quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pilhar e Piratear já foi Nobre

Pensava eu que podia arrumar na minha estante e daqui do blogue, pelo menos por algum tempo, o livro que estou agora a terminar de ler, e que já aqui utilizei várias vezes como inspiração para alguns textos, mas afinal ainda mais umas reflexões das suas páginas surgidas. O Livro em causa é a “Expansão Quatrocentista Portuguesa” de Vitorino Magalhães Godinho . Nessa obra o autor, que é por sinal um reputado historiador, escreveu o seguinte: 
“Os corsários [piratas com mandato] Portugueses atacavam sobretudo os navios mouros que traficavam [comerciavam] entre a Barbaria [costa mediterrânea de Marrocos, Argélia e Tunísia] e o Sul da Península, […] mas também pilhavam castelhanos, catalães e outros cristãos; iam raziar as Canárias, a costa saariana, a Guiné. Necessitava-se de escravos para as plantações de cana sacarina do Algarve, do distrito de Coimbra e principalmente Madeira e Açores. As casas nobres encontravam nesta actividade um meio de fazer face à crise financeira que as afligia. Os dois filhos do rei D. João I, D. Pedro e D. Henrique [o famoso infante dos descobrimentos], tiveram empresas de corsos; havia-as igualmente de simples cavaleiros e burgueses, e a própria coroa não desdenhava este recurso (os documentos falam-nos dos «corsários del-Rei»).”
O ilusionista - Hieronymus Bosch
Nessa época era comum e aceitável que a Nobreza se dedicasse à pilhagem e pirataria, visto que eram actos de enriquecimento através da guerra e violência, pois não esqueçamos que competia a essa ordem social a responsabilidade de fazer a guerra na época (por si próprios ou ao serviço do Rei). Ou seja, durante a Idade Média era considerado nobre que a Nobreza se dedicasse a este tipo de actividades, enquanto que à Burguesia se reservava o papel de comerciar, algo que aos olhos da contemporaneidade parece um modo muito mais aceitável de enriquecer. Como podemos constatar, os valores mudam ao longo da História, tal como as sociedades. Hoje em dia ainda consideramos aceitável enriquecer pelo comércio e negócio, provavelmente por vivermos numa sociedade capitalista, assente num modelo de organização social e económico que se foi formando à medida que a Burguesia foi ascendendo socialmente a partir do final da Idade Média.
Mesmo com tantas mudanças sociais depois, actualmente ainda existem formas de pirataria para as quais não é difícil encontram defensores especialmente quando somente lhes toca o proveito e não o dano.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa