segunda-feira, 12 de julho de 2010

Poligamia Muçulmana, uma medida de acção social?

A nós, “Ocidentais”, que vivemos em sociedades influenciadas e organizadas segundo alguns valores Judaico-cristão ou em sociedades que no passado se inspiraram neles, estranhamos e dificilmente compreendemos, apesar dos valores de liberdade e abertura democrática que abraçamos, outros modos diferentes de organizar e viver em comunidade. Um desses casos é o da organização familiar poligâmica, especialmente aquela praticada por Muçulmanos que vivem em países “Ocidentais” ou “Ocidentalizados”, pois são aqueles casos mais tangíveis e de onde a informação e o choque cultural nos chegam e tocam mais pela proximidade.  No entanto, nesta, como noutras diferenças culturais e de valores, antes de tecermos juízos de valor, e mesmo que esse modo de vida possa ser totalmente oposto ao nosso estilo de vida, há que, de um modo o mais isento possível, tentar descortinar e investigar a razão de ser dessas opções e tradições.
 
ilustração da obra turca Siyer-i Nebi

Uma das razões para a adopção da Poligamia pelo Islamismo, ao que tudo indica, deve-se a uma necessidade de resolver um problema do passado, de dar resposta, num jeito de acção social pragmática, através de preceitos religiosos e morais, a um grave problema social que afectou as primeiras comunidades que seguiam Maomé. Durante a expulsão de Meca em 622 d.C. os seguidores de Maomé acompanharam-no e estabeleceram-se em Medina, episódio conhecido com o Hégira. Na sua permanência em Medina os primeiros muçulmanos, ou maometanos, tiveram de suportar enormes dificuldades de toda a ordem, incluindo ataques constante, algo que deve ter contribuído para o fortalecimento da sua comunidade e adopção de normas religiosas e sociais específicas. Num estado de Guerra constante, especialmente depois das Batalhas de Badr e Uhud, o número de homens mortos em batalha causava graves problemas sociais. Nessa jovem comunidade muitas mulheres ficavam precocemente viúvas e com isso desprotegidas financeiramente num mundo violento, assente numa sociedade patriarcal, sendo especialmente preocupante a situação daquelas que tinham filhos ao seu encargo. A não resolução desta problemática poderia destabilizar e fazer colapsar socialmente esta nova comunidade, pois a economia real dependia da força dos laços familiares. Há que lembrar a importância da família enquanto organização que provia e efectuava uma verdadeira acção social, formal e informal, nas comunidades de então.

Segundo reza a tradição Islâmica, foi depois da batalha de Uhud que foi revelado a Maomé a vontade de Alá em permitir a Poligamia, desde que obedecendo às suas prescrições sagradas, tornando as famílias ainda mais alargadas. Isso permitiu a um seguidor de Maomé casar com 4 mulheres, desde que lhes pudesse prover todas as necessidades e de igual modo a todas, sem discriminação e na mais estrita equidade. Excluindo-nos aqui do debate religioso, podemos considerar esta orientação e regulamentação como uma precoce medida de acção social, um modo bastante eficaz de solucionar um problema bem real e preocupante para a época.

No entanto, à luz dos nossos valores Ocidentais contemporâneos, dificilmente podemos aceitar este costume ou tradição. Mudaram-se os tempos, evoluiu-se bastante em alguns aspectos (pelo menos por cá no Ocidente), inclusivamente na igualdade de género – apesar de muito ainda haver para resolver rumo a esse ideal.

Situações e casos como o da Poligamia, que apesar de terem desempenhado um papel importante no passado enquanto medida de acção social, hoje são vistos como costumes profundamente discriminatórios e de subjugação de género. Através deste exemplo podemos também reflectir sobre os impactos que podem ter os dogmas religiosos, especialmente se forem seguidos sem serem questionados, sendo que muitos só se formaram como tal devido a necessidades sociais e individuais bem reais do passado, mas que hoje podem já não fazer sentido de um ponto de vista utilitário e pragmático, ou até, em casos extremos, ser prejudiciais, tendo em conta outros valores e conhecimento mais recentes.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa