quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O que é a Bolsa, e será que precisamos dela?

Numa altura que todos já andamos de bolsa vazia à conta das socialmente obrigatórias prendas de Natal, pareceu-me adequado abordar aqui o tema da Bolsa - a de valores, aquela que nos entra em casa pelos noticiários sem percebermos muito bem o que é. Na verdade, trago aqui o tema da Bolsa simplesmente porque descobri um texto pertinente sobre o assunto, da autoria do economista Frédéric Lordon e presente na edição portuguesa de Fevereiro de 2010 do Le Mode Diplomatique.
Governadores da guilda dos mercadores de vinho - Ferdinand Bol

Nesse texto, intitulado de «E se encerrássemos a Bolsa?», o autor critica as instituições Bolsistas e as operações que nela se fazem. Refere que essas actividades são de importância menor pois a maioria do emprego real e das empresas não estão cotadas em Bolsa e nem sequer têm relações directas com elas - o caso das PMEs portuguesas. Lordon revela algum dos seu radicalismo - mesmo que seja apenas estilística do próprio discurso - ao defender que poderíamos bem passar sem as Bolsas, especialmente porque hoje elas não servem o seu propósito fundamental e funcional: financiar as empresas e obter dividendos sustentáveis para os accionistas.
Mas o que me cativou especialmente neste texto é a simplicidade como se explica o que é a Bolsa e os seus objectivos. Vejam-se então as palavras do próprio Lordon:
"Certos agentes (as pessoas com poupanças) dispõem de recursos financeiros em excesso que procuram aplicações, ao mesmo tempo que outros  agentes (as empresas) procuram capitais; a Bolsa seria a forma institucional idónea que poria em contacto toda essa gente, efectivando o encontro mutuamente vantajoso das capacidades de financiamento de uns com as necessidades dos outros."
No entanto, Lordon, chama a atenção para as realidades e práticas nos Mercados Bolsistas, algo que anda longe do crescimentos e prosperidade económica sustentável que se pretendia - na prática, muitas vezes,  são as empresas que financiam a Bolsa e não o contrário. Lordon diz:
"Doravante, o que sai das empresas para os investidores [que exigem actividades de rendibilidade inalcançável] é superior ao movimentado em sentido inverso (...). Os capitais reunidos pelas empresas tornam-se inferiores aos volumes de cash sugados pelos accionistas e a contribuição líquida dos mercados de acções para o financiamento da economia tornou-se negativa."
Mas ainda falta considerar aqui o efeito da especulação, que,  segundo Lordon se relacionam com a sua anterior afirmação do seguinte modo: "Não havendo novas emissões de acções para absorver os referidos [anteriormente] volumes financeiros , estes limitam-se a engrossar a actividade especulativa".
As palavras do autor adensam-se ainda mais no tema das "Bolsas e Mercados Financeiros", mas o que salientava ainda do texto é a referência que se faz  ao evidente sentimento de estranheza e intangibilidade que estes temas provocam na opinião pública.

Nós que não somos economistas e que, quase todos os dias, somos bombardeados com as "coisas dos Mercados e das Bolsas", provavelmente, estaríamos bem melhor - pura especulação psicológica e social - se não nos chegassem todos os dias  informações, aparentemente negativas, que dificilmente podemos compreender - pois não podemos ser todos economistas. 
Não digo encerrar  mas poderíamos exigir o resfriar do alarmismo económico e bolsista que nos chega através dos Media todos os dias aos nossos lares.

sábado, 18 de dezembro de 2010

D. Quixote - o romance que satiriza o próprio romance

A obra «D. Quixote de La Mancha» é a obra prima de Cervantes e o livro laico mais impresso em todo o mundo. Cervantes quando escreveu esta sua obra, baseando-se na sua própria experiência e aventuras pessoais dramáticas - ora intensas e de aventura, ora de inércia e marasmo -, criou um género novo que rompia com o que se fazia na época, aliás, criou algo que criticava e que era uma sátira à literatura popular de então - aventuras e contos cavalheirescos onde destemidos heróis provavam a sua coragem e força, superando provas e obstáculos impossíveis, culminando quase sempre no salvamento de uma donzela encarcerada.
D. Quixote e a mula - Honoré Daumier
Assim, o autor de "D. Quixote", segundo o documentário "Cervantes e a Lenda de D. Quixote" da autoria de Daniel e Jaume Serra, escreveu este conto como critica àquilo que considerava ser baixa literatura: os contos e novelas de cavaleiros - por serem livros produzidos em massa sem cuidados mínimos na forma e conteúdo, desfasados de realidade e que serviam apenas para entreter sem nada transmitirem de verdade.  Em pleno século XVII, estando Espanha no seu auge, Cervantes, através da sua sátira, que foi muito além da mera crítica, redefine, involuntariamente - ou não -, o modelo literário daquilo que seriam os posteriores Romances: cria a figura do herói como manifestação que retrata a condição e limitações humanas; descreve e apresenta ideais e valores - incluindo as utopias - de indivíduos e sociedades através das suas personagens e ambientes; mistura humor e drama, os condimentos de uma história bem realista pois é assim que a vida de facto é, uma mescla de "bem e mal", de alegria e tristeza, sucesso e insucesso; e até, dizem os autores do documentário, concretiza pela primeira vez em personagens literárias os arquétipos da dualidade antagónica das parelhas de heróis, algo que será copiado e readaptado posteriormente na literatura e cinema (por exemplo: "Sherlock Holmes e Dr. Watson", "Bucha e estica",  entre muitos outros - basta pensar um pouco e logo muitas outras parelhas nos surgem).
Em jeito de resumo, Cervantes, com o seu D. Quixote de La Mancha (historia de um velho meio louco que se torna num cavaleiro andante, acompanhado pela voz da razão que é Sancho Pança, sempre à procura de aventuras, de defender os fracos e oprimidos, e de salvar a sua Dulcineia), para além de criticar um modelo de literatura do seu tempo que considerava inferior, redefine o modelo em que se irão basear posteriormente algumas das grandes obras do Romance e da Ficção Literária dos séculos subsequentes.

Agora pergunto eu - falando de arte e cultura -, será que alguém conseguirá pegar neste exemplo de acção criativa de  Cervantes e transformar algum "lixo" que nos invade em algo de novo e de qualidade?
Uma reciclagem cultural hoje provavelmente também não seria de todo despropositada a meu ver, pelo menos para alguns casos.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Espadas Papais - o poder politico/religioso e as espadas

As Espadas, pelo menos desde o final do Império Romano do ocidente, quando as culturas nativas do centro e norte da Europa começaram a redefinir o que seria posteriormente o Ocidente, tiveram, para além do cariz militar, uma função de distinção social para quem as possuía.  
Homem sentado com uma espada e flor - Picasso
 Soberanos, descendentes das antigas tribos a quem os Romanos chamavam Bárbaros e que criaram os seus próprio reinos no vazio político que se formou a seguir à queda do império, praticavam uma espécie de Culto da Espada. Usualmente, esses Reis ou Senhores poderosos locais, ofereciam espadas como sinal de distinção para com os seus vassalos que lhes prestavam grandes e meritórios serviços - basta lembrarmo-nos do episódio de "armar  um cavaleiro", algo tão recorrente, por exemplo, no cinema histórico.  A Espada, nessa altura, estava associada à nobreza de carácter, estatuto social e até à virilidade - nas sociedades ocidentais europeias que se formaram no inicio da idade médias, os guerreiros (nobreza) estava no topo da pirâmide social.
Muitos heróis medievais, ou pré-medievais, míticos ou inspirados por personagens reais, foram imortalizados pelos romances cavalheirescos medievais. Até nós chegaram também o nome das suas espadas - sinal da importância destas ferramentas de fazer guerra e pelejar. Por exemplo: Siegfried lutava com a sua Balmung, Ogier com a Courtain, El-Cid com a Tizona e o Rei Artur com a famosíssima Excalibur.
Mas o uso das Espadas, enquanto atribuição de uma espécie de "medalha de mérito", não estava apenas generalizada pelo soberanos ditos laicos. O Papado, o herdeiro da burocracia e cultura do Império Romano do Ocidente - o único poder internacional que conseguia dar alguma unidade ao mundo Medieval Feudal -, entre o século XI e XIX atribuiu as suas próprias Espadas Papais. As Espadas Papais caracterizavam-se por  ser "armas de lâmina longa usadas por pontífices como símbolo de respeito e admiração por parte, essencialmente, dos chefes militares que estes julgavam merecedores do título de "defensores da fé" (...)"(2). Consta que "era tradição que as espadas fossem benzidas pelo papa no dia de Natal, e, durante séculos, era raro que este dia passasse sem que algum governante ou herói militar fosse honrado desta maneira" (2). O culto das espadas estava muito enraizado, tal como a sua ligação à Igreja Católica (ou por outro lado, a igreja é que também se associou ao cultos dos descendentes das tribos bárbaras - uma aculturação, intencional ou não), que, através da sua estrutura burocrática - que poderíamos ver como um espécie de continuidade do império romano do ocidente - a quem todos, apesar de terem alguma autonomia política, deveriam respeitar e prestar tributo físico e espiritual.
Claramente, hoje as Espadas ainda são vistas como objectos de distinção, mas não me parece que, numa sociedade em que o catolicismo (ou outro tipo de cristianismo) supostamente se separou do Estado e que essas mesmas religiões apelam agora à paz e ao fim dos confrontos armados - pelo menos as religiões maioritárias praticadas no Ocidente -, fosse aceitável que se oferecesse, como sinal de distinção religiosa, algo relacionado com as artes bélicas. Mas não nos podemos esquecer que as espadas sempre foram mais do que instrumentos de corte ou estoque

Fontes: 
1 - A queda de Roma e o fim da civilização - Bryan Ward-Perkins  
2 - Espadas, Adagas e Alfanges - Gerard Weland

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

«A corrupção e os Portugueses» – o livro que inspirou uma petição

Hoje assinala-se o «dia Internacional de luta contra à Corrupção». Por isso, nada mais adequado e pertinente do que trazer aqui ao blogue uma espécie de análise/resumo de um livro que, para além da aquisição de saber que proporcionou, inspirou a criação de uma petição – que pretende propor uma nova abordagem de combate a esse mal social que é a corrupção. A petição em causa, intitulada de “Combate à corrupção através da consciencialização, informação, formação e educação”, surge da convicção - e para mim premissa válida - que a informação e educação podem ser utilizadas para fazer reduzir a corrupção. Seguramente que esta não é a única solução para o problema – isso seria ingenuidade – mas é uma possível abordagem e solução que tem sido sistematicamente descurada. Para além dos mecanismos jurídicos e penais imprescindíveis ao combate à corrupção – que falham sistematicamente em Portugal -, há que apostar também na prevenção através do ensino de valores e do desenvolvimento de uma consciencialização ética nos portugueses, especialmente nos mais novos. Já num anterior texto aqui do blogue referi o exemplo de uma aplicação semelhante que teve sucesso no nosso país: a consciencialização ambiental. De como, através da educação e formação, se conseguiu mudar o modo como os portugueses pensam e actuam sobre o ambiente. Chegou a altura de tentar fazer algo de semelhante para o combate à corrupção.
Proverbios falmengos - Pieter Bruegel
Mas passemos à análise do livro propriamente dito que é a principal razão de ser deste texto. A obra “A corrupção e os Portugueses – práticas – atitudes – valores”, da autoria e coordenação de Luís de Sousa e João Triães e que conta com a colaboração de outros investigadores, é a concretização em livro, de modo a chegar a grande público, do estudo “Corrupção e ética em Democracia: O Caso de Portugal”. Foi principalmente esta obra que me levou à tomada de consciência de que é preciso agir e fazer algo para mudar a sociedade portuguesa - o que resultou na elaboração, em conjunto com outras pessoas, da petição anteriormente referida. Voltando ao livro, os autores conseguiram nesta obra concretizar algo que nem sempre é fácil: um conjunto de textos independentes mas interligados que tratam o tema principal – a corrupção em Portugal-, recorrendo a uma linguagem acessível, devidamente enquadrada com dados estatísticos gráficos, e sintetizada por um resumo final que serve para organizar e cimentar os assuntos tratados.
O resumo final está tão bom que irei usar os mesmos títulos em que se subdivide, pois não consigo encontrar palavras mais adequadas do que as lá empregues. Quanto aos conteúdos evitarei a corrupção do plágio – o mínimo que posso fazer do ponto de vista ético, apesar da intenção aqui ser a melhor.
O triunfo da Morte - Pieter Bruegel

Concepção minimalista da corrupção
Aqui é analisada principslmente a dimensão ética do fenómeno. Os autores referem que, aqueles comportamentos que claramente violam a lei ou que estão relacionados com actos políticos são mais condenados pelo cidadão comum, independentemente de serem considerados na lei ou de terem uma interpretação duvidosa. Refere-se também que é comum os portugueses exigirem mais aos “outros” do que a si próprios, mesmo que inconscientemente.
Os Portugueses fazem mais do que a Lei o permite e menos do que a ética o exige

Mistura de Géneros
Este foi um dos principais pontos que levaram à criação da petição. Os autores afirmam que em Portugal não se definem com exactidão os limites entre as esferas públicas e privadas, ou que isso pelo menos não está bem disseminado pela nossa sociedade. Aliás, vão mais longe, defendem que os baixos níveis de formação, e uma deficiente compreensão dos fenómenos de corrupção, expõem e fazem os portugueses enveredar por práticas de clientelismo.

País de cunhas
O fenómeno cultural e social da corrupção manifesta-se aqui neste ponto. Defendem os autores que a maioria da corrupção que se pratica em Portugal é mais ao nível dos favores do que de dinheiros ou bens propriamente ditos – a dita cunha. Trata-se de um desvirtuamento das sãs trocas e sinergias sociais que deveriam promover a igualdade de oportunidades.
Aqui a cunha e a corrupção são apresentadas, para alguns elementos da sociedade portuguesa, como um modo de ultrapassar as dificuldades da burocracia da administração pública, como “um lubrificante que oleia a engrenagem do sistema” – uma actividade perniciosa que tanto prejudica o bem comum.
Algo muito caricato, e que os autores reforçam, ainda neste ponto é que este tipo de clientelismo é socialmente aceite de ser praticado pelo “cidadão comum” mas não pelo “cidadão político”, especialmente se for praticado em prol de familiares ou amigos dos agentes e actores que concretizam a corrupção – novamente a dimensão ética em causa.

O gosto pela repressão e a incapacidade de denúncia
A referência aos 48 anos de ditadura surge nesta parte, ela é referida como uma das explicações para a concepção rudimentar que os portugueses têm da corrupção, nomeadamente com o modo como os cidadãos não usam do direito de denúncia e não exercem vigilância nem condenam socialmente quem pratica a corrupção. Emprega-se aqui o termo “pacto oculto” para o fenómeno social da corrupção. “Apesar da maioria dos portugueses afirmar que denunciaria às autoridades um caso de corrupção do qual tivessem conhecimento, na realidade recolhem-se ao silêncio e à indiferença”.
A literacia e a cidadania activa, ou falta dela, são apresentadas como outras condicionantes. Os autores afirmam que “a democracia portuguesa goza de uma cidadania informada (ainda que com grandes deficiências na qualidade, sobretudo no acesso à informação), mas politicamente pouco formada” - esta referência à uma falta de formação cívica foi uma das considerações tidas na petição – que tem imensos e inquantificáveis impactos sociais e económicos no Portugal contemporâneo.

Sensacionalismo dos Media e a sede de voyeurismo dos cidadãos
Em Portugal, para os autores, não se consegue conjugar a função informativa dos Media com o devido respeito pela vida privada, especialmente a dos políticos. Isso transparece novamente numa deficiente cidadania e incapacidade de compreender e participar na política – por vezes é mais discutida a personalidade dos políticos do que as politicas que praticam. Transparece a ideia de que os portugueses têm uma visão mitológica/púdica dos seus políticos, que tendem a averiguar se os seus políticos serão pessoas como eles próprios e, invariavelmente, exigem-lhe atitudes e comportamentos éticos que os próprios não praticam. Isto é explicado também pela artificialidade com que os políticos são apresentados aos portugueses, frutos de operações de cosmética e técnicas de marketing que os tornam desumanizados.   

Aconselho convictamente a leitura integral desta obra e deixo à vossa consideração também a leitura, assinatura e divulgação da petição que resultou da leitura deste livro.

domingo, 5 de dezembro de 2010

20.000 visitas ao blogue - mais um marco, neste caso um bolivar

Pois é, o blogue acaba de registar 20.000 visitas. Não poderei "festejar" o acontecimento do mesmo modo como o fiz anteriormente - já não existe valor de notas de escudo que cubram todas as visitas. Mas, como a blogosfera não tem fronteiras, e o conhecimento não o deve ter também, utilizarei agora a divulgação da "arte" das notas de outras paragens, de outros países. Então aqui vai uma nota de 20.000 bolivares como símbolo e agradecimento ao leitores e participantes aqui nos blogues.
Muito obrigado pelas vossas visitas e contributos que têm enriquecido esta "busca"!
Nota 20.000 bolivares de 2000 em homenagem a Simón Rodríguez

Perder biodiversidade é muito mais do que perder fauna e flora

“A biodiversidade é a natureza em todas as suas formas”
Esta frase com que inicio este novo texto do blogue consta do artigo “Biodiversidade – o nosso “ecossistema” de suporte vital “, da autoria da AEA – Agência Europeia Ambiental. Este artigo chegou-me através de uma colega das andanças académicas - desta última aventura que foi a “energia e ambiente” - por isso agradeço-lhe já, pois a sua sugestão enquadra-se perfeitamente nos temas e assuntos que normalmente trato no blogue. 
Curva do rio Epte perto de Giverny - Monet
Então, nada como começar por perceber o porquê da defesa da biodiversidade ser tão importante para todos nós, e não algo de importância menor e que interesse apenas a estudiosos e apaixonados pelas questões ambientais.

“A palavra biodiversidade resulta da combinação de duas outras palavras: “diversidade” e “biológica”. Este termo representa a variedade de todos os organismos vivos de todas as espécies. No fundo, a biodiversidade é a natureza em todas as suas formas”
Nós, espécie humana – pouco ou muito evoluídos -, somos parte da natureza e fazemos parte da sua biodiversidade, mas sobrevivemos e desenvolvemo-nos ao nos aproveitarmos de todos os demais organismos que a constituem. A partir do momento em que existe actividade humana existem impactes ambientais e podemos, directa ou indirectamente, afectar toda a restante biodiversidade – quase sempre negativamente. Agora aquilo que muitos de nós desconhecem é que o que nos rodeia, a natureza – virgem ou modificada por nós –, pode-se definir como a própria biodiversidade e o nosso próprio bem-estar disso depender: a nossa saúde, a nossa cultura e até a nossa economia. Somos completamente dependentes dos ecossistemas associados à biodiversidade.
“Um ecossistema é uma comunidade de plantas, animais e microrganismos, bem como a sua interacção com o meio ambiente”
Os vários ecossistemas prestam-nos muitos e variados serviços dos quais, muitas vezes, nem damos conta.  A esses serviços chamam-se: serviço ecossistémico. Aqui ficam alguns exemplos desses “serviços” – como se alguma vez a natureza tivesse a missão ou objectivo de nos servir! - indispensáveis para a nossa sobrevivência: “Pensem nos insectos que polinizam as nossas culturas, nos solos, nos sistemas de raízes das árvores e nas formações rochosas que limpam a nossa água, nos organismos que decompõem os nossos resíduos e nas árvores que purificam o nosso ar. Pensem no valor da natureza, na sua beleza e na forma como a utilizamos para fins de lazer.” Outros serviços ecossistémicos – especialmente os metabolismos vegetais -, na sua biodiversidade, contribuem também para o famoso sequestro de CO2, evitando que os excessos que libertamos se acumulem na atmosfera e isso provoque o efeito de estufa e as subsequentes alterações climáticas.
Ponte Japonesa e lago de lírios aquáticos - Monet

Embora os vários ecossistemas sejam bastante resilientes, a verdade é que muitos deles estão ameaçados devido à acção humana - mas também temos de ter consciência que seria muito difícil existirmos, enquanto espécie, sem que qualquer impacte ambiental daí resultasse.
Apesar da crise económica estar na ordem do dia e a sustentabilidade ser mais vista do ponto de vista financeiro, nunca nos devemos esquecer que o mundo que nos permite viver, quer seja em crise ou não, tem de ser preservado e os seus recursos bem geridos, caso contrário entraremos num "défice" e “bancarrota ambiental” irreversível. Pois, perdendo biodiversidade perdemos muito mais do que fauna e flora, perdemos o actual mundo que nos tem sustentado!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Caramel – um filme sobre mulheres de Beirute e não só

Não contava fazer nenhum texto hoje, mas depois de ter assistido ao filme Caramel – filme que vi agora mesmo sem esperar na verdade grande coisa - não pude deixar de puxar do computador e tentar descrever o impacto que em mim causou. Mesmo que seja incapaz de o fazer, fica pelo menos a divulgação de um filme que vale a pena ver.
Caramel é uma produção franco-libanesa, onde a bela Nadine Labaki é a realizadora e personagem principal. O filme trata e descreve a vida de várias mulheres, de várias idades e a viverem diferentes experiências pessoais, sociais e afectivas; mulheres que orbitam em torno de um salão de beleza que aqui é o principal cenário interior. As personagens e pequenas histórias a elas associadas que se fundem nesta obra poderiam passar-se em qualquer parte do mundo, pois, no fundo, tratam e descrevem o universo feminino. No entanto, aqui a particularidade é que a acção se passa no Libado e que a maioria das personagens principais são cristãs num país de maioria muçulmana – quer religiosa, quer culturalmente. À semelhança de outras obras cinematográficas, que nos permitem e levam a conhecer os países e realidades geográficas e sociais onde a acção se desenrola – lembro-me de «gato preto gato branco» -, em Caramel somos levados até à Beirute da actualidade (pelo menos como seria em 2007). No filme são apresentados os cenários urbanos de uma cidade particular, de um conjunto urbano que é um misto de culturas e tradições antigas. Mas o mais importante aqui são sempre as mulheres – o modo como vivem e sobrevivem às agruras e alegrias da vida contemporânea nessa Beirute.
O filme é de uma profunda sensibilidade que nos toca – independentemente do género - e a banda sonora, muito local, é uma maravilha musical. Facilmente se compreende como esta obra fez parte da Quinzena dos Realizadores no festival de Cannes de 2007.

Apenas só mais uma curiosidade para rematar e terminar: parece que em Beirute a depilação, aquela que cá se faz com cera, é feita com caramelo - em jeito de brincadeira, diria que o resultado é uma doce beleza.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A manutenção da Restauração da Independência de 1640 - a importância do planeamento

Hoje é dia 1 de Dezembro e comemoram-se 370 anos desde a Restauração da Independência nacional face a Espanha (ao império dos Habsburgos ou Filipes como por cá os conhecemos). Em 1640, neste mesmo dia, uns quantos nobres dirigiram-se a Lisboa e fizeram um golpe de estado, atirando o governador em funções pela janela, e declararam Portugal independente de Espanha, após 80 anos de união ibérica. Pouco depois seria coroado o novo rei de Portugal D. João IV e uma nova dinastia governaria um Portugal Independente. No entanto, só foi possível manter Portugal enquanto reino independente depois de rechaçar os Espanhóis na guerra que se seguiria – a Guerra da Restauração
Pintura alusiva ao golpe de 1640 - autor desconhecido
Apesar de Espanha não ter respondido imediatamente a esta revolta com força militar, pois na altura o Império dos Habsburgos estava a braços com outras revoltas (a revolta da Catalunha) e conflitos militares (a Guerra dos 30 anos), mas todos por cá saberiam que, apesar do altura  para concretizar o golpe ter sido a ideal, mais tarde ou mais cedo Portugal seria invadido. Assim que a revolta da Catalunha – que ainda hoje é parte integrante de Espanha – foi esmagada em 1648, e o domínio de Madrid restabelecido, as atenções de Espanha voltaram-se para a reconquista de Portugal.

Mas D. João IV tinha-se precavido. Neste espaço de tempo, que o oportunismo do golpe permitira, consegui levar a cabo uma monumental empreitada nacional – literalmente pôr o país em obras. Conseguiu reconstruir e modernizar muitas das cidades, vilas e fortalezas estratégicas segundo as novas e mais actuais preceitos da arquitectura militar. Num pequeno espaço de tempo transformou muitas muralhas e castelos medievais em verdadeiras praças-fortes, preparadas para resistir contra as mais modernas armas de fogo da época, especialmente contra a artilharia que tinha tornado as antigas defesas medievais obsoletas. Os antigos muros e torres foram convertidos em balcões com guaritas, bastiões e revelins. Foram criados complexos fossos em volta das fortificações. O poder da artilharia que fazia cair e desmoronar em horas as muralhas medievais que aguentaram séculos de conflitos bélicos tinha de ser parado - e foi-o na prática. 
 
 A nova arquitectura militar era revolucionária em muitos aspectos. Os muros eram mais baixos e muito mais espessos, em taludes de terra compactada com revestimentos de alvenaria de pedra ou tijolo. O traçado gerai, visto em planta, dava origem a irreverentes e intrincadas figuras geométricas, simétricas e regulares com muitas saliências e ângulos  proeminentes. Os muros em escarpa inclinada, ao contrário dos ângulos rectos verticais das muralhas medievais, e os bastiões, que em profundidade quebravam a monotonia das muralhas com os seus ângulos agressivos, permitiam que as balas dos canhões atacantes fizessem ricochete. Estas características das construções, conjugadas com fossos, que dificultavam o avanço de quem pretendia atacar estas novas defesas, e com a  correcta disposição da artilharia defensiva, criavam um mortal fogo cruzado que esmagava todos aqueles que tentassem um ataque frontal. Isto era possível mesmo recorrendo a poucas baterias e soldados.
Planta de nova brisach - Le prestre de Vauban
Foi, em parte, devido à capacidade de planear e executar estas magnificas obras de engenharia militar - que hoje ainda podemos contemplar em locais como Almeida, Valença, Elvas, entre outras cidades e vilas - por parte da nova administração de Portugal, tendo em vista e antecipando os problemas do futuro, contribuíram muito para manter a independência de Portugal perante um avassalador poder militar de um dos mais poderosos Impérios da época.

Fontes:
A Grande História da Cidade - Charles Delfante
História da Guerra, mapas da história - Ian Drury
Os mais belos castelos de Portugal - Júlio Gil
The Art of War, war and military thought - Martin Van Creveld 

domingo, 28 de novembro de 2010

Holodomor - o holocausto Ucraniano

Quando se fala dos grandes massacres e extermínios do século XX o holocausto Judeu, executado pelos Nazis, é quase sempre lugar-comum e tido como o evento mais negro e que centraliza mais atenções, quanto muito refere-se as recentes “limpezas étnicas” nos Balcãs. 
Dois velhos comendo - Goya
 Já os casos mais a Leste, aqueles actos desumanos de extermínio que foram levados a cabo pela União Soviética, a mando de Estaline durante o seu regime de terror, nem sempre são citados, até porque não temos muita informação precisa e objectiva à mão e porque os Media pouco falam disto - é usual referir-se apenas que Estaline matou e condenou muitos russos aos Gulags na Sibéria. Mas hoje começa-se a investigar cada vez mais a fundo as obras de assassinato em grande escala praticadas ao longo do século XX pelo regime Soviético. Sabe-se agora que Estaline foi responsável por um dos maiores extermínios e assassinatos em larga escala da História da Humanidade. Os seus alvos não era étnicos como as vítimas do regime Nazi, as suas vítimas eram inimigos políticos – reais ou inventados. Um dos maiores extermínios que levou a cabo foi na Ucrânia. Em 1932-33 Estaline transformou a Ucrânia, onde na altura começavam a surgir algumas tensões revoltas para com o jugo Soviético, num campo de extermínio à escala de um país. Esse evento ficou conhecido como Holodomor ou a Grande Fome da Ucrânia. Estaline conseguiu exterminar, em apenas um ano e sem grandes recursos - meios e logística, mais pessoas do que os Nazis e de uma maneira ainda mais desumana: através da lentidão da fome. Nesse inverno (32-33), as reservas de alimento por toda a Ucrânia – que era considerada durante todo regime soviético o “Celeiro da URSS”-, especialmente os cereais, foram confiscados, usados para alimentar outras zonas da URSS e o remanescente exportado. Assim, Estaline deixou a Ucrânia de rastos – morreram mais de 7 milhões de ucranianos no ano de 1933, quando o habitual seria algo por volta dos 500 mil –, subjugou e esmagou a oposição política e utilizou aquilo que deveria alimentar os ucranianos para seu próprio proveito político e económico. Tudo isto aconteceu sem que as democracias do Ocidente fizessem ou tivessem qualquer vontade de impedir o genocídio ucraniano.
Estas informações foram obtidas através do documentário “A união Soviética a descoberto”, da autoria de Edvins Snore, e exibido recentemente no Canal de História. Este documentário é riquíssimos em informações, de tal modo que ainda farei mais um texto sobre ele, mas é também rico em imagens de uma violência atroz e que não recomendo aos mais susceptíveis.
São casos como este que nos levam a constatar que, o modo como se escreve a história – a tenção que se dá em mediatizar alguns eventos e esconder outros -, é responsável por um quase reinventar do que se passou, sendo que nem sempre aquilo que se supões ou considera como um dado adquirido o seja.
A figura de Estaline, tal como a de outras personalidades que são no mínimo discutíveis quanto aos actos que cometeram, ainda se reveste, em alguns meios e para algumas pessoas (que dizer das imagens da conferencia de Ialta...), de uma máscara que lhe esconde e oculta as monstruosidades inacreditáveis que cometeu – actos que lhe valeriam provavelmente o prémio do maior monstro do século XX, mas infelizmente há mais candidatos para esse odioso lugar.

domingo, 21 de novembro de 2010

Gandhi o disfuncional sexual?

Mohandas Karamchand Gandhi é ainda hoje uma das personalidades mais importantes e conhecidas do século XX, e até de toda a História da Humanidade. Gandhi, que era apelidado de Mahatma – “A Grande Alma” –, inspirou e continua a inspirar os defensores e activistas pelos direitos cívicos, pela autodeterminação dos povos, mas especialmente todos aqueles que optam pela “luta” através da não-violência – por mais contraditório que isso possa parecer o estudo da sua vida e obra provam que tal modo de luta é possível.
Mohandas Gandhi - Vikas Kamat
Mas, tal como quase todas as grandes personalidades da história, especialmente quando a sua vida e obra é registada com fins políticos ou outros, a vida de Gandhi foi, de algum modo, alvo de um "tratamento" direccionado que quase o divinizou, tendo sido deliberadamente “esquecidos” alguns acontecimentos menos próprios de alguém que se queria que fosse recordado como incontroverso. No artigo “Sexo, Mitos e Gandhi”, da autoria de Jad Adams, publicado originalmente no “The Independent” em 7/04/2010, que nos chega a Portugal através da edição de Julho de 2010 do Courrier Internacional, é abordada a vida sexual de Gandhi, mas também o modo como “Mahatma” teorizou e divulgou as suas ideias sobre os comportamentos e condutas sexuais a adoptar. Sexo, ou condutas sexuais, não é usualmente algo que se refira ou associe a Gandhi e à sua obra, mas na verdade o sexo (ou a falta dele) foi uma das grandes preocupações na vida deste grande activista e líder político e espiritual indiano. De um modo resumido, Gandhi defendia o celibato e propagandeava-o como conduta desejável a adoptar, isto para si próprio mas também para todos os Indianos – até para os jovens casais. Mas a verdadeira polémica até nem é a acérrima defesa do celibato – mesmo pensando em todos os efeitos negativos que isso teria a nível demográfico -, o que chocou, e ainda continua a chocar todos os que se debruçam sobre esta faceta de Gandhi, eram os constantes testes que Gandhi fazia à sua capacidade de resistir às tentações e impulsos sexuais: chegava a tomar banho com muitas das jovens mulheres da sua família alargada; dormiu repetidamente com jovens mulheres, referindo que o fazia estando ambos completamente nus. Que se saiba nunca resultou qualquer contacto sexual destas experiências e testes a que Gandhi se sujeitava e com quais queria provar que dominava a sua sexualidade e vontade de ser celibatário, no entanto, este comportamento chocou os seus contemporâneos, os seus familiares e os seus apoiantes políticos. Os mais acérrimos críticos desta conduta e comportamentos viam-no como um disfuncional sexual, um desequilibrado que reprimia e defendia a repressão sexual.
Posteriormente, à medida que o mito de Gandhi ganhava forma, especialmente depois da sua morte e do nascimento do Estado Indiano que queria criar os seus próprios heróis, estes episódios foram propositadamente omitidos.
 
Apesar de tudo, não se pode pôr em causa a importância e o papel de Gandhi para a história da Índia e para a própria história da humanidade, especialmente pelo exemplo que deu: por nos ter mostrado que para vencer não é preciso recorrer à violência – apesar da repressão sexual poder ser considerada também uma forma de violência.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Platão tenta mesmo provar a imortalidade da alma?

Platão, em algumas das suas obras, colocando as suas palavras na boca de Sócrates – enquanto uma quase “personagem” que substitui o próprio autor -, reflecte e teoriza sobre a alma humana, isto especialmente nas obras Fédon e República onde tenta comprovar a existência e a imortalidade da alma. Em ambas as obras, mas mais aprofundadamente no Fédon (ou da alma), Platão recorre a uma poderosa dialéctica – arte de convencer através do diálogo devidamente fundamentado e encadeado – para comprovar a imortalidade da alma, iniciando o debate com uma forte argumentação – um possível exemplo daquilo que mais tarde Aristóteles apelidaria de retórica lógica (ou tentativa disso). 
A morte de Sócrates - Jacques Louis David
Mas, à medida que a discussão – sendo Sócrates a “personagem” que na discussão defende a tese de Platão perante os demais intervenientes – se vai adensando e aprofundando o discurso e a dialéctica de Sócrates mudam. Não vou aqui focar os primeiros argumentos – verdadeira arte dialéctica – de Platão através da intervenção de Sócrates, mas os últimos por serem os mais surpreendentes e inesperados – se bem que intelectualmente menos conseguidos. Sócrates, a uma determinada altura, numa das suas intervenções, começa a fazer referências à mitologia, relacionando a com a alma. Já no final da obra essa relação é então completamente abraçada e evidente, sendo transformada na derradeira justificação para a imortalidade da alma – transparecendo a ideia de que houve uma desistência da argumentação lógica. No mínimo estranho este desfecho, especialmente se considerarmos que Platão era um acérrimo defensor da discussão com base em sólidos argumentos e não em opiniões infundadas ou difíceis de justificar. Mas se atendermos às limitações tecnológicas do saber de então, este tipo de recurso não é de todo despropositado. No entanto não deixa de ser estranho este caso pois, mesmo na Grécia do séc. V a.C. havia já quem contestasse a validade das análises mitológicas, ou seja, não era algo que Platão pudesse usar como uma verdade incontestável capaz de validar a tese a que se propunha.
Mas será que este desfecho de Fédon não terá sido propositado? Platão poderia simplesmente querer demonstrar que alguns temas e assuntos simplesmente não podem ser provados ou comprovados pela razão? Ou seria uma espécie de crítica aqueles que, mesmo iniciando um debate com forte oratória, baseada em argumentos logicamente encadeados, quando vêm os seus argumentos esgotados, invariavelmente, enveredam pelo recurso à mitologia e ao sobrenatural para justificarem a sua posição, não admitindo que são incapazes de compreender aquilo que inicialmente se propuseram a defender ou porque simplesmente não têm razão?

Bem, esta é mesmo só uma possível interpretação, pois o conceito de Alma que Platão descreve pode até ser visto como a própria razão que é toldada pelo “corpo”: senso comum. Bem, mas isso dava outra discussão.

domingo, 14 de novembro de 2010

Estruturas de Madeira ou Aço - qual o material mais resistente ao fogo?

Quando pensamos em construir edifícios de madeira em Portugal é comum levantarem-se logo uma série de preocupações - algumas que noutros países parecem não existir. Pensa-se logo na sua durabilidade da madeira enquanto material de construção, mas pensa-se também no perigo de incêndio. Como associamos uma estrutura construída em madeira à lenha que queimamos nas nossas lareiras, o senso comum leva-nos a concluir que um edifício com estrutura em madeira resiste menos a um incêndio que as estruturas em elementos metálicos e de betão armado. Estas ideias podem estar muito longe da realidade, sendo que a física/química podem ajudar-nos a perceber os fenómenos associados aos incêndios em edifícios! Ora tomemos a as seguintes palavras em consideração.
Grande Incêndio de Londres - Autor desconhecido
Tal como em outros combustíveis sólidos, quando a combustão se inicia nos elementos de madeira esta decompõe-se em gases que alimentam as chamas. São as chamas que vão aquecer a madeira ainda não atingida e promover a libertação de mais gases inflamáveis. Isto continuamente até desaparecer o combustível que é a própria madeira. No entanto, ao contrário de outros materiais como o aço, a madeira tem baixa condutibilidade térmica. Esta propriedade dificulta a elevação da temperatura em zonas contíguas às que se encontram em combustão. Mas é devido à camada carbonizada (que tem cerca de 1/6 da já diminuta condutibilidade térmica da madeira maciça), que se produz quando um elemento de madeira arde, que se obtém uma extraordinária e improvável resistência destas estruturas ao fogo. A camada carbonizada impede a transmissão de calor para o interior dos elementos de madeira,  atenuando a propagação do fogo. Assim garante-se durante muito mais tempo a estabilidade estrutural dos elementos em madeira durante a deflagração de um incêndio. Seguramente que todos já vimos florestas que arderam e onde as árvores se mantiveram de , tendo sido apenas chamuscadas e ardido exteriormente. 

Então, veja-se como são afectadas e qual o comportamento dos matérias mais tradicionais  considerando a sua resistência ao fogo. Durante um incêndio, as temperaturas atingem mais do que 10.000°C. Entretanto, o aço, a 5.000°C, já perdeu 80% de sua resistência, enquanto o betão começa já a perder resistência a partir dos 800°C. A madeira, mesmo a altas temperaturas, conserva durante algum tempo uma secção residual bem significativa que se mantêm a temperaturas baixas, mesmo a pequena distância da zona em combustão, e que conserva as propriedades físicas inalteradas. No entanto, quer o betão quer o aço podem receber tratamentos que lhe confiram propriedades de resistência ao fogo tão ou melhores que as da madeira. 
Agora que o Inverno se avizinha e que as lareira começam a queimar as primeiras madeiras, será caso para podermos constatar como algumas peças de madeira demoram horas e até mesmo dias a serem consumidas pelo fogo. Se pensarmos que esse tempo todo, caso façamos a extrapolação para um edifício, pode ser fundamental para evacuarmos os utilizadores de um determinado edifício aquando dum incêndio, podemos dizer que as estruturas de madeira podem ter, mais até que as de betão armado e metálicas correntes, grande resistência ao fogo – sendo que a resistência ao fogo se afere tendo em conta o tempo que a estrutura se mantêm estável.


Fontes: Projecto de Estruturas de Madeira - Amorim Faria e João Negrão; Apontamentos teóricos da disciplina de “Estruturas de Alvenaria e madeiras” de 2008 do curso de Engenharia Civil ministrado na ESTG - IPL

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Top de popularidade do blogue - Novembro de 2010

Agora que já passaram quase 1 ano e 3 meses desde que o blogue nasceu  penso ser a altura indicada para fazer referências a alguns dados estatísticos relacionados com às publicações que foram ocorrendo desde Agosto de 2009. Possivelmente, farei a partir de agora, regularmente, mais referências aos dados estatísticos do blogue, pois pode ajudar a que os debates mais vivos, surgidos dos textos publicados, possam ficar ainda mais ricos.
Noite estrelada - Van Gogh
Nota: Nestes textos irei utilizar aquela que é a minha obra de arte preferida e aquela que tento homenagear usando-a como layout do próprio blogue.

Obrigado a todos pelas vossas visitas, comentários e apoio ao blogue, mesmo que tenha sido discreto e silencioso.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Meandro – um dos primeiros ícones e, quiçá, "marcas"

Provavelmente, muitos de nós usam a expressões do género “andei pelos meandros…” para descrever uma viagem ou demanda onde andamos próximos de algo, fazendo desvios, trajectos sinuosos, difíceis ou complicados. Mas qual a origem do termo? O que é um meandro?
Bem, para começar, do ponto de vista hidrográfico um meandro é uma sinuosidade acentuada do desenvolvimento de um rio, por vezes tão acentuada que chega a inverter o sentido do curso de água. Este fenómeno está associado à geologia do terreno por onde corre a massa de água e dos processos de erosão que foram ocorrendo e que definiram o próprio leito do rio. No fundo, um meandro para a hidrologia (entre outras ciências) é, de um modo simplista, um rio, ou parte dele, que serpenteia – isto em observação aérea.
Para o oceano - Mark Dixon
Mas este nome não foi inventado propositadamente para caracterizar esta curiosidade hidrográfica, Meandro era mesmo o nome de um rio na antiguidade clássica. Meandro, ou Maiandros (Μαίανδρος), era o  famoso rio que, ostentando uma forma muito sinuosa, passava nas imediações da também famosa cidade de Mileto na Ásia Menor – actual Turquia. A forma do Rio Meandro era muito caricata, pois curvava quase sobre si mesmo. -enquanto se encaminhava para o Mar Mediterrâneo. Esta originalidade natural foi, possivelmente , a inspiração para  a criação de um ícone estilístico chamado também de meandro. Este ícone foi muito utilizado pela cultura helénica (grega), era uma forma estilizada que fazia lembrar a do  próprio Rio Meandro. 
Meandro
No entanto, não se exclui a possibilidade de ter sido essa já conhecida forma geométrica - o meandro - que baptizou posteriormente o rio que corria perto de Mileto. Dúvidas e incertezas à parte, o meandro é hoje um símbolo que facilmente relacionamos com a Grécia Antiga. Trata-se quase de uma “marca”, de um ícone de sucesso com milhares de anos, que persiste na nossa cultura, sem perder a sua actualidade e valor estético.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ainda há economistas que exigem a regulamentação dos Mercados

Num texto que me chegou pela mão, aliás, pelo e-mail, de um amigo, é exposta uma interessante análise e argumentação sobre questões relacionadas com a actual crise económica. Deste documento, assinado por vários membros da “Associação Francesa de Economia Política” e intitulado de “Manifesto dos economistas aterrorizados – Crise e Dívida na Europa: 10 falsas evidências, 22 medidas em debate para sair do impasse”, constam vários exercícios de análise e resolução para a dita crise. Mas, desse documento, o que me fez mesmo criar este texto foi: a argumentação destes economistas contra a teoria – tão cara aos defensores do neo-liberalismo – de que os mercados são auto-reguláveis, que se auto-equilibram no sentido da sua própria sustentabilidade e eficiência. Sendo essa falácia - segundo os autores - ainda mais marcante e evidente no caso dos mercados financeiros.
Cesto de maças - Cézanne
Então, para estes economistas franceses, nos Mercados a concorrência auto-regula-se devido à chamada “lei da oferta e da procura”, teoria que consiste em: “…quando o preço de um bem aumenta, a oferta e os compradores reduzem a procura; o preço baixa e regressa, portanto, ao nível de equilíbrio”. Eu diria - relembrando as palavras de um amigo economista, - que isto só é verdade se realmente todos os intervenientes nos Mercados forem racionais – coisa que nem sempre acontece como todos sabemos.
Bem, mas estas palavras nada têm de novo ou inovador, esta explicação não é mais do que economia e teoria dos Mercados do mais básico e simples, algo corriqueiro e ao nível daquilo que se considera ser cultura geral. A próxima constatação também nada traz de novo, especialmente para quem se dedica a tentar perceber e compreender os fenómenos de especulação, mais propriamente os fenómenos que provocam as famosas “bolhas especulativas”. No entanto, dado o momento que vivemos parece-me importante  voltar a reforçar – tal como fazem os autores do documento em causa – que, se os Mercados nem sempre são auto-reguláveis, muito menos propensos à auto-regulação serão os Mercados Financeiros.
A desregulamentação leva, directa ou indirectamente, à especulação (racional ou não). O  caos extremo, resultante das actividades especulativas, marcou um dos dias mais terrivelmente conhecidos da História do século XX, refiro-me à quinta-feira negra de 1929, evento que só não voltou a repetir-se com a crise de 2008 (tendo em conta as óbvias diferenças) devido à intervenção forçada – regulação à força – que Estados e outras Entidades concretizaram. Vejam-se então as palavras dos autores do documento sobre a descrição do processo que origina as famosas “bolhas especulativas”, fenómenos que podem levar ao caos: “…[no caso dos Mercados financeiros,] quando o preço [de um produto ou bem financeiro] aumenta é frequente constatar não uma descida mas sim um aumento da procura! De facto, a subida de preço significa uma rentabilidade maior para aqueles que possuem o título, em virtude das mais-valias que auferem. A subida de preço atrai portanto novos compradores, o que reforça ainda mais a subida inicial. As promessas de bónus incentivam os que efectuam as transacções a ampliar ainda mais o movimento. Até ao acidente, imprevisível mas inevitável, que provoca a inversão das expectativas e o colapso..."

Muito pessoalmente – sendo pouco importante aqui a minha opinião pois sou um mero curioso nestas lides -, vejo como inevitável e, acima de tudo, desejável, a regulamentação séria e consciente, em ser totalitária ou repressiva de modo a evitar males ainda piores, dos Mercados – Mercados financeiro incluídos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

As velas e o terramoto de 1755

O terramoto de 1755 é um dos acontecimentos mais marcantes e dramáticos da História de Portugal, e mesmo o português menos interessado pelos temas históricos já ouviu, com certeza, falar sobre esse fatídico dia, tal como a posterior acção de reconstrução levada a cabo por Sebastião José de Carvalho e Melo – futuro Marquês de Pombal e ministro forte do rei D. José I.
Gravura do terramoto de Lisboa de 1755 - autor desconhecido
Foi no dia 1 de Novembro, um feriado religioso dedicado a “todos-os-santos” segundo tradição católica – algo que acontece ainda hoje -, que a famigerada hecatombe devastou Lisboa, privando-a de uma grande parte do seu património urbano (muitas zonas da cidade foram destruídas e muitos dos principais edifícios ficaram em ruínas) e humano (muitas lisboetas faleceram nesse dia, vítimas do terramoto propriamente dito ou das consequências dele). Mas para que o terramoto de 1755 tivesse atingido o grau de destruição que atingiu, ao ponto de ter causado tal horror que os principais pensadores da época europeus chegaram mesmo a escrever e meditar sobre esse traumático evento (Voltaire e Kant escreveram propositadamente sobre o tema), contribuiu também o que aconteceu imediatamente a seguir ao terramoto propriamente dito. Nesse dia, por ser um importante feriado religioso – dia de todos-os-santos –, as igrejas estavam iluminadas com um número excepcional elevado de velas. Ao ruírem os edifícios, igrejas incluídas, as velas derrubadas propiciaram e causaram incêndios de grande escala (consta que lavraram durante 5 dias sobre as ruínas da capital). Ao deflagrar dos incêndios seguir-se-ia um maremoto – tsunami como é agora mais conhecido – que arrasou com a baixa já destruída. Foi este misto de calamidades que realmente tornou o dia 1 de Novembro de 1755 um dos dias mais negros da nossa História.
Isto na altura pareceu, a uma sociedade bastante religiosa, como que um castigo divino, algo que fez com que alguns pretensos profetas aproveitassem o evento para criticar as praticas e hábitos sociais da Lisboa de meados de século XVIII. Felizmente que estava perto do poder o homem certo (o Marquês de Pombal) para dissipar os obscurantismos e, com a sua energia, assumir as rédeas do governo e reconstruir a nossa capital.
Gravura das ruínas da Ópera do Tejo depois do terramoto de 1755 - Le Blas
O terramoto que destruiu a capital portuguesa chocou toda a Europa e muitos pensadores do iluminismo aproveitaram para teorizar e filosofar sobre as causas, razões e impactos desta calamidade.

É caso para pensar sobre este evento do passado e fazer tudo o que for possível para que não se repita. É caso para ter cuidado com as velas, até porque a mais inocente das velas pode ser provocadora de um acidente e, quando aliada com outros perigos, ascender a um potencial de perigo inimaginável...

Fontes: Cultura, tudo o que é preciso saber - Dietrich Schwanitz

domingo, 31 de outubro de 2010

Mesmo à beira da Bancarrota a Grécia é muito rica

A Grécia é sem dúvida um dos países mais importantes da História da Humanidade, não tanto pelo seu presente – embora não se saibam quais as repercussões da actual crise que vive – mas mais pelo seu passado. Não que o país que hoje é a Grécia seja herdeiro directo e espelhe nitidamente a civilização tão importante que existiu naquela zona geográfica, grupo de várias cidades-estado unidas por uma língua, cultura e religião comum, –  pois a aculturação aos invasores posteriores à dita cultura grega clássica foi muito significativa. Até porque A Grécia da antiguidade nunca foi um império, um país, ou sequer um todo coerente.
Mas hoje, a Grécia, enquanto país, continua a ser importante pois é a nação que alberga e cuida – muito zelosamente e com um turismo instituído muitíssimo profissional, onde por exemplo os guias turísticos têm sindicado e formação acreditada para o exercício da sua profissão – da riqueza cultural e arquitectónica da Grécia do passado - berço da cultural Ocidental.
Lord Byron no seu leito de morte - Joseph-Denis Odevaere
Apesar de ser uma nação recente (pouco mais de 150 anos), são bem evidentes na Grécia de hoje as influências do passado, os efeitos e marcas das várias migrações e ocupações de povos estrangeiros que o território sofreu. Trata-se de um país que resulta de uma mistura cultural muito rica, de uma fusão que deu origem a uma sociedade e cultura muito particular – um misto de ocidente e oriente.
Deixo aqui então algumas particularidades e curiosidades culturais e linguísticas da Grécia de hoje, características de uma sociedade que é fruto de uma mescla de um valioso capital humano e cultural:
•    Os Gregos não se intitulam a eles próprios de Gregos mas sim de Elenos e chamam à sua terra Élade (estes termos costumam ser escritos com “H”, mas são os próprio gregos que afirmam que a forma correcta de se escrever é sem “H”), que etimologicamente significa terra da luz e da Pedra. Foram o Romanos que chamaram aos Elenos de Gregos.
•     A maior parte dos termos ligados às várias ciências são de origem grega e dizem-se de igualmente nas línguas que derivam do Latim – 30% do Latim advém do Grego antigo -, por exemplo: psicologia, oftalmologia, dermatologista, pedagogia, entre muitas outras.
•     Curiosamente quando os gregos dizem “Ne” querem dizer "Sim" e quando dizem “Ochi” querem dizer "não" – algo que pode levar a muitas confusões, especialmente aos turistas falantes de línguas latinas.

Nem toda a riqueza é física. A Grécia, apesar de hoje estar em dificuldades financeiras, culturalmente e historicamente é riquíssima - isso ninguém lhe pode jamais tirar!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

«Luta, Sexo e Droga» – um filme sobre a violência pela violência, sem causas

«Luta, sexo e droga», ou no título original «The Football Factory», é um filme inglês sobre hooligans, sobre o modo como vivem alguns desses hooligans fora dos estádios - até porque aqui neste filme pouco ou nada se vêm manifestações do desporto propriamente dito, nem um pedaço de relva de um estádio durante um jogo se vê durante o filme.
Submetendo este filme a uma abordagem mais abrangente, querendo tirar conclusões sobre estes grupos e a sociedade que trata, fica ideia do drama social de indivíduos que lutam – no sentido físico do termo -, que lutam pelo simples facto de gostarem de lutar e de apreciarem a violência. Apreciam-na como modo de vida e como afirmação social, chegando mesmo a ser um modo de expressão cultural, explicável quando falham ou são remetidos para segundo plano outros valores culturais. Nesta obra cinematográfica os hooligans, para além de violentos, são também retratados como consumidores de drogas de todo o tipo e fiéis amigos do álcool na forma de cerveja. Não sei se propositado ou não, mas nem sequer vemos emblemas dos clubes – algo que pode significar a enfatização de que o clube ou o desporto em si pouco importam aqui, o que vale é o gosto pela violência e comportamentos desviantes.
A carga dramática é intensificada com a introdução e participação no enredo de personagens que pertencem a um passado, a uma geração que teve de lutar com orgulho na 2ª Guerra Mundial contra os Nazis. Estes heróis de guerra – representados na figura do avô da personagem principal – simbolizam uma época em que recorria à violência, mas somente como resposta inevitável a forças que atentavam contra valores nobres como a liberdade. No fundo, a leitura e principal mensagem que, na minha opinião, se pode tirar deste filme é a chamada de atenção para um problema social, um que afecta Inglaterra, mas também outros países desenvolvidos: as gerações de jovens que enveredam pela irreverência, com base na violência, sem qualquer causa nobre ou sentido para essa atitude, para além do simples gosto pela agressão! 
O narrador chega a dizer numa das suas introspecções, enquanto observamos uma cena de pancadaria envolvendo vários “hooligans” rivais: “…não há mais nada de interessante para fazer num sábado à tarde…

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Anaquim e as vidas dos outros – um retrato social através da música

Já há algum tempo que gostava de fazer aqui no blogue referência a uma nova banda portuguesa, uma banda muitíssimo original. Quer pelo som, quer pelos temas e conteúdos que aborda nas letras cantadas. Refiro-me aos «Anaquim». Sem dúvida que o som é original e, não sendo eu grande especialista em instrumentos musicais e sua utilização para a criação musical, arrisco-me a dizer que chega a ser de extrema qualidade e a ser uma lufada de ar-fresco no panorama musical português. A voz do vocalista é também muito interessante e característica. Mas, aquilo que realmente gostava de destacar nesta banda são as letras do seu primeiro álbum - «as vidas dos outros».
Capa do álbum «as vida dos outros» da banda «Anaquim»
Ao ouvirmos «as vidas dos outros» dos «Anaquim» conseguimos, só pelas canções, fazer uma espécie de retrato social do Portugal contemporâneo - bem-humorado e satírico. A crítica social é mais que evidente, a descrição de ambientes e comportamentos sociais, bem próprios das gentes lusas, é quase realista. «Anaquim» não será aquela pura música de intervenção social – apesar de o ser em parte -, penso que será mais música de descrição e caracterização social. Será que se inventou um novo género para caracterizar canções?

Deixo aqui o link da página de myspace de «Anaquim» onde se pode ouvir gratuitamente o álbum «as vidas dos outros»: http://www.myspace.com/anaquim.info

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A ditadura em Portugal caiu (indirectamente) devido à NATO?

Como sabemos, Portugal foi um dos países fundadores da NATO. Hoje faz todo o sentido, mesmo que a Guerra Fria esteja lá longe, que um país com o sistema político que hoje é vigente em Portugal faça parte da NATO - Isto se considerarmos que a NATO era uma organização que pretendia defender as democracias ocidentais do bloco comunista de Leste liderado pela URSS. Mas faria sentido quando Portugal era uma ditadura?
Par da fantasia de Walt Disney a dançar  - Paula Rego
Recentemente foi exibido no Canal de Historia um documentário que trata este assunto. Esse trabalho intitula-se «Portugal e a NATO» e é da autoria de Alexandra Pereira e Rui Pinto de Almeida. Esta questão com que iniciei o texto tenta ser respondida neste documentário, fazendo uma análise histórica do período desde os anos 50 até ao final da Guerra Colonial.
Os autores referem que só foi possível a Portugal, em pleno apogeu do Estado Novo, protagonizar este papel devido à sua situação geopolítica e estratégica. Mais concretamente pela necessidade dos EUA precisarem de ter uma base militar a meio caminho entre os continentes Americanos e Europeu.  Daí a presença em território nacional de forças dos EUA na Base da Lajes nos Açores – que ainda hoje continua activa e um ponto estratégico operacional da NATO. Assim, os EUA, suportaram uma ditadura que, apesar de não apoiarem formalmente, era tolerável e preferível a ver a URSS avançar mais sobre a Europa e ameaçar a hegemonia Americana sobre as nações democratizadas. Aqui se demonstra o pragmatismo, quase maquiavélico, da política externa Americana da altura da Guerra Fria.
Desta relação entre Salazar e a NATO surgiram dois acontecimentos nacionais que valem a pena ser referidos e que, de um certo modo, condicionaram a história portuguesa das décadas seguintes: as formações que a NATO deu aos oficiais portugueses, tendo-lhes disseminado alguns dos ideais e valores da liberdade e democracia – veja-se o caso das iniciativas do General Humberto Delgado e dos Capitães de Abril; o afastamento e isolamento internacional em que Salazar colocou Portugal - daí a frase "orgulhosamente sós" - ao utilizar, sem autorização dos EUA, as armas fornecidas pela NATO nos teatros da Guerra Colonial quando deveriam ser apenas para defesa contra os soviéticos numa eventual guerra.
Assim, indirectamente, a NATO acabou por fazer cair o Estado Novo e contribuir para que se restaurasse a Democracia em Portugal, ainda que passado muito tempo e tendo acontecido muitos incidentes até isso se ter realmente concretizado.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Uma razão pela qual ainda não utilizamos automóveis eléctricos

Apesar de actualmente, ao contrário do que aconteceu há cerca de dois anos ou três anos, os preços dos combustíveis fosseis não serem a maior das nossas preocupações, muitos são os que continuam a especular a razão pela qual ainda estamos tão dependentes dos automóveis com motores de explosão interna para nos movermos. Na verdade, os motores eléctricos actuais são bem mais eficientes e, em alguns casos, tão ou mais potentes e economicamente viáveis como os de combustão interna. Basta pensarmos que a maioria da maquinaria industrial é movida por energia eléctrica – não consta que o sector da indústria opte por equipamentos e máquinas ineficientes. Então, assim é, qual a razão para não usarmos automóveis eléctricos no nosso dia-a-dia? Bem, evitando teorias da conspiração, uma das razões reside numa limitação: o modo de armazenar a energia eléctrica para fazer mover estes veículos.
Actualmente os veículos eléctricos dependem do uso de baterias e são esses dispositivos que limitam a autonomia do automóvel eléctrico. Em média, carregando uma bateria entre 2 a 3 horas não se consegue percorrer mais de 200 milhas. E a utilização de maiores quantidades de baterias, com mais capacidade, iria aumentar de modo incomportável o peso do veículo, fazendo com que fosse necessária ainda mais energia proveniente de ainda mais baterias para o fazer mover. Já para não falar que as baterias têm enormes impactes ambientaistransporte ferroviário. Trata-se do carregamento do veículo em estrada. Esta possibilidade permitiria utilizar veículos com baterias mais leves – com autonomia para 50 ou 60 milhas – servindo apenas para os alimentar enquanto estivessem desligados da rede de abastecimento, diminuído assim a necessidade de um conjunto volumoso e pesado de baterias.
Para já pode parecer ficção científica, algo que Steven Spielberg vislumbrou parcialmente no seu filme «Relatório Minoritário». Quem sabe se o famoso realizador não tenha feito uma espécie de “profecia” tecnológica?

Fonte: Buiel, E. R. (2008). Advances in Battery Development for Vehicles (Advanced Lead Acid and Li-ion), Near Term Electrification of Transportation System, Feasibility of Near Term Retrofitting of Inefficient Vehicles to EV’s. U. S. C. o. E. a. N. Resources, US Senate

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa