humana
O Campo de Marte - Marc Chagall
 Para além da consciência para tentar evitar a  natural propensão  para o erro de classificação uma correcção exige-se. Alguns dos textos inicialmente classificados como de "psicologia" passaram a agora, depois de um exercício de correcção, a constar numa nova categoria (no caso do blogue um novo separador): Reflexões. Esta opção não evita o erro, apesar de minimizarem-se assim dificuldades de classificação de alguns textos - ou quase disparates  - que por cá se vão escrevendo. Até porque uma má classificação é meio caminho andado para nos perdermos na "busca pela sabedoria".

sexta-feira, 4 de março de 2011

Filme: "O Homem que não estava lá"

"O Homem que não estava lá", ou o "Barbeiro" - uma tradução nada literal esta última -, é mais um filme de Ethan e Joel Coen - os famosos irmãos Coen - que aqui trago ao blogue. Este filme de 2001 ganhou nesse mesmo ano o prémio de melhor director do festival de Cannes
 
O filme é integralmente filmado a preto e branco, os planos e o enquadramento são magistrais, mas ainda melhor que isso são os contrastes e a luz - algo que transparece mais provavelmente por ter sido filmado conjugando apenas duas cores "antagónicas".
A banda sonora, que utiliza muito das sonatas de Beethoven, compõe ainda mais o filme e dá-lhe um travo sonoro especial delicioso.
 
Mas para além da parte técnica da filmagem e sonoplastia, o filme vale a pena também pelo desempenho da personagem principal, como o actor (Billy Bob Thornton) consegue encarnar numa personagem que se quer propositadamente expressiva sem demonstrar grandes expressões durante a acção. Ao nível do enredo, eu diria que se trata da descrição pessoal, por parte da principal das personagens, com o intuito da compreensão do seu próprio papel na história e o próprio sentido e razão de tudo o que aconteceu, ou seja, a razão do própria história do filme que vive muito da intimidade da personagem central. O facto da obra ser a "preto e braco" acentua ainda mais o facto de se poder considerar um filme de época, passado no final dos anos 40 do século XX. 

Pensar sobre o que transmite "O Homem que não estava lá", leva-me questionar sobre quantos de nós não olham para trás, analisando a própria vida, os acontecimentos, escolhas e fortuitos na tentativa de encontrar um sentido para o fim?
 
Divagações à parte, esta é mais uma obra dos irmão Coen a ver e desfrutar.

terça-feira, 1 de março de 2011

A noite dos Mortos - um documentário de "nuestros hermanos"

"Dia dos Mortos" é o título de um documentário espanhol que passou no Canal de História - um exemplo de documentário de boa qualidade não anglo-saxónico que por lá vai aparecendo. Este trabalho documental apresenta alguns eventos históricos e heranças culturais em torno da Morte e da criação e um dia (e noite) a ela dedicada. Na "Noite dos Mortos" envereda-se, através de uma retrospectiva histórica dos costumes, por tentar transmitir qual o significado e impacto que a Morte teve, e ainda tem, no imaginário individual e colectivo, no modo como esse medo/fascínio foi moldado e moldando as sociedades ao longo dos séculos até às tradições de hoje. As celebrações em torno da Morte variaram e alteraram-se conforme a cultura ou a religião dominante num determinado período histórico/sociológico. O documentário trata o tema tendo principalmente as terras da Espanha (da actualidade) como pano de fundo, mas acaba também por permitir tecer alguns paralelismos com a nossa realidade [portuguesa] e até com todos os restantes países Ocidentais.
O Jardim da Morte - Hugo Simberg
 Vamos à Historia e as histórias propriamente ditas sobre a Morte. O documentário começa por referi a herança celta. O dia 1 de Novembro era o dia de ano novo celta - Samhain - o , onde terminava o ano da luz (Primavera e Verão) e começava o ano  das trevas (Outono e Inverno). Nesse dia consultavam os antepassados, através de médiuns para pedir conselhos. Ao que parece, pelo menos em Espanha (havendo há provas escritas da idade média), faziam-se nessa noite cabeças de nabo com velas no interior para assustar os desprevenidos da noite e as crianças iam em grupo pedir comida às casas dos vizinhos. Dai a relação com o actual Halloween. Quem nunca viu estes costumes, ainda que seja com abóboras, num filme made in USA?
Mais tarde, com o advento do cristianismo, depois das perseguições do século IV, por parte do imperador Diocleciano, e por terem morrido tantos mártires pela sua fé, criou-se um dia para os honrar a todos - na prática não havia já dias de calendário para tantos santos. Criou-se assim o dia de Todos os Santos, na altura celebrado no dia 13 de Maio. No entanto, no século VIII o dia de todos os santos passa a celebrar-se no dia 1 de Novembro, isto com o claro objectivo de suplantar e acabar com a importante e popular celebração celta Samhain, anteriormente descrita. Esta "usurpação" foi muito semelhante ao que aconteceu no dia 25 de Dezembro (ver mais aqui).

À medida que o documentário vai rolando vão sendo referidas muitas tradições associadas ao culto da morte que ainda se praticam por Espanha nos nossos dias. Uma delas parece-me digna de referir por ser verdadeiramente bizarra. Na localidade galega de As Neves todos os anos se realiza uma procissão em honra de Santa Marta Ribarteme, que acontece em 29 de Junho na localidade galega,  onde, desde o século XVIII, pessoas que passaram por experiências de quase-morte desfilam em caixões abertos como pagamento de promessas.

Mas nem tudo é mórbido neste documentário. Aliás, eu diria até que o documentário de mórbido tem pouco, pois está elaborado de tal modo que o tema, apesar de sério e potencialmente pesado, acaba por se tornar leve e agradável, mesmo para os mais susceptíveis. Será algo que espanhóis conseguem mas que aos portugueses fica vedado por estarmos tão habitados a fados e a um modo melancólico de ver a vida e a morte?

Vejam-se então alguns exemplos de epitáfios gravados em lápides que se podem encontrar pelos cemitérios de Espanha, comprovando o bom humor (negro) de "nuestros hermanos":
•    "que conste que eu não queria";
•    "estou aqui contra vontade";
•    "estou morto, volto já";
•    "o meu ultimo desejo: vão-se lixar";
•    "aqui jazes e fazes bem, descansas tu e eu também";
•    "perdoem que não me levante";
•    "volto mais tarde";
•    "quando nasci todos riam e eu chorava, quando morri todos choravam e eu ri - é o que dá a marijuana";

Créditos do documentário "A Noite dos Mortos":
Produtor - Pedro Lozano,
Produção - Maureen audetto
Acessória histórica - Mercedes rico
Câmara e fotografia - Sergio acero e David Arasa
Guião e realização - Regis Francisco López

Textos mais visitados do mês - Fevereiro de 2011

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa