terça-feira, 31 de agosto de 2010

'Um cérebro de cada lado': um texto que é mais que uma opinião

Segundo Platão, na sua obra "A República", a opinião, de acordo com a sua própria definição - algo muito próximo do palpite e suposição infundada -, pouca ou nenhuma validade tem quando usada numa discussão ou na transmissão de saber. Isto porque, segundo o filosofo, a opinião é quase sempre insustentada e fruto de emoções e gostos do opinante - nota-se aqui um vislumbre da defesa do empirismo cientifico. No entanto, recorrendo a uma visão mais moderada, penso que nem todas as opiniões estão ao mesmo nível, havendo algumas que devem merecer a nossa atenção. Um exemplo disso é o texto que aqui trago ao blogue. José Luís Pio Abreu, psiquiatra e professor universitário de medicina, autor da obra 'Como tornar-se um doente Mental' brinda-nos com um livro que é um compêndio de artigos de opinião publicados no jornal gratuito 'Destak'. Dessa obra, intitulada de 'Estranho quotidiano', trago aqui um texto que é mais que uma  mera opinião, é uma opinião com fundamentação cientifica - devido a formação académica do autor - e escrita de um modo bastante apelativo. Aqui fica o texto:
Baudelaire, Edgar Poe, Mallarmé e Fernando Pessoa - Júlio Pomar
"Um cérebro de cada lado
Se perguntar o que é que nos distingue dos macacos, pode ficar com esta: nós temos dois cérebros, eles não. Os nossos antepassados símio distinguiram-se dos outros mamíferos por terem os braços independentes das pernas. Nós, para além disso, separámos o lado direito do lado esquerdo. E separámo-los para quê? Para deixar o braço e a mão direitos, bem como a perna e o pé, esculpirem o mundo: pela escrita, desenhos, obras, projectos, regras, teorias ou mesmo pontapés.
Ficámos assim com dois cérebros. O esquerdo – que está ligado ao lado direito do corpo – ficou preenchido pelo mundo. Não necessariamente o mundo que existe ou que mais importa, mas o que construímos na relação com os outros. É feito com palavras, imagens, regras e teorias. Em contraste, o cérebro direito vela por nós: pelas emoções, pela intuição, pelos significados entre si e têm de se entender. Mas podem existir conflitos, a ponto de um dos lados ter de anular o outro.
Nos esquerdinos, os lados estão invertidos sem que ocorram problemas de maior. Mas a existência de grandes confusões entre direita e esquerda não é boa para a saúde mental, pois deixamos de saber quem somos.
As mulheres têm o cérebro menos assimétrico, talvez porque, durante milénios, lhes foram negados os trabalhos externos. Assim, o mundo ocupa-lhe parte do cérebro direito, e as emoções também correm pelo lado esquerdo. Por isso, as mulheres são mais agarradas à terra – à casa, aos filhos. Os homens alternam entre estarem agarrados à terra – às mulheres – e vivem nas nuvens."

Espero que este texto seja um bom cartão de visita para a leitura das obras de J. L. Pio Abreu e um aperitivo capaz de fazer despertar o apetite pela leitura integral dos restantes textos deste 'estranho quotidiano'. O texto 'Um cérebro de cada lado', em primeira instância, e mais do que a utilidade que aqui lhe dou como introdução ao livro,  transmite também uma série de conhecimentos e levanta uma série de questões - capazes de animar uma qualquer discussão - sobre a biologia e psicologia humana, tal como o modo como nos relacionamos. 
Fernando Pessoa - Júlio Pomar
P.S. (Esta constatação de um cérebro bi-partido levanta muitas questões sociais e psicológicas mas fico-me por uma literária: em quantas partes se dividiria o cérebro de Fernando Pessoa?)

Um ano a tentar "Buscar a Sabedoria"

Faz hoje precisamente um ano que coloquei o primeiro texto no blogue, formalizando e concretizando, através da tentativa da palavra encadeada, a ideia de criar um blogue. Esse projecto que germinava desde as quentes férias de Verão de 2009: foi à beira de uma piscina, fazendo o meu corpo sombra sobre o livro que então lia [Grandes enigmas da História de Portugal, vol.1] –, qual protecção inconsciente sobre o saber, que decidi começar a registar os saberes avulsos e curiosidades com que habitualmente me vou deparando. Quer aqueles resultantes  das minhas leituras, quer aqueles que resultam de qualquer outra experiência intelectual – ou pseudo-intelectual pois algumas só aparentemente o são - ou de qualquer outra forma de aprendizagem.
Tomlinson Court Park I - Frank Stella
 Após um ano a experiência que ficou foi boa – pelo menos  a nível pessoal pela concretização e manutenção do projecto – pois foi possível registar, mesmo com o tempo a escassear, uma grande panóplia de textos sobre uma também grande variedade de assuntos. 
Prometo continuar a escrever - tentando melhorar sempre a escrita por vezes atabalhoada -  e investigar de modo a fazer crescer o blogue – sendo que o prometo primeiro a mim próprio porque o prazer maior da sua existência é sem dúvida meu -, pelo menos enquanto a vontade de mais saber me fizer persistir.
 
Bem, chega de falar de mim e do próprio blogue pois nem num caso nem noutro se faz uma verdadeira “Busca pela Sabedoria”, quanto muito acabei de fazer uma análise e revelação sobre auto-propaganda e de demonstrar um certo espírito de narcisismo consciente na primeira pessoa.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

‘Inimigo às portas’: mais que um filme sobre a 2ª Guerra Mundial

Até hoje nunca aqui transcrevi excertos de diálogos de um filme. Mas no caso do filme  aqui em causa a introdução destas “falas” parece-me ser capaz de suscitar a reflexão sobre alguns dos grandes temas da vida em sociedade (nas últimas décadas) - reflexões sobre a própria condição humana.
Trago aqui um filme de guerra, mais concretamente, sobre uma das mais importantes batalhas da História  – A batalha de Estalinegrado. Apesar de se terem feito muitos filmes e séries sobre a 2ª Guerra Mundial esta rodagem tem a particularidade de não envolver os Estados Unidos da América e as suas beligerâncias e participações nesse conflito mundial. A acção passa-se em Estalinegrado – Cidade rio Volga que controlava e dava acesso aos vastos recursos petrolíferos do sudoeste da URSS -, aquando do cerco Alemão à cidade de Estalinegrado - nomeada assim em "honra" do líder soviético de então (Estaline) -, naquilo que foi uma das primeiras, e provavelmente a maior, das batalhas urbanas de grande escala. O filme intitula-se de 'Inimigo às Portas' e foi realizado por Jean-Jacques Annaud. Nessa obra é-nos relatado aquilo que poderia ter sido a visão Soviética e Alemã – mas principalmente a soviética - da frente Oriental, naquele período crítico em que a URSS este verdadeiramente em risco de ser conquistada e de Hitler dominar uma zona rica em recursos naturais que lhe permitiria no futuro, muito provavelmente, garantir o domínio mundial.
Das lutas e combates urbanos da batalha que serve de pano de fundo ao filme, a acção centra-se na história de um soldado que pela sua mestria se torna franco-atirador e um herói de guerra devido à propaganda soviética. A obra fala-nos principalmente sobre relações e interacções humanas que se poderiam ter proporcionado naquele difícil palco de guerra, entre elas: a amizade, o amor, a coragem, os ideais, a inveja e o ódio.
Deixo aqui então um excerto - uma verdadeira epifania de uma das personagens - que só por si permite uma análise política, social e até outras - independentemente de ter sido proferida num filme, numa obra literária ou até mesmo numa conversa de café. 
Numa das últimas cenas, Danilov (escritor e especialista em propaganda) diz assim para Vassili (o heróis franco-atirador do exercito russo):
“O Homem será sempre o Homem.
Não há um Homem novo, 
Esforçamo-nos tanto para criar uma sociedade de igualdade, 
onde não haveria lugar para invejar o nosso vizinho. 
Mas há sempre algo a invejar. 
Um sorriso… uma amizade. 
Algo que não possuímos e de que queremos apropriar-nos. 
Neste mundo, mesmo no soviético, 
Haverá sempre ricos e pobres. 
Ricos em dons. Pobres em dons."

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Recordar uma música de Carlos Paião: Senhor Extra-terrestre (cantada por Amália Rodrigues)

No dia em que se assinalam os 22 anos desde o desaparecimento de Carlos Paião, trago aqui ao blogue uma música com letra de sua autoria e cantada por Amália Rodrigues. A música aqui em causa caracteriza-se por ser, no mínimo, bizarra. Parece inacreditável que a música intitulada de ‘Senhor Extra-terrestre’ possa ter sido escrita por quem foi, mas mais incrível é que tenha sido interpretada pela diva nacional.
Ainda - Júlio Resende
Mas, se retirarmos o literalismo à letra e a quisermos interpretar munidos de uma grande dose de sentido de humor – fica evidente que Paião e Amália também o tinham – podemos ver nesta música crítica e intervenção social bem-disposta.
Aqui fica o link para ouvirem esta verdadeira preciosidade: 

Imigração ilegal: uma violação da Declaração dos Direitos Humanos

Desde que há alguns anos a esta parte, quando as fronteiras da Europa se começaram a fechar à imigração, especialmente aos fenómenos de imigração em massa que resultaram, entre outros factores, da necessidade de mão-de-obra para reconstruir a Europa do pós-guerra e do fim do colonialismo Europeu, que começaram a transparecer e a surgir acalorados debates em torno das politicas de imigração. Hoje as fronteiras começam a ficar cada vez mais restritas e são inúmeros os processos de expulsão de imigrantes ilegais.
Sem título ( prata cinzenta) - Jackson Pollock
O conceito de “imigrante ilegal”, à luz da Declaração dos Direitos Humanos, é peremptoriamente ilegal - assim sendo uma ilegal ilegalidade - ora leiam-se os seguintes pontos do artigo XIII:
        1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.   
        2. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

Sendo que a Declaração dos Direitos Humanos (DDH) é uma criação das democracias ocidentais (nem todos os países ainda a assinaram), competiria pelo menos a esses países a responsabilidade de aplicarem aquilo que criaram de modo a evitar o paradoxo ou então  ter a coragem de reformular a DDH. São casos como este que tornam esse documento, uma vitória do valor que as democracias idealizavam para os direitos Humanos, numa espécie de ideal utópico irrealizável e impraticável – por mais que não nos agrade admiti-lo…

Dificilmente um país poderá garantir a sua soberania e estabilidade  social interna sem uma política de imigração séria e rigorosa – o que não significa que tenha de ser chauvinista, racista ou xenófoba. Mas nunca nos devemos esquecer que o conceito de imigrante e de natural pode ser muito relativo, pois a grande maioria dos naturais dos vários Estados e Nações que hoje existem são descendentes de imigrantes do passadoem primeira instância, enquanto espécie, somos todos descendentes de Africanos.

No livro ‘A riqueza e a pobreza das nações’ o autor David S. Landes avança com uma teoria que diz - se não me falha a memória - mais ou menos isto: A estabilidade das fronteiras e controlo da imigração por parte dos países ricos e desenvolvidos deveria passar mais pela garantida de melhores condições nos países de origem dos imigrantes que os “invadem” do que em policiamento e no fechar à força das fronteiras.

Landes defende - e não é o único autor ou especialista a fazê-lo pois estas teorias têm vários adeptos e defensores - que o melhor modo de combater a imigração ilegal passaria pela intervenção, pacificação e desenvolvimento dos países de origem dos ditos “imigrantes ilegais”. Afirma que os países desenvolvidos, ao assumirem uma postura de solidariedade e de promoção da equidade e distribuição da riqueza, poderiam melhorar e criar melhores condições de vida para que os naturais desses países estrangeiros, evitando assim a necessidade dessas populações recorrerem à emigração. Estas medidas e tomadas de posição tenderiam também a reduzir e diminuir alguns "tensões diplomáticas" existentes actualmente. 
Pessoalmente parece-me uma teoria interessante e muito cativante, nem que seja pelo princípio de solidariedade humana e internacional em que assenta, mas não será praticável e aplicável ou apenas mais uma utopia?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Hino nacional Português: uma mobilização contra os nossos aliados Bretões

Hoje, especialmente em manifestações desportivas – sendo a mais evidente os jogos da selecção nacional de futebol – ouve-se o Hino Nacional Português num apelo ao sentimento patriótico. ‘A Portuguesa’ – nome dado ao hino português - surgiu como resposta ao Ultimato Britânico de 1890 que obrigou Portugal a abandonar a ideia do Mapa Cor-de-rosa – proposta portuguesa de anexação dos territórios entre Angola e Moçambique de modo a formar um território contínuo de domínio colonial na África subsariana. Portugal viu-se assim forçado a abandonar esta proposta que tinha defendido na Convenção de Berlim (1885-1886) que tinha como mote dividir o continente africano entre as potenciais coloniais Europeias, pois, a ser concretizada, chocava com os interesses britânicos de unirem continuamente os territórios do Cabo (África do Sul) ao Cairo (Egipto) através de uma via-férrea trans-africana. Esta tensão entre Portugal e Inglaterra nada teria de curioso se estes países não fossem históricos aliados – já à data a mais antiga aliança da História. A ligação entre as duas nações remonta a uma série de tratados acordos, o mais antigo que se conhece remonta a 1294, e reforçados pela ajuda militar Inglesa em Aljubarrota (1385) e pelo casamento de D. João I com Filipa de Lencastrer (Lancaster) – pais da Ínclita Geração (D. Duarte, D. Pedro, Infante D. Henrique). Mas esta aliança foi sempre contestada e usualmente diz-se por cá que serviu sempre mais a Ingleses que a Portugueses, tendo até inesperadamente dado origem a alguns conflitos e tensões.
Casamento de D.João I com Filipa de Lencastre - crónica de  Jean Wavrin

Deixo aqui alguns exemplos disso: 
  • saques, pilhagens e assassinatos por partes de contingentes ingleses que deveriam ter ajudado a restaurar a independência nacional contra Espanha em 1589 e colocado D. António no trono Português (tendo esse acontecimento dado origem à expressão “amigos de Peniche” pois foi lá o primeiro local de desembarque dos nossos amigos ingleses); 
  • o impedimento do regresso do General Beresford a Portugal em 1820, pois entre 1815 e 1820 foi ele o chefe do governo provisório (Beresford tinha fora um dos oficiais britânicos a comandar o exercito luso-britânico que derrotou as forças de ocupação Francesas) devido à ausência da família real que ainda se encontrava no Brasil (o rei D. João VI fugiu com a família real para o Brasil de modo a evitar ser capturado pelos franceses, evitando assim a capitulação do país); 
  • por fim, o já referido episódio do Mapa cor-de-rosa.
Em 1890 Henrique Lopes de Mendonça criou a letra e Alfredo Keil a música do que seria o futuro hino da República Portuguesa. Na altura Portugal era uma Monarquia Liberal e devido a uma série de escândalos da família real, à ineficácia do rotativismos dos dois maiores partidos políticos da altura e ao sentimento anti-britânico originado pelo conflito diplomático que humilhava Portugal.
Grupo do Leão - Columbano Bordalo Pinheiro
 Na versão original da obra de Mendonça e Keil, onde hoje cantamos “contra os canhões marchar, marchar!” cantava-se “contra os bretões marchar, marchar!”. A letra foi alterada e depois da implantação da república foi adoptada como hino nacional em 1911. Hoje continuamos a cantar uma música que em tempos serviu de arma e motivação ideológica contra os nossos históricos aliados – mais uma das ironias e curiosidades da História de Portugal.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Umas notas de agradecimentos comemorativas das 5000 visitas

Este texto pouco ou nada tem de divulgação de curiosidades ou saberes. O seu objectivo é tão só de agradecimento a todos os visitantes do blogue, a todos aqueles que contribuíram para as 5000 visitas e para os debates e discussões que se foram formando nos comentários aos textos aqui expostos.
Queria deixar aqui uma ilustração ou imagem que se adequasse a este marco - de pequena importância pois este é só mais um blogue entre tantos, mas que para mim, o autor, representa muito, ou não expressasse algumas das minhas pesquisas e gostos particulares por determinadas áreas do saber e curiosidades.
Surgiu-me então a ideia de recordar aqui as notas de 5000 escudos, criações monetárias nacionais também elas "obras de arte" por direito próprio, especialmente agora que se tornam peças de colecção. Não apresento aqui estas notas (o papel moeda é uma invenção Chinesa  que se pensa ter surgido por volta do século X ou XI para fazer face à falta de metal para a cunhagem de moeda corrente) pelo valor monetário ou económico que têm, mas pelo simbolismo que atribuem a um número, pela concretização em valor tangível desse número que aqui para simbolizar o quão rico se tornou o blogue com todas as visitas e contributos dos "buscadores de sabedoria".
Nota de 5000 escudos de 1983 em honra de António Sérgio
Nota de 5000 escudos de 1987 em honra de Antero de Quental
Nota de 5000 escudos de 1995 em honra de Vasco da Gama

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Inception [A Origem]: um clássico do cinema do século XXI?

Que dizer e escrever sobre o filme ‘Inception’ [‘A Origem’ em português]? 
Apesar de algumas noções científicas erradas, por exemplo aquela ideia plenamente difundida de que não usamos todos o nosso potencial cerebral por não activarmos em simultâneo uma maior percentagem desse órgão (nunca activamos totalmente todas as partes do nosso cérebro porque cada zona tem a sua função e especificidade própria de acordo com a actividade intelectual em causa, sendo que de nada valeria activar todo o cérebro – seria como trazer um barco para atravessar o deserto, um desperdício e perfeitamente inútil para realizar o objectivo em causa) ou noções dúbias e pouco fundamentadas de teorias dos sonhos e do próprio subconsciente, o filme está muito bem conseguido - convém não esquecer que se trata de uma ficção e de uma realidade alternativa. Com certeza não é por acaso que mesmo estando ainda nas salas de cinema é já votado pelos cinespectadores como um dos melhores de sempre.
 Diria também que as personagens estão bem conseguidas, bem desenvolvidas e bem interpretadas. Christopher Nolan, tal como em ‘Batman – o cavaleiro negro’, conseguiu trazer para o cinema de ficção fantasioso e de acção um enredo intrincado e complexo tal como personagens sólidas e de algum modo profundas, tão profundas que as podermos analisar através dos seus próprios sonhos e noção muito própria e cinematográfica do seu subconsciente, ou não fossem esses os temas do filme – Os sonhos e o Subconsciente.
Algumas cenas, especialmente alguns diálogos que deveriam contribuir para a compreensão do enredo, acontecem a uma velocidade vertiginosa capaz de gerar alguma confusão – senti-me verdadeiramente confuso em alguns momentos. Mas isso, aliado às constantes referências simbólicas e pormenores que passam despercebidos à primeira vista podem ser mais-valias para o filme, pois quase que nos obrigam a que o vejamos novamente e que possamos novamente redefinir aquilo que assimilamos e compreendemos numa primeira vez – não duvido que numa segunda visualização possa redefinir melhor a minha opinião. São as múltiplas leituras que a obra nos permite - algo sempre interessante e capaz de fazer gerar a discussão e o debate em torno da sua análise - que envolvem este tipo de filmes com aquela aura de irreverência e originalidade que os torna únicos, pois cada cinespectador provavelmente terá a sua própria interpretação das imagens e sons que presenciou.
Inception tem tudo para ser um clássico mesmo antes de sair das salas de cinema.

Só uma questão para quem viu o filme: afinal de quantos sonhos trata o filme?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Como espirrar na sua língua e responder a um espirro em português?

Tendencialmente, quase que involuntariamente, somo levados a proferir uma das seguintes expressões quando alguém que nos é próximo espirra: “Saúde”; “Santinho”; “Viva”. Actualmente socorremo-nos destas expressões como regras de boa educação, apreço e consideração por quem espirra, sendo óbvio o desejo de melhoras e mais saúde - uma vez que ao espirro usualmente se associa uma qualquer maleita ou estado temporário anómalo de saúde, nem que seja uma insignificante e momentânea irritação.
Pirâmide de caveiras - Cézanne
No entanto, menos óbvia é a expressão “Santinho”. Fazendo uma rápida investigação pela Internet e por alguma bibliografia generalista podemos facilmente chegar a duas possíveis explicações – apesar de não serem conclusivas nem de as fontes disponíveis completamente seguras e fiáveis -, uma que passa por preocupações mitológicas/religiosas e outra ligada a questões físicas e de saúde - ambas com origem na Idade Média. “Diz-se” que na Idade Média existia a crença de que  - provavelmente pela violência e potência que alguns espirros atingem - o coração poderia parar e a alma sair por momentos do corpo, o que obrigava, em jeito de precaução, o cristão mais próximo a abençoar de imediato o enfermo de modo a evitar a entrada nele de maus espíritos, garantindo que a sua alma voltava ao corpo para lá ficar de novo “limpa” de quaisquer influências demoníacas. Menos espectacular e cativante, mas muito mais credível é a outra explicação, que apresentarei de seguida - aquela com base na saúde física e não tanto na espiritual. Naquele tempo [Idade Média], devido aos parcos conhecimentos médicos mas conscientes da associação do espirro à doença, as pessoas tratavam de abençoar de imediato o “espirrante”, garantindo assim as “boas sortes” para que aquele espirro não fosse o resultado de uma enfermidade incurável, tal como a peste negra, o que na altura seria morte certa. Há falta de meios para evitar a doença, diagnostica-la correctamente e prescrever uma verdadeira cura, compreende-se perfeitamente esta e outras práticas, muitas delas apenas com efeitos psicológicos mas que, numa altura de desespero, seriam formas essenciais para manter a esperança e lidar com a doença.

Igualmente curiosa é a onomatopeia (processo de formação de uma palavra por imitação de um som natural [1]) do próprio espirro, sendo que pode mudar significativamente de país para país, mesmo em países com raízes linguísticas semelhantes. Aqui ficam alguns exemplos [2]:
  • Em Árabe é "عطسة"
  • Em Alemão é "hatschi"
  • Em Búlgaro é "апчих"
  • Em Cantonês é "hut-chi" (乞嚏)
  • Em Chinês é "penti" (喷嚏)
  • Em Dinamarquês é "atjuu"
  • Em Esloveno é "kihanje".
  • Em Espanhol é "atchís" e "atchús"
  • Em Francês é "atchoum"
  • Em Hebreu é "apchee"
  • Em Hindi é "chheenk".
  • Em Indonésio é "'hatchi'"
  • Em Inglês é “Atchoo”
  • Em Islandês é "Atsjú"
  • Em Japonês é "hakushon" ou "kushami". Escrito como はくしょん ou 嚏(くしゃみ).
  • Em Letão é "apčī",
  • Em Marata é "shheenka".
  • Em Neerlandês é "hatsjoe" e "hatsjie"
  • Em Norueguês é "atsjo"
  • Em Polaco é "apsik"
  • Em Romeno é "hapciu"
  • Em Tagalo é "hatsing"
  • Em Tailandês é "Hutchew ou Hutchei" (ฮัดชิ่ว or ฮัดเช่ย)
  • Em Tâmil é "Thummal".
  • Em Telugu é "Thummu".
  • Em Turco é "hapşuu"
[1] - http://www.infopedia.pt/pesquisa.jsp?qsFiltro=0&qsExpr=onomatopeia
[2] - http://pt.wikipedia.org/wiki/Espirro

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Três monoteísmos: três ou mais movimentos dissidentes

Por mais estranho que possa parecer, ou até bem evidente mas pouco abordado, os três principais monoteísmos – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – surgiram de movimentos dissidentes religiosos que, a uma determinada altura história, romperam com as tradições do passado: criando as suas próprias práticas, organização,cultos, dogmas, e etc Nem sempre estes movimentos, liderados usualmente por visionários postumamente apelidados de profetas, surgiram de planos para a cisão, muitos queriam penas reformular as religiões existentes mas que acabaram pro criar novas formas de culto. Então vejamos aqui alguns  exemplos para cada um dos monoteísmos:
Premonição - Dalí

  • JudaísmoAbraão que vivia em Ur (importante metrópole da Mesopotâmia) abandonou a cidade (segundo o livro dos Jubileus - considerado um manuscrito apócrifo - Abraão terá na sua juventude adorado ídolos e vários Deuses até que aos 14 anos se tornou definitivamente monoteísta) a mando de Deus e estabelecendo-se, com os seus pertences, família e serviçais, na terra de Canaã – a terra prometida. Criando assim um novo modo de viver a religião, uma nova cultura e “povo”.
  • CristianismoJesus (que era Judeu), segundo os relatos do Novo Testamento, rompe com algumas das tradições e práticas judaicas. Introduz o conceito de perdão e a universalização do monoteísmo de origem judaica, tornando possível, independentemente da etnia ou ascendência familiar, a qualquer pessoa seguir os seus ensinamentos de inspiração judaica mas que pelas novas abordagem e valores originariam uma nova religião. O facto de Jesus se ter intitulado ou de o terem intitulado de ‘Messias’, aquele que as tradições judaicas profetizavam como o último profeta e salvador, e de tal nunca ter sido aceite pela autoridades Judaicas também contribuiu para a divisão religiosa.
  • Islamismo - Maomé rompeu com as tradições politeístas árabes tradicionais que se centravam na cidade de Meca. Para além de renegar o politeísmo optou também por não alinhar pelo cristianismo, considerando-o pervertido e um desvio perante a verdadeira vontade de Deus e até dos ensinamentos originais de Jesus – considerado pelos islamitas um importante profeta mas não como sendo filho de Deus ou o derradeiro profeta.
Apesar do ‘Protestantismo’ ser um dos vários Cristianismo, esse movimento de inicio foi intitulado de “Reforma”, sendo que os seus líderes do movimento a principio não pretendiam a separação da Igreja Católica Romana mas simplesmente reformar aquilo que nela condenavam. Só mais tarde o termo protestantismo foi adoptado. Este é apenas mais um exemplo de um movimento que até se chamava de “reforma” mas que acabou por ser de separação.
Tal como nos exemplos anteriores o que hoje é tradição e sagrado para algumas das mais importantes religiões resultou uma inovação do passado, muitas vezes novidades revolucionárias para a época. Será condição normal das religiões romperem com os preceitos daquelas [religiões] que lhes antecedem e criarem a sua própria ordem e costumes – que se convertem em tradição e cultura – para delas, no futuro, resultarem movimentos de ruptura revolucionários que as diminuem, enfraquecem e até criam novos paradigmas religiosos e culturais?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

'Quando Nietzsche Chorou', mais que um romance

Depois de passado um ano ou mais sem ler um romance ou qualquer outra obra do género ficcional, aproveitei o sol, o mar e o ambiente veraneante mais dado aos pensamentos emocionais para ler algo não documental. Aproveitando também o facto de me ter sido oferecida uma obra sui generis intitulada de ‘Quando     Nietzsche chorou’ – literatura ficcional fruto da escrita de um professor universitário da Universidade de Stanford da área da psiquiatria médica com especial gosto por filosofia – pareceu-me mais que adequado optar por essa obra para as “férias literárias”. Nesse livro, escrito pelo professor Irvin D. Yalom, são reunidas na Viena do final do século XIX, através de um enredo ao jeito do género literário do romance, várias personagens históricas (Breuer, Nietzsche, Freud, etc.). São estas personagens e os seus diálogos, enriquecidos e que ganham profundidade emocional e intelectual devido aos conhecimentos técnicos e académicos do autor, que fazem com que esta obra de ficção se demarque e quase se aproxime do ensaio psicológico/filosófico.
 As duas personagens principais – Breuer e Nietzsche – vão criando, e aprofundado entre si, uma relação de cumplicidade e partilha intelectual: grande parte da obra é dedicada aos diálogos entre Breuer e Nietzsche e à descrição das meditações e pensamentos individuais de ambos, sem esquecer também os importantes contributos de outras personagens secundárias como é o caso de Sigund Freud. Yalom consegue juntar numa ficção Breuer e Nietzsche (que na verdade nunca se conheceram), conciliando assim as duas áreas do saber que os distinguiram através de uma simbiose capaz de cativar um público generalista e não especialistas em psicologia e filosofia. Esta natural relação entre estas duas áreas do saber é facilitada pela abordagem comum à condição humana e a leitura torna-se fácil pela introdução de dilemas pessoais e sociais que nos podem ser tão próximos.
Destaco também neste original livro as notas finais do autor por permitirem esclarecer o que é ficção e o que não é. São identificadas as referências e os dados históricos reais e os que foram criados especificamente para dar forma e coerência ao romance. Esta feliz e pertinente opção do autor vem de encontro ao que tenho vindo a defender: a necessidade de, numa obra de ficção, informar os leitores ou espectadores do que é documental e do que foi premeditadamente criado ou readaptado como fruto do processo criativo em causa. 

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa