domingo, 28 de fevereiro de 2010

Análise do livro "Tratado de Ateologia": A organização social pode existir sem o recurso à moral proveniente da religião?

Analisar e investigar as várias religiões, enveredando por uma busca o mais imparcial possível e abnegada de qualquer crença, é sempre uma missão difícil e, como não podia deixar de ser, potencialmente polémica.
O baile no moulin de la galette - Renoir
Enquanto céptico, e tentando ser sempre o mais racional possível, de acordo com o que as minhas emoções me permitem nestes assuntos, inevitavelmente tendo a ler e investigar as origens, evolução e implicações actuais da religiosidade na Humanidade. Desta vez foi o momento de ler uma obra de um filosofo contemporâneo vincadamente ateu. Na Obra “Tratado de Ateologia”, Michel Onfray tenta desmistificar o negativismo associado ao ateísmo e aos ateus, esforçando-se por defender que poder existir uma moral e uma organização social puramente laica, ou seja, verdadeiramente ateia. O autor defende que as crenças religiosas contemporâneas são desnecessárias para a existência de uma sociedade organizada, solidária e justa. Pois, num estado de consciencialização e informação mais elevado por parte dos actores sociais, a necessidade de um Deus (ou Deuses legisladores), definidor das regras de conduta e moral, tendo à sua disposição um paraíso para compensar os justos e um inferno para os injustos, os mecanismos de controlo social religiosos tornam-se vazios de qualquer utilidade pragmática ou tangível, restando apenas a tradição obsoleta e  ingénua.
 
Concorde-se ou não com Michel Onfray, esta é mais uma obra a ter em conta por quem quer, de um ponto de vista ateísta, compreender o nosso mundo. A organização da sociedade actual é apenas um dos muitos temas abordados pelo autor nesta obra. Mais haverá de interesse para citar e referir do livro em causa, pelo que o deixo para a leitura de ateus e crentes, pois certo contribuir positivamente para o enriquecimento de todos o que o lerem de mente aberta, nem que seja para discordar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Karaté - uma riqueza cultural e de valores

Muitos mitos prosperaram em volta das artes marciais, muitos por culpa do cinema e da televisão - tendo sido o Karaté uma das artes marciais mais em foco. Enquanto antigo praticante desta arte marcial gostava de poder contribuir para desmistificar e expor alguns dos seus saberes ancestrais. Karaté significa “Mão vazia”, numa alusão de que não é permitido o uso de qualquer armamento, mas também porque se depreende que a mão do praticante deve ser  “vazia de qualquer má intenção”.

O karaté tem a sua origem na ilha de Okinawa. Derivou inicialmente do Kung Fu chinês, já que a ilha até ao século XVI esteve sob a influência dessa potência por ai ser um importante entreposto comercial. Aquando da ocupação da ilha pelo império japonês, todo o uso de armas foi proibido aos  naturais da ilha foi. Assim, a primitiva arte marcial de Okinawa desenvolveu-se no sentido da defesa pessoal sem o recurso a qualquer armamento, restringindo-se ao uso exclusivo do corpo como arma. À medida que a cultura nipónica conquistava e aculturava a ilha, e os autotenes se começavam a considerar japoneses de pleno direito, a sua arte marcial foi, progressivamente, assumindo traços mais nipónicos - adoptaram o tradicional Kimono japonês e o actual nome de Karaté.
 Esta, como tantas artes marciais, é mais que um conjunto de técnicas de combate, mais que ferramentas de ataque e defesa pessoal. O facto destas actividades serem conhecidas como "artes", e não somente técnicas marciais, está relacionado com a própria filosofia que lhe é intrinseca, com o rigor, a etiqueta, o respeito pelos membros mais  experientes, o culto pelo desenvolvimento e aperfeiçoamento pessoal e regras de conduta que são incutidas a todos os praticantes.
A meu ver, o karaté, tal como muitas outras artes marciais orientais, deve, sem qualquer dúvida, ser considerado uma riqueza cultural,  um excelente produto de troca e intercâmbio humanístico à escala global. O facto do ocidente ter acedido a estas milenares formas de saber do oriente é um sinal de que nem toda a globalização é negativa.

Consultas bibliográficas:
Karaté – guia essencial para dominar a arte – editorial estampa

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um exemplo de opção pelo optimismo - Monty Phyton e A vida de Brian

Podemos facilmente cair na melancolia, ficar inertes na tristeza e irremediavelmente influenciados pelas tristes notícias com nos tentam constantemente alvejar - fruto dos dias que correm -, quer sejam desastres naturais, crises económicas, crises de valores ou os simples dissabores do dia-a-dia. Mas temos sempre outra opção, podemos sempre tentar encarar a vida com optimismo e tentar ver o lado menos negro dos acontecimentos que nos frustram ou entristecem. 

Muitos autores e “especialistas” iluminados têm tentado revelar as vantagens do optimismo através de uma infindável panóplia de obras literárias. No entanto essas obras, por norma, não acrescentam nada que saibamos já à partida, apesar de nos tentarem passar a ideia que grandes descoberta.

Gostaria de deixar aqui uma referência a mais uma obra-prima dos Monty Phyton, neste caso uma canção, que provavelmente muitos já conhecem, e que, recorrendo ao humor irreverente e monsense, apela às vantagens de ver a vida pelo lado positivo da vida.

Aqui fica o excerto do filme “A vida de Brian”, com a música 
Monty Phyton - Always Look the Bright Side of Life - Legendado, de 1979. Recomendo a todos que vejam este filme, no entanto preparem-se para um humor muito mordaz e capaz de criar um colapso nervoso aos mais religiosos e tradicionalistas. 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Quando se fez o primeiro gesto de V de vitória?

Na Idade Média os Ingleses eram conhecidos pela sua mestria no domínio do arco nos campos de batalha de então. Desenvolveram um tipo de arco de maior envergadura (1,80m), grande poder (900N) e distância de disparo (220m), podendo perfurar armaduras a distâncias consideráveis. Esse tipo de arco era conhecido como o longbow, ou em Português, arco longo, também designado como arco Galês. No entanto, para disparar e utilizar todo o potencial desse arco era necessário um arqueiro especializado. Só os mais fortes e robustos poderiam disparar essa arma mortífera, e mesmo esses tinham de treinar toda uma vida para aperfeiçoar a técnica de disparo e desenvolver particularmente os músculos necessários para tal esforço tão peculiar.

Batalha de poitiers
A famosa Guerra dos 100 anos opôs a Inglaterra à França por disputas territoriais e direitos de vassalagem, questões de conflito típicas da Idade Média. Nalgumas das principais batalhas desta guerra (Crecy 1346,  Poitiers 1356 e Agincourt 1415) os Ingleses obtiveram vantagens e até vitorias decisivas por utilizarem os seus arqueiros dotados com seus arcos “especiais” contra a cavalaria pesada francesa, atingindo-a à distância, perfurando as suas armaduras e abatendo-a antes que pudesse executar as suas temíveis cargas (os tanques da idade média). Os arqueiros ingleses, por dispensarem armaduras, tinham grande mobilidade no campo de batalha e podiam atingir a cavalaria pesada (a arma mais poderosa dos exércitos medievais) de longe, tornando-a impotente. Tudo isso, aliado às defesas que os arqueiros construíram no campo de batalha (fossos, paliçadas, morros, etc.), protegia-os de ataques frontais, especialmente das cargas de cavalaria. Na Batalha de Aljubarrota, (1385) as tropas de D. Nuno Alvares Pereira usaram semelhantes estratagemas, abatendo os cavaleiros Espanhóis (e aliados Franceses) que iam sendo alvejados enquanto eram também vítimas dos fossos e armadilhas ocultas no campo de batalha, aquando das cargas frontais que efectuaram contra o diminuto exército nacional. Nessa, como em outras batalhas, os portugueses tiveram o auxilio dos arqueiros ingleses.
Batalha de Aljubarrota - crónica de Jean Wavrin
Toda esta longa introdução para revelar a origem de um gesto que faz hoje parte do nosso quotidiano. Falo de um gesto de mão que consiste em erguer os dois dedos de uma mão fechada, formando um simbólico V - sinal de vitória. Esse gesto, segundo algumas fontes, começou a ser usado durante a Guerra dos 100 anos pelos Ingleses. Inicialmente era um gesto de desdém, mas que foi sendo associado ao símbolo da vitória, uma vez que o formato do V era mais que evidente. Os Ingleses faziam questão de fazer este gesto, mostrando aos Franceses que tinham os dois dedos intactos e que com eles poderiam disparar os seus mortíferos arcos. Isto porque tornou-se habitual entre os Franceses cortar os dois dedos aos arqueiros ingleses capturados, impedindo-os de voltar a disparar qualquer arco.

Quando actualmente fazemos este gesto, devemos lembrar-nos que, tal como os arqueiros ingleses, ainda detemos os nossos valiosos dedos e que com eles podemos fazer grandes actos, esquecendo o mortandade do passado e pensando nas benesses que com eles podemos fazer para o bem comum

Bibliografia:

  • Uma história da Guerra - John Keegan - Tinta da China
  • História da Guerra - autores vários - Esfera dos Livros
  • Aljubarrota crónica dos anos de brasa - 1383/1389 - Luís Miguel Duarte - Quidnovi

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sobre o Livro: O livro da Ignorância Geral

Agora que tive uma semana mais desafogada, finalmente consegui reunir umas quantas ideias de um livro que esperava por cá dar uma visita. Não se trata de uma grande obra científica, de nenhum cânone  de um qualquer conhecimento específico. Trata-se apenas de um livro bem-humorado que pretende questionar, de um modo simplista e leve, conhecimentos que dávamos por adquiridos. Apesar de não ser um escrito da cientifico, de não ter quaisquer pretensões epistemológicas ou de explicação do saber, transmite, recorrendo a curiosidades mais ou menos irrelevantes, a abertura de espírito que é inerente ao espírito científico. Um estado de espírito que passa pela abertura a novas ideias e nunca, em momento algum, partir do princípio que detemos o conhecimento total ou a verdade absoluta, pois uma das grandes mais-valias da ciência é a sua capacidade reformista, às vezes até revolucionária, de se regenerar e assim evoluir na busca de novos conhecimentos (devendo-se sempre rever o conhecimento que se tem como dado adquirido).
A obra em causa intitula-se de “Livro da Ignorância Geral”, da autoria de John Lloyd e John Mitchinson, e editada em Português pela Porto Editora. Logo na capa o marketing não engana: “Surpreenda-se! Afinal, nem tudo o que julgava saber é verdade
.
Nas suas quase 300 páginas são referidas curiosidades capazes de nos deixar surpreendidos e quase perplexos. Dessas, devido ao grande rol de temas e assuntos abordados, irei revelar aqui apenas alguns curtos excertos (sendo meras citações sem qualquer juízo de valor). Aconselho todos os que se sentiram cativados por estes "aperitivo" a adquirirem a obra podem irão desfrutar de momentos de boa disposição e aquisição de cultura geral - quase sem notarem.

Quantos prisioneiros foram libertados durante a tomada da Bastilha?
“Sete. (…) Pelas inflamadas pinturas dos acontecimentos, poderia pensar-se que centenas de revolucionários orgulhosos inundaram as ruas, empunhando bandeiras tricolores. Na realidade, à altura do cerco, havia pouco mais de meia dúzia de prisioneiros (…)”

O que é três vezes mais perigoso que a guerra?

“O trabalho mata mais gente que a bebida, as drogas ou a guerra. Cerca de dois milhões de pessoas morrem todos os anos devido a acidentes de trabalho e doenças profissionais, enquanto que a guerra mata uns meros 650 000 indivíduos por ano. (…)”

Qual o número da besta?
“616. Durante 2000 anos, o 666 foi o símbolo do temido anticristo, que irá governar o mundo antes do Juízo final. Para muito é um número de azar (…) Em 2005, uma nova tradução da cópia anteriormente conhecida do Livro da Revelação mostrou claramente que é 616 e não 666. (…)”

De que cor é a água?
(…) Na verdade a água é azul. É um tom incrivelmente ténue, mas é azul. Isto pode verificar-se na natureza, quando se olha para dentro de um buraco profundo na neve, ou através do gelo espesso de uma queda de água congelada. (…)
A cor reflectida pelo céu tem, obviamente, um importante papel. O mar não tem um aspecto particularmente azul num dia nublado. (…)”

Qual a maior estrutura artificial da Terra?
“A nossa resposta é Fresh Kills (…), uma lixeira em Staten Island, Nova Iorque, apesar de gostarmos bastante da sugestão alternativa de Jimmy Carr – a Holanda. (…)”

Quem enterra a cabeça na areia?
(…) Nunca Ninguém viu uma avestruz a enterrar a cabeça na areia. Se o fizesse, sufocaria. Quando se sentem ameaçadas, as avestruzes fogem como qualquer outro animal sensato. (…)”

Qual foi o primeiro animal a ir ao espaço?
“A mosca da fruta. Os minúsculos astronautas embarcaram num foguetão americano v2 juntamente com algumas sementes de cereais, e partiram em direcção ao espaço em Julho de 1946. Foram usadas para testar os efeitos da exposição à radiação a elevadas altitudes. (…)”

Que percentagem do nosso cérebro usamos?
(…) Diz-se que apenas usamos 10% do nosso cérebro. Isto geralmente leva a discussões acerca do que conseguimos fazer se soubéssemos aproveitar os restantes 90%.
Na verdade todo o cérebro humano é utilizado, numa altura ou noutra. (…) O cérebro não devia, em condições ideias, ter mais de 3% dos seus neurónios a funcionar ao mesmo tempo, caso contrário a energia necessária “pôr de novo em funcionamento” cada neurónio após este ter disparado torna-se demasiada para o cérebro conseguir lidar com ela. (…)”

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa