segunda-feira, 9 de agosto de 2010

'Quando Nietzsche Chorou', mais que um romance

Depois de passado um ano ou mais sem ler um romance ou qualquer outra obra do género ficcional, aproveitei o sol, o mar e o ambiente veraneante mais dado aos pensamentos emocionais para ler algo não documental. Aproveitando também o facto de me ter sido oferecida uma obra sui generis intitulada de ‘Quando     Nietzsche chorou’ – literatura ficcional fruto da escrita de um professor universitário da Universidade de Stanford da área da psiquiatria médica com especial gosto por filosofia – pareceu-me mais que adequado optar por essa obra para as “férias literárias”. Nesse livro, escrito pelo professor Irvin D. Yalom, são reunidas na Viena do final do século XIX, através de um enredo ao jeito do género literário do romance, várias personagens históricas (Breuer, Nietzsche, Freud, etc.). São estas personagens e os seus diálogos, enriquecidos e que ganham profundidade emocional e intelectual devido aos conhecimentos técnicos e académicos do autor, que fazem com que esta obra de ficção se demarque e quase se aproxime do ensaio psicológico/filosófico.
 As duas personagens principais – Breuer e Nietzsche – vão criando, e aprofundado entre si, uma relação de cumplicidade e partilha intelectual: grande parte da obra é dedicada aos diálogos entre Breuer e Nietzsche e à descrição das meditações e pensamentos individuais de ambos, sem esquecer também os importantes contributos de outras personagens secundárias como é o caso de Sigund Freud. Yalom consegue juntar numa ficção Breuer e Nietzsche (que na verdade nunca se conheceram), conciliando assim as duas áreas do saber que os distinguiram através de uma simbiose capaz de cativar um público generalista e não especialistas em psicologia e filosofia. Esta natural relação entre estas duas áreas do saber é facilitada pela abordagem comum à condição humana e a leitura torna-se fácil pela introdução de dilemas pessoais e sociais que nos podem ser tão próximos.
Destaco também neste original livro as notas finais do autor por permitirem esclarecer o que é ficção e o que não é. São identificadas as referências e os dados históricos reais e os que foram criados especificamente para dar forma e coerência ao romance. Esta feliz e pertinente opção do autor vem de encontro ao que tenho vindo a defender: a necessidade de, numa obra de ficção, informar os leitores ou espectadores do que é documental e do que foi premeditadamente criado ou readaptado como fruto do processo criativo em causa. 

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa