segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Espadas Papais - o poder politico/religioso e as espadas

As Espadas, pelo menos desde o final do Império Romano do ocidente, quando as culturas nativas do centro e norte da Europa começaram a redefinir o que seria posteriormente o Ocidente, tiveram, para além do cariz militar, uma função de distinção social para quem as possuía.  
Homem sentado com uma espada e flor - Picasso
 Soberanos, descendentes das antigas tribos a quem os Romanos chamavam Bárbaros e que criaram os seus próprio reinos no vazio político que se formou a seguir à queda do império, praticavam uma espécie de Culto da Espada. Usualmente, esses Reis ou Senhores poderosos locais, ofereciam espadas como sinal de distinção para com os seus vassalos que lhes prestavam grandes e meritórios serviços - basta lembrarmo-nos do episódio de "armar  um cavaleiro", algo tão recorrente, por exemplo, no cinema histórico.  A Espada, nessa altura, estava associada à nobreza de carácter, estatuto social e até à virilidade - nas sociedades ocidentais europeias que se formaram no inicio da idade médias, os guerreiros (nobreza) estava no topo da pirâmide social.
Muitos heróis medievais, ou pré-medievais, míticos ou inspirados por personagens reais, foram imortalizados pelos romances cavalheirescos medievais. Até nós chegaram também o nome das suas espadas - sinal da importância destas ferramentas de fazer guerra e pelejar. Por exemplo: Siegfried lutava com a sua Balmung, Ogier com a Courtain, El-Cid com a Tizona e o Rei Artur com a famosíssima Excalibur.
Mas o uso das Espadas, enquanto atribuição de uma espécie de "medalha de mérito", não estava apenas generalizada pelo soberanos ditos laicos. O Papado, o herdeiro da burocracia e cultura do Império Romano do Ocidente - o único poder internacional que conseguia dar alguma unidade ao mundo Medieval Feudal -, entre o século XI e XIX atribuiu as suas próprias Espadas Papais. As Espadas Papais caracterizavam-se por  ser "armas de lâmina longa usadas por pontífices como símbolo de respeito e admiração por parte, essencialmente, dos chefes militares que estes julgavam merecedores do título de "defensores da fé" (...)"(2). Consta que "era tradição que as espadas fossem benzidas pelo papa no dia de Natal, e, durante séculos, era raro que este dia passasse sem que algum governante ou herói militar fosse honrado desta maneira" (2). O culto das espadas estava muito enraizado, tal como a sua ligação à Igreja Católica (ou por outro lado, a igreja é que também se associou ao cultos dos descendentes das tribos bárbaras - uma aculturação, intencional ou não), que, através da sua estrutura burocrática - que poderíamos ver como um espécie de continuidade do império romano do ocidente - a quem todos, apesar de terem alguma autonomia política, deveriam respeitar e prestar tributo físico e espiritual.
Claramente, hoje as Espadas ainda são vistas como objectos de distinção, mas não me parece que, numa sociedade em que o catolicismo (ou outro tipo de cristianismo) supostamente se separou do Estado e que essas mesmas religiões apelam agora à paz e ao fim dos confrontos armados - pelo menos as religiões maioritárias praticadas no Ocidente -, fosse aceitável que se oferecesse, como sinal de distinção religiosa, algo relacionado com as artes bélicas. Mas não nos podemos esquecer que as espadas sempre foram mais do que instrumentos de corte ou estoque

Fontes: 
1 - A queda de Roma e o fim da civilização - Bryan Ward-Perkins  
2 - Espadas, Adagas e Alfanges - Gerard Weland

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa